quarta-feira, setembro 07, 2016

Da utilidade de rabiscar livros


Não-leitores muitas vezes se entregam de bandeja. Há duas oportunidades de destaque para reconhecer, com alguma garantia, um não-leitor. Primeiro, ele vai à sua casa, vê estantes abarrotadas de livros e pergunta se você já leu todos. Você, que é de certa forma um bibliófilo – conforme finanças e espaço permitem –, mas não vive de ler livros porque precisa trabalhar, cozinhar, sair para pesquisar se ainda existe alguma loja vendendo blusas de lã sintética que não provenham da China (conclui que não existe, aliás). Você, que dorme, e dorme todas as preciosas oito horas porque leitor com sono é leitor que não presta atenção direito, que lê mecanicamente, que boceja diante do verso mais bonito de Goethe. Você, que não consegue se dedicar à leitura enquanto termina uma garrafa de vinho e duvida da apreensão de conteúdo dos beatniks que dizem beber e fumar enquanto leem (os mais peculiares talvez aleguem tocar piano e fazer a barba também). Isso porque o não-leitor não sabe quanto tempo leva para se ler um livro. Porque ele não sabe que a maioria de nós não é nem Sérgio Buarque de Holanda nem José Guilherme Merquior para se trancar no escritório e engatar uma leitura na outra, em extrema glutonice. O não-leitor, que não lê nem quatro livros por ano, não resiste: vê a estante cheia de alguém e já quer saber se tudo foi lido. A outra oportunidade de reconhecimento do não-leitor é sua exaltada repulsa sobre livros riscados. É verdade, esse sinal é um pouco menos certeiro, porque há mesmo leitores, metódicos e hospitalares, que consideram sacrilégio apertar o bumbunzinho de uma lapiseira ao se estar na presença de um livro aberto. Mas se o leitor “pode ser” que se horrorize ao ver um parágrafo sublinhado, o não-leitor não pode ser, ele “é”. Acha “feio”. Um desperdício. “Como outra pessoa vai ler o livro desse jeito?” O não-leitor não entende, na cabecinha de prego dele, que a função de um bom livro não é permitir o refúgio do tédio de quem não sabe como proceder com tanta liberdade e enxerga na leitura um jogo de canastra cuja função é fazer o tempo passar para que logo se esteja reclamando que o Natal vem cada vez mais rápido. Não entende que um bom leitor jamais vai passar um livro adiante só porque já foi lido: um livro maravilhoso terminado acaba de dar mais uma razão para ficar. Ninguém, em sã consciência emocional, vai tratar Kafka como leitores da Agatha Christie a tratam (e com razão): como algo a ser enfiado numa lista e marcado ao lado com “lido” e nada mais, o que significa que não há sentido nenhum em reler, em buscar “aquele trecho”, porque é como um item colocado num papelete sobre o que precisa ser enfiado no carrinho do supermercado. Ninguém “relê” Agatha Christie, porque seus livros são descartáveis, são livros de férias na praia, livros para presentear o adolescente que os pais permitiram “ter seu próprio temperamento” e agora, tarde, descobriram que era apenas falta de educação deixar uma criança tonta ficar à própria sorte com estudos e leituras – Hercule Poirot vem para tentar salvá-lo da estupidez à qual se encaminha toda vez que é colocado diante da TV. Assim, ninguém rabisca livros que poderiam muito bem ser publicados pela Coquetel. Mas como não rabiscar A idade do serrote, de Murilo Mendes, que é um primor do cabo ao rabo? Como não rabiscar os Ensaios, de Montaigne? Quem é a pedra disfarçada de leitor que vai ler os Ensaios, considerar que o serviço está feito e passar o livro adiante sem manter uma cópia? Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler Apologia da história, não sentir necessidade de marcar nada, assumir que é excelente e mesmo assim doar para alguém? Existe uma abismal diferença entre olhar um livro pensando “ensine-me” e “entretenha-me”. Rabiscar um bom livro é quase um dever. Um não-leitor não entende isso porque para ele livros são como atrações de circo (adoro circos, desde que não haja animais sendo escravizados neles), e um livro lido é um serviço cumprido. 

Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas. Há alguns anos, comecei a ler Introdução à sociologia, do Adorno (editora Unesp). Rabisquei o livro logo que veio: coloquei meu nome e a data nele, com caneta. Conforme prossegui a leitura, rabiscava uma coisa ou outra. Até perceber, já depois de algum estrago, que eu não estava gostando do livro. Não era péssimo, mas, com tanto material bom para ler, jamais seria um livro que eu salvaria de um incêndio na minha casa. Se não tivesse rabiscado o livro – se tivesse sido mais ponderada e esperasse pelo menos até a página 40 para ver se valia a pena mantê-lo comigo –, poderia vendê-lo. Inutilizei-o com sublinhados. Ocorreu o mesmo com O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais, de Lucien Febvre (editora Companhia das Letras). Comprei porque o tema me interessava: incredulidade, Rabelais, Idade Moderna. Febvre também sempre teve ótima fama. Recebi o livro, marquei-o como propriedade, comecei a rabiscar o pouco que achava que devia. Insisti. O estilo de Febvre é horroroso, com floreios poéticos piegas e muito uso de frases reticentes. Li mais um pouco, tentei marcar algumas outras coisas. Mas não consigo ler textos compridos em estilo ruim. Dão-me agonia da mesma forma como sofro para ler textos mal pontuados. Ali estava outro livro que eu não deveria ter marcado desde o início, porque me permitiria revendê-lo, passar para alguém que apreciasse historiografia nas nuvens. Errei ao maculá-lo. Mas aprendi, finalmente, como agir com livros desconhecidos que caem nas minhas mãos sem muito conhecimento de teor e forma. A imensa maioria dos livros que adquiri nos últimos anos vieram de lojas virtuais. (Apoio apego a livrarias pequenas prestes a serem engolidas por gigantes como Amazon e Saraiva, mas em São Paulo não tenho intimidade com nenhuma que satisfaça esse requisito; e mesmo que apareça alguma hipotética Livraria do Seu Pedro, desde 1952, não tenho a missão de salvar pequenas empresas quando a diferença de valor pelo mesmo produto é muito alta. Se a diferença for pouca, opto sempre pelo pequeno empresário.) E existe um probleminha com alguns livros comprados na internet cujos trechos não estão disponíveis para leitura prévia, que é o de você não saber exatamente o que vai receber em casa. Hoje, portanto, recebo minha caixa de livros e nem marco meu nome neles. Espero. Leio algumas páginas. Vou lendo, lendo, e em poucas dezenas de folhas já consigo perceber se é algo para manter, consumir de rabiscos, ou passar para outros. 

“Consumir de rabiscos”. É isso o que eu penso que as pessoas deveriam considerar a respeito de livros: material de consumo. Não é um quadro, não é a nega de cerâmica que o branquelo trouxe da Bahia para tornar sua casa mais “exótica”. É para ser estraçalhado, no bom sentido. É para ser lido, relido, marcado, repensado, consultado. Está ali para servir, mas sem ser subalterno. Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e passe adiante. Como esse sujeito não sente falta do livro? Como não sente falta de viver outra vez aquela passagem, aquela descrição? Precisamos ver nossos bons calhamaços como dicionários, dos quais ninguém se desfaz porque são constante fonte de consulta. Imagine se vou passar os livros de Jacques Le Goff para frente como se fossem moedas. Minha cabeça é limitadíssima, como a de todo mundo, e vai chegar um momento – sempre chega para quem gosta de saber as coisas de fato – em que me perguntarei “mas como era mesmo aquela história que ele contava em A bolsa e a vida?”, levantarei do sofá, abrirei o armário, puxarei seu livrinho e terei, instantaneamente, a resposta para minha dúvida, além de uma ressurreição. Em minutos eu revivo Le Goff, não somente graças ao fato de possuir seu livro como ao fato de tê-lo rabiscado. 

