sexta-feira, setembro 18, 2015

Textos dos outros: A corrupção não acabou ontem - Bernardo Mello Franco (Folha)


Antes da breve coluna, um comentário meu. Ontem os jornais noticiaram uma medida excelente para quem quer uma reforma política de fato (e não as "reforminhas" que políticos presos ao Estado como um carrapato grudado ao pescoço de um cachorro costumam defender): o STF proibiu doações de empresas para campanhas eleitorais e partidos por considerá-las inconstitucionais. A direita com mania de mau agouro, que desconfia de qualquer proposta defendida pela dita esquerda, já estava escandalizada com o retorno dessa ideia há muito tempo, dizendo que "agora as coisas voltarão a ser como antes, com doações por debaixo dos panos". Sobre isso, três coisas. 

Primeiro, como bem diz a coluna abaixo, e que na verdade é o óbvio ululante, nenhuma empresa doa dinheiro a campanhas políticas por simpatia ao candidato ou ao partido. Por que a JBS Friboi doa milhões de reais para o PT e o PSDB (que simpatia política seria essa em que eu doo dinheiro para dois partidos tão imensamente rivais?) em vez de usar o mesmo montante para investir na extensão de seus negócios? Ora, porque investir em política é uma das melhores formas de investir em extensão de negócios. Não é dinheiro de graça. Se nem almoço grátis existe, que diremos de uma dádiva de milhões de reais? A doação de uma fortuna para partidos opostos da parte da JBS não é esquizofrenia, é oportunismo e investimento. A política se tornou, há muito tempo, um mercado de ações oficial. Deixou de ser oficial agora, graças à sábia decisão do STF. Pelo menos é o que se espera.

Segundo, a direita defendeu que "inúmeros países desenvolvidos permitem doações de empresas a campanhas". Isso me dá uma comichão nas costas, bem naquele ponto inalcançável. Não somos a Suíça, a Suécia, a Finlândia ou sei lá quais outros países tomados como referência para soluções rápidas a nossos problemas, soluções que os gênios escondidos pelas trevas do anonimato forçado lançam em rodas de bar como "é muito simples, basta ver como ocorre na Noruega". Nossa cultura é completamente diferente. Temos uma história longa de conflitos, desigualdade em diversos âmbitos, corrupção, "homem cordial", "jeitinho", criminalidade alta, e tudo isso nesse país de proporções continentais em que um cidadão do interior de Pernambuco acha que o cidadão do interior do Rio Grande do Sul é um alienígena cultural. Não dá para simplesmente pensar que "se funciona na Dinamarca há de funcionar aqui". Se política fosse tão simples, a presidente tiraria dúvidas sobre relações internacionais com o carteiro ou um caminhoneiro escolhido ao acaso. 

Terceiro, a direita (só dá ela hoje? É porque esse assunto a estava incomodando demais há muito tempo.) veio com essa fórmula capenga de que "as doações passarão a acontecer ilegalmente" e que por isso devemos manter as doações realizadas de modo legalizado. Perdoem a simplicidade das minhas comparações, agindo como se os leitores tivessem cinco anos e precisassem entender as coisas de maneira muito límpida e didática, mas isso é como dizer "não proíbo meus filhos de usar drogas porque a proibição é a porta para que eles passem a usar drogas de maneira escondida". A linha da direita (dessa direita, já que há muitas direitas e muitas esquerdas) é mais ou menos essa, mesmo: doações de empresas para campanhas podem não ser boas práticas, mas é melhor que sejam oficializadas do que terminarmos com doações feitas às escondidas. Ocorre que é preciso proibir doação de empresas para campanhas de modo oficial, como era, e combater mais severamente a doação ilegal. Precisamos de rigor na punição. É proibido doar. Doou? Pena rigorosa para quem doou e para quem recebeu a doação. Um pouco difícil de imaginar a aplicabilidade disso? Sim, é verdade, ainda mais num país com um sistema de justiça tão confuso e arbitrário onde alguém que estupra e mata passa apenas três anos na cadeia e alguém que furta uma trivialidade às vezes passa dez. Mas é o que temos para agora. 

Vamos à coluna, publicada hoje (18/09): 

"BRASÍLIA - Um corrupto confesso, preso e condenado na Operação Lava Jato, foi o autor da melhor definição para o sistema que financia as campanhas eleitorais no país.

"Esse negócio de doação oficial é a maior balela que tem no Brasil", disse o criminoso. "Nenhuma empresa vai doar milhões porque gosta de fulano de tal. As doações não são doações, são empréstimos. A empresa está emprestando ao cara e depois vai cobrar dele."

As palavras de Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras, resumem uma realidade que nenhum discurso pode escamotear. Os grandes financiadores não são entidades filantrópicas. Têm interesses diretos na administração pública e cobram caro de quem ajudam a eleger.

O dinheiro das campanhas está por trás dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas, do caso PC ao petrolão. Os propinodutos são montados nos palanques e ganham volume ao alcançar os palácios e sedes de estatais.

No julgamento concluído nesta quinta, o Supremo Tribunal Federal entendeu que as doações privadas contrariam a Constituição porque desequilibram o jogo democrático.

As empresas não têm direito a voto, mas exercem peso demais na escolha dos eleitos. Hoje a maior bancada do Congresso não é do PT, do PMDB ou do PSDB. É a das empreiteiras, seguida pelas dos bancos, das seguradoras e dos frigoríficos.

O veto às doações privadas é um passo importante, mas tratá-lo como uma solução mágica contra a corrupção será outra balela.

As grandes empresas continuarão de olho no dinheiro público, e o Estado continuará a precisar delas para tocar obras e conceder serviços. Sem as doações, os interessados buscarão outros meios para garantir vantagens e favorecimentos.

