quinta-feira, março 26, 2015

Breviário da alimentação, parte II


Dando sequência ao Breviário da alimentação (primeira parte AQUI), seguem mais alguns itens. Reitero que pesquisei muito para chegar a esses valores alimentares, mas, ainda assim, tudo reflete uma opinião pessoal baseada naquelas pesquisas. Passo para frente o que acredito ser uma boa ideia e espero poder contribuir para um pensamento melhor e mais consciente. 

ÁGUA – Confesso que ainda não consigo gostar de tomar água. Até sinto vontade dela após fazer uma caminhada no calor, mas na maioria das vezes, mesmo nesse caso, opto por tomar sucos. Se me virem tomando água, podem acreditar que estou me forçando. Não é um bom exemplo e acho bem interessante que exista gente nesse mundo que se delicie com água, mas abri esse tópico só para lutar contra um mito em que muitos acreditam, bizarramente: o mito de que a quantidade de água que precisamos ingerir por dia só vale se ingerirmos água pura. Primeiro, a quantidade de água necessária para cada indivíduo varia. Esses “dois litros diários” são apenas uma quantificação fácil que pode ser aplicada à média, mas não corresponde à necessidade de todo mundo. Segundo, se você toma chás e sucos, está ingerindo água, e essa água conta para que seu corpo se mantenha hidratado. Uma colega constatou que nunca me via bebendo água. Eu disse “mas tomo limonada, chá e suco de maracujá”. Ela disse que isso é diferente de tomar água, que é preciso tomar água. Eu disse “quer dizer então que se eu tomar agora um copo de água pura e comer um maracujá na sequência isso fará mudanças na minha vida que um suco de maracujá não faria?” Ela não teve resposta. Porque não haveria resposta para isso além de um “okay, é vero”. Geralmente, ao tomar água, alguma coisa já está dentro do seu estômago (um resto de frutas, um resto de almoço). Isso não vai destruir a pureza da sua água. O que acho, é claro, é que não devemos confundir líquidos saudáveis com líquidos quaisquer. Meus sucos da tarde (limão ou maracujá) não são adoçados. Alguém achar que está ingerindo uma bela quantidade de salutar água quando se entope de refrigerante é uma imensa tolice.

ÁLCOOL – Algumas pessoas abominam o álcool e dizem que ele é ruim em qualquer quantidade. Essas pessoas estão no seu direito de não ingerir álcool, mas inventar que ele é ruim em qualquer quantidade é passar por cima de diversos estudos científicos que dizem que um pouco de álcool faz bem ao organismo. Se médicos não divulgam essa informação é porque sabem que a população já possui sérios problemas com o abuso do álcool, e a simples recomendação “um pouco de álcool é benéfico” seria logo transformada em pretexto para grandes consumos. No ano passado, quando fui a um cardiologista para saber se tudo ia bem com meu coração, na entrevista antes dos exames ele me fez uma porção de perguntas. Uma delas era sobre meu consumo de álcool. Eu disse: “olha, na verdade eu tomo álcool quase todos os dias... mas em pequenas quantidades; tomo uma taça de vinho ou uma garrafinha de cerveja à noite”. Pensei que seria recriminada por beber quase diariamente, mas fui elogiada. Pois é. Ele disse esse é o jeito certo de tomar álcool – pouco – e que não adianta nada o bebedor ficar sem beber a semana inteira e depois beber todas no final de semana: aí o álcool é extremamente prejudicial. Imagino que por sobrecarregar o fígado. Para essa história, vale a máxima: “muitas vezes a diferença entre o remédio e o veneno está na quantidade”. Álcool deve ser ingerido com moderação e de acordo com o sexo. Homens podem beber um pouco mais (aproximadamente 300ml de vinho por dia, por exemplo) e mulheres devem beber menos (aproximadamente 150ml de vinho por dia). O problema é deixar de beber durante a semana para encher a cara no sábado. E outra: aquela história de que suco integral de uva tem exatamente o mesmo efeito positivo que o vinho (o que leva abstêmios a defender que todo mundo deveria substituir vinho por suco integral de uva) não é verdade. O álcool potencializa os efeitos bons das substâncias do vinho, sendo ainda melhor que o suco de uva.

BANANA – É a fruta perfeita. Calórica, doce, prática: você está no meio do nada e consegue comer uma banana sem precisar lavar as mãos, sem precisar lavar a banana, sem precisar cortá-la ou prepará-la. É a fruta da praticidade. Além disso, é rica em potássio, triptofano (componente que combate a depressão) e ainda contém ferro. Se tiver fome entre as refeições, não vá comer bolachas, bolos e pães. Vá comer frutas. A banana, por sua facilidade e sustância, é uma boa opção. Mas não coma somente uma banana para depois sair pelo mundo com a bandeira de que frutas não sustentam. Coma três ou quatro. Será mais saudável e menos calórico que aquele pãozinho francês branco com café.

COCO – Quando comecei a ler todos os tipos de embalagens para saber quais alimentos levavam, em sua composição, não-alimentos, tomei alguns sustos. O coco, por exemplo, que eu uso muito. Em suas formas ralada e leitosa, não há uma marca sequer que venda coco sem conservantes. Então você compra o coco fresco e descobre a razão disso: o coco fresco, após aberto, não dura muitos dias, mesmo que na geladeira. Eu tinha duas opções: passar a cozinhar com coco fresco ou continuar comprando coco com conservantes. Ocorre que não consigo mais comprar alimentos com conservantes se eu sei que há uma opção melhor, uma opção sem. Uso, hoje, somente o coco fresco. É trabalhoso lidar com ele? Muito. Mas é mais saudável e saboroso. Após abrir o coco com um martelo ou batendo no chão, a carne do coco ainda está presa à casca. Uma forma de fazer com que se solte é colocando no forno. Você deixa lá por aproximadamente quinze minutos e essa parte de dentro se desprende da casca com facilidade. Depois, é preciso retirar a partezinha marrom (uma casca mais fina) com uma faca. Como tudo isso é um pouco complicado, sugiro que se compre muito coco, faça-se tudo de uma vez só e depois se coloque os pedaços no congelador, para que dure meses. Quando precisar de leite de coco e coco ralado, basta bater com água no liquidificador. O líquido coado se transformará em um saboroso leite de coco, que pode ser usado tanto em receitas doces quanto salgadas, e o que ficar na peneira será o coco ralado.

ESSÊNCIAS – De rum, de baunilha... essências de supermercado, aquelas que vêm em vidrinhos, não prestam. Nenhum cozinheiro de mínima qualidade vai usá-las. Por quê? Porque são somente artificiais. A essência de baunilha da Dr. Oetker, por exemplo, não contém nada de baunilha. Ela contém: álcool etílico, água destilada, aromatizante e corante caramelo. A autêntica essência de baunilha, que pode ser feita em casa, tem um sabor muito melhor. A essência de amêndoas disponível no mercado também é uma falcatrua, além de ter um sabor nada parecido com o de amêndoas. Eu costumava usar a de rum, mas não usarei mais. Se uma receita fizer questão de cheiro de rum, vou adaptá-la para que leve um autêntico rum. No site Chubby Vegan, da gastrônoma vegana Nathalia Soares, há a simples receita de essência de baunilha caseira (clique AQUI). Fiz a minha com vodka e comprei duas favas de baunilha por 15 reais numa casa de produtos naturais. A garrafinha está lá em casa, repousando por um mês antes que eu possa usar sua essência.