Falemos, agora, entre leitores habituais. Leio em média três livros por mês, o que é considerável para quem não trabalha com pesquisa. Digamos que ano passado eu tenha mantido essa média, portanto eu teria lido 36 livros. E digamos que no ano anterior eu também tenha lido 36 livros. São 72 livros em apenas dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram “eternos”: eram livros não tão bons, livros não tão marcantes, livros que não me fariam falta se sumissem. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos. Eu inquiro: alguém que tenha a mesma quantidade/qualidade de leituras que a minha e tenha preservado uns 40 livros de dois anos de leituras, alguém que mantenha esses livros, mas não os rabisque – em que estado de angústia ficará quando tentar lembrar de uma passagem recordada vagamente e que está num dos dez livros sobre evolução das espécies, por exemplo? Porque se o livro na estante não for tratado como um mero troféu – “vejam, ali está e eu o li” –, será buscado. Será fácil buscá-lo sem marcações? Não será. 

Há dois livros realmente bons que li este ano sobre evolução, e acabei fazendo uma leitura seguida da outra: As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade, do zoólogo Matt Ridley (editora Record), e A história do corpo humano: história, saúde e doença, do professor de biologia evolutiva humana de Harvard Daniel E. Lieberman (editora Zahar) (também conhecido como “professor descalço” por defender que deveríamos correr de pés nus, quando possível, por causa do modo como a evolução moldou nossos pés). Precisei escrever um artigo de conclusão de curso para a especialização que fiz em Direito Penal. Poderia escrever sem muita pretensão sobre qualquer assunto jurídico que a nota viria, e com ela a fácil aprovação (gostaria de ver quais os critérios usados pelo MEC para manter certas instituições funcionando), mas preferi me dedicar a algo que me interessasse e acabasse como um bom artigo para mim mesma. Escrevi sobre o aborto, trabalhei temas como fetos anencéfalos e morte cerebral. Lá pelas tantas lembrei de ter lido que o feto compete com a mãe por recursos dentro dela, gerando desajustes e funcionando como parasita. Quis a citação indireta desse trecho, mas não lembrava em que livro estava. Sabia que estava num dos dois que tinha lido no começo do ano. Vistoriei minhas marcações nas bordas e não achei nada no livro do Lieberman. Só podia estar no do Ridley. Estava. Na parte superior da página 32 eu havia escrito “a luta na gravidez” e “o feto como parasita” para fichar o que havia naquela página. Meus rabiscos facilitaram minha busca para o artigo, o que foi ótimo, mas eu não fico escrevendo artigos o tempo todo – só que esses rabiscos salvam minha tranquilidade mental e minha vontade de saber sempre. Ali estou eu, tomando sol na varanda enquanto leio uma National Geographic. Uma matéria sobre agrotóxicos me faz lembrar algo que li num livro. Vou para dentro, procuro o livro, começo a ler o que escrevi em suas beiradas ou o que sublinhei com “cobrinhas” – meu sinal para mim mesma para “trecho muitíssimo interessante” – e logo acho o que quero. Leio. Fico satisfeita. Reaprendi aquela coisinha. Volto para meu sol e minha revista. As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. Lido com a realidade e não passarei ansiedade por não conseguir achar onde li isso ou aquilo há alguns meses ou anos. Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Não consegui convencer sobre a utilidade de um bom rabiscar? Logo ali darei um exemplo ainda mais prático, mas permitam-me falar de mais uma dádiva que a organização oferece ao rabiscador de livros. Há alguns anos li um livro que comprei no sebo, O comunismo, do historiador Richard Pipes (editora Objetiva). Um bom livro com uma visão mais liberal das revoluções socialistas, já que Pipes parece considerar o comunismo, tanto praticado (visão muito justa) quanto idealizado (visão talvez muito dura, já que há, sim, uns poucos sonhadores comunistas de boa vontade), uma catástrofe. Esses dias peguei o livro para “relê-lo”. Não o estou lendo por inteiro: estou lendo somente os trechos que pontuei no fichamento no próprio livro que fiz na primeira leitura. Quando um trecho marcado instigante é seguido por um não marcado, leio também o não marcado. Assim, consigo reler livros sem que precise tratá-los como se fosse a primeira vez. Há livros, claro, que lemos por completo algumas vezes durante a vida (no meu caso, principalmente literatura), mas há outros que bastam ser revividos pelas marcações. Marca-se o que é mais relevante e essencial: quando se tem pouco tempo – ou muito tempo, só que voltado para tantas outras coisas –, um livro rabiscado facilita muito a vida. Quem gosta de seriados muitas vezes não vê várias vezes certos episódios? Acredito que já assisti a quase todos os desenhos do Pernalonga, mas se estiver cansada e com vontade de rever algum, verei qualquer um dos episódios em que ele é maestro ou personagem de alguma música clássica (como em “Coelho de Sevilha”). E que mal há nisso? Com livros, o mesmo acontece. Você pode ler os Ensaios todos de uma vez, marcar os aforismos mais interessantes, deixá-lo na cabeceira e reler aqueles que marcou. Rabiscar livros não apenas organiza a leitura como presta um favor à releitura. 