Será preciso reforçar a fiscalização contra o caixa dois, baratear o custo das campanhas e impedir novas fraudes nas contribuições registradas por pessoas físicas".

terça-feira, setembro 08, 2015

A biblioteca esquecida de Hitler - Timothy W. Ryback

“Ele foi, é claro, um homem mais conhecido por queimar livros do que por colecioná-los. Contudo, na época de sua morte, aos 56 anos, estima-se que possuísse cerca de 16 mil volumes. Em qualquer medida, uma coleção impressionante: primeiras edições das obras de filósofos, historiadores, poetas, dramaturgos e romancistas”.

Este homem é Adolf Hitler, e é assim que começa o prefácio do interessante A biblioteca esquecida de Hitler: os livros que moldaram a vida do Führer, do historiador Timothy W. Ryback. Comprei esse livro em julho de 2013 (costumo anotar no livro a data de compra), mas o li apenas agora (e pretendo começar a anotar no livro a data de leitura embaixo da data de compra, para que no futuro eu não me perca na minha própria história como leitora), em agosto. O título é chamativo, e talvez alguém possa se perguntar por que não li esse livro antes de saborear a recomendação feita pelo colunista e cientista político português João Pereira Coutinho, na Folha, mas eu tenho em casa tantos livros não lidos (todos aparentemente bons; não cometo mais o erro de comprar livros ruins por puro colecionismo) que ficava difícil uma obra sobre Hitler reaparecer na lista de leituras próximas. Eu sabia que leria esse livro quando voltasse a ler sobre Segunda Guerra Mundial. Na última vez em que procurei me “especializar” nesse assunto, estava no último ano do ensino médio e tomei emprestada uma porção de livros do tipo na biblioteca do colégio, além de ter comprado uma ou outra coisa no sebo. De lá para cá, li algumas coisas sobre Hitler e Segunda Guerra, mas nada tão intensivo. O tema sempre me instigou, mas eu tinha duas pulgas atrás de cada orelha sobre ele: primeiro, há muita gente bronca que não estuda nada de história, mas sente fascínio – um fascínio quase fetichista – sobre a II Guerra, e isso me desestimulava; segundo, conheci um ou outro (por que estou sendo aveludada?, conheci vários) patife que foi cursar História porque “gostava da II Guerra Mundial” e pretendia, já no final da graduação, escrever monografias sobre: e, não, não era vinculando a participação brasileira na II Guerra – era mesmo um pensamento calouro de quem não atenta que pesquisa acadêmica não é trabalho escolar em que você escreve um “estudo” sobre Hitler sem saber inglês, sem saber alemão e sem sair do conforto da sua morada numa cidade do interior. (Também cometi esse erro primário: cheguei à faculdade de Ciências Sociais – que não finalizei – jurando que meu trabalho de conclusão de curso seria provando que Deus era uma farsa. Felizmente, já nos primeiros meses alguns professores realistas, jardineiros da selva de pedra, vieram com suas tesouras de poda e me colocaram no lugar de raminho novo que eu era.) Evitando um pouco a II Guerra, eu estava fugindo do tema que é o pretinho básico da história, o tema que é escolhido como pauta de interrogatório quando você conta a leigos que é formado em História: ninguém quer saber por que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea ou se o estudo de Peter Gay sobre Freud é respeitado entre historiadores renomados – todos querem entender o nazismo. Para parecer um singular historiador entre não-historiadores, basta apostar a maioria das fichas nisso. Mussolini não exerce nem um quinto do encanto de Hitler. Nem Stálin, outra aberração política que mereceria o mesmo espanto.
 
Quando a II Guerra chegava ao fim e Hitler se preparava para a derrota do modo mais eficiente possível – cometendo suicídio –, milhares de livros seus eram deixados para trás. Terrivelmente, a maioria foi queimada ou sumiu. O trabalho de reconstituição de personalidade que historiadores passaram a fazer baseados nas leituras do antigo Führer apresentou inúmeras lacunas, e certamente muitos livros essenciais – livros com “intromissões a lápis”, na ótima expressão de Ryback – ficaram entre os sumidos. Pior: devem ter ficado entre os queimados. Um livro sumido é recuperável, tanto é que muitos livros de Hitler surrupiados por soldados americanos e soviéticos foram devolvidos posteriormente para bibliotecas temáticas e arquivos, mas um livro queimado não pode ser estudado: o fato de o corpo do ditador ter sido queimado após o suicídio impediu que estudiosos o dissecassem (do ponto de vista dos nazistas, foi sábio cremá-lo antes que as forças inimigas pudessem ostentá-lo como troféu e dispor dele como bem entendessem), assim como a ausência desses livros queimados nos impede de entender a plenitude da influência que Hitler, um leitor assíduo, sorveu de cabeças alheias. 



A biblioteca esquecida de Hitler perfaz a história do Führer desde 1915, quando ele era cabo do 16º Regimento de Infantaria de Reserva Bávaro, então com 26 anos, até sua morte, em 1945. A busca de Hitler por vingança – não somente por causa da humilhação sofrida pela Alemanha após a Primeira Guerra, mas também pela falida vida pessoal –, sua importância dentro do Nacional-Socialismo que surgia, a ascensão ao poder e as decisões militares tomadas no decorrer da Segunda Guerra fazem sentido nessa obra quando vinculadas a leituras, principalmente. Não é uma história genérica sobre o Nazismo, mas uma história de como livros ajudaram a construir um dos capítulos mais negros da história mundial. Ao escrever um capítulo dedicado ao que seria o terceiro livro de Hitler (Mein Kampf teve dois volumes, um sobre vida pessoal e outro sobre política, lançados em tempos diferentes e por isso considerados como dois títulos) – livro que ele, Hitler, ficou aliviado de não ter publicado porque teria atrapalhado sua guinada no governo – Ryback escreve brevemente sobre o momento da ascensão:

“Um ano após completar o que se tornaria o Alvo nº 589, Hitler viu suas possibilidades políticas, tão sombrias no verão de 1928, mudarem drasticamente. Em 3 de outubro de 1929, Gustav Stresemann sofreu um violento ataque cardíaco. Três semanas depois, a Bolsa de Nova York despencou, e com esta a economia alemã. A popularidade de Hitler disparou. Não mais ocioso pela marginalização política, Hitler abandonou a carreira de escritor. Em três breves anos, se tornaria chanceler da Alemanha”.

