domingo, junho 26, 2016

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela


Meu ateísmo não é o melhor dos mundos. Não o adotei por querer, mas por dever cético. É claro que seria muito mais agradável saber que todos os grandes vigaristas do planeta serão julgados no momento da morte, e que toda essa gente hipócrita que nos presenteia à helênica, corriqueiramente, com palestras não requisitadas sobre ela mesma, mas que não faz nada de muito útil ou realmente revolucionário, vai se afogar no Aqueronte num dia de mormaço intenso. Isso se eu acreditasse nessas mitologias, e se a mitologia fosse de fato ao meu gosto: pode ser que um possível Deus fosse antiquado e condenasse quem bebe, tem um humor escrachado e não faz louvor em rituais. Nesse caso – minha danação eterna –, prefiro acreditar que o inferno é o lugar dos malditos em que vou beber no balcão não para tornar os outros mais interessantes (ou me tornar mais imune à chatice alheia), mas para atingir aquele nível de passarinho encantado sibilando valsas, que é como sou ao beber em casa, despreocupada por não ter que fingir tolerar nada. 

Duvidando de qualquer dessas histórias que são apenas isso mesmo – histórias –, considero que a vida é isso que está aí. E ponto. Eu vou acabar, você vai acabar, e tudo o que é nosso e considerávamos tão precioso servirá para fertilizar a terra. Esse entendimento pode gerar duas reações genéricas: uma delas, a de espanto metafísico, um desejo Woody Allen (do tempo dos bons filmes, que não eram como alguns outros dele que vemos numa semana e na outra já esquecemos a trama – indicativo de irrelevância; exemplo: Para Roma, com amor) de ser inoperante, porque existir não faz sentido, e passar a encarnar a Rê Bordosa com seu live fast, die young; a outra, de amor louco a essa efêmera coisinha que podemos aproveitar porque milhares de antepassados – humanos rudes, meio-macacos, seres recém saídos das águas, peixes, agrupamentos celulares – nos deram a oportunidade de participar desse evento que é a vida. Optei pela segunda alternativa. Acho-a justa. Sou diariamente grata à natureza e ao destino por ter pernas, lucidez, um emprego, dedos, visão, vontade de aprender: ou seja, sou grata pela vida – num sentido prático e sério, e não de quem acha que o melhor de todas as culturas são as danças circulares e os chás. Isso não me torna uma “pessoa positiva”: acho que as coisas são o que são, o que podemos e queremos mudar, que mudemos, o que não podemos mudar devemos deixar como está (por exemplo, estressar-se no trânsito é estupidez porque o estresse não vai fazer com que os carros fluam mais rápido). Mas isso me torna muito seletiva a respeito do que vale a pena fazer parte da parte da minha vida que controlo: minha intimidade e meus pensamentos. Assim, não quero ocupar nem minha intimidade, nem meus pensamentos com itens e sujeitos que nada me acrescentam ou que, pior, me diminuem. Venho fazendo uma seleção de tudo isso há anos. No concernente a itens, evito ter que ver, participar, ouvir falar de coisas desinteressantes que só vão ocupar espaço na minha memória limitada: se entrar muito entulho na minha cabeça, terei menos espaço para o que é valioso, ou mesmo as coisas valiosas ficarão pouco concentradas porque precisarão dar lugar a inutilidades. É o tipo de fórmula que pode nos levar a parecer agrestes: já pedi para interlocutores pararem de falar sobre determinados assuntos porque eu não ia conseguir prestar atenção, e, se prestasse, não gravaria a informação nem por cinco minutos. O tempo é muito precioso para que façamos com que nos falem de temas que não nos importam. (A alternativa a essa rusticidade quando encontramos alguém dado à tagarelice contínua – a.k.a. monólogo – é a introspecção: por fora, dizemos “hm”, “uhum” e “ah, é mesmo?”, por dentro estamos fazendo listas de compras, treinando a tabuada, lembrando a discografia do Killing Joke e planejando viagens. Se surpreendentemente o falante voraz parar sua conferência para nos fazer uma pergunta e não tivermos ouvido porque estávamos escolhendo que marca de aveia comprar mais tarde, podemos nos sair com “olha… não sei” ou fingir surdez com “o quê? desculpe, não entendi”.) No concernente a pessoas, evito inúmeros tipos, primeiro porque não gosto deles, segundo porque não tenho tempo para eles. Vejam, se tudo der certo, daqui a muitas décadas vou morrer. Até lá, terei lido tudo que quero ler? Terei aprendido tudo que gostaria de aprender? Terei visto todos os filmes que coloquei na Watchlist do IMDB? Terei ouvido todos os álbuns de black metal, jazz e cold wave que pretendi ouvir? Com certeza não. (Numa remotíssima hipótese de eu já ter esgotado tudo isso, digamos, aos 80 anos – “pronto, não há mais nada que eu precise ler, ver ou aprender” –, aí eu poderia explodir meus miolos, porque seria lamentável ter que passar as tardes vendo televisão por não haver mais nada para fazer enquanto a morte não chega.) 