Recentemente finalizei a leitura de Ética prática, do Peter Singer (editora Martins Fontes). Até então eu só tinha lido quatro ou cinco capítulos sobre assuntos que me eram caros: o estatuto ético dos animais, aborto, “o que há de errado em matar”. Todos os assuntos do livro, todavia, deveriam ser caros a todos nós: imigrantes, meio ambiente, que responsabilidade os que têm dinheiro (sim, você que está lendo, por exemplo; pare de fingir que é pobre porque isso é uma tremenda falta de respeito com quem é realmente pobre) têm com os que não têm (não, você não é pobre só porque está há dez anos sem trocar de carro; por favor, situe-se em seu ridículo), por que devemos agir moralmente. O livro é ótimo, então valeu cada rabiscada. O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem (não marco somente as passagens com as quais concordo, porque minha intenção é entender o texto, não revisá-lo para o autor conforme meu narcísico parecer). Muitas coisas na vida nós primeiro organizamos para depois tomá-las em seu verdadeiro sentido. Não vejo por que com o conhecimento seria diferente. 

Na primeira folha dos livros muitas vezes escrevo frases curtas que expressam muita coisa, e coloco a página onde estão ao final da citação. Em Ética prática há lá três trechos na primeira página, sendo um deles: “O status de igualdade não depende da inteligência. Os racistas que afirmam o contrário correm o risco de ser forçados a se ajoelhar diante do primeiro gênio que encontrarem. (p. 40)”. A importância desse trecho está em sua síntese de tudo que Singer trabalha na obra: o fato de um camundongo não apreciar ópera como você, o fato de um angolano não fazer os cálculos que você faz e o fato de um índio não saber ler não fazem com que você seja superior a eles em merecimento de tratamento compassivo – se se achar superior por essas coisas, precisará virar escravo dos inúmeros sujeitos muito mais inteligentes que você que estão por aí. Em seguida, outro excerto que sintetiza o pensamento ético de Singer: “Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. (p. 67)”. E ainda: “O princípio da igual consideração de interesses não permite que os interesses maiores sejam sacrificados em função dos interesses menores. (p. 73)”, ou seja, é justificável que um esquimó, impossibilitado de exercer a agricultura, mate um animal para comer, prática que é totalmente imoral quando você, citadino, pensa que é justificável ceifar uma vida com interesses e senciência por mero prazer do paladar, da mesma forma como não se justifica sua insistência em comprar roupas de marcas de fast-fashion reconhecidamente responsáveis por trabalho análogo ao escravo só porque “são muito bonitas e baratas” – seu interesse menor, gastar pouco dinheiro com uma peça bonita, não justifica o sacrifício de um interesse maior, que é o de um trabalhador ser tratado no mínimo conforme o que apregoa a CLT. 