Esse trecho encerra um capítulo. Quem quiser saber mais detalhes da transição de Hitler das sombras para a cabeça do governo terá que procurar outras bibliografias. Não é, portanto, um livro sobre a II Guerra. É um livro sobre livros, com a II Guerra como pano de fundo da maior parte dos capítulos.

Um autor que acompanha todo o livro é Walter Benjamin e seu ensaio Unpacking my library: a talk about book collecting. Pensei que não fosse encontrá-lo em português, até porque não me lembro de ter ouvido falar de algum texto do Benjamin sobre coleções de livros, mas existe: o ensaio está na compilação Obras escolhidas II: rua de mão única, lançada pela Editora Brasiliense. Já encomendei, e já sei de quase tudo que trata, pois Ryback busca uma porção de excertos desse texto para basear o sentido da existência de bibliotecas particulares, a relação entre o colecionador e seus livros e como tudo isso tem a ver com Hitler. Benjamin era um adorador de livros. Consequentemente, um colecionador. Faz todo sentido (e cria um notável embelezamento) que Ryback vá tomando aquele ensaio para abrir e fechar assuntos, costurando-os:

“Walter Benjamin certa vez disse que dá para saber muita coisa sobre um homem pelos livros que ele mantém: seus gostos, seus interesses, seus hábitos. Os livros que guardamos e os que descartamos, os que lemos bem como os que decidimos não ler, dizem algo sobre quem somos. Como um judeu alemão crítico da cultura nascido numa época em que era possível ser 'alemão' e 'judeu', Benjamin acreditava no poder transcendente da Kultur. Acreditava que a expressão criativa, além de enriquecer e iluminar o mundo que habitamos, também proporciona a argamassa cultural que liga uma geração à próxima, uma interpretação judaico-germânica do antigo ditado ars longa, vita brevis”.

É possível saber muito sobre Hitler analisando a biblioteca que expandiu ao longo dos anos, vendo os livros em que fez questão de se intrometer com seu lápis – marcando trechos, colocando pontos de exclamação ou de interrogação ao lado de parágrafos –, os livros que não apresentam muitas intromissões, mas possuem sinais de manuseio, e os livros que não leu. Os livros que não leu foram inúmeros, até porque muitos deles só se juntaram à coleção como oferenda: além disso, havia um filtro para esses presentes que o Führer deveria receber, e só uma parte do que queriam dar a ele chegava, de fato, ao seu acervo (sem o filtro de assessores, a montanha seria muito maior). Em dado momento, Benjamin é revivido em sua análise para nos lembrar que dificilmente os bibliófilos leem todos os livros de suas coleções – na verdade, segundo estima Benjamin, e de acordo com “fontes confiáveis”, esses colecionadores costumam ler apenas dez por cento das obras que possuem. Ocorre que a análise feita em cima do acervo de Hitler que restou deixa passar inúmeros livros que devem ter sido queimados, mas que foram fundamentais na vida do ditador. Hitler não leu dez por cento dos livros que pesquisadores estudam, já que boa parte dos livros desapareceu, e sim dez por cento de uma biblioteca que só podemos supor. Há uma avaliação de Ryback (avaliação que João Pereira Coutinho faz questão de frisar em sua coluna para mostrar que Hitler, apesar de ávido leitor, lia muitas coisas medíocres e não se aprofundava em filosofia, por exemplo) que considero um pouco receosa: a de que Hitler só usou nomes como Nietzsche e Schopenhauer de forma superficial em seus discursos e elogios, e que associá-lo com eles é um tanto suspeito.

“Embora não haja razão para duvidar que possuía exemplares das obras de Schopenhauer, encontrei um só volume desse filósofo entre os livros remanescentes de Hitler, uma reedição de 1931 de uma tradução feita por ele de A arte da sabedoria mundana: um oráculo de bolso, do jesuíta do século XVII Baltasar Gracían. Essa edição em encadernação barata, de 92 páginas, é tão modesta no tamanho que o ex-libris de Hitler preenche toda a contracapa. O indício mais sólido da centralidade de Schopenhauer na vida de Hitler é o busto do filósofo descabelado que Hitler exibia em uma mesa no seu escritório em Berghof”.

O que eu me pergunto é: seria Hitler tão pedante a ponto de colocar, em seu escritório, o busto de um filósofo que ele mal leu? O fato de Hitler ser odioso moralmente não faz com que ele seja automaticamente absurdo em outras searas. Tratando-se de um leitor crônico, também fica difícil suspeitar que ele, como tantos, se aproveitou de uma figura e louvou essa figura até em pequena estátua por pura vaidade fraudulenta. Sendo ele uma pessoa que não lê, eu não duvidaria da empáfia desse oportunismo intelectual. Como era um leitor contumaz, apenas acho que se poucas obras de autores que ele tanto citava, como Schopenhauer e Nietzsche, foram encontradas, pode ser porque elas estavam entre os livros perdidos.

Leni Riefenstahl, atriz e cineasta que dirigiu, em 1934, o tributo ao Partido Nazista Triunfo da vontade, e, pouco depois, Olympia, o documentário em duas partes sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, foi, por muitos anos, estimada por Hitler. Segundo conta, teve uma desavença com ele ao comentar sobre alguns amigos judeus que estavam tendo problemas com o governo, mas desculpou-se por sua intromissão em assuntos políticos presenteando-o com a primeira edição das obras completas de Fichte, encadernadas em couro branco. Foi ela uma das fontes que assegurou o gosto de Hitler por Schopenhauer:

“Riefenstahl proporciona um relato igualmente eloquente, mas contraditório. 'Tenho muita coisa a pôr em dia', Riefenstahl lembra que Hitler contou no conforto guarnecido de livros de seu apartamento na praça Príncipe Regente. 'Na minha juventude, não tive os meios ou a possibilidade de obter uma educação adequada. Toda noite leio um ou dois livros, mesmo quando vou para a cama tarde'. Ele disse que aquelas leituras constituíam sua fonte básica de conhecimentos, a essência de que derivava seus discursos públicos. 'Quando se dá também se precisa tirar, e eu tiro o que preciso dos livros', ele disse. Quando Riefenstahl perguntou a Hitler o que gostava de ler, ele teria respondido: 'Schopenhauer'.
'Nietzsche não?', Riefenstahl perguntou.
'Não, não consigo aproveitar muito Nietzsche', Riefenstahl lembra que Hitler respondeu. 'Ele é mais artista do que filósofo; falta-lhe a compreensão cristalina de Schopenhauer. Claro que valorizo Nietzsche como um gênio. Ele escreve talvez a linguagem mais bonita que a literatura alemã pode oferecer atualmente, mas não é o meu guia'”.