Muito bem, se uma vida não bastará para fazer tudo que planejo – e já me conformei com isso, não é algo que falo quebrando grilhões na fuga do calabouço –, por que é que vou piorar essa situação colocando pessoas desagradáveis para ocupar minha solidão? Já disse, e repito: quando estou lendo um bom livro, estou lendo a melhor parte do que seu autor tinha para me oferecer. Às vezes o autor por completo é um patife. Um chato. Um pitoresco que jamais daria certo com o meu gênio. E eu não preciso do autor completo quando tenho o melhor dele inserido num livro: o livro dele me basta. Ao assistir a um filme, estou lidando com o melhor que seu roteirista, diretor, argumentador e tantos outros componentes puderam realizar: lido com pessoas, dependo de pessoas para que toda essa nobreza artística chegue a mim, mas trato com o que há de mais interessante nelas. O mesmo não acontece com as inúmeras figuras sem atrativos que tantos insistem em colocar para dentro de suas intimidades. Resultado: espíritos fedorentos estão trocando vapores em salões de festa, “jantar entre amigos da faculdade”, salas de estar, páginas pessoais. Não foi para esse teatrinho fajuto que me tornei a ponta de uma longa cadeia geracional de luta pela existência. Claro, todos atuamos um bocado porque precisamos disso para viver em sociedade e às vezes não atuar é uma tremenda falta de educação: a moça da padaria que te atende, trabalha nos finais de semana e ganha um salário exíguo não merece receber seu olhar de desprezo (trabalhei numa padaria por um mês, sei que mesmo o Zé Pintor é capaz de chegar para uma moça que está atrás de uma cesta de pão e achar que é superior a ela) só porque você, sujeito pelo qual os astros se movem, acordou de mau humor. Também não me lembro de nenhum “sou eu mesmo sempre” ter sido aprovado em entrevistas de emprego que incluem dinâmicas de grupo e farsas do tipo “meu maior defeito é o perfeccionismo”. O problema sucede quando atuamos mesmo onde não precisamos atuar, que é a nossa privacidade. Ninguém está obrigado a levar para casa pessoas que não têm com o que contribuir. Parece um manifesto contra a amizade e a favor do profundo egoísmo de só ficar com aquilo que é magnífico dos que nos cercam, mas não é. Ocorre que há defeitos e defeitos. Nossos amigos não podem nos suprir com utilidades o tempo todo, mas e no tempo em que não nos acrescentam nada, o que oferecem? Indignação com a feliz vida financeira alheia? Opiniões mancas de quem quer falar sobre qualquer assunto, mas tem preguiça de dar uma estudada antes de encerrar o caso? Apenas lembranças de histórias que já foram chafurdadas inúmeras vezes? Competições que só geram ansiedade desnecessária? Posso ajudar com alguns perfis que merecem ser expulsos da festividade única que é a nossa vida. Se você está num dos perfis, recomendo ir tomar um banho, fazer silêncio por três dias e refletir. Se você acha que não sou sequer um mosquito para recomendar o que cada um faz com sua vida, por que está lendo este texto? Jeez