GELEIAS E CEREAIS – A vida alimentar de uma pessoa ética e saudável não é complicada nem entediante se ela tiver uma real tomada de consciência. Pode parecer muita informação no começo, mas depois tudo se naturaliza. Minha alimentação é simplíssima: apenas optei por comer comidas que nutrem. E açúcar não é uma comida que nutre. Contudo, ele está liderando as listas de alimentos que participam de nosso cotidiano. A ordem em que os ingredientes aparecem na composição dos rótulos é decrescente em quantidade, lembre-se, e isso significa que um cereal matinal (vendido como fonte de energia porque é feito de milho e fonte de inúmeras vitaminas) que possui açúcar como primeiro componente da lista de ingredientes é, sim, uma bomba. Interessantemente, a maioria dos cereais matinais têm açúcar mais que qualquer outra coisa. O cereal Crunch, da Nestlé (marca que devemos boicotar, conforme defendi na primeira parte deste breviário), se vende da seguinte forma sintética: “muita crocância [sic] e o irresistível sabor do chocolate Crunch em um cereal feito com arroz, trigo e milho integral”. Isso é como eu fazer uma sopa com duas enormes abóboras, um alho e uma pitada de pimenta e dizer para meus convidados que a sopa é de alho com pimenta. Por quê? Porque o primeiro ingrediente do cereal Crunch é açúcar. Nem a cuca de farofa açucarada da sua avó, uma confeiteira obesa, tem mais açúcar que farinha, façanha que Crunch consegue realizar. O cereal da Nestlé – e de outras grandes marcas; não vamos permitir que ela também seja a monopolizadora da demonização –, vendido como opção saudável para um café da manhã cheio de energia, concede energia ruim, energia que não nutre. Essa regra não é difícil de adotar: não comprar alimentos que possuem açúcar como primeiro ingrediente. Geleias são outro problema nesse quesito. Elas se vendem como “de frutas”. Não estou nem falando do “doce de frutas” que vem em potes de plástico baratos, estou falando de geleias que vêm em vidros bem desenhados. Parece saudável, é de frutas. Mas nada como a prova dos 180 graus: vire a embalagem e leia se o primeiro ingrediente dessas geleias é fruta. Muitas vezes é açúcar. Eu não como pão diariamente – consequentemente como pouca geleia –, então me permito o luxo de comprar, vez ou outra, uma geleia francesa que o melhor supermercado da minha cidade importa, a geleia St. Dalfour. Um vidro custa 19 reais quando está na promoção (quando não está, 24) e os ingredientes são pura fruta. O último que comprei, de figo, tem como ingredientes: 50% figos, suco de uva concentrado, suco de limão e pectina (um gel, muito usado em compotas, que é retirado de frutas; uma forma de fazer pectina caseira é cozinhando a parte branca da laranja). Foi a melhor opção que encontrei, mas reconheço que o preço é alto e que talvez por causa das minhas pequenas escolhas refinadas eu nunca adquira uma casa própria. Se faz muita questão de geleias, pelo menos evite comprar aquelas em que o açúcar é o primeiro ingrediente. Ou aprenda a fazer em casa. Encontrei uma receita interessante AQUI.

MARGARINA – Quem deve se preocupar com a sua saúde é você. Não a indústria. Então por que tantas pessoas esperam bom senso alimentar da indústria? Quanto menos coisas processadas, industrializadas e cheias de ingredientes comprarmos, melhor. A recente ciência da nutrição parece complicada, mas não é (pelo menos não é para ser). Certos conselhos beiram o óbvio. Portanto, coloque de uma vez por todas em sua cabeça que não existe margarina saudável. Se um produto industrializado precisa ser enriquecido com n nutrientes para parecer seguro, algo fede. Os tomates que compramos não vêm com discursos de seus nutrientes num adesivo na casca: o tomate é nutritivo intrinsecamente (“oi, você já me conhece, sou o tomate, beijos”). Já boa parte dos produtos processados sente a necessidade de esconder seu lixo debaixo de um tapete de vitaminas (“oi, você não me conhece, então deixa eu vender quem sou falando sobre meus aditivos nutricionais”). Margarinas que fazem bem para o coração, bolachas recheadas que vêm com sete tipos de vitaminas – nada disso presta. Mas a publicidade da indústria é inteligente. Ela sabe que as pessoas têm preguiça de buscar informação, mas gostam de se fingir preocupadas com informação (ou “a informação é boa, desde que eu não tenha que me mexer muito para chegar até ela”). Um consumidor às vezes se preocupa com a saúde de seu coração. Mas a preocupação dele basta quanto vê um rótulo “pela frente”. Aquelas informações que estão na parte da frente dos produtos são as informações que a indústria sabe que você pode querer ler. E é nessa área que ela vai trabalhar. “Margarina que faz bem para o coração, com ômega-3 e óleos vegetais, além de vitaminas A, D e E”. Um consumidor incauto vai se contentar com isso e acreditar que está sendo amigo do próprio coração ao comprar essa margarina. Um consumidor desconfiado (e é esse o tipo de consumidor que devemos ser) vai virar a embalagem da margarina e ler todos os ingredientes listados naquelas letras fonte 4. É de arrepiar os cabelos. Em Regras da comida, livro de Michael Pollan que pode ser lido em três horas, há um conselho que deveria ser copiado em cada lista de supermercado: se eu não coloco os ingredientes estranhos de um produto diretamente nas minhas receitas (alguém cozinha com estabilizantes mono e diglicerídeos de ácidos graxos e ésteres de poliglicerol de ácido ricinoléico?), por que eu devo pagar para que uma empresa coloque isso na comida que eu compro? A indústria só apresenta a lista de ingredientes do que ela produz porque isso é norma. A parte em que ela pinta e borda com certa liberdade é a do rótulo principal. Desconfie do rótulo principal e passe a dar atenção ao que está escondido no seu produto. Lá está o que importa. Não sei como somos tão estúpidos para prosseguir no péssimo hábito de comer margarina. “Mas como vou fazer com as receitas que pedem margarina?” Substitua por óleo.

MORTE – O que a morte faz neste breviário? Ela vem pedir que a deixem em paz e parem de usá-la, impropriamente, como parâmetro. Às vezes as pessoas dizem coisas (mesmo pessoas inteligentes) que parecem parafraseadas do Barney Gumble. Por exemplo, essa história de “fiz isso e nunca morri” ou “minha avó fez aquilo a vida inteira e não morreu”. Estamos falando que açúcar em excesso faz mal, que o açúcar branco precisa ser evitado. Então Barney aparece para filosofar: “como açúcar todos os dias há trinta anos e não morri”. Há centenas de ações prejudiciais que as pessoas fazem e não devemos copiar – e o fato de elas não terem morrido por causa dessas coisas não deve nos motivar a mandar tudo às favas. A morte não deve ser nossa única preocupação: devemos nos preocupar com qualidade de vida. Grande parte das doenças que as pessoas adquirem se deve ao estilo de vida e à má alimentação. Há pessoas que vivem décadas com doenças. Estão vivendo, mas estão vivendo muito mal. Isso não é exemplo a ser copiado. Também não é exemplo usar casos raros como fórmulas. “Meu tio tem 80 anos, fumou a vida inteira e está vivo e bem de saúde”. Essa frase poderia ser dita por mim, que tenho mesmo esse caso na família. Mas eu jamais farei uma teoria aplicável a todos com base em uma pessoa. Meu tio fumante está bem, mas para cada raro fumante como ele que está bem (e acho que vale ressaltar que ele fuma palheiro, e não esses cigarros altamente industrializados) há milhares de pessoas que adoecem e morrem por causa do cigarro. Parece que não é só o futebol que precisa de um movimento pedindo bom senso. Mendigos estão por aí, sujos, com doenças, comendo restos das ruas, mas seguem vivos. Devemos nos inspirar?

PROGRAMAS DE CULINÁRIA – Não comendo animais e seus derivados, considero os atuais programas de culinária como shows de horrores. Às vezes os ingredientes de uma receita são tão nojentos que parece haver a mão de David Cronenberg na produção do programa. Felizmente, o canal GNT tem uma alternativa menos cruel e muito mais saudável, que é o programa Bela Cozinha, da Bela Gil, filha do Gilberto Gil. Ela não é vegetariana nem ovolactovegetariana, mas a grande maioria das receitas que ela faz não leva nenhum derivado de animais. Ela seria o que o HappyCow classificaria como mostly vegetarian. É uma salvação para quem procura receitas sem crueldade que sejam saborosas e saudáveis. Já fiz algumas receitas do programa e todas ficaram muito boas. No universo do YouTube também é possível encontrar interessantes canais de culinária, e eu, obviamente, costumo procurar vídeos de culinária vegana. Infelizmente muitos desses programas pesam a mão em ingredientes que eu evito, como a carne de soja, mas são opções interessantes de receitas para se fazer, quem sabe, uma vez a cada duas semanas. Até o João Gordo, ovolactovegetariano, tem um canal – o Panelaço – em que faz receitas vegetarianas para convidados conhecidos (mas não necessariamente ilustres: não há nada de ilustre em um alienado como Alex Atala). Na última edição, Gordo cozinhou um “peixe de tofu” para Mano Brown. O programa vale pelas receitas e pelos papos.