Páginas antes, Ryback coloca uma nota de rodapé comentando que Steven Bach, autor de uma recente biografia de Leni Riefenstahl, sugere a necessidade de cautela com os relatos dela, já que era “uma narradora nada confiável”. Eu inquiro: mas o que ela teria a ganhar mentindo sobre isso? Pessoas mentirosas, desde que não sejam mitômanas, costumam mentir para se livrar de um problema, para criar problemas para outros ou para conseguir alguma coisa. Se fosse para Riefenstahl, narcisista, mentir sobre algo, talvez preferisse mentir sobre seus feitos ou dizendo que chegara a se preocupar com a situação dos judeus na época do nazismo. Mas de que problema ela estaria se livrando ou que coisa ela conseguiria inventando o diálogo que teve com Hitler sobre Nietzsche e Schopenhauer?

Outra razão para Ryback considerar que Hitler não fora um grande leitor de Schopenhauer foi o fato de ter encontrado o nome do filósofo grafado de forma errada em “anotações sobreviventes de discursos manuscritos”, com dois “p”: “Schoppenhauer”. Como é que alguém que admira tanto um teórico não sabe escrever o nome dele? Mas parece que não era privilégio de sobrenomes germânicos complicados receberem má escrita de Hitler, pois mesmo palavras simples eram grafadas de maneira incorreta. O Führer chegou a escrever erros que seriam equivalentes ao nosso “prizão” e “presado”, palavras que eram corriqueiras nos livros que lia. Nem sempre quem lê vorazmente presta atenção no que lê, na formação das palavras e na composição das sentenças. Hitler, leitor, tinha problemas com a ortografia de seu idioma e não dera muito certo como escritor: Mein Kampf teve que passar por severa revisão antes de ser publicado. Por isso, humildemente, não considero que grafar erradamente o nome de Schopenhauer seja forte indício da falta de leitura e que a apropriação de saber foi rasa.

Há, claro, algumas situações estranhas, mas são estranhas como a humanidade. Por exemplo, o fato de Hitler admirar tanto Fichte. Como Hitler poderia admirar Fichte e Schopenhauer se Schopenhauer possui bons e claros textos desprezando completamente a contribuição de Fichte para a filosofia? Seu ódio por Fichte talvez só fosse menor que seu ódio por Hegel, então será que isso não seria um indício de que Hitler não leu Schopenhauer de verdade? Essa questão é minha, não está no livro. Mas Ryback apresenta outra coisa que pode depor contra o Hitler schopenhaueriano: diz-se que ele levara O mundo como vontade e representação para ler no front enquanto era estafeta. Ryback duvida que ele tenha perambulado em meio à guerra com um calhamaço daqueles. Mas eu volto a perguntar: e por que isso desabonaria o possível gosto de Hitler por Schopenhauer? Eu mesma não li essa obra (tenho-a há anos, mas permanece na estante como um livro inescrutável para o qual ainda não me sinto preparada) e me considero no direito de me declarar uma amante de Schopenhauer “somente” porque li e reli todas as belas compilações que a Martins Fontes publicou das ideias dele. Não é preciso ler toda a obra de alguém para se poder declarar, com justiça, admirador desse alguém. Talvez Hitler não gostasse de colóquios muito metafísicos e preferisse o Schopenhauer que fala sobre matérias de ordem prática. Logo, não vejo como mesmo essas situações pontuadas por Ryback podem quase provar que Hitler era uma fraude em suas menções ao filósofo como um de seus mentores intelectuais.