O EXIBIDO – É um visualizador de oportunidades. Gosta de ter amigos de diversas profissões para sempre ter a quem recorrer num momento de necessidade. Gosta de dizer “tenho uma amiga cozinheira” quando a moda da Gastronomia está em alta e “tenho um amigo gay” desde que foi criado esse fetiche obtuso de que é o máximo ter um amigo gay. Gosta de ter amigos que fazem coisas “incríveis”, então você será visado se viaja para lugares exóticos ou se vive expondo trabalhos em feiras de arquitetura. Se você se tornar famoso, vai aproveitar para crescer em popularidade em cima da sua fama. 

O INVEJOSO – Mais comum do que se pensa, o invejoso pode ser o livro aberto da inveja ou ter artimanhas para esconder seus sentimentos pérfidos. Comportamento: não fica muito feliz quando algo bom acontece na sua vida (quando 10% disso ocorre na vida dele, é motivo para simpósio e champagne), se você consegue um emprego melhor já vai perguntando quanto é o salário (para comparar se você o ultrapassou e quantos reais a mais você tem de felicidade por mês), situações que você vê como boas na sua vida recebem um novo olhar do invejoso – você é mulher que trabalha fora e seu marido está alguns meses sem emprego e cuidando da casa: para vocês, ótimo, para o invejoso, “será que não seria bom que o Alberto trabalhasse fora? Não é estranho que você trabalhe e ele fique desempregado cuidando dos filhos em casa?” (é diferente de você achar algo ruim na sua vida e um amigo concordar; ou seu amigo abrir seus olhos sobre algo ruim que você não via) –, parece vibrar quando algo na sua bela vida dá errado e até acha que você tem o direito de ser feliz, desde que não ouse ser mais feliz que ele. 

O UMBIGO TAGARELA – Muitas pessoas assim passaram pela festa da minha vida. Chegaram como se trajassem Azzedine Alaïa, tomaram conta das jarras de ponche, roubaram o microfone dos rapazes da banda e falaram sobre suas vidas as coisas mais insossas que fariam um coala se tornar maratonista. Urinaram na piscina, trocaram a música do Depeche Mode “por outra muito melhor” e depois foram embora dizendo que foi o evento mais sensacional a que já foram e que “devíamos fazer outras vezes”. Não percebem que estão falando sozinhas no que não é uma conversa. Repetem histórias. Perguntam coisas somente quando querem ganchos para contar seus sonhos e experiências – “já foi a Zurique?” “sim, eu...” “pois é, eu adoro Zurique, quero ver se faço doutorado lá, porque na maior universidade deles há uma linha de pesquisa que...”. Voltam de viagens de três dias à Rússia fazendo análises antropológicas e achando que já podem escrever etnografias sobre o povo russo. Narram cada passo de suas rotinas. Você não fala nada nem em um vigésimo do tempo, mas é chamado de pessoa amiga, simpática, querida. O tagarela é um sanguessuga. 

O PROVOCADOR – Esse é comum desde que determinei que todos os comes e bebes seriam veganos. Não costumo começar nenhuma conversa sobre veganismo. Não tento “converter” ninguém, todo mundo acha que o sabor de pedaços e pus de animais é argumento para comê-los e eu acho isso o cúmulo do hedonismo imoral. Só falo que sou vegana para que cessem de me oferecer comidas. Mas o provocador gosta de aparecer com “desafios”. Suas feições são irônicas (tenho horror a quem dorme e acorda com expressão irônica) porque ele acha que ironia é, obrigatoriamente, sinal de inteligência. Ele aparece e diz, peremptório: “hoje li que algumas marcas de pneu levam cartilagem bovina, fiquei me perguntando se você pega ônibus por ser vegana”. Não é uma dúvida de alguém que ignora e quer saber. É uma provocação. O arzinho é outro. Ele não chega e fala o bom português camaradão. Ele insinua, porque acha que é o maioral, o que sabe das coisas. Chato, cansativo e bobo. 

