quarta-feira, dezembro 02, 2015

Rápidas e soltas 06: Cunha, Wesley & Joesley, Cosac, Lolita


O maior problema do Brasil são seus políticos. “Anotação apreendida pela Procuradoria-Geral da República aponta que o banco BTG Pactual pagou 45 milhões ao deputado Eduardo Cunha (…) para ver interesse do banco de André Esteves atendido em uma emenda provisória” (Folha). Sobre o assunto, Cunha escreveu em seu Twitter: “isso está cheirando armação”. Quando o secretário-geral da UNE desestruturou uma entrevista que Eduardo Cunha dava à imprensa, jogando cédulas de dinheiro falso na cara do deputado enquanto gritava “trouxeram sua encomenda da Suíça!”, Cunha disse que o manifestante havia sido “contratado”. Perseguição política é o nome que o orador Cunha quer dar à sua tardia colocação como investigado por coisas das quais todos já suspeitávamos. 

Cunha é um evangélico fervoroso. O que será que Deus pensa dele?

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Num ato de cinismo tremendo, Cunha escreveu para a Folha de São Paulo na semana passada: sob o título “Fizeram de mim o inimigo número 1 das mulheres”, disse que “jamais houve imposição de pautas minhas” ao se referir sobre o aborto. Ano passado, todavia, tinha declarado que a legalização do aborto só seria permitida “por cima de seu cadáver”. Ninguém fez dele nada. Ele é que se fez e se faz a cada dia quando ousa levantar da cama todas as manhãs para calçar pantufas pagas com dinheiro público e para levar sua mulher de olhar estatelado (será que dorme com os olhos arregalados daquele jeito?) às aulas de tênis pagas com dinheiro de propina.

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Vale lembrar que a revista Veja, hoje tão crítica da fortuna súbita de Cunha, demorou demais para assumir de vez que o Brasil entrava numa cilada com um presidente desses na Câmara. A revista demorou tanto para assumir o que qualquer sujeito com boa visão política já sabia – você olha para o deputado e percebe que ele não presta – que usou eufemismo para se referir à canalhice dele como algo meio faceiro. Na edição de 25 de março, com Cunha glorificado na capa como uma espécie de “finalmente alguém não deixa barato esse governo do PT”, o jornalista responsável pela matéria principal escreveu: “Enquanto a maioria dos parlamentares delega as questões mais complexas para os assessores legislativos, Cunha, que é economista, estuda e domina os assuntos. Não é por acaso que, dada alguma demanda complexa de setores empresariais, o nome dele é o primeiro a ser lembrado como interlocutor na Câmara. Como só relógio trabalha de graça, Eduardo Cunha, conta-se, cobra caro dos empresários por sua dedicação ao tema de interesse deles. Pede doações para as campanhas políticas dos deputados que gravitam ao seu redor.” Que outro nome daremos à parte que grifei senão pilantragem? Como um deputado pode cobrar de empresários para defender, num ambiente de representação pública, interesses privados? Se fosse de um político do PT o mesmo modo de operar, ele seria rechaçado pela Veja? Claro. Assim como a Carta Capital suaviza as coisas para o lado dos políticos da dita esquerda.

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Gostaria de entender como é que Lula, que enquanto presidente ganhava uns 20 mil por mês, consegue comprar imóveis de milhões de reais. Se tivesse guardado integralmente cada salário, no final dos oito anos de mandato teria quase 2 milhões de reais na conta. Só assim seria possível comprar aquele apartamento triplex no Guarujá, avaliado por corretores em 1,5 milhão – e que Lula, que deve ser um negociador de primeira, disse ter comprado por R$48 mil. E eu achando que sabia barganhar bem quando dialogava descontos de uns reais no sebo! Parte da fortuna desse homem que embalou corações em 89 “vem de palestras”, alega o instituto que leva seu nome (instituto que serve para desmentir tudo de que Lula é acusado na imprensa). Intrigante. Mário Sérgio Cortella, que não está nadando em dinheiro, tem muito mais palestras no YouTube do que Lula, que alega viver de palestras – adquiridas justamente por empresas que são investigadas por corrupção.