SHOYU – Esse shoyu da Sakura, esse popular do frasco pequeno e esguio, está te chamando de palhaço. Faça a prova dos 180 graus. O da Sakura leva água, sal refinado, soja, milho, açúcar, xarope de glicose, corante caramelo e conservador sorbato de potássio. Agora se pergunte como é que um molho de soja tem mais sal do que soja na sua composição e por que raios há açúcar e xarope de glicose entre os ingredientes. Sabemos que a soja deve ser evitada em diversas versões e que suas opções mais saudáveis são o tofu e o shoyu, mas quem ousará chamar esse shoyu de saudável? Consegui um bom (não excelente) shoyu numa casa de produtos naturais, da marca Daimaru. Ingredientes: soja, milho e sal. Michael Pollan parece estar certo quando diz que quanto maior a lista de ingredientes, mais problemático tende a ser o produto. 

PÁGINAS INTERESSANTES
Programa Bela Cozinha, com receitas online (os episódios completos podem ser vistos no site se você tiver certas contas de TV a cabo)

sábado, março 21, 2015

Montando uma biblioteca particular


Não tenho o hábito de visitar casas de pessoas. Nem tinha quando era mais sociável. Casas são universos particulares e refúgios – quando chego à casa de alguém, espero encontrar mais do indivíduo ali, seu mundo, seus móveis bem escolhidos, suas cores, seus livros, sua parafernália kitsch. Acredito que boa parte do meu desprezo com as casas alheias é porque elas são muito desinteressantes e decepcionantes. Chega-se à casa de um músico, por exemplo, e tudo o que se vê são móveis entediantes e os instrumentos básicos que ele toca profissionalmente. Onde estão os discos, os CDs, as dezenas de livros sobre música? Não estão. É algo que jamais entenderei. A casa, que era para ser o melhor sítio para alguém querer estar, é, na maioria das vezes, um ambiente inóspito. Não é um lar. É só um lugar para fugir da chuva e dormir. Quando se aprende a ser feliz na solidão, quer-se qualificar a solidão. Sua casa é a sua solidão: qualifique-a. 

Lembro que na época da minha primeira tentativa de faculdade eu visitava a casa de colegas do mesmo curso ou de cursos similares. Apesar de adorar coisas e a disposição das coisas de forma pitoresca e idiossincrática, eu ia a essas casas mais para ver que livros havia lá, pois já sabia que lares interessantes como organismos vivos eram peças de filmes, e não da vida real – pelo menos não da vida real que eu vivia, com desprezadores que enxergavam um mundo decorativo binário: ou se era muito rico com requinte e móveis modernistas, ou se era simplesmente pobre e a única opção seria comprar móveis de falsa madeira na cor amarela das Casas Bahia. Meus colegas, não sendo ricos, achavam que só poderiam montar um lar com feiuras de lojas populares. Já acostumada a essa situação – e não tendo coragem de soltar o que pensava: “por que não vai à loja de móveis usados e compra umas coisas velhas que, pelo menos, têm beleza e história?” –, eu ia conhecer essas casas esperando encontrar bons livros de bons estudantes que supostamente amavam a ciência à qual decidiram dedicar suas vidas. Bem, para essa decepção eu nunca estive preparada. Como é que um estudante de História ou pretenso amante da Antropologia não possui em casa alguns livros básicos, clássicos, referenciais? Como é que um estudante não se esforça para ter uma estante especializada para colocar os livros que o acompanharão por toda a vida? Quando achei parcos valiosos livros naquelas prateleiras frias, vazias, dramáticas, eram os livros que algum orientador “forçou” o sujeito a comprar para escrever uma monografia que prestasse. Aqui, reforço algo que sempre defendi: se alguém ou algo (professor, escola, profissão, status) precisa te obrigar a ler sobre um assunto que você alega amar, adorar, é porque você não ama nem adora esse assunto. Se você não é capaz, por livre vontade e sem interesses tacanhos, de devotar seu tempo a esse tal amor, não é amor. Foi lastimável encontrar penúria nas estantes de meus colegas de Humanas, e foi mais lastimável ainda quando eu comparei esse desleixo com a fartura que encontrei, por exemplo, nas estantes de pequenas damas do artesanato. Visitei, nesta minha breve vida de poucos passeios, as casas de inúmeras mulheres (jovens e senhoras) que tinham paixão por artesanato. As prateleiras delas tinham livros, revistas, recortes, fichários, cadernos com anotações, genuínas bibliotecas particulares dos trabalhos manuais. Não há um dia em que essas apaixonadas não passem namorando suas agulhas, alisando seus algodões, buscando um novo ponto de bordado. Você não espera encontrar um universo íntimo detalhista na casa de uma senhorinha, assim como não espera encontrar estantes desguarnecidas na casa de um humanista pedante – até descobrir, claro, antes tarde do que nunca, que certos pedantismos são escancarados ao se conhecer o lar de uma pessoa. O pedante pode se entregar no cotidiano – ou sua casa pode entregá-lo. E, não, nenhum desses personagens que critico escondiam suas nobres leituras em bibliotecas virtuais repletas de e-books.

Não sei se isso é problema de país emergente, mas ter que dizer às pessoas para que leiam – para que leiam, não para que leiam isso ou aquilo – soa patético. O Brasil pode ter várias qualidades que me fazem querer morar aqui a vida inteira, mas educação e cultura da leitura não estão entre elas. Nesta nação de atores preguiçosos, livros em casa só servem para fins bem delimitados: estudar para um concurso, dar uma aula, escrever uma tese. E o mesmo pacóvio que lê inúmeros livros só para escrever uma tese vai ficar chateado se, após anos de hospedagem na biblioteca da universidade, a tese dele não tiver sido acessada nenhuma vez – e dirá: “acho incrível como as pessoas não leem nesse lugar”. Sim, porque ele não é capaz de, por livre arbítrio, ler um clássico, mas a população acadêmica deveria se interessar em ler a tese dele, um estranho que só foi se doutorar para usar o doutoramento como argumento (ou apenas eu nesse mundo presenciei inúmeros abusos de título em que alguém foi tacitamente proibido de discutir com finos de altas titulações?). A cultura da não-leitura gera tantos percalços no cotidiano que, mais uma vez, nada se torna melhor, se você é um leitor de fato, do que se afastar dos outros. Na cultura da não-leitura, o indivíduo que lê um livro a cada três meses vai se exibir, vai achar que um novo livro é como um novo sapato que precisa ser percebido por outrem, vai palestrar. Tenho um colega de trabalho que leu dois livros em quatro anos. É somente desses livros que ele fala. Quando inicia o falatório sobre esses livros, diz “esses tempos li um livro que...”, mostrando a todos que a expressão “esses tempos” é mesmo muito vaga. Conclusão deste parágrafo: sobre livros e títulos, quem mais se exibe é o que mais insegurança tem. Precisar afirmar em demasia alguma coisa sobre si denota complexo de inferioridade. E não é por acaso que as pessoas mais arrogantes sejam as mais complexadas. Não interessa o que alguém diz sobre si, mas o que alguém faz com o que possui em si. Toda vez que vejo uma figura muito "exibida", penso que ela já foi uma criança. Hoje, adulta, vive para implorar atenção – “vejam como sou incrível!”, “por favor, vejam os cursos que fiz, vejam como estudei!”, “percebam quão peculiar eu sou!” –, e eu me questiono como teria sido quando criança. Melhor ou pior? Crianças estão sempre clamando atenção, reféns de suas carências explicáveis, mostrando a todos suas meias novas e dizendo que sempre vão a parques sensacionais. Crianças. Mas como lidar com adultos que não cresceram e ainda agem como se dependessem sempre da aprovação alheia e medem a própria felicidade de acordo com a reação que os outros têm sobre suas vidas? A ojeriza não vai embora, mas se mistura a um pouco de misericórdia quando percebemos que aquela pulga humana que não cala a boca e se sente tão necessitada de afeto já foi uma criança. Até um chefe esdrúxulo será melhor aturado se você pensar que há não tantos anos ele era uma miniatura. Exibidos precisam se exibir para sobreviver. Fuja deles, e, se não conseguir isso sempre, pense neles como crianças beiçudas que não amadureceram. 

