segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ponderações sobre viagens; e Veganos na Europa: Varsóvia (Polônia)



Como alguns devem saber, todo ano, nas minhas férias, faço uma viagem para a Europa com meu namorado. Já fizemos três viagens juntos e agora vamos para a quarta. Sempre me perguntam o valor das minhas viagens, coisa que não me importo de responder. O que me incomoda é que achem defeitos no meu estilo de vida e me enviem indiretas a respeito. Cada dia mais não entendo o valor dado a relações sociais, que são uma perda de tempo e de viço. Portanto, algumas breves considerações sobre minhas andanças com mochilão:

1. Viajar para o exterior não é tão caro quanto parece. É claro que algumas pessoas acham qualquer coisa cara (e eu realmente não tenho pachorra para avarentos mórbidos), mas, pensando de modo razoável, viajar para fora não é tão caro se você souber guardar dinheiro e pesquisar sobre os locais em que pretende se hospedar. A Europa é variadíssima. Há lugares que podem ser visitados por qualquer um e há lugares igualmente magníficos que podem ser visitados mesmo por quem paga aluguel, costura as próprias roupas e anda de bicicleta. Se tem pouco dinheiro, não vá a Estocolmo (um bilhete de metrô custa o equivalente a uns doze reais), mas vá a Budapeste (com doze reais, você consegue tomar um café e comer um pãozinho).

2. A Europa não é um vilarejo. Às vezes me perguntam "como são as coisas na Europa" ou sugerem que eu deveria visitar a Ásia ou a África “para variar”, como se a Europa fosse uma vila ou uma tribo que eu provavelmente já esgotei em três viagens. A Europa é um continente com países que podem ser absurdamente diferentes entre si, como Itália e Estônia. Mesmo cada país tem suas regiões com modos de ser e viver muito díspares: visitei Roma e depois fui a Nápoles – parecia que eu estava em outro país; o norte da Suécia é mais pobre, mais trabalhador e mais esquecido que o sul, onde estão a capital e outras grandes cidades; há cidades na Polônia em que é possível dançar uma valsa na praça exibindo todos os seus apetrechos eletrônicos – há outras em que você tem que andar de modo alerta, pois não sabe se será atacado por um batedor de carteira ou um neonazista que não aprecia a ideologia da banda da camiseta que você está trajando. Sobre variar: até tenho interesse em conhecer países da América do Sul, da América do Norte, da Oceania e o Japão. Mas mesmo que eu fosse para o mesmo país europeu todo ano (a Alemanha, por exemplo), não vejo nada de cansável nisso. A Europa não me cansa e duvido que me cansará. Muitas vezes quem aparece com essas “sugestões” são sujeitos que vão todo final e começo de ano para as mesmas estressantes praias catarinenses lotadas de gritos, crianças mal-educadas e música brega. Agradeço a preocupação com minhas rotineiras férias na Europa.

3. Você dificilmente precisará do idioma local, mas é necessário saber inglês básico. Nas capitais dos países europeus, quase todas as pessoas adultas e jovens falam inglês (com admirável naturalidade). Nós, brasileiros, passamos mais de dez anos na escola tendo aulas de inglês e não conseguimos, somente com isso, sequer perguntar quais transportes pegar para chegar ao centro turístico. Parece que a escola é um mero passatempo. Se estivesse sozinha na minha inaugural viagem, acho que eu teria chorado de desespero na primeira vez em que precisasse falar inglês. Nunca precisei falar, nem escrever. Eu sabia entender e ler com a ajuda de um dicionário. Isso não se compara a ter que conversar, responder perguntas, pedir informações elaboradas e entender o que o interlocutor fala com rapidez e às vezes com sotaque estranho. Não se aventure achando que seus gestos vão suprir a ausência de palavras.

4. Eu podia estar ajudando os animais com esse dinheiro, mas estou viajando. Queridos leitores: ninguém precisa sacrificar sua vida de lazer em nome da culpa. Eu não sinto culpa por viajar, não sinto culpa por às vezes estar numa situação melhor do que os outros (cuidado com pessoas parasitárias que querem fazer você se sentir culpado por ter uma vida melhor, um emprego melhor, etc.), não penso que meu dinheiro de viagem poderia ser doado a uma ONG. Quando posso ajudar, ajudo. Quando eu tiver um salário melhor, ajudarei muito mais. Eu posso ajudar e viajar. Não estou viajando na primeira classe de Singapore Airlines rumo à Suíça para comprar relógios de ouro. Minhas viagens são econômicas, pesquiso sobre restaurantes veganos gostosos e baratos antes de partir, minhas compras triviais acontecem, basicamente, em brechós, papelarias e lojas de tecidos. Não deixei de ajudar um cachorro doente para comprar um Rolex. Viajar não é uma futilidade, assim como ter um bom notebook não é uma futilidade. Se entrarmos nesse espiral de “eu poderia estar ajudando”, logo venderemos todos os nossos bens e em vez de ativistas nos tornaremos pacientes psiquiátricos. É absurdo cobrar que uma família de ambientalistas não deveria ter nenhum carro na garagem, assim como é absurdo cobrar que um vegano não gaste dinheiro em viagens. E quem é que faz essas cobranças lunáticas? Exatamente, aquele fariseu que não faz nada.

5. É preciso honrar a causa que se defende. Costumam achar sacrificante demais ficar sem carne. Costumam achar quase impossível ficar sem leite e ovos. Devem achar realmente uma utopia viajar sendo vegano. E não é. Antes das viagens, eu vou ao site do Happy Cow e procuro endereços de restaurantes veganos ou restaurantes vegetarianos com opções veganas. Nas capitais, há vários. É possível escolher pelo preço, pela localização, lendo reviews. Os restaurantes que me interessam são selecionados, copio o endereço, jogo no directions do Google Maps e uso como ponto de partida o hotel onde nos hospedamos ou algum grande ponto turístico da cidade. Pronto, eis o mapa indicando como chegar lá. Dou um print screen, colo no Paint e salvo como JPEG. Antes eu imprimia todos esses mapas, hoje eu os coloco no meu tablet. Como fazemos em cidades pequenas sem restaurantes veganos? Vamos ao supermercado local, compramos pão, verduras práticas, frutas, bebidas e levamos para o hotel. “Mas como vou substituir x, y e z?” Substitua por qualquer outra comida. Eu sei que nós somos todos muito cheios de firulas e gostamos de umas frescuras bem específicas. Mas elas não são necessárias como o ar que respiramos. Podemos ficar sem elas. Podemos tentar nos habituar, aos poucos, a esse desapego. Eu como quase todos os dias feijão preto com arroz. Quando estou viajando, não encontro essa combinação em lugar nenhum. Uma comida que é vital para mim não existe na Suécia. Ninguém come feijão preto. Nem o carioca, que seria uma segunda opção, é comido lá. Nessas horas, sinto saudades do Brasil. Preciso me habituar, arranjo outra combinação. Não encontrou uma margarina vegana para passar no pão? Não coma margarina, passe outra coisa (aproveite para se habituar a ficar sem esse lixo, aliás; leia os ingredientes das embalagens e veja quanto veneno químico está comendo). É mais difícil ser vegano viajando? Com certeza. Mas você precisa honrar a causa que defende. Se estivesse visitando uma cidade da Coreia do Sul que coloca cachorro em quase todos os pratos, você comeria cachorro? Não, você iria em busca de um cacho de bananas, uma batata assada, um supermercado. Já cometi o erro de comer queijo na primeira viagem por comodismo. Comodismo, que eu critico tanto como um dos grandes males da humanidade. Que nossa conduta ganhe cada vez mais disciplina e coerência.

6. E, por último, nem tudo é melhor na Europa. Eu amo viajar para lá, só de pensar na próxima viagem já sinto um delicioso friozinho no estômago. Mas não me imagino morando em nenhum país europeu. (Se tivesse que morar em algum, acho que seria a Alemanha, que tem *uma coisa no ar* que me deixa muito bem.) Gosto de morar no Brasil tendo a oportunidade de viajar para fora nas férias. Há algumas coisas lá que não me agradam: a) Gosto muito do jeito de certas pessoas enquanto turista, mas me deixa muito ansiosa a possibilidade de esse jeito ser aturado por muito tempo (seja com os fechados finlandeses ou com as bocarras sempre abertas dos italianos); critico muitas coisas na minha cultura brasileira, sulista, catarinense, mas me sinto mais à vontade nessa atmosfera conhecida. b) Em diversos lugares (veganos ou não), a mesma pessoa que lida com o dinheiro é a que lida com a comida (ela pega o dinheiro e depois vai cortar um pão na sua frente sem lavar as mãos). O que no Brasil seria um caso para acionar a sirene da vigilância sanitária, lá, em certos países, parece natural. Isso aconteceu algumas vezes e olhei ao redor para procurar alguém com a mesma cara de espanto que eu estampava: só achei a cara do meu namorado. c) Quer um suco natural? Vá a uma casa de sucos, ou jamais terá um. Você chega a um restaurante todo ajeitadinho, um garçom de banho tomado e bigode escovado te entrega o cardápio e lá está um orange juice. Você pede. Em segundos recebe um suco artificial num copo, provavelmente tirado de uma caixinha. Acho arrepiante o gosto de suco artificial e sei que ninguém é obrigado a achar o mesmo, mas um suco falso colocado num cardápio? No Brasil qualquer lanchonete com aspecto anos 80 oferece suco de laranja natural feito na hora. Cometi o erro de pedir esses sucos umas três vezes, até descobrir que teria sempre que perguntar se o suco era fresco. Nunca é. Aí, é claro, só me restava tomar uma cerveja (que é um encanto, exceto quando você vai caminhar depois e a última coisa de que precisa é se tornar a insustentável leveza do ser). d) No Brasil, há um restaurante com buffet (livre ou por peso) em cada esquina. Nas cidades europeias, isso é raríssimo. Quando você encontra um restaurante que seja desse tipo, ou é chinês (não é lei, mas suspeite da qualidade e da higiene) ou é requintado demais (ou seja, muito caro). e) A intimidade é a porta para o abuso. É por isso que devemos pensar muito antes de permitir que alguém se torne íntimo de nós. Entendo isso, tento praticar, mas nunca tinha me flagrado de que minha cultura brasileira permite pequenos abusos de intimidade que são estranhos para reservados de alguns países europeus. Temos esse hábito de cumprimentar pessoas, conhecidas ou não, com um aperto de mão e um beijinho ou um abraço e um beijinho (beijinho que era para ser na bochecha, mas geralmente é no ar, fazendo com que colemos bochecha com bochecha e soltemos um sutil smack). Não sei por que razão pensei que isso era universal. Fui cumprimentar, desse jeito, a esposa de um amigo do meu namorado e ela estava toda dura enquanto eu me aproximava para lhe dar um beijinho perto da bochecha. Quando terminei meu abuso de intimidade, ela estava com uma expressão perplexa. Não entendi, mas também não fiz perguntas. No ano seguinte, estávamos na casa deles e uma terceira mulher estava lá. Fui apresentada a ela e, naturalmente, me aproximei para lhe dar um beijinho enquanto apertava sua mão. Ela simplesmente quase esmagou minha mão quando firmou o braço para que eu não me aproximasse, como quem pergunta “o que diabos você está tentando fazer?” e eu me vi numa situação constrangedora com aquele braço rígido me mantendo no lugar onde eu deveria ter ficado o tempo todo. Aí a tal esposa, que já fora abusada por mim no ano anterior, explicou a ela que nós costumávamos fazer aquilo. Foi um bom ensinamento para que eu, quando em situação pública, primeiro observe o que as pessoas fazem antes de esbanjar meu brasileirismo. 