O DAS INDIRETAS – Você tem o cabelo crespo. Ele diz, numa roda de conversa: “tem gente, por exemplo, que tem aquele cabelo crespo seco e deixa ele solto, por que não fazem um corte melhor ou amarram o cabelo?” Seu namorado é mais novo que você. Ele diz, falando sobre uma mulher mais velha que tentou seduzi-lo: “ah, não, é ridículo namorar uma velha, ela que tire o cavalinho da chuva”. Você está com uma barriguinha, mas numa relação amigável. Ele, magro, diz, quando vai comer um pedaço de bolo: “tenho que me cuidar, estou virando um porco”. Você é uma senhora, mas isso não te impede de usar saias curtas e decotes em festas. Você chega à festa e ele diz sobre uma senhora um pouco mais velha que está com trajes parecidos: “meu deus, lá vai ela achando que é Madonna”. Se você acusa o recebimento da indireta, recebe a contemporização falsa: “ah, mas você não é velha como ela; e a roupa dela é diferente”. Você não tem empregada doméstica nem diarista em casa. Depois de te visitar, ele comenta: “nossa, tenho que ligar para a Fátima, porque hoje em dia qualquer casa sem uma diarista vira um antro de ratos”. As indiretas costumam ser sobre assuntos fúteis. Mas quem quer na festinha da própria vida alguém que sente prazer em sentir desprezo pelos “amigos”? Precisamos que nos elevem (mesmo com críticas, desde que bem intencionadas), não que nos menosprezem.

O QUE SE RECUSA A APRENDER – Interessantemente, nunca gosta muito das nossas recomendações. É avesso a admitir que pode aprender coisas incríveis com pessoas normais como você. Aquele disco que você recomendou? Não achou tão bom. Aquele livro? Era “bonzinho”, mas há melhores. Jamais dirá: “esse autor que você me recomendou se tornou um dos meus preferidos, obrigado” ou “não consigo parar de ouvir aquela música que você me mostrou”. Mas ele gosta muito de recomendar as coisas que ele “descobriu por si”. Às vezes é apenas a recomendação de uma outra pessoa, que pessoalmente ele também trata com certo desdém. Odeia admitir que admira os amigos próximos, porque é tão calhorda que acha que ao elogiar alguém “comum” está se rebaixando. Admirável é o jornalista que recomendou ler Gertrude Stein, não vocêzinho que é metido a intelectual e disse que Mary McCarthy é uma escritora portentosa. Por ser um tipo de arrogante, não merece ódio, mas pena. 

O FÚTIL – Gosta de se atolar na vida das pessoas – dos chefes, dos colegas de trabalho, dos colegas de curso, dos vizinhos – para extrair qualquer coisa curiosa. Gosta de comentar sobre o carro que o vizinho comprou, mas não porque é fã de automóveis, e sim porque em cima disso vai se perder nas questões em série: “como comprou? Por que comprou? Mas com o que ganha poderia comprar? Vai se endividar, só pode”. Faz comentários como “Lucinda é bonita demais para Túlio, devia arranjar outro namorado”, por mais que Lucinda e Túlio sejam muito felizes juntos. Repara se as pessoas têm furos ou manchas nas roupas. Não é idoso e diz aberrações como “Joana está saindo com um moreninho que é até bonito” – quando o “moreninho” é um negro, sem dúvida. Acha que velhos precisam se vestir como estereotipados velhos, gordos têm que se vestir como gordos e chama qualquer excêntrico de “esquisito”. Sente vergonha quando está com alguém “mal vestido”. Adora dinheiro e pessoas com dinheiro. Acha que viver é uma eterna ambição financeira. É difícil falar com ele sobre livros, filmes, música, a menos que sejam os do momento. 