Como apreciadora de Schopenhauer, é claro que eu não acho agradável que eu mesma esteja forçando as pessoas a acreditar que Hitler, um ditador megalomaníaco que estava disposto a matar milhões de pessoas para alcançar seu ideal de povo superior, também apreciava Schopenhauer. Mas história é isso: ela é o que é, e não o que queremos, com nosso moralismo e nossas desculpas, que ela seja. Já reparei em alguns bons livros de escritores mais antigos que costuma haver uma vontade do editor e do tradutor para fazer com que nós, leitores, perdoemos autores que tinham pensamentos antiéticos no passado. Explico: peguemos, por exemplo, um livro de Nietzsche, uma passagem em que ele deixa bem claro, talvez, que considera as mulheres inferiores. Não tardaremos encontrar comentaristas e estudiosos revolvendo outros fatos da vida dele que mascarem essa discriminação. Você lerá ou ouvirá desses aduladores: “apesar desta passagem parecer preconceituosa, na verdade Nietzsche não pode ser chamado de machista, pois em outro momento, ao encontrar uma mulher inteligente, ele disse que mulheres podem ser etc.” Isso é só um exemplo. Meu ponto aqui é mostrar que amamos tanto certos teóricos que queremos sacralizá-los. “Nesta passagem, Schopenhauer parece mostrar asco por índios, chamando-os de primitivos, mas há um outro momento em que ele elogia comunidades indígenas etc”. Tenta-se poupar Schopenhauer de qualquer fiapo que ligue um filósofo que respeitamos a um juízo antiquado que depreciamos. Tenta-se poupar qualquer sujeito canonizado de qualquer maculação muito severa, sendo “desculposo” em nome de um autor antigo que vivia em outra sociedade, numa outra época, com outro espírito social. Como mulher que lê Nietzsche no século XXI, sinto-me mal ao ler as más referências que ele faz ao meu sexo? Concordar, não concordo, mas não passo mal, nem de longe. Eu entendo que ele vivia em outro universo e não tinha obrigação de ser pioneiro em tudo, não era todo o assunto que ele abordava que precisava se transformar em ouro. Passar mal eu passaria se alguém que vive na mesma sociedade que eu levantasse aquelas ideias como se fossem teses perfeitamente aplicáveis a este tempo. Ao tentar, com insistência, poupar Nietzsche e Schopenhauer de terem sido lidos por Hitler, acho (apenas acho) que Ryback está fazendo como tantos estudiosos que temem macular nomes sagrados ligando-os a discípulos pérfidos. Esse mau julgamento social por causa da vinculação entre um e outro não deveria querer dizer nada, pois Schopenhauer não tem culpa daqueles que o leram, e se o leram errado. Ryback mesmo aponta em alguns episódios que Hitler era um leitor estúpido porque procurava nos livros meras ratificações melhor teorizadas para aquilo que ele já pensava. Não era um leitor de mente aberta disposto a mudar suas opiniões caso argumentos fundamentados provassem que ele estava equivocado. Na idade adulta, colhia o que já estava disposto a colher, não demonstrava alterar radicalmente o que reputava: já tinha uma ideia troncal e os livros só permitiram que a partir disso ele desenvolvesse galhos. Assim, se leu Schopenhauer, deve ter passado por diversos pareceres que execrou. Roubou o que queria e moldou sua oratória com isso. Não cabe a ninguém querer sofrer com essa ligação tortuosa, posto que em nenhum lugar de sua obra Schopenhauer, por mais misantropo que fosse, defendeu genocídio (pelo menos até onde li). Se fosse o caso, talvez pudéssemos nos alarmar. Mas se fosse mesmo o caso, provavelmente Schopenhauer nem teria adquirido a grandeza que adquiriu.

***

Max Osborn era um crítico de arte alemão aclamado no começo do século XX. Em 1915, ocioso em sua posição de soldado-mensageiro por causa de forte chuva, Hitler adquiriu o livro Berlim, de Osborn, que tratava da história arquitetônica da cidade. Em vez de comprar cigarros, aguardente ou gastar com mulheres, preferiu usar quatro marcos para comprar um livro, escolha de lazer atípica para um cabo da linha de frente. Efetuada a compra, marcou timidamente seu nome, local e data no canto superior direito da contracapa: “A. Hitler, Fournes 22/novembro, 1915”. A personalidade de Osborn é pitoresca, logo, instigante. Irreverente, escreveu uma história cultural de Satã, em que chamava os anjos de “as mais enfadonhas das criaturas de Deus”. Em sua época, já criticava certa frivolidade dos populares:

“Em 1908, quando a editora Seeman Verlag solicitou a Osborn que escrevesse um guia de Berlim, ele concordou mas sob o pressuposto de que era um crítico de arte, não um guia turístico. Desse modo, recebeu o leitor em seu Berlim com a advertência maldosa: por que seu editor incluiria essa cidade entre as 'capitais culturais' da Europa quando 'o que o mundo do século XX acha mais fascinante na capital do Reich alemão não é exatamente a beleza de seus monumentos históricos ou de sua rica herança cultural'?”

Crítico de arte, passou a temporariamente ser crítico de guerra. Ao ver um mensageiro galopando num cavalo pelo campo aberto, comparou a cena em que homem e animal usavam máscaras contra gás a uma tela de Hieronymus Bosch. Ficou horrorizado ao ver tantos corpos humanos em decomposição, com ratazanas se alimentando deles. Lugares antes encantadores tinham se transformado em imagens de horror: “simplesmente incompreensível”, escrevera.

O exemplar de Hitler de Berlim está completamente desgastado, sinal de que foi lido com entusiasmo por aquele soldado que tinha tantas ambições artísticas. Muito do ideal estético nazista faz menções indiretas aos gostos de Osborn: se Hitler realmente começou a pensar que a Alemanha deveria ser “depurada” de “elementos estrangeiros” nas artes a partir da leitura do crítico – também adepto de expressões mordazes para se referir a essas contaminações, como “selvageria do gosto” ou “profusão de pragas artísticas” –, não está claro no livro de Ryback, mas a ideia de ambos nesse âmbito parece casada, já que Osborn também louvava a Grécia revivida em território prussiano, como ele considerava o caso do Portão de Brandemburgo. (Para entender rapidamente o apreço estético consagrado na ditadura nazista, recomendo o conhecido documentário Arquitetura da destruição.)

No mesmo livro, Osborn utiliza um capítulo de trinta páginas “sobre Frederico, o Grande, o lendário rei-guerreiro do século XVIII que consolidou a primazia da Prússia como potência militar” (palavras de Ryback). Frederico se tornaria o futuro ídolo de Hitler, mas Osborn se põe a criticá-lo: chama o monarca de intrometido, avarento, “filho total da mediocridade artística de sua época”, mais preocupado com a beleza das próprias perucas que com as construções públicas. O desmoronamento da igreja do Gendarmenmarkt é narrado com prazer especial: o rei obrigou os construtores a encerrarem a obra em metade do tempo previsto e com orçamento reduzido; quando os operários estavam terminando o telhado, as paredes da igreja desabaram, matando quarenta deles. Osborn comenta sobre o jocoso livreto Sinto muito escrito pelos cidadãos berlinenses, defendendo a irônica teoria de que as paredes haviam sido construídas com pão de mel em vez de pedras. Esse capítulo tem claros sinais de manuseio e exame cuidadoso da parte de Hitler. Nem por isso o futuro ditador alemão deixou de louvar e tomar Frederico como referência de liderança. Assim, esse caso ajuda a responder a pergunta que fiz lá em cima sobre se o fato de Hitler adorar Fichte e Schopenhauer – sendo que Schopenhauer desprezava Fichte com convicção – poderia ser um sinal de que alguém não foi realmente lido desses dois. Hitler parece ter adotado diversas ideias de Osborn, mas não a desse capítulo em particular que pretendia inspirar menosprezo por Frederico. Com certeza admirou muitos homens responsáveis pelos livros que lia, mas de maneira seletiva.