Retomando após tantos devaneios: é preciso que todos tenhamos uma biblioteca particular que seja uma fonte do conhecimento que nos é atraente. A biblioteca permite releituras, organização das ideias. Você se recordará de uma descrição pessimista de Henry Miller sobre o mundo e reviverá aquilo em minutos: o livro está na sua estante. Em menos de um quarto de minuto achei o trecho que precisava de Trópico de capricórnio, coisa que seria impossível se eu não tivesse minha biblioteca pessoal: “Todos ao meu redor eram fracassados e, se não fracassados, ridículos. Especialmente os que haviam 'vencido'. Estes me faziam chorar de enfado”. (Muitos elegem Trópico de câncer como o melhor livro dele, mas eu discordo.) É impossível que um livro bom não dê vontade ao leitor de lê-lo de novo, pelo menos alguns trechos. Um livro valioso não é apenas lido como um panfleto de rua: ele é estudado, destrinchado, analisado com paixão e técnica. Quando alguém chega à biblioteca onde trabalho e doa um livro dizendo que ele é maravilhoso, sempre me pergunto: “por que está doando, então?” Ou essa pessoa tem uma cópia, ou o livro não é tão maravilhoso. Às vezes descubro que o “livro maravilhoso” foi doado porque o doador precisava de mais espaço em casa. Cada um com os critérios de avaliação do seu planeta, mas do planeta onde eu venho as coisas consideradas maravilhosas ficam conosco em vez de serem tidas como entulho que deve ir embora para dar lugar a uma televisão maior. Uma biblioteca particular – que pode ter tamanhos variadíssimos, dependendo dos assuntos de interesse e da quantidade de material publicado sobre eles (seu dono gosta de história de modo geral ou gosta de história das mulheres no Brasil Imperial?) – é uma prioridade. Eu não me imagino numa casa sem cama, assim como não me imagino numa casa sem uma pequena biblioteca.

Para montar uma biblioteca particular são necessárias duas coisas: um plano de leitura e um plano de compra. O plano de leitura deve ser feito pensando nos assuntos que te interessam. Nesse ponto, é salutar ponderar se o assunto escolhido é interessante apenas como uma curiosidade efêmera ou se você realmente está disposto a gastar tempo para dominá-lo à sua maneira. Livros podem ser belos objetos decorativos, mas decorar não é sua finalidade primeva, portanto não vale a pena adquirir livros sobre assuntos que não te satisfazem de verdade. “Sim, estou disposto a gastar meu tempo com este tema”. Já temos, aí, um início para um plano de leitura. Depois de definir os assuntos, que podem ser três ou dez e ficar espiralados, é preciso saber o que há sobre eles disponível. Se é algo para o qual você não terá a ajuda de um professor que já vem com o pacote de apostilas prontas e todos os infográficos perfeitos, uma leitura mais rasa no começo será melhor para não cair em ciladas em que facilmente os autodidatas caem. O autodidatismo é um brinco de ouro quando bem realizado, mas pode se tornar tão asqueroso quanto um montinho de cabelo escuro no ralo quando levado da forma errada. Há autodidatas que aprenderam a aprender e aprenderam a buscar o que é bom. E há autodidatas que leem qualquer coisa, sem critério, sem seleção, sem ver diferença entre Jorge Luis Borges e Paulo Coelho (acham que porque este se diz influenciado por aquele existe entre eles alguma conexão), sem saber que não se compra nem se lê (exceto se for para criticar) livro de editora ruim. Como saber o que ler sobre seu assunto querido se não há uma referência que abone ou desabone títulos? Usando os próprios livros como referência e lendo artigos na internet. Talvez você seja um aprendiz de leitor de História e não saiba muito bem quais historiadores deve ler. Compre livros sobre movimentos importantes dentro da História (livros sobre a Escola dos Annales, por exemplo) e lá você verá inúmeros nomes de historiadores graúdos que merecem leitura pelo excelente trabalho que fizeram. Compre livros gerais de boas editoras e esses livros quase enciclopédicos darão inúmeras dicas implícitas de “por onde começar”. Fazendo um plano de leitura, vale a pena visitar bibliotecas públicas, jogar o nome do assunto em livrarias virtuais (além de livros com aquele termo, essas lojas costumam fazer recomendações do tipo “quem comprou este livro também levou aquele outro”, que podem ajudar a conhecer mais obras que se tornarão possíveis leituras), ler resenhas na internet. Tendo o plano de leitura encaminhado – é bom lembrar que esses planos são sempre refeitos porque uns assuntos levam a outros –, já é possível estabelecer um plano de compra.

O plano de compra consiste em adequar seu orçamento pessoal à sua vontade de adquirir livros e organizar essas finanças específicas. O mito de que livros são caros precisa ser destruído. Chamar o ato de ler de um ato elitista porque “livros são caros” poderia fazer algum sentido se proferido por engenheiros e médicos, cujos livros custam mais de trezentos reais, mas acho que nem esses estudantes e profissionais reclamam tanto do valor dos livros quanto o leitor médio de Humanas e literatura. Literatura é quase uma piada de tão barata hoje em dia. Há centenas de clássicos popularizados em livros de bolso, e a versão é muito elogiável – bons tradutores trabalham para a L&PM Pocket, para a Companhia de Bolso e para a parceria Companhia & Penguin. Nessa seara, nenhuma desculpa será perdoada. Talvez alguns livros sejam mais caros (a coleção d'A Comédia Humana pela Biblioteca Azul, os livros de ficção da Cosac), mas basta que o comprador se organize financeiramente para adquiri-los. Suponho estar falando, aqui, com um leitor-comprador de poucos recursos, pois é claro que muitas pessoas podem comprar os livros que desejam no momento que desejam. E é para esse leitor pobre que continuarei falando, até porque é para ele que o plano de compra faz sentido (um leitor rico precisa planejar apenas suas leituras, e não suas aquisições). O leitor de poucos recursos precisa pesquisar. 

Com o plano de leitura em mãos, é hora de pesquisar o valor dos livros. Você pode anotar ao lado de cada livro o valor mais barato que encontrou e onde o livro estava por aquele valor. Dependendo do orçamento mensal destinado a qualificar sua biblioteca particular, é possível comprar alguns livros por mês. Digamos que você consiga destinar apenas 60 reais por mês para comprar livros. E gostaria de comprar aquele livro do Jung pela editora Vozes que custa 80. Você pode aguardar mais um mês para tê-lo ou pode abrir mão de alguma trivialidade que libere 20 reais para completar a compra se a vontade de ter o livro for uma emergência. Com um orçamento baixo, eu recomendo, se possível, que espere algum tempo para poder efetuar uma compra maior. Tenho no meu e-mail uma pasta chamada “COMÉRCIO”, onde estão listadas uma porção de coisas que preciso comprar, principalmente livros. Quando um livro me interessa, escrevo um e-mail para mim mesma e depois o movo para essa pasta. A lista vai aumentando, mas o meu anseio pode esperar, já que eu tenho em casa muitos livros não lidos e muitos livros que precisam ser relidos. E o anseio espera até que alguma livraria virtual apresente promoções. Não é raro que essas livrarias façam promoções do tipo “12% de desconto no boleto” e/ou “frete grátis nas compras acima de 199 reais” (não mais tão comum hoje em dia, há também a promoção do desconto progressivo: quanto mais você compra, mais desconto consegue, sendo acima de quatro livros um grande desconto fixo, geralmente de 20%), então sempre vale a pena esperar para comprar certos livros nesses casos, principalmente livros não tão badalados que estão sempre pelo mesmo preço e só sairão mais barato com esse tipo de desconto dado no valor total do carrinho. Em quatro meses, o personagem hipotético do orçamento de 60 reais terá guardado 240 reais. É possível fazer uma bela compra com esse valor, principalmente considerando que as lojas costumam dar frete grátis para um valor como esse. 240 reais não é muito dinheiro, mas permite a compra de nobres livros – o que faz desmoronar a teoria do derrotista indolente sobre livros serem caros. Livros que hoje eu poderia comprar com esses 240 reais: 