*

Há muito tempo estou para postar comentários/fotos sobre restaurantes veganos/vegetarianos que conheci na Europa. Começarei por Varsóvia, Polônia. Por quê? Porque esses dias descobri que meu restaurante preferido de todos os tempos fechou. Já chorei e já rangi os dentes, então só me resta matar a saudade olhando as fotos e falando sobre o quanto ele era bom.

VARSÓVIA – POLÔNIA

Varsóvia (ou Warsaw) é a capital da Polônia. Pude conhecê-la na última viagem, em 2014. Da Polônia eu já conhecia Cracóvia (onde nasceu o Papa João Paulo II) e outras pequenas cidades, como Oświęcim, que todos conhecemos pelo nome alemão Auschwitz, onde está o principal campo de concentração nazista, agora como museu. 

Varsóvia é uma cidade grande e bonita, possui um misto de arquitetura moderna com arquitetura comunista, e, como tantas cidades europeias, abriga uma conservada cidade velha (old town). Nossa primeira experiência vegana lá foi no restaurante indiano Govinda. Gostamos tanto que no dia seguinte voltamos para mais um espetáculo de sabores. 

O Govinda se tornou meu restaurante vegano predileto por diversos motivos. Dou muito valor a cozinheiros que conseguem fazer uma comida saborosa e saudável, cheia de princípios alimentares. Eles não utilizavam nenhum tipo de aditivo químico nos alimentos, não utilizavam açúcar (nem branco nem mascavo) e havia mais algum valor de nutrição do qual não me recordo. A comida era sublime, tão sublime que não conseguíamos parar de pedir um prato atrás do outro. Acho que o casal, dono do restaurante, já estava assustado com nossa fome. Nas cidades que visitei da Polônia, dificilmente era possível ver pessoas com sobrepeso na rua. Obesos eu nunca vi. De repente chegamos como bárbaros veganos que éramos e não parávamos de comer. O rapaz, que nunca tinha atendido brasileiros antes, deve ter ficado com uma imagem interessante do Brasil por nossa causa, tanto pela comilança quanto pela gratidão, já que nas duas vezes deixamos boas gorjetas. Não gosto dessa quase obrigatoriedade que alguns países têm sobre o hábito da gorjeta, mas lá eu fiz questão de deixar um valor maior que o tacitamente estipulado porque a comida foi muito boa, farta e barata. Meu grande prato de risoto com tomate, azeitonas e manjericão saiu por 14 zlotys, o equivalente a míseros 11 reais. (Em Roma, paguei 10 euros – o equivalente, na época, a 32 reais – para comer uma batata média, fatias finíssimas de tofu e alface. Não, não era uma entrada, era “uma refeição”. Eu esperava mais fartura dos italianos. Saí daquele restaurante com vontade de deixar um broche do Brasil como gorjeta.)



Cardápio de sopas

Omelete vegana

Risoto de tomate, azeitonas e manjericão

Sopa indiana de tomate

Opções de prato principal com arroz

Pasta cremosa com cogumelos

Infelizmente o Govinda aparece, hoje, como fechado no Happy Cow. Não sei por que fecharam, mas fiquei muito chateada. Se não reabrirem, tentarei entrar em contato para saber o que houve e para pedir a receita da omelete vegana mais mágica que eu já comi. Se eu conseguir o segredo e se me permitirem propagandear, publicarei aqui.

O Museu Marie Curie, em Varsóvia, é muito interessante. Mas mais interessante que ele é a popularidade do Krowarzywa, uma espécie de lanchonete vegana que é especializada em burgers. O lugar estava lotado e não havia somente veganos na fila: os burgers são tão estupendos que mesmo pessoas não-veganas optam por comer lá em vez de ir a um fast food que vende animais mortos. Enfrentamos a fila, suspeitamos que não encontraríamos lugar para sentar (são poucos os lugares e os clientes parecem não se importar com o fato de comer em pé, lá fora, na calçada), mas logo achamos um cantinho num balcão. Pedimos limonadas (que vieram em copos gigantes), um smoothie e burgers. Um era de feijão e o outro era de seitan. Magníficos. Só não posso dizer que foi o melhor burger que comi porque em Dresden, Alemanha, eu já tinha comido um burger de seitan que me emocionou. O do Krowarzywa ficou empatado com o de Dresden. No outro dia tentamos comprar mais para levarmos para a viagem, mas a fila estava tão grande que correríamos o risco de perder o ônibus até o aeroporto.

Krowarzywa

Opções no quadro e as garotas que trabalham lá

Fantástico burger

Experiência vegana em Varsóvia, Polônia: maravilhosa. Só fomos a dois lugares (há muito mais opções) e já ficamos surpreendidos. Varsóvia se mostrou uma cidade muito receptiva aos veganos mais exigentes e atraente mesmo para quem quer gastar pouco. É vegano, quer viajar, não quer gastar muito? Vá a Varsóvia. Inúmeras opções veganas e vegetarianas, hotéis a preços justos, cidade interessantíssima. 

*

Ausentar-me-ei por um tempo por causa da viagem. Voltarei ano que vem com postagens sobre livros, veganismo, viagens, filmes, música. Que em 2015 muito mais pessoas possam descobrir o veganismo e se juntar ao movimento abolicionista da escravidão animal. E que mais pessoas leiam bons livros. E que mais pessoas tagarelem menos. Um forte abraço aos que leem e votos de felicidade, desde que ela não dependa de crueldade. 

sábado, dezembro 27, 2014

Escravidões relativas: negros no Brasil e animais


Não há nada mais belo que uma causa concatenada com outras causas. Deve ser por isso que meu asco reflexo vem à garganta quando vejo um ambientalista que come carne bovina, uma "feminista" que toma leite e chupa os dedos após comer bacon, um comunista que tem dinheiro, mas não contribui com ONG nenhuma. Como já dito neste blog, não acho que todo mundo tenha que estar tinindo na apresentação das lutas pessoais — uma cobrança que pode levar à inércia, pois alguém de poucos pensamentos vai acabar achando que é melhor não fazer nada já que não se pode fazer tudo —, mas a ideia das causas concatenadas serve muito bem para questionar arrogantes de pequenos palanques (estão no trabalho, na universidade, no bar) que muitas vezes apenas advogam em causa própria ou em causas para as quais não é preciso mexer muito mais do que a língua (tagarelice, esse mal de quem mais fala do que reflete) e os dedinhos nas redes sociais. Feministas que não dão a mínima para o estupro diário de vacas leiteiras (é mais fácil a alienação de comer queijo e tomar achocolatado) e ambientalistas que financiam a pecuária (aquela que é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia, polui rios e emite gases poluentes na atmosfera — informações que eu não tirei do Clubinho Vegano de Ciência Vegana, mas de jornais de ampla circulação, artigos no Scielo e revistas de quaisquer posições políticas) — essa gente precisa sacudir um pouco mais a sua "luta" para poder vociferar com toda essa saliva nos beiços como têm feito. Aí você tenta conversar, mostrar vídeos, indicar leituras e comparar sexismo com racismo com especismo, mas esses cheios de personalidade e firmeza como flocos de cereal insistem em te chamar de "radical", "extremista". Não entendo muito bem como posso ser extremista ao meramente querer que meu alimento não verta sangue e minha bebida não gere sofrimento e morte, só que esse não é o ponto agora. O ponto é a questão escravista relativizada. 

Com o advento das políticas de cotas no Brasil, vimos uma série de manifestações na internet sobre "a dívida que os brancos têm com os negros" por causa do tempo em que nosso país dependia de mão-de-obra escrava. Escravos eram, de modo genérico, aqueles negros que não eram livres pois eram propriedade, e por isso tinham que obedecer seus senhores, seus donos. Escravos eram mercadorias que podiam ser vendidas, torturadas, exploradas à exaustão. Baseados nessa definição, veganos chamam os animais de criação de escravos também. Uma porca não é livre: ela é uma propriedade que pode ser usada da maneira como seu dono, seu senhor, considerar melhor para ele. Um escravo não serve por si, ele serve pelo serviço que pode oferecer. Então comparamos porcos com escravos, por exemplo. E aí um cotista que não conhece a história da África (só ouviu falar, leu um rabisco de alguém do movimento negro numa página sensacionalista, recebeu a caixinha do conhecimento instantâneo de um professor "que luta pelos menos favorecidos") se ergue de sua poltrona e com o dedo em riste questiona como é que ousamos colocar um porco ao lado de um escravo negro. É interessante, porque a situação é quase similar (propriedade, exploração, legitimidade da condição), com a diferença de que o porco é um animal que ainda não foi abolido de sua escravidão e o negro é um animal humano que já é dono de si mesmo. Mas, um momento, realmente não podemos comparar... a escravidão dos animais é muito pior (parece que qualquer situação humana comparada à situação animal fará com que os animais estejam sempre como as reais grandes vítimas). 