Basicamente, essas são as personas das quais me esquivo. Há outras. E também há aquelas coisas que nos deixam boquiabertos, mas que não são de tamanho suficiente para um rompimento de amizade ou afastamento, como quando um amigo nos cobra os dez centavos que gastamos a mais num café ou nos presenteia com algo sem sentido (uma porcaria barata e feia, porque ele não quis gastar tempo nem dinheiro com o presente). E quem convidar para a festa? Acho que, no fundo, todos nós sabemos quais pessoas nos fazem bem e quais nos fazem mal. O motivo de mantermos tanta gente pavorosa transitando na nossa varandinha e dando pitaco no que fazemos é de ordem cultural: fomos ensinados pelo mundo que a solidão é algo ruim, que todo mundo tem amigos e que as redes sociais só funcionam justamente porque temos um círculo de contatos. Você deve ter contatos. Se não tiver, talvez não saiba lidar com isso, e talvez acabe agravando a situação geral da depressão, um dos grandes males do século. Para mim, é algo difícil de entender: “estou aqui, nesse bar, com essa pessoa modorrenta que não para de falar de si mesma, quando poderia estar em casa vendo um filme; e mais tarde, certamente, tiraremos uma foto para mostrar para todo mundo que estamos por aí, que estamos nos mexendo”. Esse teatro íntimo patético pode ser evitado. Se não sobrar ninguém, isso não será novidade: pessoas louváveis e elegíveis como amigas são raríssimas. Não é à toa que os filósofos se debatem há milênios sobre o problema da amizade: ela é tão excepcional na sua forma verdadeira que aquele que encontra um bom amigo pode se dizer afortunado – é o que diz qualquer filósofo que preste algum bocado. Quem não encontra não precisa se entristecer. Ninguém disse que uma festa não pode ocorrer porque há apenas um convidado nela.

quarta-feira, junho 15, 2016

Rápidas e soltas 11: Duvivier e Millôr, Cosac Naify, Temer


Novamente Gregório Duvivier quer adaptar Millôr Fernandes, o múltiplo, a seus esquadros politicamente corretos. Não é a primeira vez que vem, em coluna, insinuar que Millôr tinha um humor atilado, revolucionário, "crítico", contra-hegemônico. Talvez queira adorar Millôr, mas sabe que não pode porque o humorista-tradutor-autodidata não se encaixa em seu novo espírito de censor que se confunde com amor ao coitado do próximo. Para poder adorar Millôr sem ser apedrejado pela esquerda que promove justiçamentos virtuais, Gregório resolveu "esquecer" o desenho de muitas das facetas de Millôr. "Esqueceu" que já nos anos 70 e 80 Millôr criticava o vocabulário politicamente correto. "Esqueceu" que Millôr criticava o comunismo e o socialismo por seu autoritarismo inerente. "Esqueceu" que Millôr tinha asco do Chico Buarque porque, como dito no Roda Viva, desconfiava "de todo idealista que lucra com o seu ideal". "Esqueceu" que Millôr repudiava outro grupo além dos médicos, dos políticos e dos psicanalistas: o das feministas (aquelas que difamaram o "feministo" Gregório quando ele apareceu numa capa de revista defendendo o aborto: para elas, em outras palavras e de acordo com seu jargão de clube, "roubando protagonismo"). "Esqueceu" que Millôr falava coisas sobre as mulheres – e as meninas de treze anos – que provocariam gritos de seios pelados na Avenida Paulista. Enfim, o Millôr que Gregório louva não existe. Para que Millôr pudesse deixar de ser o desbocado que era e se tornasse o cristão promotor de lava-pés que Duvivier quer que ele seja, seria preciso cortar, queimar e enterrar mais da metade de sua obra. A gente lê A Bíblia do caos e se pergunta se aquele que escreve e aquele que Gregório elogia em colunas esquerdistas é o mesmo sujeito. 