Compreender Schopenhauer, Jean Lefranc 30 reais
Aleijadinho e o aeroplano, Guiomar de Grammont 30 reais
Gilberto Freyre, um vitoriano dos trópicos, Maria Pallares-Burke 50 reais
Freud – mas por que tanto ódio?, Elisabeth Roudinesco 22 reais
O brilho do bronze, um diário, Bóris Fausto 36 reais
Anna Kariênina, Tolstói 51 reais
As aventuras de Pinóquio, história de um boneco, Carlo Collodi 20 reais

Sete livros aparentemente bons, de excelentes editoras (Vozes, Cosac, Civilização Brasileira, Zahar, Unesp) e que custaram 239 reais. Tem gente que gasta esse valor num dia indo à praia (pelo histórico de postagens, imagino que eu pareça ter birra de praia, mas na verdade é só uma perseguição à cultura estranha da praia que impera aqui em Santa Catarina) e depois vai dizer que não lê porque livros são caros. Tem gente que compra esses livros sem reclamar, enriquece o espírito e vai montando aos poucos uma biblioteca particular que é um tesouro muito personalizado. 

Uma maneira de pensar se sua casa ou sua biblioteca particular são uma representação de você é imaginar alguém que te conheça muito e um dia chega à sua casa, sem saber que é a sua casa e sem você lá. E essa pessoa é questionada: “de quem você suspeita que seja esta casa?” Você gosta de jardinagem e haverá livros sobre o assunto nas prateleiras; você se interessa pela ética que considera animais e haverá livros de Peter Singer, Tom Regan, Gary Francione e Sônia T. Felipe todos juntos numa seção; há dezenas de livros de literatura africana porque você está realizando um estudo pessoal sobre os diferentes tipos de histórias fictícias criadas no continente; e há, ali, alguns livros e dicionários de francês. Uma pessoa que conhece o patchwork de interesses que te transforma numa peça única saberá que aquela estante só pode ser sua. Essa é uma biblioteca rica e especializada que faz sentido. Monte um refúgio que faça sentido. 

Como procuro dar conselhos que já sigo, não será nenhuma novidade se eu disser que meu quarto é uma extensão de mim. Transformei-o em um lar, em um espaço que me abraça toda vez que eu entro e diz: “bem-vinda de volta, aqui você estará bem”. E realmente estou. É aqui que está meu universo importante, é aqui que eu coloco o que é valioso para mim. Transformar este espaço em aconchego significa dar ainda mais vontade de que eu volte a ele. Será que muitas pessoas odeiam ficar em casa justamente porque suas casas não representam nada e não possuem atrativos para o corpo e a mente? Talvez. Mas esse pode ser um problema mais interior do que o interior da própria casa: de nada adianta uma morada fabulosa se você não consegue se fazer fabuloso dentro dela porque odeia a si mesmo. Uma biblioteca particular gigantesca e belíssima não resolverá o problema de quem não suporta a ausência de movimento mundano e montou uma biblioteca só por colecionismo. Um livro bom não servirá para nada sob as lentes erradas. Da mesma forma, o meu mau julgamento talvez não mereça alcançar todas as pessoas que possuem casas tristes e bibliotecas acabadas, pois talvez sejam leitoras até bem-intencionadas, mas que não pararam para refletir que ler um livro por mês de uma biblioteca pública não basta para se sentir a plenitude de uma relação íntima com o conhecimento que vem dos livros. Não é nenhum sacrifício fazer de sua casa um lar onde você queira sempre estar. Só digo isso porque testo o quanto um lar muito particular faz bem à minha vida, à minha lucidez. Nossas mentes e nossos lares são lugares que não podemos deixar corromper.



quinta-feira, março 12, 2015

Breviário da alimentação, parte I


Comer é um ato político. Alguns optam por comer de forma alienada (não querem saber a origem dos alimentos, não percebem o potencial medicinal de cada opção colocada no prato), outros pensam a refeição como um momento precioso para exercitar inúmeras importâncias: se o prato tem sangue, se aquele alimento gerou sofrimento, se o corpo precisa do que está sendo ingerido ou se é somente para satisfação ligeira do paladar, etc. Às vezes leio textos feministas na internet. Textos de feministas que são churrasqueiras e defendem seu direito de serem obesas que comem bacon. Educadamente vou ao setor dos comentários e peço que reflitam se os animais não merecem ser considerados as maiores vítimas de opressões, se as vacas estupradas para produzir leite não deveriam receber consideração por parte de feministas que se dizem contra o estupro. O que recebo como resposta são sempre desculpas rasteiras. A mesma desculpa que um machista usa para não levar o feminismo em conta é a desculpa que as feministas usam para não levar a abolição animal em conta. “Isso não é para mim”, “Ainda não estou no meu momento” e “São questões diferentes” são algumas das justificativas. Talvez o feminismo também não alcance um homem – ou mesmo uma mulher – que pense “isso não é para mim”. Talvez aquele machista tão criticado por essas mulheres, vigorosas em culpar somente homens pelo machismo (um homem machista merece aniquilação; uma mulher machista merece um abraço, uma compreensão e uma explicação), também não estejam no “momento” deles. E as questões devem parecer diferentes por mera culpa da gula. Até quando o criminoso ato de comer terá que esperar momentos de pessoas que já sabem a procedência daquilo que comem? Quem não se enxerga como parte do problema sempre pede calma; quem é vítima sempre tem pressa. Antes de mais nada, ao cozinhar ou montar seu prato, pense se não está cometendo um crime moral.

Depois de pensar se não está cometendo um crime moral quando se alimenta, pense se não está cometendo um crime contra seu corpo, que é tudo que você tem. Quando paramos para refletir que nosso corpo é tudo o que temos, automaticamente deduzimos que essa morada deve ser bem cuidada. Schopenhauer diz, em Aforismos para a sabedoria de vida, que a saúde deve vir à frente de outras preocupações, pois sem ela não é possível estar completo mesmo intelectualmente, e cita a máxima: “um mendigo com saúde é mais feliz que um rico doente”. Se eu tiver dores pelo meu corpo, não terei um humor agradável, não conseguirei ponderar bem as coisas, talvez serei uma pessoa facilmente irritável. Acontece que muitos problemas corporais que temos são de nossa inteira responsabilidade. Gosto muito da imagem de uma feira de frutas e verduras com a placa “farmácia” em cima. Pensar o que se come, ler rótulos, aprender a cozinhar são atos de amor com você mesmo. Comer é um ato político (ou apolítico para aqueles que don't give a fuck for anything) e um ato de amor (ou de ódio para aqueles que pensam mais em dinheiro que no próprio bem-estar ou simplesmente não enxergam seus corpos como seus mais valiosos bens). O que a sua comida diz sobre você?

O breviário da alimentação que posto abaixo reflete os alimentos que são importantes para mim e também questões alimentares que procuro perpetuar entre aqueles que estimo. Aos poucos tenho aprendido, de forma amadora, os valores daquilo que comemos. Também critico alguns itens que ouso chamar de alimentos por mera convenção social, já que os considero lixo.