Primeiro, eu não entendo a enorme celeuma em cima da questão dos negros. Nunca entendi a dívida que os brancos têm com os negros. Não foram os brancos que inventaram a escravidão. Alguns críticos da escravidão à-brasileira-à-portuguesa falam dos brancos como se eles tivessem invadido a África, tirado os negros de suas vidas tranquilas e livres e de repente os tivessem transformado em escravos. Sim, exatamente como se os brancos tivessem inventado a escravidão. Não foi isso que aconteceu. A escravidão, essa "modalidade" que existiu desde a Antiguidade, já ocorria na África quando os europeus passaram a traficar escravos. Negros eram donos de negros, negros vendiam negros e negros tinham como anseio poder ter seus escravos negros. Portugueses negociavam escravos negros com... negros. No breve texto chamado Histórias mal contadas, contido no livro Divisões perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo (Civilização Brasileira, 2007), o historiador José Roberto Pinto de Góes tira o negro do status de eterna vítima, eterno coitado: 

"A escravidão moderna não era coisa apenas de 'branco'. A demanda da América por escravos aliou-se à oferta dessa mão-de-obra por parte de dirigentes e comerciantes africanos, ligados ao próspero mercado de escravos. A captura de 10 milhões de pessoas, embarcadas em tumbeiros e levadas como escravas para o outro lado do Atlântico, ao longo de quase quatro séculos, não seria possível sem que sólidos interesses ligados ao tráfico transatlântico existissem em ambas as margens do oceano". 

Não gostaria de me alongar, mas não posso deixar de citar a urgente continuação: 

"No Brasil, a escravidão também estava longe de ser coisa de 'branco'. Reparem nos números que comparam Estados Unidos e Brasil. Lá chegaram 400 mil africanos ao todo e, quando a escravidão acabou, existiam 4 milhões de escravos. Aqui chegaram cerca de 3 milhões e 600 mil e, em 1872, havia 1 milhão e 200 mil escravos. Por isso, quando a escravidão acabou lá, havia apenas 5% de pessoas 'de cor', como diziam os censos de então, entre a população livre. No Brasil, em 1872, metade da população livre recenseada era 'de cor'. 
O que explica essa diferença é o fato de a alforria ter sido costume no Brasil, fosse comprada pelo escravo ou concedida pelo proprietário. Isso não era habitual nos Estados Unidos. Aqui era. Estudos demográficos recentes têm revelado que essa população 'de cor' (composta de pardos e pretos, como se dizia à época) vivia, trabalhava, casava, se amancebava, envelhecia e morria do mesmo jeito que os sem cor, digamos assim. E até participava do mercado de escravos, o que era facilitado por uma incessante oferta da mercadoria humana, o que a tornava relativamente barata. Por volta de 1830, na localidade de Sabará, em Minas Gerais, quase a metade dessa população livre de cor possuía escravos. Na região de Campos, em fins do século XVIII, um terço da classe senhorial era composto de descendentes de escravos. Essa farra escravista só foi interrompida em 1850, quando a marinha inglesa, contrariando interesses de muitos brasileiros e africanos, obrigou o Império a pôr fim ao tráfico transatlântico". 

Parece uma história diferente da que grupos vitimistas estão ensinando sobre os escravos negros no Brasil, não é? A isso José Roberto Pinto de Góes chama de "uma caricatura malfeita do passado", que é a visão simplista (negros sempre coitados, brancos sempre malvados, negros sempre escravos, brancos sempre senhores, brancos roubando negros de suas terras e inventando a escravidão) que até mesmo as escolas estão ensinando. É uma lástima que a história — tão complexa, tão cheia de meandros e, quando não maculada, nada maniqueísta — tenha se transformado na bandeira frouxa de uns "guerreiros" mal instruídos. 

Levando em conta que mesmo alguns historiadores estão reduzindo sujeitos históricos às categorias de moços e bandidos, é preciso tomar cuidado com a informação que se toma como fato. Há gente que faz história e há gente que faz polêmica. Se a história fosse assim tão simplória, qualquer taxista poderia trabalhar com ela. Qualquer taxista dá uma olhada num povo, numa determinada época, e classifica as pessoas como boas e más. Parece que nem sempre lemos a história do negro no Brasil, mas, isto sim, o conto de fadas do negro no Brasil

Ronaldo Vainfas, historiador que admiro, concedeu, em 2007, uma pequena entrevista para a Folha de São Paulo sobre as cotas raciais. Não vou colar toda a entrevista aqui, apenas um trechinho que só corrobora o que já foi dito. (O único "erro" dela foi Vainfas achar, na época, que a política de cotas poderia estar em xeque, sendo que hoje nós temos cotas até para concursos públicos.) 

[sobre as cotas e os pedidos de "desculpas" que governantes estavam dando pela participação das nações na escravidão no passado] "Eu não tenho muita simpatia, acho que transferem a responsabilidade no tempo e para quem não tem responsabilidade histórica no processo. Essa história de vitimizar a África, ocultando que a África se envolveu no tráfico, é descabida, mistificadora e historicamente frágil. Havia uma cumplicidade enorme dos reis africanos. Os europeus não conquistaram a África e capturaram eles mesmos os africanos para levar para as Américas". 

*

Para falar da escravidão animal, tive que explicar um pouco, com a ajuda de nobres historiadores, o que foi a escravidão brasileira. Não podia fazer comparação entre essas escravidões se as pessoas costumam achar que os negros viviam em completa desgraça. Agora, com os pingos nos ii, podemos comparar animais escravos e negros escravos. E, comparando, é claro que concluímos que a condição escrava dos animais é absurdamente pior. 


Escravos negros não eram criados para se tornar comida. Escravos negros não eram poupados de quase todas as suas necessidades, em regra. Escravos negros podiam perder seus filhos, mas os senhores não estavam constantemente estuprando escravas para que elas parissem e logo eles pudessem vender os bebês delas para poder inseminá-las na sequência. Escravos negros podiam comprar sua liberdade. Escravos negros podiam ter seus próprios escravos negros. Escravas negras podiam ajudar a dar de mamar aos bebês da casa, mas não eram máquinas de leite que no dia em que não tivessem mais leite para dar seriam mortas para virar capricho do paladar da família branca. Filhos de escravos negros não eram assassinados em massa logo que nasciam nem enjaulados num local escuro. Escravos negros muitas vezes ansiavam se tornar senhores de escravos: animais escravos anseiam apenas a própria liberdade. 

Algumas pessoas gostam de argumentar sobre coisas sérias usando piadas que viram na TV. É possível reconhecer em pouco tempo o sujeito que só veio à vida para comer, excretar, fazer filhos, trabalhar e morrer. Esses dirão que os animais fariam conosco o mesmo que fazemos com eles se estivessem em nosso lugar. É o tipo de princípio que nos levaria à Terceira Guerra Mundial. Se não vamos ser moralistas (não somos tão humanos porque temos moral, porque talhamos éticas?) e optamos por deixar de respeitar aqueles que no-nosso-lugar-fariam-o-mesmo, pararemos de nos importar com os pobres (que na imensa maioria dos casos declaram, com um sorriso, que seu sonho é se tornarem ricos — sim, os ricos que os rebaixam), deixaremos de ajudar os deficientes físicos, jamais faremos o que chamamos de "uma boa ação". A campanha do agasalho será um fiasco. Bill Gates não investirá na busca da cura para a AIDS. Tomaremos todos os nossos pares (animais também são nossos pares, todos evoluímos de um ancestral comum) como inimigos-que-poderiam-ter-sido: sacripantas em potencial. Por que abolimos a escravidão se inclusive o desejo de muitos escravos era ter um escravo? Que o mundo se autodestrua pelo ódio e pela cobiça! 

Esses dias terminei de ler um livro da psicóloga americana Melanie Joy — Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo (Cultrix, 2014) — e tomei um susto com um dado. Somente nos Estados Unidos, 10 bilhões de animais são mortos por ano para consumo. Nesse número não estão incluídos "frutos do mar". Ou seja, por ano 10 bilhões de escravos morrem nos Estados Unidos para que você, senhor deste metafórico engenho, possa mastigar, digerir e evacuar corpos, evacuar escravos (o número no Brasil deve ser também apavorante, já que somos "grandes exportadores de carne"; pense no mundo todo e vá multiplicando as dezenas de bilhões). É uma necessidade? É claro que não, não somos carnívoros para que comer animais seja uma necessidade. Mas tentamos criar a necessidade, justificamos nossa imoralidade fingindo que comer carne, tomar leite, comer ovos é imprescindível. Ora, para os julgados senhores de escravos do passado, muito insatisfeitos com a exigência britânica sobre o findar da escravidão, a mão-de-obra escrava também era extremamente necessária. A riqueza e os trabalhos da época dependiam dessa prestação de serviço. Podemos julgá-los se ficaram estarrecidos diante da obrigatoriedade da abolição? Acho que não. Cada um cria as necessidades que lhe convém e cada opressor sabe muito bem como justificar sua opressão. Não pensemos em opressores como vilões de novela que tramam os horrores mais engenhosos enquanto esfregam as mãos. Aquele que castiga, tortura e mata inescrupulosamente muitas vezes acha que "tinha" que fazer o que fez e que tudo era necessário e justificável. É o mesmo que fazemos em relação à escravidão animal. Mas nossa alegada necessidade cega já não é um válido pedido de perdão. Ninguém perdoa Stálin por ter matado milhões de indivíduos sob seu regime, por mais que ele não se pensasse má pessoa, por mais que ele achasse necessário eliminar opositores. Os bastidores de nossa crueldade estão expostos. Se continuamos esse show de horrores, somos responsáveis por nossa vileza. Alegar ingenuidade é o supremo cinismo. 