O capítulo sobre Osborn (capítulo chamado de Livro 1: Leituras da linha de frente, 1915), encerra com alguns parágrafos interessantes, deixados providencialmente para o final. Ryback frisa que o exemplar de Berlim pertencente a Hitler seria guardado com ele para o resto da vida e:

“Na segurança protetora da coleção de Hitler, esse volume sobreviveu à queima de livros de maio de 1933 – como judeu, Osborn constava da lista dos autores proibidos e acabou emigrando para os Estados Unidos – e aos bombardeios subsequentes dos Aliados na década de 1940”.

Esse é aquele momento da leitura em que você para, pousa o livro no colo e digere tudo que veio antes de forma diferente por causa da inserção de uma informação essencial que dá um novo tom ao capítulo a ser findado. É aquele momento em que você tem vontade de largar o livro para dar um passeio reflexivo. Ryback poderia nos ter dito que Osborn era judeu lá nos primeiros parágrafos. Ciente de como mostrar ao leitor o que ele deve sentir e em qual instante da leitura é preciso demonstrar esse sentimento, deixou o impacto para o final. Não vale somente para a literatura: um livro é valioso não somente pelo que informa, mas como informa.

***

A biblioteca esquecida de Hitler certamente abriga inúmeras histórias valiosas sobre os autores que Hitler leu, as pessoas com quem fez amizade – e que acabaram influenciando suas leituras com recomendações –, sua atitude diante do desenrolar da guerra. Não me cabe aqui resumir todos esses causos, até porque não quero que ninguém perca a vontade de ler o livro por ele já estar todo revelado em estrutura nesta postagem, então vou me ater a apenas mais um capítulo escolhido ao acaso (já que todos me interessaram muito – exceto aquele sobre misticismo, e percebi que não me interessara por ele porque páginas e páginas se passaram e não senti vontade de acentuar nada com minha lapiseira). É o capítulo 3º, A trilogia de Hitler, sobre a escritura do Mein Kampf.

Na noite de 8 de novembro de 1923, Hitler surgiu numa cervejaria de Munique dando um tiro de pistola no teto, anunciou uma revolução nacional e sob a mira de armas obrigou a liderança política da cidade ali reunida a jurar fidelidade. Na manhã seguinte, marchou com 2 mil radicais de direita para o centro de Munique, pretendendo reproduzir a marcha de Mussolini sobre Roma que possibilitou a ascensão do governo fascista. Na praça Odeon, foram recebidos a tiros por um cordão militar. Dezesseis morreram. Hitler foi preso três dias depois.

“Quase imediatamente, Kahr, Seisser e Lussow [os membros da liderança política local] se afastaram do empreendimento fracassado. Alegaram ter tentado dissuadir Hitler de realizar o golpe, o que era verdade, e que ele os coagira a cooperar sob a mira de armas, o que também era. Hitler alternou-se entre a perplexidade e a raiva pela 'traição' deles. Primeiro cogitou suicidar-se, depois realizou uma breve greve de fome, e enfim decidiu 'ajustar contas'”.

O ajuste de contas começou com um texto de sessenta páginas que serviu para sua defesa perante o tribunal. Encerrou dizendo que seria absolvido pela história (pelo visto, uma expressão recorrente entre ditadores que esperam justificar atrocidades). Depois, recebendo a regalia de ter luz acesa durante a noite na prisão, começou a fazer leituras que embasariam a obra pela qual é conhecido, obra que inicialmente se chamaria Uma batalha de quatro anos e meio contra mentiras, estupidez e covardia, mas que mudara de nome graças à sugestão de Max Amann, empregado na editora do Partido Nazista. Essas leituras seriam chamadas por ele de “formação superior às custas do Estado”, já que, de certo modo, parecia nutrir ressentimento por não ter podido prosseguir seus estudos formais. Além de escrever o livro por motivação vingativa, Hitler também o fez para se livrar de dívidas financeiras, principalmente aquelas que contraíra com o assessor jurídico que o ajudara a preparar a defesa em seu julgamento. Assim, contava com um alto número de vendas quando seu trabalho fosse publicado.

Henry Ford foi uma das maiores inspirações de Hitler no combate aos judeus:

“Além do perfil racial do povo alemão, de Günther, outra influência importante sobre o conteúdo intelectual de Mein Kampf foi uma tradução alemã de O judeu internacional, de Henry Ford. Embora não disponhamos mais do exemplar pessoal de Hitler da tradução em dois volumes do execrável tratado racista, sabemos que Hitler possuía uma, assim como um retrato do autor, ao menos um ano antes de começar a redigir Mein Kampf. 'A parede junto à escrivaninha no escritório particular de Hitler está decorada com um retrato grande de Henry Ford', informou o New York Times em dezembro de 1922. 'Na antecâmara, uma mesa grande está coberta de livros, quase todos sendo uma tradução de um livro escrito e publicado por Henry Ford'.
O livro de Ford havia sido publicado naquele ano em alemão sob o título Der internationale Jude: Ein Weltproblem, e foi uma sensação imediata. 'Li-o e me tornei antissemita', recordou Baldur von Schirach, o futuro líder da Juventude Nazista, que era adolescente quando surgiu o livro de Ford. 'Naquela época aquele livro causou uma impressão tão profunda nos meus amigos e em mim porque víamos em Henry Ford a imagem do sucesso, bem como o expoente de uma política social progressista'”.