AÇÚCAR – É esse vilão todo que dizem que é. Nosso corpo não tem capacidade de processar a absurda quantidade média que ingerimos por dia. Também é um elemento que estraga o paladar. Sabe aquele sujeito que come doces muito doces todos os dias? Ele não percebe o sublime doce de uma fruta como a manga ou a banana porque seu paladar já está viciado, para ele essas frutas não têm tanta “graça”. Açúcar vicia e deve ser evitado. No dia a dia, deve ser substituído por suas versões menos prejudiciais, como o açúcar mascavo e o melado.

AMINOÁCIDOS ESSENCIAIS – Aminoácidos formam proteínas. E proteínas formam nosso corpo. De onde vegetarianos tiram seus aminoácidos essenciais? De felizes combinações como arroz e feijão, milho e feijão, dentre outras. A informação de que aminoácidos essenciais podem ser obtidos numa alimentação vegetariana é encontrada em diversos livros de biologia respeitados, como o do Neil Campbell.

AZEITE DE OLIVA – Já não sei temperar saladas sem ele. Esquentado, perde seus nutrientes, mas às vezes eu o uso em pratos quentes por causa do sabor (gosto de refogar cebola e alho nele). Felizmente, na forma natural e de maneira moderada só faz bem, e deveria ser consumido por mais pessoas. Parece uma informação básica, mas darei porque já vi doutores que não sabiam: azeite deve ser comprado de marcas renomadas e as embalagens devem ser de vidro escuro (a luz prejudica o azeite). Costumo comprar Andorinha ou Filippo Berio.

BOLACHA RECHEADA – Pior do que ver uma criança comendo bolacha recheada (negligência dos pais práticos que têm preguiça de preparar um lanche decente para seu herdeiro e usam a desculpa da falta de tempo... quando parecem ter bastante tempo para invejar a vida alheia e forjar felicidade nas redes sociais) é ver um adulto comendo bolacha recheada (o que diabos há com o seu paladar?). Açúcar branco e gordura hidrogenada são dois ingredientes grandes que aparecem na receita dessas bolachas, vindo depois apenas da farinha. Bolacha recheada acrescida de vitaminas não passa a ser saudável. O que as empresas mais estão fazendo nestes tempos confusos é amenizar lixo com vitaminas para que você não se sinta tão culpado de comer lixo ou oferecer lixo para seus filhos.

CARNE – É tão necessária para nós quanto um celular era necessário para o homem das cavernas. Conselhos Federais de Nutrição, Órgãos Internacionais de Nutrição e o Ministério da Saúde dizem que uma alimentação vegetariana bem planejada é satisfatória e saudável. Por que eles dizem “bem planejada” para a alimentação sem carne? Porque é a alimentação diferente, “novata”. Uma alimentação com carne também precisaria ser bem planejada para ser considerada saudável. O mais engraçado a respeito da importância do valor nutricional das carnes é que quando você se torna vegetariano todo mundo parece, abruptamente, se tornar preocupado com nutrientes. Aquele seu colega que come comida congelada quase todos os dias, macarrão instantâneo, pratos gordurosos e toma refrigerante passa a ser um ativista dos aminoácidos essenciais e da proteína. Carne no prato nos dias atuais, com tantas facilidades, opções e informação, é um atestado de indiferença, arrogância e estupidez.

CERVEJA – It's so good, it's so good.../ I'm in love, I'm in love...* Há pessoas que admiro e vivem sem, como os straight edge. Há pessoas que não admiro, vivem sem e querem palestrar sobre (cometo alguma imoralidade tomando álcool?). Após deixar de achar, há alguns anos, que é bom ficar bêbado (hoje, acho desastroso e incômodo; acho que esses sujeitos que dizem “ficar legais quando bêbados” são lendas), passei a aprender a saborear cervejas. Meu passado sobre elas é muito condenável e pago minha pena toda vez que me questiono “como pude fazer isso comigo?” ao passar por propagandas da Antarctica. Das baratas, a Heineken é a menos pior, mas só a tomo em casos extremos, porque minha querida do momento é a Eisenbahn, que respeita a lei da pureza alemã (segundo a qual a verdadeira cerveja leva somente água, malte de cevada e lúpulo) e é da minha cidade. Budweiser é uma falsa boa opção, porque parece açucarada e contém cereais não maltados na composição (ou seja, milho, arroz... quem é que aprecia uma verdadeira cerveja e vai gostar de cerveja de milho?).

CRUDIVORISMO – Tipo de alimentação que só aceita alimentos crus ou esquentados até no máximo 42º C. Por quê? Porque crudívoros acreditam que as enzimas benéficas dos alimentos morrem em altas temperaturas, as mesmas enzimas que fariam o corpo funcionar de forma mais harmoniosa. Eu tinha uma visão deturpada desse tipo de alimentação: via crudívoros como pessoas que só comiam frutas, principalmente bananas. Hoje eu sei que é possível fazer lindos banquetes crudívoros. Minha alimentação, hoje, pode ser chamada de semicrudívora, pois eu como aproximadamente 70% de alimentos crus e só 30% de alimentos cozidos em quase todos os dias (nos finais de semana acho que tenho sido 50/50). Esses dias fiz meu primeiro “cheesecake crudívoro”, com base de castanha de caju, cuja receita peguei em uma página americana (as melhores receitas de bolos crudívoros estão em sites estrangeiros). Minha família saboreou e ficou com a alma tocada. Nunca recebi tantos elogios da minha mãe em toda a minha vida. O bolo ficou simplesmente maravilhoso; se eu oferecesse para estranhos, eles não acreditariam nos ingredientes daquela dádiva. O doce do bolo vem das frutas e do agave (adoçante extraído de plantas parecido com o mel). Um novo universo de sabores magníficos e sadios. Mas fazendo pesquisas sobre o assunto pude ver que esse tipo de alimentação é bem controverso. Há muitos médicos e nutricionistas que recomendam que comamos alimentos crus, mas rejeitam a ideia de que devamos comer somente alimentos crus. Parece fazer sentido, de acordo com algumas fontes respeitadas que busquei. Portanto, do jeito que estou fazendo acredito que está mais do que bom, até porque tenho me sentido muito bem.

DIETAS – É preciso cautela com dietas. Nem me refiro às dietas parvas que muitas famosas adotam para parecerem saídas de campos de concentração. Estou falando de dietas de pessoas que buscam saúde. Nós sabemos que de tempos em tempos alguém elege um novo vilão alimentar e o coloca como a razão do boom da obesidade e a grande causa das doenças. Mas não dá para acreditar que apenas farinha ou apenas açúcar farão estragos abomináveis em organismos tão complexos quanto nossos corpos. Quem come muita farinha, muita gordura ou muito açúcar está propenso à obesidade, mas se esse indivíduo comer pouca farinha, pouca gordura e pouco açúcar dificilmente se tornará obeso. Sobrepeso aparece nas pessoas quando elas comem mais do que precisam para se manter ativas e mais do que gastam diariamente. Mesmo alguém que não come farinha, açúcar e gordura animal consegue se tornar obeso: basta comer quilos de abacate, por exemplo. Acho que não devemos comer gordura animal, precisamos evitar ao máximo o açúcar e reduzir a ingestão de alimentos que levem farinha. Só não acho que radicalizar o mal desses alimentos no que se refere à nutrição (gordura animal, para mim, está atrelada à ética, mas eu não posso chegar para alguém e dizer que comer peixe não criado em cativeiro será prejudicial à saúde) seja razoável do ponto de vista científico. Estudozinho aqui e estudozinho ali qualquer lunático pode encontrar para embasar suas filosofices alimentares. Sugar blues e Barriga de trigo são livros interessantes e valiosos. Até o ponto em que os autores começam a se referir aos ingredientes estudados como a nova peste negra.

FARINHA DE MANDIOCA – Honey, you are my shining star/ Don't you go away...* Farinha de mandioca para acompanhar feijão e arroz é o que há. Somente com feijão (sem arroz ou outro imenso carboidrato) é ainda melhor do ponto de vista nutricional. Além de ela ser boa pura, também fica cintilante em farofas. Costumo fazer uma farofa rapidíssima que é muito boa: refogo uma cebola picada em cubinhos em cinco colheres de azeite de oliva. Quando a cebola começa a ficar transparente nas bordas, coloco a farinha de mandioca (de preferência a tipo “biju”, flocada) e mexo bem. Depois acrescento sal e uma cenoura pequena ralada. Deixo tostar um pouco e a farofa está pronta.