Quem diria, a história nos mostrando que mesmo o senhor de engenho tratava melhor seus escravos do que tratamos "nossos" animais. Infelizmente essa abolição não está tão próxima de chegar. Muitos oprimem muitos. O homem do sul oprime o homem nordestino. O homem nordestino oprime a mulher magra. A mulher magra oprime a mulher gorda. A mulher gorda oprime o homem aleijado. O homem aleijado oprime o rapaz homossexual. O rapaz homossexual oprime o vizinho negro. O vizinho negro oprime a criança indefesa. A criança indefesa oprime a mulher feia. A mulher feia oprime o homem judeu. O homem judeu oprime o subordinado católico. O subordinado católico oprime o cunhado indiano. O cunhado indiano oprime o parente com problemas psíquicos. E todos eles oprimem os animais. Vítimas fazem vítimas, é o que sempre digo. Nós fazemos vítimas sem necessidade. Se há alguma classe que precisa mesmo da nossa pena, da nossa misericórdia, essa é a classe dos animais, que vivem numa escravidão que nós, homens, mulheres, negros, brancos, inventamos para eles.

domingo, dezembro 14, 2014

O que Deus tem a ver com isso


Encontro, amiúde, veganos que creem em Deus e acreditam que os animais são “uma graça de Deus”. Como não gosto de conversas religiosas (nem gosto muito de conversa, na verdade), deixo que o assunto morra com um aceno de cabeça, um sorriso sonso ou simplesmente não dou prosseguimento aos comentários na internet. Costumo querer argumentar sobre isso quando sei que tenho alguma chance de inspirar dúvidas e mudanças; se vejo que o debatedor está numa sessão hipnótica que pode durar uma vida, não perco meu tempo – para mim, o tempo que tenho para usufruir é só o de um ciclo e somente nesta terra, não podendo ser desperdiçado. No entanto, meu pensamento não é modorrento como meu papo. Eu realmente gostaria que as pessoas se livrassem dos pesados grilhões imaginários de Deus e eu realmente gostaria que os veganos se propusessem a divagar mais sobre isso para aprimorar suas condutas no que diz respeito à causa animal. Quando você defende animais (que são vítimas da escravidão e das papilas gustativas de uma espécie que acha fancy ser gourmet) e ao mesmo tempo acredita em Deus, algo se perde. Obviamente você se perde porque desperdiça a própria breve existência com um delírio, mas os animais perdem muito mais. Ao estarmos certos de que no final das contas haverá um juiz para justiçar os oprimidos, ficamos um pouco preguiçosos e conformados. “O que esses comedores de porcos fazem é horrível, mas Deus está olhando e tomando notas”. Espera-se por uma justiça que nunca virá.

Existem inúmeros argumentos que contestam a existência de Deus, assim como há uma porção de réplicas cósmicas para aqueles argumentos. A usual é “você não pode provar que Deus não existe” – que pode ter a continuação, feita por céticos requintados “não-radicais”, em “portanto o ateísmo é uma tolice e todos deveriam ser agnósticos”. Não concordo com isso. Mas estou indo rápido demais.

No começo deste ano, li um livro chamado A goleada de Darwin. Faz parte da minha longa lista de livros sobre a evolução que pretendo destrinchar para me especializar, de maneira diletante, num tema que é fabuloso (não entendo como não podem achar fabulosa, por exemplo, a explicação para o desenvolvimento da asa de um morcego) e sempre me interessou. É um livro modesto que eu estava prestes a recomendar como “leitura nota dez” para colegas que quisessem entender os mecanismos básicos da evolução e a contenda entre evolucionistas e criacionistas. Após anos de convívio com intelectuais que tentavam me empanturrar com textos absurdos de Foucault e Deleuze, desprendi-me das convenções e das frases feitas obrigatórias para atestar genialidade (“Foucault escreve deveras bem”) e assumi que a escrita que eu valorizo é aquela que consegue ser clara, com bom vocabulário, meio literária, explicativa. Por que eu tenho que admirar alguém que trata um assunto já difícil com um texto extremamente prolixo? A prolixidade é, muitas vezes, o recurso patético de quem não sabe escrever, não sabe ensinar ou não sabe nem o que fala. Ao ler A goleada de Darwin até o penúltimo capítulo, eu sabia que estava diante de um livro simples, esclarecedor, com conteúdo – um material que merecia compartilhamento. O autor, Sandro de Souza, explica como a evolução funciona e quais as discórdias entre a criação e a seleção natural. Parecia que tudo correria como esperado. Até que no último capítulo o autor diz considerar, sim, possível a união entre criacionistas e evolucionistas, como quem diz “um biólogo evolucionista não cai em contradição quando revela crer em divindades”. Foi uma finalização de livro lastimável, já que foi no decorrer dos capítulos anteriores que eu tive um “click” sobre a impossibilidade de essas duas vertentes andarem juntas. O livro continua sendo interessante. Exceto o último capítulo.

O que os capítulos anteriores do livro de Sandro de Souza me fizeram pensar contribuiu muito para o assentamento do meu ateísmo. Antes, quando um agnóstico me abordava com seu ar monástico para ironizar minha tomada de posição (radical e pueril, pare ele), eu simplesmente retrucava: “mas por que Ele existiria?” Hoje eu teria uma fala melhor. Aliás, duas falas.

Suponho que todos que me leem tenham a evolução como um fato. E suponho que conheçam um pouco da história toda. Muitos devem acreditar que Deus (ou “uma força superior”) foi o responsável pelo desenrolar da evolução. Eu não partilhava dessa ideia, mas partilhava da ideia de que ela era compreensível (“não acredito que Deus seja responsável pela evolução, mas não é tão obtuso que alguém pense isso”). Após o “click”, não acho mais.

Caracteres homólogos

A história da terra envolve números na casa dos bilhões. Antes de uma vida mais complexa aparecer, o mundo ficou por aproximadamente um bilhão de anos somente com bactérias. Digamos que Deus estivesse regulando tudo isso. É uma entidade para a qual não existe uma severa noção de tempo: milhares de anos, para Ele, podem ser como um segundo nosso e só Ele pode entender de fato o que significa redenção eterna ou danação eterna, porque para nós, humanos, a eternidade parece uma coisa muito estapafúrdia. Ele estava lá, esperando por um bilhão de anos para que, finalmente, decidisse tornar alguma bactéria mais complexa. E a evolução foi acontecendo. Alguns animais que apareceram no mar foram para a terra e alguns deles voltaram para a água milhares de anos depois, gerando mamíferos aquáticos (a baleia tem um ancestral terrícola, por exemplo). Apareceram animais que evoluíram para outros tantos com órgãos homólogos (Deus sempre soube que os dedos de um gato fariam sentido quando comparados à mão humana, pois o mesmo arquiteto pode usar as mesmas bases para criar ou permitir a evolução de diferentes bichos). Deus sempre esteve coordenando os parentescos e decidindo quando algum grupo de animais se separaria dos seus por meio de uma barreira geográfica e originaria uma espécie diversa. Deus estava lá quando apareceu o primeiro símio. Até que, um dia, Ele ficou exausto de tantos animais com vidas “vãs” e decidiu dar esclarecimento a uma espécie. Há pessoas que acreditam que os homens têm alma e os animais, não. A elas eu pergunto onde exatamente está o primeiro ser com alma da linha evolutiva. Chimpanzés são os parentes vivos com os quais mais temos semelhanças (digo isso porque, pensando evolutivamente, todos somos parentes, em maior ou menor grau, de todos os animais), mas os cristãos duvidam que eles tenham alma. Alma é mérito do Homo sapiens. Contudo, quem conhece a evolução sabe que a separação por espécie é muito arbitrária e desejosa de organização. Não podemos tirar alguém de sua linha evolutiva e dizer “esse é certamente o primeiro de sua espécie”, porque a evolução acontece de modo gradual e as divisões são feitas mais para fins de organização do que de mudança severa. O pai do primeiro Homo sapiens também poderia ser um Homo sapiens e talvez o filho do primeiro Homo sapiens fosse até menos Homo sapiens que seu avô. Mas a ciência precisa catalogar, precisa determinar o momento em que uma espécie se separa de outra na linha evolutiva. Qual foi, então, o primeiro ser a quem Deus decidiu dar uma alma? Se esse ser já era Homo sapiens, mas era extremamente rude, não possuía uma cultura elaborada – mesmo assim podemos dizer que ele já possuía alma? Quer dizer, então, que um dia Deus olhou para os animais de uma linha evolutiva e disse: “você terá a alma que seu pai não teve”? Se acreditamos na evolução como um fato (abundantemente comprovado), sabemos que ela opera através de uma sequência muito longa de gerações. Se a evolução fez o Homo sapiens surgir do Homo erectus e as pessoas acreditam que somente o Homo sapiens possui alma, podemos dizer que o pai do primeiro Homo sapiens (que seria, para fins de organização, um Homo erectus) não possuía alma. Um crente, não constrangido com esse despropósito, dirá que Deus precisava escolher alguém, em algum momento, para colocar alma. Como eu disse, se o filho do primeiro Homo sapiens tiver mais características de Homo erectus que seu próprio avô, mesmo assim ele ganhou uma alma (pelo visto, sem merecer, para os parâmetros do próprio Criador). Seu avô vai apodrecer na terra como todos os outros animais. A ele algo grandioso foi reservado, pois Deus decidiu que a partir de seu pai todos daquela linhagem teriam alma. Deus pode andar de mãos dadas com a evolução? Parece que não.