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Gosto muito das Havaianas desde que elas deixaram de ter aquele formato de castanha-do-pará que tinham na minha infância. Gostava tanto da marca que há dois meses aproveitei uma promoção e comprei alguns pares com personagens de desenho (porque eu adoro desenhos), a fim de mantê-los guardados até que o par em uso estivesse desgastado. Foi quando Wesley e Joesley, donos da JBS-Friboi, compraram marcas como Mizuno, Osklen, Timberland – e Havaianas (veja AQUI). Agora, dar dinheiro para as Havaianas é dar dinheiro para os irmãos que matam milhões de bois todos os anos, compram partidos políticos (porque, já escrevi aqui, não existe afinidade partidária alguma quando você faz doação milionária para a campanha de dois partidos rivais como o PT e o PSDB) e engolem empresas menores com o auxílio do BNDES. Pois é: admirável mundo novo em que num governo dito de esquerda é que Wesley e Joesley podem alimentar seu monopólio. Tenho horror a monopólios porque eles suprimem nossa liberdade de escolha, massacram trabalhadores (que diferença faz trabalhar para a Antarctica ou para a Brahma se as duas pertencem ao polvo AMBEV?), destroem as esperanças dos pequenos empresários e tendem a estar envolvidos em atitudes antiéticas, como testes em animais (que a Unilever faz), destruição de florestas (que a Nestlé promove) e trabalho infantil (que grandes marcas de tênis apoiam). Quantos pequenos empresários não morrem na praia enquanto Wesley e Joesley recebem dinheiro do BNDES para comprar empresas nacionais e internacionais? A partir de hoje, não comprarei mais Havaianas. Nem Mizuno, que era uma marca de tênis que eu considerava excelente para corrida e que tinha a graça de ser vegana. Havendo outras opções de chinelos e de tênis, por que vou contribuir para o enriquecimento de quem quer dominar o mundo? O que eu tenho dessas marcas, usarei. Mas depois de se desgastarem, não comprarei mais, já que a partir de agora os lucros irão para os bolsos de Wesley e Joesley. E foi por causa dessa notícia que descobri que as Havaianas pertenciam às Alpargatas, que pertenciam ao Grupo Camargo Corrêa, que pertence ao rol das principais empresas investigadas na Operação Lava Jato. Está difícil fugir do que é errado. Mas não é impossível.

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O boicote é uma grande arma que permanece guardada no fundo da gaveta do consumidor. Sua opção em não usá-la é puro comodismo de quem veio a este planeta para comer, trabalhar, procriar e produzir lixo, tão somente. Uma amiga me disse que em Blumenau também houve passeata de mulheres “#foraCunha”. Enquanto protestavam pela cidade, o dono de uma ótica de lá, a Look, postou numa rede social algo como “essas loucas vão para a rua para defender aborto, mas não vão para a rua bater panelas contra os políticos; hipocrisia”. As mulheres que estavam na passeata recomendaram o boicote à ótica. Achei muito bom. Mas também achei muito pouco. É tão, mas tão fácil boicotar a Look que a defesa do boicote já veio de uma maioria que nem comprava óculos na Look, mesmo. É tranquilo como um grilo boicotar uma marca da qual nunca se precisou. Isso me lembra uma mocinha muito rebel yell que ficou revoltada por não poder comprar os novos queijos vegetais da Superbom e disse que veganos de todo o Brasil deveriam escrever para a marca dizendo que se não baixassem os preços seria feito um boicote. Só que o intento de um boicote não é exatamente esse. Você não está boicotando nada quando não compra de uma marca porque não pode, por motivos financeiros. Se assim fosse, deveríamos dizer que moradores de favelas estão cotidianamente boicotando Prada, Donna Karan, Louis Vuitton, Burberry. Boicote é quando você pode comprar, mas não compra por questão de princípio. Em relação à Look, acho que o boicote deveria ser algo que tem mais impacto em nossas vidas. É fácil boicotar uma ótica de uma cidadezinha. É louvável – já que o dono é um desinformado que não pensa duas vezes antes de expor as próprias ideias curtas na internet –, mas é fácil. Quero ver as pessoas boicotando marcas antiéticas no supermercado, quero ver a “preocupada com os problemas do mundo” deixando de comprar Omo e Bombril para comprar Ypê ou (melhor ainda) Amazon, deixando de comprar Maizena para comprar o amido de milho de uma marca pequena, deixando de comprar bolachas recheadas de farinha, gordura vegetal e açúcar da Nestlé para comprar cookies da Mãe Terra. O animal político é sempre um animal político. Ele não adentra o supermercado e passa a ser um alienado. No meu mundo ideal, as pessoas veriam o ato de comer e de fazer compras como atos políticos. Nada melhor para transformar a sociedade do que agir naquilo que a movimenta tanto: o comércio.