FEIJÃO – Meu preferido disparado é o pretinho, mas todos os tipos são altas fontes de proteínas. Onívoros culturais costumam questionar vegetarianos sobre suas fontes de proteína, e o feijão (preto, carioca, grão-de-bico, lentilha, ervilha, azuki, etc.) é uma boa resposta. Mas talvez você tenha o mesmo problema digestivo que eu tinha com o feijão. Um modo de amenizar isso é cozinhando da forma que eu cozinho. O feijão possui uma substância que inibe a absorção de certos nutrientes pelo organismo. Para se livrar dessa substância, é preciso deixar o feijão de molho. Isso fará que com que a substância vá embora, com que a digestão do feijão seja mais leve e com que você sofra menos de gases. Em casa, escolho o feijão e depois o lavo umas cinco vezes para que fique bem limpinho. Depois eu o deixo de molho por no mínimo oito horas, geralmente à noite. Escorro a água e lavo o feijão novamente. E só então o coloco para cozinhar. Como não uso panela de pressão, o feijão leva horas para cozinhar na panela comum, mas é preciso que ele cozinhe bem, pois feijão mal cozido também atravanca a digestão.

MARCAS – Por que comprar tantas coisas que vêm em pacotinho e por que comprar tantas coisas de grandes marcas? Criticamos o monopólio empresarial, mas vamos ao mercado e não percebemos que engordamos a conta de grandes empresas – que buscam monopólio, enganam o consumidor, estão vinculadas a casos de trabalho escravo, queima de florestas e morte de orangotangos, como é o caso da Nestlé. Boicote essas grandes marcas que vendem lixo em forma de comida e não se importam com questões básicas sobre o bem-estar de pessoas, do meio ambiente e dos animais. Há marcas renomadas que são muito melhores, mas menores, e são facilmente encontradas em grandes redes de supermercados, como a Jasmine e a Mãe Terra. Não adianta resmungar sobre trabalho escravo na internet e achar ruim quando uma empresa enorme compra uma empresa pequena que parecia tão boa. O boicote é a melhor arma do consumidor consciente.

NOZES – As minhas preferidas são do tipo “pecã”, que têm o sabor característico de noz bem acentuado. Em receitas doces, são as que combinam mais, a não ser que a receita especifique outro tipo de noz. Suas propriedades se estendem em uma longa lista.

ORGÂNICOS – São injustamente chamados de caros. Cara, para mim, é uma coisa que tem baixíssimo custo de material, baixíssimo custo de mão de obra e depois vai parar na prateleira com um preço exorbitante. Tênis de grandes marcas feitos no Vietnã, Índia e China são bons exemplos de coisas caras. Alimentos orgânicos são produzidos em menor escala e são muito mais difíceis de manter. Experimente você plantar algumas variedades de legumes em casa sem utilizar produtos químicos. Ao final da experiência – se ela tiver dado certo; se você teve a paciência necessária para tal empreitada – vamos ver se a sentença “orgânicos são caros” será repensada.

REFRIGERANTE – Além de eu o achar nojento porque não é nutricional e contém excesso de açúcar, fico embasbacada como as pessoas podem realmente apreciar o sabor disso. É absurdamente doce, dá sede e o fundo tem gosto de remédio. Como já dito, o paladar viciado é lamentável, porque não percebe mais o sabor das coisas naturais e precisa apelar, para se sentir satisfeito, a essas bombas como refrigerantes, bolachas recheadas, etc. Crianças não deveriam tomar. O paladar infantil está em processo de formação e é influenciável. Talvez eu só tenha esse asco supremo por refrigerantes porque na minha infância eles eram raríssimos.

SUCOS – Devemos dar preferência a sucos que usam a fruta praticamente inteira. Um copo de suco de laranja precisa de cinco ou seis laranjas para ser feito. A fibra, contudo, vai embora. Boas ideias de sucos: maracujá, manga, mamão, maçã. Em casa eu geralmente misturo as frutas. Meu suco das 10h30 (o horário em que costumo acordar) costuma levar banana, mamão, couve e chia, mas há centenas de receitas de sucos poderosos que fazem combinações adequadas e são saborosos. Acho muito estranho quando colocam açúcar em sucos (exceto o de limão), e ao frequentar uma casa de sucos da minha cidade percebo que isso é mais frequente do que eu podia supor. Para quem tem preguiça (a mãe dos pecados!) de fazer sucos em casa e gostaria de uma opção realmente saudável disponível no mercado, recomendo os sucos integrais de uva. Procure por garrafas de vidro e marcas que não acrescentem conservantes.

VINHO – Nada melhor do que chegar a casa depois do trabalho, tomar um banho, abrir uma garrafa de vinho e bebericar um cálice ouvindo um disco na vitrola. Estou começando a aprender a tomar vinho por causa da minha última viagem para a Europa. Antes, eu tomava vinho tinto seco da Campo Largo e achava que isso era o que bastava. Até que um dia, num restaurante vegano, pedi um cálice de vinho que tinha descrição e ano (algo importante para um entendedor de vinhos, ou seja, algo alienígena para mim). Bebi, amei, repeti a dose, voltei ao restaurante dois dias depois, pedi o mesmo vinho classudo. Dias depois, em outra cidade, em outro restaurante vegano, havia no cardápio um vinho que se chamava apenas “copo de vinho”. Para um entendedor de vinhos, isso seria motivo para se levantar, dizer umas boas e ir embora. Para mim era apenas o retorno ao meu velho estilo de não me importar com vinhos. Pedi e achei quase pavoroso. Meu paladar gravou tão bem o gosto do vinho com descrição e ano que aquele mísero “copo de vinho” parecia um vinho de maloqueiros que bebem álcool na calçada. Foi o click que me despertou e hoje reservo uma partezinha do meu salário para me dar ao luxo de conhecer bons e autênticos vinhos. Ainda não posso fazer indicações. Talvez num futuro próximo.

Postagem com possível continuação.

segunda-feira, março 02, 2015

Rápidas e soltas 03


Dentre meus mais importantes princípios de todos os tempos está o de ponderar. E ponderar fora do pacote. A liberdade de pensar fora de um pacote é como respirar após quase morrer de asfixia. O que são os pacotes? Podem ser qualquer coisa que se vista como uma ideia completa, cheia de raízes, que você “precisa” adotar para poder estar situado. Muitas vezes quem adota esse combo ideológico na sua forma mais rústica, sem nenhum remendo ou aparo, costuma escrachar os rejeitadores de pacotes como apolíticos, amorais e outros adjetivos rebaixadores. Os adjetivos, claro, podem ser verdadeiros (talvez eles tenham como alvo alguém que realmente seja apolítico), mas em boa parte dos casos são apenas rabugices de reizinhos com espadas de papelão tentando uma posição ainda mais elevada, a posição daquele que “dá nome aos bois”. Não comprando os combos ideológicos, não sou esquerda nem direita. Mas leio ambas as partes. Mas pondero o que cada uma tem a dizer. Concordo com algumas coisas, discordo de outras. Sou a feliz e estranha pessoa que os direitistas chamam de esquerdista e os esquerdistas chamam de direitista. Quem está com a razão? Todos estão enganados. E não faço isso porque não quero colocar minha mão no fogo por uma causa. Causas genuínas dentro desses grandes pacotes são abraçadas por mim. Apenas não vou aposentar meu anseio de conjecturar só porque alguns pensam que quem não é por nós é contra nós. Eu leio tudo, e, principalmente, não tenho medo de ler opiniões que são opostas às minhas. Faço questão de sabê-las. E rumo a elas tentando entendê-las. Quem lê um livro que trata de assuntos variados e apenas considera aquilo que já pensava (“vou procurar neste livro ideias que eu já tenho na minha cabeça, só que aqui elas estarão mais organizadas, teorizadas”) precisa amadurecer. Quem só lê aquilo que ratifica as próprias ideias também precisa amadurecer, mas precisa antes parar o processo de alienação. Há um universo fora do seu pacote ideológico. Tente entendê-lo para reciclar a morada dos seus pensamentos.