Alma: somente para o último

"Repito: os humanos não descendem de macacos. Temos um ancestral em comum com eles. Por acaso, o ancestral comum seria muito mais parecido com um macaco do que com um homem, e provavelmente o chamaríamos de macaco se o encontrássemos, há cerca de 25 milhões de anos. Mas embora os humanos tenham evoluído de um ancestral que poderíamos sensatamente chamar de macaco, nenhum animal dá à luz uma nova espécie instantaneamente, ou pelo menos não a um ser tão diferente de si mesmo quanto um homem de um macaco, ou mesmo de um chimpanzé. A evolução não é assim. A evolução é um processo gradual de fato, e além disso só tem poder explanatório sendo gradual. Enormes saltos numa única geração – como na ideia de uma macaca dar à luz um ser humano – são quase tão improváveis quanto a criação divina, e excluídos de consideração pela mesma razão: estatisticamente improvável em demasia. Seria ótimo se os que se opõem à evolução se dessem o pequeno trabalho de aprender ao menos os rudimentos daquilo a que se opõem". 
(Richard Dawkins em O maior espetáculo da Terra)

Nesse mesmo livro, O maior espetáculo da Terra, Dawkins cita uma frase de Darwin, retirada de A origem do homem, que sintetiza bem o que significa a impossibilidade de declarar que exatamente-no-ano-x-tivemos-o-primeiro-autêntico-homem-na-Terra: "Em uma série de formas que passaram de modo gradual e imperceptível de alguma criatura simiesca ao homem como ele hoje existe, seria impossível fixar em algum ponto definido onde o termo 'homem' deve ser usado". 

Essa explanação pode também levar ao questionamento daqueles que acreditam que “Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança” e ao mesmo tempo aceitam a evolução. Ora, então Deus sempre foi uma entidade "humana" que fez o universo e esperou bilhões de anos para dar vida a uma figura (o homem) que fosse Sua imagem e semelhança? Isso nos leva à ideia de que o homem é a ponta final da evolução, a espécie superior à qual Deus sempre quis chegar. Converse com qualquer biólogo evolucionista sobre a motivação teleológica da evolução e receberá uma aula gratuita para corrigir esse descabimento.

[rebatendo argumentos que tentam defender que um macaco é superior a uma minhoca] "'Os macacos [e outros animais "superiores"] são mais hábeis para sobreviver do que as minhocas [e outros animais "inferiores"]'. Isso não contém um pingo sequer de sensatez, muito menos de verdade. Todas as espécies vivas sobreviveram pelo menos até o presente. Alguns macacos, como o mico-leão-dourado, estão em risco de extinção. Têm mais dificuldade para sobreviver do que as minhocas. Os ratos e as baratas prosperam, apesar de serem considerados por muita gente como 'inferiores' aos gorilas e orangotangos, ambos perigosamente à beira de extinção". 
(Richard Dawkins em O maior espetáculo da Terra)

O animal mais "evoluído" é o que está melhor adaptado. Um homem está adaptado à terra e tem condições de sobreviver nela. Um cavalo-marinho está adaptado à água e sobrevive bem nela. Troque o ambiente dos dois e verá que o conceito de superioridade não faz sentido. Se repentinamente a Terra for atacada por um corpo estranho e pesado e toda a humanidade morrer, a barata que permaneceu viva e vai procriar certamente se mostrou muito mais "evoluída" por sua surpreendente adaptação. 

Essa primeira parte nos leva a algumas ponderações interessantes sobre a ideia de Deus e o fato da evolução serem como água e óleo. Vamos considerar que nem todo mundo percebe Deus e Sua criação do mesmo modo e formular algumas perguntas (comuns e/ou veganas) em cima de alguns casos: 

1. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que somente o homem (Homo sapiens) possui alma – Deus em algum momento decidiu dar alma a um ser da linhagem e aqueles que viriam a partir dele teriam alma? Isso significa que o pai do primeiro agraciado com alma não tinha alma? Isso também significa que um animal teria parido um animal de espécie diferente da dele e por isso somente o Homo sapiens possuiria alma, e não o Homo erectus? Ou seja, nossos ancestrais não tinham alma, mas de repente passaram a ter? Um rapaz primitivo estava lá, cavoucando um ninho, e de repente recebeu alma, coisa que nem sua mãe, nem seu pai, nem seus irmãos teriam? Uma águia deu o azar de não ter alma só porque não era a imagem e semelhança de Deus? Ou será que a águia só não tem alma porque ela não é capaz de inventar histórias sobre líderes invisíveis reguladores de moral e doadores de almas? Talvez a águia só não tenha alma porque isso não faz nenhum sentido para a sobrevivência e perpetuação dela na Terra. Se isso fizesse, ela teria – senão morreria, mal adaptada por não conceber a noção de alma. 

1.1. Pessoas que creem em Deus muitas vezes tentam explicar a razão de nossos sofrimentos na Terra. São testes, são provações, são coisas sobre as quais Deus não quer decidir agora: mas sofrer aqui pelo bem pode garantir para nós um espaço no céu. Sofremos para obtermos felicidade eterna posteriormente. Nosso sofrimento tem explicação e é efêmero. E o sofrimento dos animais que não têm alma? Qual é o sentido dele? Por que sofrem de graça? Deus acha bom que animais sofram porque não têm alma? Mas eles sentem dor e não serão compensados por um póstumo paraíso que reparará tudo. Por que razão eles sofrem nas mãos uns dos outros e dos humanos? Um leão às vezes leva horas para comer um veado até um ponto em que ele (o veado) não esteja mais ciente do que está acontecendo. Por que esse veado precisa sofrer assim se Deus é tão benevolente e só quer que soframos para que mereçamos o céu (considerando que o veado, sem alma, jamais irá para o céu)? Por que milhares de porcos morrem todos os dias após uma vida miserável sem espaço para se mexer, sem luz, sem comida adequada, sem socialização com outros porcos se esse sofrimento jamais será compensado para eles? 

2. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que todos os animais possuem alma – suponho que nessa categoria estejam somente veganos, pois achar que os animais possuem alma e comê-los parece um grande desrespeito, já que Deus não permitiria que comêssemos seres com alma (bom, talvez permita, quem conhece o Deus do Antigo Testamento e o do Novo sabe que Ele muda muito de opinião). O que exatamente são "todos os animais"? Todos os seres vivos que pertencem ao reino Animalia? Então um molusco possui alma? 

3. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que somente animais domésticos possuem alma (quando Heitor e Bingo morrerem, irão juntos para um lugar onde não haverá vacas nem porcos) – por que somente seu cachorro e seu gato são seres com alma? Por que Deus não daria alma a um porco, que é mais inteligente que um cachorro? Porcos e cachorros têm um ancestral comum. Em que momento das linhagens um passou a ser tão refinado que mereceu ganhar uma alma em detrimento do outro? Cães vêm de lobos, são quase como lobos domesticados. Se os lobos não têm alma e os cães têm, quer dizer então que Deus decidiu dar alma aos cães só porque eles passaram a viver ao redor e dentro de casas humanas? Alma, então, é apanágio somente de animais domesticados? 

4. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução, mas ninguém possui alma (não há céu, não há inferno, há apenas um Criador, um "ser superior" moralista) – a evolução é perversa. Se Deus está  por trás dela, podemos dizer que Deus é perverso? Para que uma espécie dê lugar a outra, algumas vezes acontece uma guerra por território e comida. Darwin se baseou no pensamento de Malthus para teorizar a seleção natural: o crescimento da população ocorre em progressão geométrica enquanto a quantidade de alimentos cresce em progressão aritmética. Assim, não há recursos para todos e disputas pela escassez começam a acontecer. Quando uma ilha, por exemplo, é ocupada por duzentos ratos, mas há somente comida para cem, sabemos que muitos ratos morrerão de fome. Animais mal adaptados a uma mudança climática, a uma alteração no padrão alimentar (uma espécie carnívora passa a viver num lugar em que só há vegetais para comer) ou à seleção sexual costumam sofrer muito antes de morrer. Por que sofrem, se a moral condena o sofrimento sem sentido? E se a moral divina não condena o sofrimento e o tem como natural, por que achamos certo matar galinhas, mas execramos os chineses que matam cachorros? Se é bom que a evolução ocorra "de modo natural", por que preocupar-se com o sofrimento de povos que não têm nada a ver com a propagação dos nossos genes? Por que não concentramos nossas preocupações somente em nossos filhos (ato pró-evolucionário) em vez de sentir pena e querer adotar um abandonado filho alheio (ato antievolucionário)? Sofrer por não estar bem adaptado e morrer em decorrência disso faz parte da evolução.

Acho que são questões cruciais para pensarmos exatamente que Deus é esse que criamos para acreditar. A frase de Voltaire "se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo", muito usada por cristãos, na verdade tem mais sentido se usada por ateus numa continuação óbvia: "e como Ele não existe, nós o inventamos". 

Um cético não convencido pode se apegar àquele paradoxo de que "é impossível provar a inexistência de Deus, então não podemos nos posicionar como ateus". Não acho impossível provar a inexistência de Deus. Essa é a minha segunda fala em defesa do ateísmo.

Nós sabemos que o Papai Noel não existe porque sabemos exatamente quem o criou e sabemos que antes dessa criação ninguém tinha necessidade da existência dele e não há relatos sobre ele. Sabemos que uma figura não existe quando descobrimos quem deu origem a ela. Não podemos dizer que alguém, um dia, deu origem a Deus e que essa ideia perpetuou apenas culturalmente, como no caso do Papai Noel. Há casos de civilizações isoladas que tinham seus deuses e os cultuavam como nós cultuamos nosso Deus. Não devem ter aprendido essa religiosidade com outros povos, já que estavam isolados por centenas/milhares de anos. Isso nos dá a entender que Deus parece uma ideia estrutural, fruto das nossas mentes. Mas, esperem, "mente" é uma palavra que pode ser perigosamente abstrata, prefiro usar cérebros. Nossos cérebros (é nessa hipótese que acredito) criaram a ideia de Deus ou de deuses: enfim, nossos cérebros humanos têm necessidade de um criador, seja ele um deus, uma deusa, vinte deuses de formas variadas. Se essa ideia sobreviveu por tanto tempo, pode ser que tenha sido elementar para que nós sobrevivêssemos na história da evolução, e pode ter começado há muito tempo, antes mesmo do aparecimento do Homo sapiens, talvez de modo rudimentar (não tenho muito conhecimento sobre o Homo erectus para dizer se ele já manifestava algum fiapo religioso). Não só isso propiciou a sobrevivência e a perpetuação da espécie (o homem de Neandertal enterrava seus mortos e foi extinto), pois devemos sempre pensar a boa adaptação como um provável conjunto de fatores favoráveis que vão aparecendo gradualmente e conquistando permanência. Só que a religião para o homem parece ter sido, em algum período crítico, como a perna para um aleijado. Portanto, comungo a ideia de que Deus é fruto de nossos cérebros. Como poderíamos provar sua inexistência? Esquecendo aplicações éticas na ciência, poderíamos provar a inexistência de Deus se descobríssemos a região cerebral que precisaria ser "apagada" para que a ideia de Deus também se apagasse. Infelizmente, tal experimento só seria possível se as cobaias vivessem separadas do resto do mundo, sem poder absorver uma cultura já saturada de religiosidade e outras superstições. Sem cultura religiosa e sem aquele pedacinho do cérebro que poderia ser a origem de Deus, descobriríamos se Deus seria apenas uma criação cerebral. Algum desavisado pode dizer: "mas se a ideia de Deus foi importante para que nossa espécie sobrevivesse, os outros animais também precisariam dela para sobreviver". Ora, negativo, cada espécie é um caso e precisa de coisas muitíssimo diferentes para sobreviver se comparada às outras. Uma águia precisou de um bico adunco para sobreviver e não é por isso que eu também preciso. Os animais, ao que parece, não sentem necessidade de Deus. Deve ser por isso que eles não estão nos planos do paraíso. Somente é martirizado pelos desejos de Deus quem acredita na existência de Deus. Bem, tragicamente, quem não acredita também é martirizado, pois vive numa sociedade que consegue misturar até o público com o religioso. É por causa disso que a militância ateísta faz sentido: porque o ateu militante quer que seus pares tenham coerência e conhecimento; ele quer, como o iluminista enciclopedista, que a sociedade em que ele vive possa se esclarecer. Mas isso é outra história.