Livros que se transformam em cadernos por
praticidade: aos que não querem isso, que
comprem cadernos, desde que os usem

Agora vejamos alguns dos rabiscos explicativos e ordenados que fiz no decorrer das primeiras páginas do livro, rabiscos que já me auxiliaram, mas vão me auxiliar ainda mais no futuro, quando minha memória começar a apagar boa parte do que li: 

Reação ao livro nos países de língua alemã; 
Ética e Deus;
Kant e o código moral;
Sobre o relativismo;
Aos marxistas: “se toda moralidade é relativa, o que há de tão especial no comunismo?”;
Relativismo ético;
Universalidade da ética;
Kant;
Ética como reflexão sobre todos os interesses envolvidos;
O racismo se tornou “feio”;
Princípio da igual consideração de interesses;
“A raça é irrelevante para a consideração dos interesses, pois o que conta são os interesses em si.”;
Caso hipotético das duas pessoas feridas desigualmente e das duas doses de morfina;
Princípio da diminuição da utilidade marginal;
“Caso da perna e do dedo do pé”;
Uma suposta diferença entre o QI de duas etnias poderia justificar tratamentos desiguais para elas?;
Diferenças entre homens e mulheres, biologia ou cultura;
O papel da mulher no mercado de trabalho;
Diferenças entre os sexos e estar fora do padrão biológico;
É difícil mensurar a igualdade de oportunidades;
Fuga de cérebros;
O problema do “socialismo em um só país”

Isso tudo foi o que escrevi – organizei – em bordas e beiradas até a página 50. Não há como negar que é uma bela catalogação. Se daqui a três anos eu me lembrar de quando Singer comenta sobre o problema do socialismo em um só país – que é um problema que gera as tais fugas de cérebros, quando o governante socialista permite que as pessoas emigrem, pois muitos gênios anseiam ser bem remunerados por sua contribuição à sociedade em vez de receber quase o mesmo que varredores de rua – e quiser reler o que ele diz sobre isso, basta ir às beiradas. Se não houvesse marcações nelas, eu demoraria talvez horas para encontrar o que quero: não há capítulo com esse nome, não há subtítulo chamado “socialismo num só país”, nem índice remissivo no final do livro. Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 

Hostilizado em países de língua alemã por debater
o tema da eutanásia, Singer teve seus óculos
arrancados e jogados ao chão, e eu sei onde
está esse trecho porque o marquei

Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção. Além do mais, às vezes pode soar pedante emprestar um livro rabiscado. Se hoje eu já não empresto livros rabiscados (nem os que não estão rabiscados, na verdade, porque sempre tive azar ao emprestar coisas), no passado seria pior ainda, porque houve época, ali nos meus 17 ou 18 anos, em que eu não somente fazia marcações nos livros: eu colocava minhas opiniões nas bordas. Achava o ápice da crítica atilada escrever “estúpido” ao lado de um parágrafo de que não gostara (não cheguei ao ponto-Schopenhauer de desenhar orelhas de burro ao lado de trechos de Hegel ou Fichte). 