*

Sou feminista. Mas feminismo delirante não me representa. O neofeminismo que procura chifres em cabeça de cavalo não escreve em meu nome, não pactua com as minhas ideias de seriedade, ação-em-si e relevância. Há quinhentas questões feministas que merecem estar na ordem do dia. Mas passamos semanas vendo moças tomadas pela insânia reagindo diante de uma propaganda tola da Skol. Uma propaganda que não falava de mulheres, não falava de sexo, não colocou um balãozinho “hoje esqueci o não em casa” na boca de uma curvilínea de biquíni. As duas jovens “revolucionárias” que mostraram símbolos do pênis em frente às propagandas da Skol (o dedo do meio não é um pênis?) saíram na internet gritando “o rei está nu!”, e quem não visse a nudez do rei era estúpido demais para não enxergar tamanha opressão. Lamento pelo feminismo que patrulha tudo, vitimiza tudo e quer moderar mesmo propagandas que não atacaram nenhuma mulher. Lamento pela extrema banalização da palavra “opressão”. Lamento pela ausência de questões relevantes no topo da pauta de reivindicações. Se a Skol merecia algum protesto, era por vender uma cerveja tão lixosa, que, nas palavras de um cervejeiro cuja entrevista li numa revista sobre cerveja, “só serve para ficar bêbado”. Continuo feminista, por óbvio. As adoradoras de pacotes inteiros podem continuar achando que eu é que não sei decifrar mensagens machistas subliminares.

*

O feminismo é um movimento com opiniões díspares. Eu acho que salto alto no trabalho é uma séria questão feminista. Há feministas que discordam e acham que saltos são seus merecidos palanques do triunfo. Eu acho que não se pode negar que biologicamente homens são muito mais interessados em sexo. Há feministas que rejeitam essa ideia, acham que homens costumam gostar mais de sexo somente por motivos culturais (feministas do “tudo é cultura, tudo”) e discursam sobre seus intensos desejos sexuais de todos os dias. Quem vai determinar quem é mais feminista ou menos feminista por suas idiossincrasias? Ninguém. Cada uma de nós seguirá conforme a própria consciência, mas nós todas seremos chamadas, igualmente, de feministas. É uma classificação fácil e compreensível. Infelizmente, hoje, quando eu me disser feminista, muitas pessoas mal-informadas vão achar que sou conivente com o ruído feito por causa da propaganda da Skol. Não sou. E isso não me torna menos feminista.

*

Quero longe de mim todo aquele que usar essas expressões a sério ou mais de uma vez por mês referindo-se a alguém que pense de forma oposta: coxinha, esquerda caviar, elite branca, comunista, reacionário. O sujeito que abusa dessas palavras simplórias ou é muito tosco ou está numa grande fase tosca de sua vida. Deveríamos procurar entender o sentido de cada posição política em vez de mascarar nossa falta de leitura e conhecimento com xingamentos fáceis.

*

Aquele que come carne por causa do sabor e não aceita que eu compare sua atitude com a atitude de um pedófilo (os dois fazem mal, mas não se importam, já que o sabor vem acima da ética e da dor alheia) porque pedofilia é crime e comer carne, não, talvez pense em abolir os próprios preceitos morais quando estiver num país onde uma conduta imoral não seja crime. Se a lei é o que interessa para que ajamos de forma moral, devo supor que essas pessoas se casariam e estuprariam meninas de oito ou nove anos em países onde isso não é crime. Ou, se tivessem que morar temporariamente num país desses, permitiriam que suas filhas de oito ou nove anos fossem arranjadas em matrimônio com homens velhos – e estupradas em casa quando eles quisessem; uma situação legítima. Talvez essas pessoas, se estivessem se hospedando numa certa tribo indígena, achariam bom enterrar gêmeos vivos que acabaram de nascer. Essas pessoas comeriam cachorros em regiões da China. Escolheriam um cachorro engaiolado vivo, veriam o animal ser morto na frente delas e virar churrasco. É interessante como ninguém se coloca a pensar seriamente em suas explicações fajutas para comer carne. Sêneca, em Sobre a ira, faz um alerta àqueles que se pensam boas pessoas porque seguem as leis:

“Quem é este que se proclama inocente perante todas as leis? Ainda que fosse assim, que limitada inocência é ser bom perante a lei! Quão mais extensa é a regra dos deveres do que a de nosso direito! Quanto nos exige a devoção, a benevolência, a generosidade, a justiça, a lealdade, exigências que estão todas fora dos códigos legais!”

Sempre me pergunto o que essas pessoas pensam do passado, quando as leis permitiam que seres humanos fossem escravizados, mulheres fossem violentadas pelos maridos (em casa ou em público) e crianças nascidas com deficiência fossem assassinadas.

*

Costumo chamar a atenção de algumas situações específicas envolvendo relações sociais não para que quem me lê se torne misantropo como eu venho me tornando. Evito a sociedade porque ela me cansa, porque a intimidade é a porta para o desrespeito, porque não preciso manter ao meu lado pessoas que querem meu mal e tentam me rebaixar, porque não tenho o que conversar com pessoas que só sabem falar de outras pessoas e posses (as posses que querem ter e as posses invejadas que os outros têm). Quando digo que um bom livro é o melhor amigo que podemos ter, não estou dizendo que seu autor seria um bom amigo. Muitas vezes eu me questionei se Schopenhauer e eu seríamos amigos, se ele seria uma companhia agradável, ou se iríamos nos odiar. Mas os livros dele são excelentes companheiros, pois são o que de melhor ele tinha para oferecer. Quem escreve um livro tenta nos oferecer o que ele acha que tem de melhor. Alguns não têm nada de belo a oferecer, então escrevem coisas horríveis e intragáveis que só são lidas por carcaças do bom gosto, mas outros conseguem criar obras que são como pessoas a quem recorremos para buscar um conselho, um ensinamento, uma beleza, um conforto. Um livro sempre estará lá, seja você rico ou pobre, triste ou feliz. Um livro não vai se sentir diminuído pelo seu sucesso, não vai ter mudanças abruptas de humor, não marcará ausência: é um amigo disponível quando você quiser e precisar, e com boas coisas, não com tagarelices ou competições. Ao adotar uma vida mais reclusa, poupei-me de muitos problemas, mas entendo que muitos colegas vivem esses problemas e não percebem. O problema do psicólogo gratuito, por exemplo. Por muitos anos eu ouvi dizer, de "amigos", que eu era “uma boa psicóloga”. Ingênua, eu tomava isso como um nobre elogio. Até descobrir que não apenas nos faz mal aquele que nos xinga, mas também, em muitos casos, aquele que nos bajula. Eu não era uma boa psicóloga: eu era um bom ouvido de penico para tagarelas que queriam vir a mim para falar de si mesmos, de seus problemas, de tudo. Eu não era perguntada sobre meus anseios, se estava bem, o que pensava sobre certo assunto, se eu precisava de algo. Eu era a plateia de ególatras. Um ególatra adora encontrar um bom ouvinte para dar seu show. O ególatra não gosta de ouvir, o ególatra interrompe as suas breves colocações, o ególatra sempre acha que tudo o que importa é sobre ele. Se eu era uma psicóloga desses espíritos mórbidos, eu devia ter recebido remuneração por isso. Hoje tenho consciência, e, por causa dela, liberdade. Nunca tive ouvidos tão limpos. Não seja psicólogo de estrelinhas. A amizade, se você crê nela, é um caminho de duas vias. Se um apenas dá e o outro apenas recebe, essa relação é uma doença. O mínimo que um tagarela pode fazer para ter razão em se querer no centro das coisas é pagar pelos serviços de um psicólogo profissional. Querer ocupar o tempo livre (tempo de não-trabalho) de outros é muita perversidade.