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A Cosac & Naify, uma das minhas editoras preferidas, está fechando suas portas. É triste. Li a chamada no jornal e pensei “não acredito que isso está acontecendo com este país”, porque para mim é como se um importante museu de arte fechasse. Não falaram de crise, mas o discurso leva a crer que problemas financeiros estão entre os motivos do fechamento. Temo pelo futuro das boas editoras e espero que não haja um efeito dominó. Num país onde sequer os professores leem ou compram livros (porque “são muito caros”, eles dizem antes de tagarelar o clichê de a educação no país precisar melhorar enquanto eles mesmos passam os dias sentados vendo TV – “maratona de dezenas de séries” é a nova imbecilidade que coopta mesmo os estudados – e falando pelos cotovelos), não duvido que logo outras editoras comecem a quebrar. Eu queria que o Brasil me desse os arrepios que o hino dele me dá. Ultimamente, só tem dado desgosto.

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Li Lolita, do Nabokov, há uns dois ou três anos. Não sei se Italo Calvino consideraria o livro um clássico, mas as editoras parecem considerar, já que a obra figura entre inúmeras coleções de clássicos da literatura, e foi por isso que li. Lembro de ler e sentir náuseas em muitos trechos. “Engraçado, para mim isso não passa de pedofilia colocada em prática”, foi o que conjecturei. Mas Lolita era tão comentada, tão celebrada, tão glamourizada pela arte que eu não me aprofundei na questão. Fiz uma pesquisa no Google e vi que era a obra preferida de Luís Fernando Veríssimo (que só deveria escrever roteiros para a TV e livretos para adolescentes, na minha opinião, porque a única coisa que encontrei de aproveitável dele para adultos foi um texto em referência ao Collor, brincando como seria o país se taxistas fossem presidentes). Vi também que Nabokov parecia considerar a acusação de banalização da pedofilia uma coisa muito moralista. A arte tem dessas: faz com que crimes sejam vistos como belos, suaves, porque com nova roupagem. Lolita, uma criança de doze anos, passa a ser a sedutora de um quarentão que não resiste à sua doçura pueril e cativa milhares de leitores. Hoje de manhã li um texto muito bom da blogueira Amanda Venicio sobre essa relativização de Lolita, principalmente no cinema (AQUI). Gosto muito do Kubrick, acho que tanto seus filmes quanto suas fotografias são excelentes, mas não compreendi muito bem como um homem com filhas pôde adaptar uma obra que brinca com a pedofilia. A história é bem escrita? É. Não é o primor estético que eu tomaria como referência ou deixaria no meu criado-mudo, mas é. A trama, no entanto, não deixa de ser torpe por isso. O que me faz atônita não é a publicação do livro em si ou a ousadia da sua escrita, mas a receptividade de abraço que o protagonista ganhou. Poderia ser um livro “é apenas uma história que pode ter acontecido a muita gente” já que a literatura não obrigatoriamente tem que expurgar dentro da própria trama os crimes que acontecem nela, num engajamento severo, mas não foi isso que vimos acontecer. Tanto não foi “apenas um drama que está imitando a vida” que Lolita passou a ser referência para comportamento, vestimenta, sensualidade. Era para ser uma personagem tida como desgraçada por ter encontrado em sua vida um imundo ególatra como Humbert Humbert, mas é vista por deslumbrados tapados como “ai, que delícia essa vida Lolita”. O mesmo sentimento tive quando li Memórias de minhas putas tristes, do Márquez (único livro que li dele, na verdade). A história: um velho prestes a fazer 90 anos quer se dar de presente uma noite de sexo com uma adolescente virgem. Em vez de ser rechaçado, esse senhor é visto com leveza: “que gênio esse Gabo, no final faz o velho deixar a menina dormir em vez de trepar com ela”. Não sei se Gabo queria polemizar – “vejam como sou atrevido escrevendo sobre tabus” –, se realmente naturaliza a história que narrou – “é só uma literatura, nenhum personagem deveria ser julgado moralmente, cristãos” – ou se, velho, nutria desejos por adolescentes virgens e fez com que seu livro libertasse a vontade que existia nele. Só sei que não gostei da obra – e muito menos da recepção serena que ela teve. Não acho que a literatura precise de personagens morais. Mas personagens são pessoas, e, tal como as pessoas, recebem julgamentos. Qual é a motivação de um personagem para ser imoral? Uma boa motivação ou identificação pode nos cativar – quem não se afeiçoa a Raskolnikov? –, mas que tipo de simpatia poderíamos alimentar por Humbert Humbert? Ele é apenas um abusador sem justificativas, não merece ser abonado. Que exista como personagem dentro de um livro que não estou condenando à extinção, mas que receba o julgamento que merece e deixe de ser adorado só porque está inserido numa arte. O papel da arte também é nos causar ojeriza. Você não é obrigado a criar laços de simpatia com qualquer protagonista vil que caia no seu colo. 