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Algumas de Millôr que foram compiladas no Millôr definitivo: a Bíblia do caos: “Murilo Mendes, mineiro e poeta, sempre com aquele ar de quem compra queijo-de-minas em Amsterdã”; “A boca é o aparelho excretor do cérebro”; “Esnobar/ É exigir café fervendo/ E deixar esfriar”; “Quando um intelectual para de falar parece que está desempregado”; “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!”; “Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta”; “Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? También soy”; “Sempre tive o bom senso de não me aliar nem a grupos de escoteiros nem a grupos políticos, ou mesmo intelectuais e artísticos. Todos os grupos (sobretudo os altamente filantrópicos), ao fim e ao cabo, são apenas agências de emprego para seus membros”; “Uma vida passada entre quadros não faz um conhecedor de arte (vide vigias de museu)”. 

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Comecei a ler Millôr quando estava na sétima ou oitava série. Tomava emprestados alguns livros dele da biblioteca municipal. (Na mesma época, eu lia Agatha Christie com voracidade. Hoje, na estante da minha casa em São Paulo, só faço questão de ter O caso dos dez negrinhos.) Desde sempre gosto de humor e Millôr é muito fácil de ler. Mas mesmo naquele tempo eu já me horrorizava com algumas coisas: os ataques à psicanálise, o endeusamento de mulheres bonitas como as melhores mulheres (não à toa Katharine Hepburn dizia que as mulheres feias entendiam mais dos homens do que as bonitas), o tratamento rude dado às feministas, a crítica a qualquer coisa, seja porque fosse muito conservadora ou muito revolucionária. Millôr era bom, mas não escapava de vaias: como muitos humoristas, usa sarcasmo para encobrir a ignorância sobre certos assuntos. É mais fácil zombar daquilo que se desconhece do que tentar entender e perder a piada. O lema de muitos: "não entendo nada sobre isso, então vou tirar sarro".

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As coisas boas sobrevivem ao tempo. E me parece que somente as boas pessoas valorizam as coisas boas que sobrevivem ao tempo. Quando vejo gentes se debatendo para ir ao encontro de novidades (filmes, música, livros), eu me questiono se isso é amor ou é temporada. Uma novidade pode ser boa, é claro, apesar de ser muito mais fácil que não seja. Mas resistirá ao apelo por modernidade máxima de seus atuais discípulos? Todas aquelas pessoas que ouviam euro dance nos anos 90 e alegavam que aquele era o ritmo de uma era, que aquilo era para dançar ou morrer – nunca mais as encontrei ouvindo AB Logic ou 2 Brothers On The 4th Floor (eu, aliás, ouço). E para onde vão todos os medonhos livros de listas de “mais lidos” após dez ou vinte anos, já que perdemos contato com a maioria deles? 

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Há somente dois seriados que acompanhei por completo: Friends (pela comédia; as cenas de amor são para ir buscar algo na geladeira ou trocar o novelo do tricô) e Sex and the city (pela tremenda empáfia: que mulheres são essas vivendo desse jeito?). Podem me julgar à vontade. Também me julguei. Para me julgar menos, eu colocava legendas em inglês, porque então pensava: “pelo menos estou aprendendo algo”. E aprendi muito. Foi graças a Samantha Jones que entendi o que David Bowie queria dizer com “suck, baby, suck/ give me your head”, de Cracked actor – até então, eu não captava o que era “give a head” para alguém, até porque na época eu ainda não conhecia o ótimo Urban Dictionary (que não é apenas um lugar para conhecimento, mas para diversão: entrar lá e acompanhar as palavras de cada dia é se perder). Recentemente baixei Seinfeld, que tenho visto aos poucos. Mas não entendo se sobra tempo – e para quê – na vida de quem trabalha, dorme, come e acompanha os diversos seriados que surgem a cada estação. E também não entendo como esse tipo de maratonista deprimente se julga no supremo direito de criticar quem assiste a diversas novelas. A falta de critério é muito similar, a fuga para um lugar falso e bobo como uma constante é muito similar. Para mim, sempre foi difícil respeitar quem vê muita televisão: quem mora na rua me parece menos fracassado que isso. Alguns respeitáveis me disseram que Downton Abbey é bom. Talvez eu veja algum dia. 