E O QUE OS VEGANOS TÊM A VER COM ISSO?

A evolução moderna nos mostra que somos todos aparentados aos outros animais. Em Freud – além da alma, filme de 1962 com roteiro de Sartre, há bem no início uma fala simples, mas atinada, sobre as três grandes revoluções que abalaram a ideia que o homem tinha sobre si mesmo como superior e central: a revolução causada por Copérnico, ao tirar a Terra do centro do Universo; a revolução causada por Freud, ao tirar o homem do palácio do autocontrole, do livre arbítrio e da vontade consciente; e a revolução causada por Darwin, ao tirar o homem da sua pretensa superioridade diante de outras espécies. Realmente essas três bombas abalaram o que pensávamos sobre nós mesmos. Eu, como vegana, pude sentir o peso da nossa arrogada altivez quando percebi que comíamos carne e usávamos outros animais para roupas e trabalhos forçados justamente porque achávamos que éramos a espécie à qual toda a história da evolução quis chegar. Não me interessa que leões comam carneiros. Não sou um leão e não vou escolher quais as características de um leão que justificarão maus hábitos meus (se querem ser como os leões, não só comam carne, mas comam carne crua, matem seus filhos que nascerem com deficiências, matem filhos de fêmeas que vocês têm em vista, lutem até a morte com machos que estão interessados na mesma fêmea, não trabalhem e passem a maior parte do dia dormindo, à espera de outra caçada). Portanto, faz sentido pensarmos seriamente sobre a evolução se somos veganos.

Se somos veganos e pensamos seriamente sobre a evolução (lemos sobre ela), a ideia de Deus não faz sentido. Como expus acima, como é que Deus dá alma a um ser e não dá alma a seu pai? Como é que Deus permite o sofrimento em vão dos animais? Não é possível não perceber que falar de Deus atrapalha nossa militância em prol dos animais. Então você pode pensar que fica revoltado com o que acontece, arregaça as mangas, mas mesmo assim espera que Deus acerte as contas no final. Por mais que você negue, isso colocará um pouco de freios na sua atitude. Você continuará indo a churrascos de modo sorridente, compreensivo, tolerando piadas ruins e gastas porque acha que não tem condições de julgar ninguém e quem vai julgar é Deus. (Interessantemente, duvido que você seria tão plácido e risonho se um vizinho que mata um gato por dia, com as próprias mãos, convidasse, de maneira polida [ele odeia gatos, mas simpatiza com você e com outros humanos], você para um café com cupcake, mesmo que o cupcake fosse vegano.) Se Deus estivesse agindo, não precisaríamos assinar petições diariamente.

Os animais não acreditam em nosso Deus. A porca que está há mais de um ano deitada na mesma posição, recebendo ração no gargalo, parindo dez porquinhos uns atrás dos outros sem sequer poder cheirá-los e cuidar deles não quer saber de Deus, de justiça divina, de pagamento póstumo. Ela gostaria que os humanos, que não são carnívoros (por mais que repitam essa baboseira como uma oração), parassem de explorá-la, até porque eles não dependem da carne dela para sobreviver e ter saúde. Quando esperamos que Deus faça alguma coisa, esperamos que um duende transforme o mundo para nós. Perdemos energia. Perdemos tempo. Nós só temos essa vida aqui (que é maravilhosa e possui muito significado se soubermos aproveitá-la, sem que Deus precise estar aí para conferir sentido à nossa morte – vamos amar os animais como nossos irmãos e aceitar que morreremos exatamente como eles), os animais só têm essa vida. Rezar, colocar nas mãos de Deus jamais fará um animal sair de sua condição miserável. Deus é um delírio, um atraso, uma acomodação. É claro que não é obrigatório que um vegano se torne ateu. Mas que ajuda, ajuda. Tanto para o próprio vegano quanto para os animais.

"Se Deus conhecia de antemão os pecados de que a humanidade seria culpada, Ele foi, então, claramente responsável por todas as consequências desses pecados quando decidiu criar o homem".
(Bertrand Russell - Matemático e filósofo ateu) 

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Rápidas e soltas 01


Minha mãe comentou a respeito de um "desafio sem maquiagem" que colegas estavam fazendo. Não tenho Facebook, então tive que pesquisar fora dele o que exatamente era isso. Parece uma campanha sobre a real beleza da mulher e a vontade de libertação dos padrões impostos pela mídia e pelas marcas de maquiagem. Achei, particularmente, uma imensa bobagem. Eu uso maquiagem todos os dias e às vezes tenho vontade (fico só na vontade, meus pais foram rígidos na minha educação) de comentar com colegas que elas poderiam experimentar uma cor nas maçãs do rosto, um pó no nariz oleoso e um rímel nos cílios. Isso é antifeminista? Não vejo problema algum em uma mulher querer estar mais bonita, desde que não sofra. Levo cinco minutos para fazer minha maquiagem diária. Passo a tarde e parte da noite com ela. Não dói, não sofro, não chego à minha casa desesperada para tirá-la. O mesmo não ocorre com quem usa saltos altos no trabalho. O mesmo não ocorre com quem acha que a depilação deve estar acima de todas as coisas na vida de uma mulher. Além do mais, esse desafio gerou uma disputa para ver "quem é bonita de verdade", ou seja, ninguém saiu do lugar, pois a questão ainda é valorizar a mulher principalmente pela sua beleza. Tínhamos chatas desinteressantes maquiadas. Agora temos chatas desinteressantes com cara de que acabaram de sair do hospital. 

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As pessoas confundem muito o que seja a liberdade de expressão. Uma coisa é você dizer o que você quer, outra coisa é o outro querer ouvir. Há tanta gente inoportuna que aparece brotando para dar conselhos não requisitados que poderíamos mudar o mundo se para cada opinador ONGs recebessem doações simbólicas em dinheiro. Fecho meu universo para trocas sociais como se fosse uma casa velha toda trancada. Às vezes, recebo pelas frestas umas notinhas: "por que não dirige?", "por que não compra um carro?", "mas vai de novo para a Suécia?" [a Suécia, que é um país, é tratada como se fosse um bairro], "por que você não se mistura?", "você deveria continuar seus estudos", "por que não viaja para a Índia?", "por que não muda seu cabelo?" e assim por diante. Alguns não fazem por mal. Outros fingem que não fazem por mal. Por que manter contato com essa estirpe se você pode usar seu tempo para coisas mais preciosas como ler Montaigne, colecionar toda a obra do Laerte, costurar, cozinhar, assistir a filmes, aprender fotografia? 

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Aqueles que dizem a veganos que resgatam animais "vocês deveriam adotar crianças, e não cachorros" não adotam nem crianças, nem cachorros. Quando você estiver com as mangas erguidas, o rosto suado, procurando uma pausa na sua luta real (porque hoje tudo é luta; compartilhar figurinhas nas redes sociais é luta) para comer uma banana (e não um bicho morto qualquer que só é qualquer para alienados que acham "cultural" comer bicho morto), sempre haverá alguém, do conforto de um sofá, comendo uma pizza recebida em casa, para dizer que você está fazendo tudo errado. O mesmo alguém que não faz nada "porque não se pode fazer tudo". 

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Falei sobre isso no blog QUESTÕES VEGANAS e repito: a melhor forma de saber se um carnista considera, de fato, que não é hipócrita em sua comilança é colocá-lo, enquanto come sua carne, diante de cenas (com direito a áudio, claro) que indicam a procedência daquilo que ele come. Ele fica bem com isso? É um especista coração de pedra, mas pelo menos é coerente. Ele não quer ver, acha a ideia abominável, não vai conseguir comer o bacon se vir um porco sendo torturado e morto? Não sei como esse atestado de estupidez — "sou estúpido; execro o tratamento dado aos animais na indústria da carne, mas continuo comendo carne de olhos fechados, porque é melhor não ver" — não faz com que tais carnistas se sintam desgostosos dentro de sua própria roupa de pele, não sei como eles convivem com uma consciência tão pútrida. O pior cego é aquele que não quer ver. Eu posso assistir tranquilamente, enquanto me alimento, a vídeos mostrando a procedência e a colheita daquilo que estou comendo. É lindo ver uma cenoura sendo puxada da terra, é fabuloso ver a produção de uma cerveja. Não há dor, não há medo, não há sangue. Aos que estão tentando deixar de comer carne, um mantra: "que o capricho do meu paladar não seja motivo de desgraça para a vida alheia". 