O que vivo, agora, é uma situação engraçada: não sou mais uma pessoa sozinha como leitora numa casa. Tenho um namorado com quem compartilho coisas (muitos insistem que devo chamá-lo de marido; não sei por que se importam tanto com terminologias esses abelhudos). Todos os livros que compramos, compramos juntos. Dividimos água, luz, condomínio, feira – e livros. Ocorre que às vezes posso querer ler um livro que André comprou para ele. Não, não consigo não rabiscá-lo. O que faço é tentar ser o mais discreta possível: se um trecho me interessa, faço um leve traçado com grafite ao lado do parágrafo. Fiz isso com Nada a invejar: vidas comuns na Coreia do Norte, da jornalista Barbara Demick (editora Companhia das Letras), que pretendo resenhar em uma postagem em outro momento. Quem leu sobre ele foi o André, quem quis comprá-lo foi o André. Mas eu acabei lendo o livro antes. Se não fizesse um fichamentozinho, uma marcaçãozinha que me ajudasse, posteriormente, a achar o trecho em que Demick fala das pessoas comendo grama e não podendo reclamar do Grande Líder, por exemplo, eu ficaria ansiosa. Em casas de casais, talvez os rabiscos tenham que ser mais moderados. Para maiores marcações, recomendo que se compre um caderno só para se colocar espécies de frases-chave, como aquelas que elenquei acima no livro do Peter Singer, com a página ao lado. Por exemplo: 

Como dividir a Coreia após a II Guerra (p. 36);
Sistema de castas (p. 43);
O sistema filosófico do juche (p. 65);
Vitrines para estrangeiros, frutas falsas (p. 87)

Um caderno de 100 folhas vai durar para muitos livros desse jeito. Para mim essa ideia não dá muito certo porque tenho o hábito de ler deitada em 80% do tempo. Já vou para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira, que é para ir marcando e rabiscando o que me interessa (não me importo com a caligrafia, desde que fique legível). Mas é uma boa opção para quem quer manter seus livros limpos e costuma ler sentado (ou lê deitado, mas não faz cerimônia para levantar e escrever coisas no caderno; ou lê deitado e consegue escrever em cadernos mesmo deitado). 

Forma mais sutil de marcar trechos de livros
que poderão ser lidos por outra pessoa

Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem. Ou leem tão pouco que a memória limitada basta para os pouquinhos livros anuais, ou leem como quem está na aventura do livro para passar o tempo entre as datas festivas, ou ainda não ficaram cientes da real condição de desespero em que deveriam estar por não manterem tão elementares conhecimentos organizados de forma a que estejam com fácil acesso. Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico (“meu deus, Barbara, todo o conhecimento que li está espalhado por aí e não sei como começar a juntar!”). Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Retornando


Senhores que me leem, que bom encontrá-los de novo. Sumi um pouco porque estava terminando rodopios com certos estudos formais. Não se equiparam aos estudos formais de vocês, certamente, porque eu entrei nessa por motivo de trabalho – nosso salário evolui quando apresentamos certificados e diplomas – e fiz inscrição em qualquer à distância que aparecesse pela frente. Por acaso gostei muito de estudar Direito Penal. Entrei por dinheiro – critico mercenários e agora dou esse espetáculo de franqueza; meu maior problema, contudo, sempre foi com os que alegam amor àquilo que fizeram só por pecúnia ou conveniência, atentem bem – e gostei dos assuntos sem querer. Assim, agora que terminei os tais estudos formais estou pronta para estudar o Direito Penal brasileiro do jeito informal, que é mais agradável, genuíno e ao meu tempo. Tomada pela presunção positiva que acossa os outros, continuo aguardando os "amo o que faço" aparecerem com leituras sérias sem que professores os tenham obrigado a isso – vá e leia um livro de Keynes à beira do mar, tire uma semana de férias para entender aquele ponto difícil de Kotler, fique ansioso para ver os julgamentos do STF na TV Justiça após o expediente – ou sem que sirva para a olimpíada do Lattes. Enquanto não houver linguista lendo Bakhtin no próprio aniversário sem nenhuma pretensão acadêmica ou suposto amante de música clássica trocando banquete gratuito em festinha da repartição para ouvir Brahms, poupem-me desse saco de balelas. Pronto, terminei meu micro-protesto que parece saído de uma letra de hip-hop. Volto logo.