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Ainda não consegui superar a morte da Cosac Naify, a editora que era como uma xícara de porcelana cheia de café (descafeinado) numa noite fria, como um bolo de fubá com goiabada recém-saído do forno, como o cair da tarde no inverno, como andar de trem na República Tcheca. A Cosac nos proporcionava maravilhas. Existirá outra editora como ela? Tenho sentido a dor da saudade toda semana, porque às terças-feiras a Amazon faz promoção de livros da Cosac a partir do meio-dia (com o fechamento da loja virtual da editora, os livros passaram a ser vendidos pela Amazon) e toda semana tenho aproveitado para comprar o que me interessa. Na quarta os livros já estão aqui. Eu abro a caixa e são só encantos. Quem era o curador dessas obras? Quem escolhia o papel de dentro, o papel de fora, as fotografias, a diagramação, a cor do texto? Quem quase nos mata de sentimento afetivo toda vez que a gente abre um livro da Cosac para ficar estupefato? Eu até sinto vergonha de pagar o valor módico que estou pagando por essas pequenas delicadezas artísticas: os Contos completos de Tolstói, três livros lindos de chorar, numa caixinha graciosa por menos de cem reais é uma mixaria (que é uma palavra que nem combina com a Cosac). Como gosto muito do universo infantil, também compro, de vez em quando, livros infantis da editora: dá vontade de arranjar uma criança educadinha na rua e contar todas as histórias para ela de dentro de uma cabana montada no tapete da sala. Não há dia ruim que resista a ir para debaixo do edredom com Ter um patinho é útil. Quem folheia (sem ler – estou falando, no momento, apenas de apreciar a beleza física dos livros) as Novelas exemplares, do Cervantes, e não se sente emocionado com o trabalho concedido àquele volume não é digno de empatia. 

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Dilma Rousseff é culpada duas vezes, no mínimo: por fazer um governo tão ruim e por nos legar um substituto tão incompetente. Para Temer, eu poderia usar palavras obscuras tiradas de um vocabulário prolixo, mas nenhuma delas teria tanta perfeição de vestimenta quanto: bundão. Bundão porque toma decisões e volta atrás. Não que as decisões sejam acertadas (algumas são, outras, não) e que ele não devesse voltar atrás, mas basta alguém se manifestar – e em São Paulo, é incrível, há manifestação sobre alguma coisa quase todos os dias, seja de taxista, de artista, de feminista, de corintiano ou de sindicato – e tecer críticas um pouco mais severas ao governo que ele coloca o rabo entre as pernas e muda o rumo. “Ah, mas pelo menos nesse ponto ele é democrático, ele está ouvindo o clamor das ruas.” Não é por democracia que ele volta atrás, é por medo. Medo de ser detestado, medo de ser desrespeitado (não chegou a alegar que estavam destratando seu psicológico?), medo de falhar em seu governo provisório. Se espera admiração, não entende muito do espírito das massas. Afinal, quem é que idolatra gente frouxa?

domingo, junho 05, 2016

Textos dos outros: A esquerda e a universidade - Hélio Schwartsman (Folha)


Antes da coluna, um breve comentário meu.