A adoração a Ford também se mostraria na frequente menção a ele nos discursos de Hitler e sua declaração a um repórter: “considero Ford minha inspiração”. Eu, que já abomino Ford desde minhas leituras sobre o nazismo na adolescência, questiono: Hitler teria sido menos nefasto caso o empresário de carros não tivesse existido? É claro que naquele tempo havia muito material anunciando, às escâncaras, o ódio pelos judeus e a superioridade racial de alguns povos, mas Ford pareceu muito “didático” e prático em seu livro. Além disso, muitas pessoas o tiveram em grande crédito e por meio dele passaram a externar com orgulho um antissemitismo antes retraído. Não duvido que um sujeito perverso e megalomaníaco como Hitler pudesse se tornar ainda pior por causa das leituras que levava em consideração e das quais tirava aprimoramentos de suas ideias. Nada estava tão ruim que não pudesse piorar no turbulento começo do século XX.

Houve uma série de adiamentos até que o trabalho de Hitler pudesse ser publicado. Uma das preocupações de Max Amann era com o fraco mercado de livros da época: com Hitler ainda proibido de falar em público por causa de sua condenação, não seria possível fazer comício nas cervejarias, e com isso se perdia uma grande fonte de venda de livros. Mas o principal motivo para o adiamento foi o processo de edição da obra: até sete companheiros de Hitler afirmaram ter trabalhado no texto antes de seu lançamento. A “formação superior às custas do Estado” da qual Hitler se vangloriara, pensando-se um exemplar autodidata, parece não ter surtido efeito na erradicação de seus constantes erros gramaticais e fragmentos intelectualmente vazios, cheios de vícios que podiam passar despercebidos na fala, mas que num livro ficavam gritantes.

“Hanfstaengl recorda que batalhou com Hitler em torno das setenta primeiras páginas dos originais, afirmando ter eliminado os 'piores adjetivos' e seu 'emprego excessivo de superlativos', discordando sobre várias nuances. Quando Hitler escreveu sobre seu 'talento' como pintor, Hanfstaengl teria censurado: 'Você não pode dizer isso. Outros podem dizer, mas você mesmo não pode'. Hanfstaengl também observou 'pequenas desonestidades', como o fato de Hitler usar o termo 'funcionário público graduado' para seu pai. Hanfstaengl também reclamou da natureza provinciana do intelecto de Hitler, que o fez aplicar um termo como história do mundo – Weltgeschichte – a 'conflitos europeus pouco importantes'. Após essa sessão de revisão inicial, Hanfstaengl afirma, Hitler nunca mais lhe mostrou nenhuma parte do manuscrito”.

Rudolf Hess e Ilse, sua esposa, também recordaram a “batalha” que viveram com Hitler e seu original por meses. Só aos poucos Hitler dera razão às modificações que se mostravam necessárias em seu manuscrito.

Se Hitler esperava aclamação pública quando do lançamento do livro, deve ter ficado decepcionado com o que recebeu. Jornais descreveram sua obra como ato de suicídio político num artigo intitulado “O fim de Hitler”, duvidaram da “estabilidade mental do autor” e um crítico observou que faltou ao recente escritor ajustar contas consigo próprio. Mesmo pessoas de extrema direita teceram comentários negativos sobre a obra, ofendendo-se com o antissemitismo exacerbado que advogava. Um jornal brincou com seu nome e disse que deveria se chamar “Sein Krampf” (Sua cãibra). O livro, ilegível (no sentido de que não valia a pena ser lido) para muitos, se tornou motivo de piada em certos círculos. Mesmo assim, Hitler não se deixou capitular: presenteou muitas pessoas com sua obra e passou a trabalhar no segundo volume dela. Em pouco tempo terminara a proposta.

“(...) enquanto o volume I foi recebido com sarcasmo e desprezo pelos resenhistas, o volume 2 foi simplesmente ignorado – não apenas pelos críticos, mas pelos leitores também. Vendeu menos de setecentos exemplares após um ano no mercado”.

Pouco tempo depois, já estava escrevendo seu terceiro livro, que nunca seria publicado: um livro sobre suas memórias de guerra, inspirado nos relatos de Ernst Jünger (um dos livros dele sobre o tema, Tempestade de aço, foi publicado pela Cosac). O livro era mais comedido e analítico que os anteriormente escritos, tentando ser filosófico de maneira eclética. As ideias são apresentadas sem referências às fontes, mas é possível perceber uma colcha de pensamentos de um leitor que lia tudo. Ryback aposta em dois motivos para o livro não ter sido finalizado: primeiro, porque Hitler voltou à atividade política intensa – e seus momentos de escrita só apareciam quando ele estava em situação de privação, como quando estava preso ou sem forças políticas –, segundo, porque o mercado de livros estava fraco e as publicações anteriores do futuro ditador já tinham sido um fracasso no mercado.

“O próprio Hitler pode também ter reconhecido as falhas intrínsecas na estrutura eclética e irregular do livro ou possivelmente suas limitações como escritor. 'Que belo italiano Mussolini fala a escreve', Hitler comentou com seu advogado pessoal e futuro Gauleiter, Hans Frank. 'Não sou capaz de fazer isso em alemão. Simplesmente não consigo organizar meus pensamentos quando estou escrevendo'. Em comparação com a obra de Mussolini, Hitler observou, Mein Kampf parecia um exercício de fantasia 'atrás das grades', pouco mais que uma 'série de artigos para o Völkischer Beobachter'. 'Ich bin kein Schriftsteller', Hitler disse para Frank. 'Não sou um escritor'”.

Com o chamado das obrigações políticas que o levaram a governar a Alemanha, Hitler nunca mais teve tempo e viço para escrever. Continuou, todavia, lendo livros até o dia de sua morte.