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— Barbara, vamos a um churrasco? Podemos providenciar alguma opção para você. 
— Não, obrigada, bem nesse dia tenho uma convenção nazista para ir. 
— Sarcasmo de extremo mau gosto. Não devemos comparar a situação daqueles judeus com o hábito de comer carne. 
— É verdade, não tem como comparar. Sob o nazismo de Hitler, milhões de judeus foram mortos em seis anos. Sob o nazismo de todo ser humano comedor de carne, bilhões de animais morrem a cada ano por muitos anos. Perdoe meu cinismo. 

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Há professores que dizem inspirar senso crítico nos alunos. Então você dá uma espiada na aula deles e descobre que inspirar senso crítico é a mesma coisa que "fazer meus alunos pensarem o mesmo que eu". Se o inferno existisse, estaria cheio de professores. 

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Cada idioma tem suas dificuldades, especialmente quando não há regras para alguma coisa. Não ouso dizer que o inglês é fácil depois de penar tanto tempo com a pronúncia de certas palavras. A pronúncia do alemão pode ser aprendida em quinze minutos, por exemplo. Podemos não saber o significado de nenhuma mísera palavra em um texto escrito em alemão, mas após quinze minutos de objetivas explicações sobre pronúncia poderemos ler o texto de um jeito razoável. É possível conhecer a pronúncia antes de conhecer as palavras. Já no inglês, é preciso conhecer as palavras para só depois saber sua pronúncia. Nem sempre há uma regra e você pode escorregar se achar que pode encontrar uma lógica na sonoridade das palavras que vai conhecendo. Dinner, dinosaur, dirty: três palavras que começam com "di" e têm pronúncias muito diferentes. Se me entregarem um texto técnico (com vocabulário muito específico) em alemão, tenho quase certeza de que me sairei melhor na leitura do que se estivesse com o mesmo texto na versão em inglês — apesar de não saber nem contar até dez em alemão. 

*

Um forte abraço aos que leem. Prometo publicar ainda este ano os textos que devo. 

terça-feira, novembro 25, 2014

Canções 01


Novembro foi e está sendo um mês com muitas coisas para finalizar nas aulas. Tenho duas postagens começadas que terminarei depois. Uma sobre leões (mais especificamente sobre como carnistas atrasados e tapados tentam justificar sua comilança de carne usando leões como parâmetro) e outra sobre escravidão (sobre carnistas que têm pena de negros e dividem a época colonial em "negros escravos vítimas" e "homens brancos malvados" — divisão que, tristemente, não é apanágio somente de quem não entende de história, já que mesmo alguns historiadores resumem e simplificam sujeitos históricos em duas categorias: "os moços" e "os bandidos"; as pessoas se pensam altamente questionadoras quando defendem minorias de qualquer jeito, mas estão apenas sendo mal informadas ou provando a incapacidade de interpretar textos sobre a história da África). Não estou com muito espírito para escrever, mas tenho toda a alma que cabe em mim para indicar boas músicas que tenho ouvido ultimamente. Não é nenhum segredo que um dos poucos empregos realmente bons que existem seja o de radialista. 

SHE PAST AWAY 
Eu só conhecia uma música, Kasvetli Kutlama, e por causa dela já estava pensando em ir a um show deles na Polônia. Não fui porque o festival em que tocariam não valia toda a mudança de planos no roteiro e haveria uma grande chance de a banda fazer muitos shows nos próximos anos, quem sabe até no Brasil. Pois é, eles viriam para um festival que acontecerá ano que vem em São Thomé das Letras (MG), mas não virão mais, aparentemente por culpa do empresário, que fez algumas exigências absurdas e agiu de maneira "feudal", segundo o organizador do festival (o adjetivo é dele). Fiquei muito chateada. Viajarei em janeiro, mas não há nenhum show deles em janeiro para lugar algum. Parece que vai demorar um pouco para vê-los tocando. Eles são turcos, cantam em turco e têm influência de outras bandas que sempre tocam no meu quarto — exceto Alien Sex Fiend, que é uma banda que ainda não aprendi a gostar (não conheci nenhuma música que me fizesse querer ouvi-la de novo). Bom, talvez o problema esteja em mim e algum dia eu escreva para dizer que "agora adquiri a sensibilidade necessária para captar a magia das melodias do ASF". 
Deixo aqui a Sanri (no turco, sem pingo no i), mas recomendo várias outras como Belirdi Gece, Ruh, Içe Kapanis, Ritüel e Asimilasyon



CARCRASH INTERNATIONAL
O Wikipedia diz que a banda é de Londres. As músicas não são todas sensacionais, mas a banda já fez valer sua existência pelas magníficas Paradise Lost e Crash! De ontem para hoje já ouvi Paradise Lost mais de trinta vezes. 



FRONT 242
Uma banda velha que eu amo desde sempre. E este ano eu os vi tocando, cantando e dançando em Leipzig. Quando tocaram Take One, foi de chorar. Mas não chorei. Estavam todos dançando loucamente ao meu redor e eu ficaria muito fora de contexto. Quem "já ouviu falar" deve conhecer a muito conhecida Headhunter



CHICO BUARQUE
Costumo falar mal da MPB, mas não porque eu não goste dela. Gosto de muitas coisas; o problema é que os cantores que me desagradam quase me dão febre. Djavan, por exemplo, que é irritante e parece o Professor Pasquale na versão negra com trancinhas (reparem). (Pasquale não é irritante; é adorável e inteligentíssimo, só é pena que sempre me lembre o Djavan quando olho para ele.) Marisa Monte também é tão desagradável que nos faz querer matar um árabe na praia. Mas há coisas belíssimas nas obras de Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil e até Caetano Veloso (que devia só fazer música e não dar opiniões). Você vai me seguir, do Chico, é uma das várias dele que me agradam, uma música que é como um casaco de veludo num dia friozinho. 



NINA HAGEN
Antes de se tornar evangélica (felizmente não do tipo que tem cabelo até os joelhos e saias jeans até os tornozelos), Nina era uma figura excêntrica que me divertia muito. Algumas músicas e interpretações são hipnotizantes. Essa apresentação de Naturträne ao vivo nunca me cansa. A música é ótima e ela é uma bizarra. 



Agora vou tomar um chá de maracujá e estudar para uma prova. Talvez ouça Carcrash International mais uma vez antes disso. Um abraço aos que leem. 

sábado, novembro 01, 2014

Sexismo na linguagem, parte II


Na postagem anterior, fiz um breve comentário sobre o novo hábito que muita gente tem de escrever coisas como "todos e todas" sempre que vai se referir a um grupo onde há homens e mulheres. Indiquei o inteligente texto do Professor Cláudio Moreno, chamado Sexismo na linguagem, que explica com autoridade e didatismo a razão de podermos usar tranquilamente as tais palavras agora classificadas como politicamente incorretas por quem acha as coisas em vez de sabê-las. É deprimente ver que o princípio do pensamento científico não pauta o cotidiano de pessoas que, em sua maioria, frequentaram o ambiente acadêmico. 

O cientista levanta uma hipótese, que pode parecer absurda ou pode fazer alguma lógica num primeiro momento. Ele vai divulgar o que acha, o que suspeita? Não, ele vai pesquisar, testar, experimentar. Um cientista sério não vai a público para declarar: "parece-me que homens altos são melhores em matemática do que homens de baixa estatura". "Parece-me" marca presença no vocabulário do senso comum (que, vez ou outra, pode ter seu conhecimento testado pela ciência e acabar se mostrando certo), e não do juízo científico. Muito bem, pois parece-me que a pesquisa é tida como necessária mais nas ciências exatas e biológicas do que em algumas outras. Sem pudor e sem escrúpulos, "uma galera das Humanas" sai pelo mundo numa verdadeira cruzada contra "o que está estabelecido e oprime a todos e todas" sem, antes, fazer o dever de casa. Você suspeita que usar "aos palestrantes aqui reunidos" é errado porque não considera as mulheres palestrantes ou porque as deixa como coadjuvantes — e já passou pela sua cabeça consultar estudiosos para averiguar se o que você desconfia (sua hipótese) tem fundamento? Uma dessas coisas deve acontecer para que a ignorância petulante — sim, já que, agora, se não escrevemos "aos amigos e às amigas" ou "axs amigxs", somos tachados de machistas — tenha aparecido assim tão segura de si: 1. o sujeito se considera um filósofo-panaceia, que pode mudar, apenas com o resultado de suas divagações de final de semana, todas as regras do universo, inclusive as regras morfológicas da língua portuguesa; ou seja, megalomania: "não preciso pesquisar; desvendei isso aqui, sozinho, com a força dos meus sábios pensamentos"; 2. o sujeito é refém da reprodução, pois viu alguém admirável usando esses termos ou um professor ensinou que o genérico é excludente, e exclui justamente as mulheres; ou seja, não se desconfia de quem diz, já que esse professor "deve saber o que está falando". 

No caso do megalomaníaco, não sei onde está a cura. Se você questionar um arrogante que não fala nada com coisa nenhuma, tende a receber de volta uma porção de desvios de conduta para qualquer honesto debatedor. É melhor não se entranhar nesse tipo de ambiente hostil. Quem deduz conhecimento sem consultar os que realmente conhecem (estamos falando de estrutura da língua, e não de metafísica, afinal de contas) tende a participar de discussões tendo em mente o texto Como vencer um debate sem ter razão, do Schopenhauer (texto que ainda quero acreditar ser apenas sardônico). Em resumo, você receberá, tácita ou descaradamente, um "quem você pensa que é para me questionar?" Entrando nessa fria sem querer, você pode responder que é somente uma pessoa ciente do gigantismo da própria ignorância, e que por isso sempre procura pesquisar informações antes de passá-las adiante. Se a baixaria for maior e envolver títulos, você pode dizer que não precisa utilizar diplomas como bengala e que a fidedignidade da sua correção vem de reais diplomados, merecedores de seus títulos, doutores ou não, que foram à academia para aprender de fato, e não para sentar lá numa cadeira e esperar que o conhecimento aparecesse neles por meio de osmose. Nesse caso, é bom manter a paciência para as possíveis reações. Esses gênios que ainda não foram reconhecidos pelo mundo (devem achar que não são reconhecidos por causa de uma injustiça social) muitas vezes apelam para ironias, voz alta, gesticulação e outras manobras sensacionalistas a fim rebaixar o "oponente". Eu, particularmente, quando corrijo alguém, não faço isso para me opor à pessoa, mas ao erro dela. Corrijo assim como gosto de ser corrigida, porque, apesar de ter um ego como qualquer ser humano, não é por causa dele que busco obter conhecimento. Ser corrigido de modo polido não é vexatório. 