Nas vezes em que discuti sobre universidade pública paga com esquerdistas, ouvi o mesmo argumento, que eles dão como se fosse o encerramento glorioso da discussão: “se alguns tivessem que pagar para estudar, perderíamos a ideia da universidade pública e gratuita para todos”. Se isso pode ser chamado de um argumento completo – eu acho que é apenas o antebraço de um argumento, porque está faltando muita coisa para ter nexo –, é, pelo menos, muito ruim. Que sentido faz o rapaz que sempre estudou em colégios particulares caríssimos ir para a universidade pública sem pagar nada por isso – já que ele pode pagar? Eu certamente não me identifico com os dois grandes blocos posicionais políticos, porque, contra a direita, eu não defendo o Estado Mínimo imediato num ambiente de absurda desigualdade social, e, contra a esquerda, eu não acho que precisamos ser todos o mais iguais possível: uma certa desigualdade é que move o mundo das ideias, infelizmente (ou os românticos acham que as pessoas estudam tanto para entupir o Lattes só por amor ao conhecimento?), e o real problema é quando a desigualdade é avassaladora em vez de natural e saudável. Com exceção das licenciaturas e um ou outro curso marginalizado (como Enfermagem e Biblioteconomia), em que a concorrência para entrada é baixa, grande parte dos acadêmicos das outras áreas provém de famílias com excelente renda. Estudam gratuitamente às custas do governo durante o ensino superior, depois se formam e não retribuem ao Estado o que lhes foi fornecido, porque obviamente não são obrigados: o recém-médico quer montar consultório ou trabalhar em hospitais de renome; não pensa em passar uns anos atuando em postos de saúde e no pronto-socorro de hospitais públicos. Se alguns estudantes precisam de incentivo financeiro para prosseguir com os estudos – como faria a jovem pobre que veio do interior, está morando sozinha num quartinho barato e não pode trabalhar para se custear porque seu curso de Economia é em período integral? –, outros podem pagar, tranquilamente, para se beneficiar do ensino superior público a que sempre almejaram. É lamentável – e estranho, como pontua o colunista Hélio Schwartsman – que a esquerda não perceba essa questão tão essencial. E ela não condiz, afinal, com um dos interessantes lemas esquerdistas: “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”? 

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A coluna, de 31 de maio: 

"O fato de que (...) sejam 'gratuitos' também os estabelecimentos de ensino superior significa tão somente que as classes altas pagam suas despesas de educação às custas do fundo de impostos gerais". Se interpretarmos a frase acima segundo o "Zeitgeist" (espírito do tempo) atual, concluiremos que ela partiu de um neoliberal, ou, pior, de um membro do governo Temer – ambos incapazes de esconder seu ranço direitista.

Seria uma boa aposta. O novo ministro da Educação, afinal, já insinuou que seria favorável à cobrança de mensalidades para alguns tipos de curso em universidades públicas. No mais, estaria no DNA da direita tentar destruir conquistas sociais como a "universidade pública gratuita e de qualidade".

Como o mundo é sempre mais complicado do que nossas palavras de ordem, sinto-me obrigado a revelar que a frase não tem como autor um entusiasta do Estado mínimo como Milton Friedman ou Friedrich Hayek, mas o insuspeito Karl Marx. Ela consta da "Crítica ao Programa de Gotha", de 1875, em que o pai do comunismo faz comentários às teses que os social democratas alemães defenderiam no congresso do partido.

E as críticas do pensador alemão não param por aí: "Isso de 'educação popular a cargo do Estado' é completamente inadmissível. (...) Longe disso, o que deve ser feito é livrar a escola tanto da influência por parte do governo como por parte da igreja".

Como todos os filósofos que pretenderam criar sistemas, Marx cometeu alguns equívocos graves, mas isso não tira dele o mérito de ter sido um grande sociólogo e um arguto observador da realidade. Ao criticar a "universidade pública gratuita", ele só viu o que ela de fato representa: um subsídio que os mais pobres dão aos mais ricos – algo que não combina muito com as ideias socialistas. Seria interessante tentar entender como a esquerda contemporânea ficou tão míope nessa matéria.