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Foi muito proveitoso voltar a ler sobre a II Guerra com A biblioteca esquecida de Hitler. O livro é sério e bem escrito (há livros sérios, fidedignos, mas escritos de maneira plástica; ou, pior e surrealisticamente, há livros cujo estilo nos remete à palavra “alumínio”, se entendem o que digo), passa por uma fatia de assunto meio marginal a respeito do nazismo. Não é o único a escrever sobre os livros de Hitler – Ryback menciona autores de estudos com o mesmo objetivo –, mas é o que temos à mão facilmente aqui no Brasil, na bela publicação da Companhia das Letras. A partir dele, algumas breves e esparsas ponderações:

Há uma foto de Hitler no Arquivo de Nietzsche, em Weimar. Muitos tentam ligar Nietzsche ao antissemitismo, quando, como bem assinala Ryback, antissemita declarada era a irmã de Nietzsche, cuidadora daqueles arquivos. É claro que o filósofo alemão inspira algo de sensacional – Hitler apropriou-se de alguns de seus termos fortes como “vontade de poder” –, mas não deve ser responsabilizado pelo Nazismo. Sua irmã, sim, era visivelmente desequilibrada em plena sanidade. Nietzsche, que não era antissemita mas que defendia uma filosofia que podia ser usada para fins perversos, ainda possui a desculpa de sua doença para justificar ideias extravagantes.
(Já visitei esse arquivo em Weimar. É estranhamente inóspito a visitantes. Há duas salas. Na primeira, objetos de Nietzsche, inúmeros recortes de jornais em vidros e nas paredes – inclusive da época do Nazismo, ligando o filósofo ao Führer –, mas tudo em alemão. Pensei em fotografar para que depois, no dia em que aprendesse alemão, pudesse traduzir, mas no primeiro click a recepcionista, ranzinza não sei se por si ou se por obrigação da função, veio informar que eu não podia tirar fotos e que deveria apagar a que tirara. Na segunda sala, estátuas de Nietzsche, alguns livros e uma cadeira numa janela, cadeira onde ele passou muitos de seus dias mórbidos, quando mental e fisicamente incapaz. Nessa sala, a recepcionista não apareceu para nos sondar. Então tomamos a libertinagem de tirar algumas fotos. Na saída ela perguntou de onde éramos – só conseguimos nos comunicar com ela por intermédio de um casal de amigos que moram na Alemanha, já que ela não falava inglês – e disse que na semana anterior um brasileiro estivera lá fazendo pesquisas. Quem me dera saber alemão e poder ir lá fazer pesquisas!)


Muito se comenta sobre o vegetarianismo de Hitler. As falácias argumentativas dos carniceiros crescem como o pé-de-feijão do João e saem pela cidade espalhando jatos de fogo e cólera. Não me lembro de em nenhum momento ter cogitado que “comer carne é algo maligno porque, veja, não há histórico de psicopata que tenha sido vegetariano e a grande maioria dos ditadores comia carne”, porque posso falhar nas minhas análises, mas acho que não falho de forma tão absurdamente ignorante e débil. Mas já ouvi e li muitos doutores de fórum virtual essa fusão entre Hitler e vegetarianismo como prova de que... Pois é, prova de quê? Acho que carniceiros se sentem imorais comendo carne e querem tentar provar que imorais são os vegetarianos, pois Hitler era vegetariano. Mas em que biografia, documento, discurso, relato médico está escrito que Hitler era vegetariano por compaixão aos animais? Li certa vez que era mesmo vegetariano, mas que às vezes burlava a dieta (não lembro onde li, então não sei se é uma informação honesta). O filósofo Michel Onfray, em O ventre dos filósofos: crítica da razão dietética, encerra um capítulo com a informação solta sobre o vegetarianismo de Hitler, de certo modo insinuando que um ditador notoriamente cruel era vegetariano. Não sei qual é a necessidade dessa vinculação (e Onfray parece muito tomado de ódio para ser levado tão a sério, vide suas críticas de lamaçal a Freud) e, mesmo que seu vegetarianismo fosse por amor aos animais, não entendo o que pretende provar. Mas temos certeza que não era por amor, pois Ryback bem cita as palavras de Hitler: “As vacas foram criadas para dar leite; os bois, para conduzir cargas”. Quem nesse mundo que se preocupe com os animais pensará que eles têm a função de nos prover com leite e labor? Hitler, ególatra pensando que o planeta deveria se render a ele e a seu ideal de raça perfeita, só era vegetariano pelo bem de si mesmo e de sua saúde debilitada. Não deveria jamais ser citado em discussões sobre veganismo.

Por último, nosso conhecimento de Hitler como leitor só nos faz refletir o quanto era miserável. Interessante – se não fosse interessante, eu não me preocuparia em ler livros sobre ele –, mas miserável. Lia livros todas as noites, lia quase tudo que lhe caía nas mãos, desde tratados militares e catálogos sobre armas até estudos astrológicos e autoajuda popularesca. Schopenhauer o teria desprezado nessas leituras em série, diria que não era capaz de lidar com a própria solidão e de ter pensamentos próprios. Demonstra não ter lido ou não ter prestado atenção a esses textos que o fariam tão bem para crescer como indivíduo. Optou por adotar apenas a antissociabilidade de Schopenhauer e deixou que o monstro que havia dentro de si se estendesse para o mundo. Quis ser lembrado de maneira poderosa, mas a posteridade o vê como alguém que alcançou poder absoluto de maneira muito difícil de entender (a pergunta é: “como é que a sociedade pôde conceber alguém como Hitler?” – não me lembro onde li isso, acho que foi no Conversas com Albert Speer, do Joachim Fest, que estou terminando) e depois fracassou. Merece, enfim, ser lembrado como um mau leitor. Fico feliz, ao encerrar A biblioteca esquecida de Hitler, em saber que um dos piores ditadores da história era, no fim das contas, um leitor muito fraco que não sabia escolher tão bem o que lia e confundia quantidade com qualidade. Se fosse um bom leitor, eu ficaria tentada a admirá-lo um bocado, pelo menos nesse aspecto dos livros. Não aconteceu. Prossigo nas leituras sobre ele porque realmente é de se questionar como no século XX uma pessoa com tamanha degeneração moral pôde adquirir poder. Como leitor, é possível entender Hitler, mas jamais louvá-lo. Acho que sei separar as coisas e mesmo reconhecer as possíveis qualidades de alguém que socialmente recebe puro menosprezo. Com pontuais exceções, não precisei separar Hitler de seus livros: sua biblioteca o define.