O refém da reprodução vive uma situação um pouco distinta, apesar de ainda envolver a falta de pesquisa. Ele acredita no que ensinaram a ele. Se for um professor, então, não há o que se questionar, porque como é que se vai questionar uma autoridade? Vamos ser francos: há autoridades e autoridades. Não dá para confiar em ninguém de olhos fechados. Primeiro, já vi "autoridades" (doutores!) dizendo que a palavra "aluno" significa "sem luz". Cláudio Moreno, uma verdadeira autoridade, explica que essa etimologia de preguiçosos está errada e que bastaria consultar um bom dicionário etimológico (ou um etimologista) para saber que a palavra vem de alumnus, da família do verbo alere (criar, alimentar) e "designa a criança que ainda precisa ser nutrida e cuidada" (veja as duas postagens do Sua Língua sobre isso AQUI e AQUI). Tive um professor doutor "marxista roxo" que disse, não uma vez ou duas, que a mais-valia absoluta era quando o burguês investia em inovações tecnológicas e a mais-valia relativa era quando o operário trabalhava x horas, mas somente x/2 eram para ele, pois metade (ou outra proporção) ia para o capitalista. Trocou os conceitos. Também conheci estudados que diziam que usar a cor preta, na fala ou na escrita, para caracterizar acontecimentos ruins era racismo, que a origem da ideia "a cor preta é negativa" era racista. Esses deuses de carne e osso adivinham a origem das coisas, das expressões e das palavras e perambulam por inúmeros coletivos ensinando desvarios a despreparados que apenas dirão "é mesmo? poxa" e perpetuarão um erro na primeira oportunidade. Como é que a cor preta associada a algo ruim pode ser um entendimento racista e discriminatório se mesmo em populações somente de negros a cor preta é associada a algo ruim? Estão dizendo que a cor da própria pele é negativa? Estão praticando racismo contra si há séculos? Ou estão apenas exercendo sua cultura e sua lógica de que a cor preta é a cor da escuridão, da noite? Uma coruja, adaptada à vida noturna, pensaria diferente. Uma coruja falante, ao reclamar sobre uma semana difícil na caça, diria: "a coisa está branca nos últimos dias". O politicamente correto é, muitas vezes, mórbido e parvo. 

Sobre as autoridades, mais uma importante consideração. A autoridade levada em tão alta estima é autoridade em quê? Nós sabemos que mesmo as autoridades especialistas — por exemplo, em ciências sociais, que era o caso do meu professor marxista — podem cometer erros grotescos. Cada área específica é muito ampla e nem sempre é possível saber quase tudo (é salutar, entretanto, ser honesto e admitir que não se sabe algumas coisas em vez de inventar respostas). Mas às vezes a gente crê em uma autoridade qualquer que opina sobre algo que não é da área dela. Quando você me diz "aluno significa sem luz, foi um professor da minha universidade que disse", eu tenho certeza que esse professor não é uma autoridade em etimologia. Ele pode ser autoridade em pedagogia, mas isso não o transforma em fonte de confiança para outras áreas que ele não domina. Não estou dizendo que é preciso "ser da área" para manifestar uma informação. Acredito no autodidatismo, por mais complicado que ele seja — e por mais que tantos autodidatas sejam tão mancos —, mas esse seria um caso excepcional. Eu, por exemplo, só posso dizer que sei o significado da palavra religião porque aprendi no blog do Gabriel Perissé. Posso passar esse conhecimento para meus pares, mesmo que eu não seja uma estudiosa de etimologia? Acredito que sim, se puder afirmar que minha referência é segura. Só que um doutor em Antropologia ou Direito Penal não pode sair por aí deduzindo o sentido primitivo das palavras se ele não procura estudar isso! Não estou brincando: há muito palestrante de corredor que abusa de sua autoridade num referido tema para dar pitaco em outros. E como ele pode dar pitaco em algo que desconhece? Ora, porque meramente supõe as coisas. Ele supõe que a escravidão acabou por algum motivo conspiratório, ele supõe que os Estados Unidos estão por trás da indústria farmacêutica quando uma doença nova atinge milhares de cidadãos, ele supõe que Hitler era vegetariano porque tinha compaixão pelos animais e ele supõe que ao se dirigir a uma plateia de homens e mulheres é um dever dizer "aos senhores e às senhoras aqui presentes, gostaria de dizer que os monitores e as monitoras já estão providenciando os devidos crachás de identificação para os convidados e as convidadas que comporão a mesa de jurados e juradas". Você pode manifestar suas ideias sobre um assunto que não está na grade curricular que acompanha o seu diploma. Mas estude para ter o direito de fazer isso. Não suponha, não se pense como um übermensch em relação aos reles demais que "não conseguem" deduzir "o óbvio" das coisas. 

As perguntas (nada imparciais, eu sei) que tenho para fazer àqueles que entendem mais da estrutura da nossa língua que qualquer gramático — e por isso acham que é possível alterá-la como se pode trocar um "y" por um "i" — a respeito do lunático sexismo na linguagem são: 

1. Devemos mudar o que está escrito em nossos livros? Um livro que foi publicado com o título Os historiadores deve se chamar, na próxima edição, Os historiadores e as historiadoras? Ou, então, Xs historiadorxs? Isso valeria para revistas? Numa reedição, teríamos Caros Amigos e Caras Amigas, ou Carxs Amigxs?

2. Se não forem "tão radicais" e acharem que passado é passado e devemos mudar somente os livros publicados daqui para a frente, qualquer literatura vai ter que se adaptar ao modismo infundamentado do gênero sempre bem definido? Quando um historiador escrever um livro sobre os persas, deverá intitulá-lo Os persas e as persas e usar essa cansativa dupla no decorrer de todos os capítulos? 

3. Para o exemplo anterior, digamos que o historiador, para não ser tedioso nem perder o estilo de seu texto (os politicamente corretos gostam de texto com estilo ou isso não importa muito?), resolva usar a expressão "o povo persa" para não causar controvérsia. Os que veem sexismo em tudo vão se erguer e dizer que "o povo" é um termo sexista e reivindicar o direito de a mulher, vítima sempre oculta na linguagem, mostrar sua grande presença aí? Nosso historiador deveria dizer, então, "o povo persa, composto por homens e mulheres", afinal, não deixar bem claro que havia mulheres nesse povo seria retrógrado e machista? 

4. Por que a escrita é muito mais cobrada do que a fala nesse sentido? Nós vemos os politicamente corretos se esforçando para escrever textos em que a mulher sempre apareça sem ser generalizada, mas as falas não seguem o raciocínio. Por quê? Seria interessante ouvir alguém falando, numa discussão comum, a frase utilizada como exemplo pelo Professor Moreno: "Para o bem de seus filhos e de suas filhas, os brasileiros e as brasileiras deveriam escolher melhor os candidatos e as candidatas em que votam". Sejam coerentes. Falem de modo a fazer a mulher aparecer no discurso oral também. Não digam "os políticos brasileiros são corruptos" para seus colegas de trabalho. Digam "os políticos brasileiros são corruptos e as políticas brasileiras são corruptas". Só utilizem as regras de concordância nominal que são justas com o sexo feminino. Nada de "os políticos brasileiros e as políticas brasileiras são corruptos". Isso é excludente, ofensivo e machista. 

5. Devemos mudar os dicionários? Nos dicionários os adjetivos e substantivos sempre aparecem no masculino. Devemos apresentar também o feminino? Ou devemos usar o hediondo x? Adjetivo amorosx. Substantivo alunx. 

6. Aos politicamente corretos feministas que creem em um único Deus: como vocês chamam essa entidade? Nós sabemos que Deus não tem sexo para os religiosos, mas também sabemos que Deus é uma palavra masculina, até porque vem acompanhada de frases como "e Ele viu que era bom". Ele. Portanto, em nome da justiça, como vocês se referem a Deus? "Deus ou Deusa"? Devemos, então, modificar a Bíblia? Ou, quem sabe, usar "Deusx". Mas como pronunciaríamos isso? 

7. É possível encontrar vertentes ainda mais aberrantes dentro de toda essa história. Por exemplo, na causa animal: vi esses dias alguém escrevendo sobre "o direito dxs animais". Por exemplo, num blog feminista: "carxs feministxs". Não sei exatamente o que perguntar a essas pessoas. Talvez: o que vocês estavam fazendo nos mais de dez anos que ficaram na escola tendo aulas de português? 

8. Vocês são contrários a outros idiomas que também não dão destaque à mulher? Devemos modificar os outros idiomas se quisermos aprendê-los e usá-los?

9. Quando alguém quer comentar anonimamente em um site e clica na opção "anônimo", vocês acham que também precisaríamos da opção "anônima" para o caso de se tratar de uma mulher ou é muito preciosismo? 

Espero que minhas perguntas não tenham reduzido ao absurdo o que já é suficientemente absurdo. 

Tantas coisas a se fazer pela genuína libertação feminina e estão ali, numa questão inócua, fazendo isso: destruindo a língua, o estilo de escrita, a clareza dos textos. Espero sinceramente que essa moda caia em desuso e um dia, daqui a muitos anos, apareça em alguma matéria bizarra da Mundo Estranho.

LEITURAS BREVES SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO
Professor de Língua Portuguesa da USP esclarece a origem de algumas palavras (dentre elas, "denegrir", que tem a ver com a cor negra, e não com a etnia negra) e argumenta por que um mundo politicamente correto teria que abolir também palavras como "cretino" e "estranho".

Uma interessante análise que encontrei na página da revista eletrônica Linguasagem, da UFSCAR. Destaco os parágrafos sétimo e oitavo.

Outro interessante texto que encontrei na internet, "Quando a intenção é só doutrinar", de Alan Oliveira Machado, professor (suponho que de língua portuguesa). Título muito bem escolhido.