Casou com a mãe para ficar com a filha: se fosse no jornal, espanto; na arte, aplausos

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Ainda sobre abusos, a campanha “#meuprimeiroassédio”. O que mais me assustou sobre os depoimentos das mulheres não foi o teor, mas a idade que relatavam que tinham quando foram assediadas pela primeira vez. Sete, oito, nove, dez anos. Eram crianças sendo assediadas, alisadas, convidadas para fazer alguma coisa sexual em troca de dinheiro ou doces. Portanto, não estamos falando de algo “tão raro que nem deveria virar manchete”, estamos falando de uma criança do sexo feminino não poder exercer sua infância com plenitude porque há homens que se acham no direito de desejar aqueles corpos e demonstrar isso. Eu tive seios muito cedo porque menstruei muito cedo e lembro muito bem como era apavorante ser considerada objeto de desejo por estranhos numa época em que eu queria carregar bichinhos de pelúcia dentro da mochila. O primeiro assédio de muitas mulheres não foi vivido na infância tendo como causador o coleguinha de mesma idade do sexo masculino que não atinava muito bem sobre respeito. Foram marmanjos, adultos, velhos provocando crianças. O que Roger, do Ultraje a Rigor, que calado é um Sêneca e morto seria um Hesíodo, teve a dizer sobre a campanha? Que aos dez anos uma empregada deixou que ele pegasse nos seios dela e foi excelente. Certo, não duvido que tenha sido excelente, mas vamos dar o devido peso aos sexos e à cultura? Quando adolescente, já recebi cantadas e olhadas demoradas de lésbicas. Nunca senti medo. Bastava um homem me olhando se aproximar de mim na rua para ficar apreensiva, todavia. Assim, eu gostaria de perguntar ao Roger se teria sido gostoso e excelente se aos dez anos um adulto tivesse mandado que ele passasse a mão no pênis dele (desse adulto). Será que teria sido deliciosamente marcante e motivo de orgulho para divulgar no Twitter? Acho que não, né? Acho que nosso querido músico de QI estratosférico teria ficado traumatizado. Então vamos respeitar o problema específico de cada um, porque nem tudo que parece ter o mesmo peso merece ser avaliado com a mesma medida. 

PS: a pedofilia é caracterizada como transtorno psiquiátrico, portanto não necessariamente um abusador de crianças é um pedófilo (que só sente atração sexual por crianças). Para mim, tanto o pedófilo quanto o abusador, ao colocarem em prática seus desejos, violando crianças, merecem ser execrados. Um pedófilo nem sempre vai chegar a abusar de uma criança, apesar de desejá-la. Mas se chegar, que não seja amenizado por sua condição psiquiátrica, pois é plenamente capaz de coordenar seus atos. Perguntamo-nos: e como é que tantos homens assediam crianças se eles não são pedófilos no sentido psiquiátrico da coisa? É que há homens que não podem ver nada que para eles remeta a sexo que já vão se sentindo excitados. Não erguemos a civilização para permitir esse tipo de selvageria. 

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O Natal costuma ser uma época terrível para os animais. Você, que não vai ficar mais pobre por causa de uns vinte reais, pode minimizar esse sofrimento fazendo uma doação para vários queridos que estão lá no Natal Animal. Leia a história deles, doe e divulgue: http://natalanimal.com.br/animais/

domingo, novembro 29, 2015

Gordos e gordofobia


Muitas vezes conseguimos, no passado, ocultar o diabo que chacoalha dentro de nós sob uma expressão plácida, aquela cara de quem vive deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. Até que a internet apareceu como um grande terapeuta disposto a nos encorajar à livre associação o tempo todo – e aquilo que arquivávamos permanentemente passou a figurar na pauta do dia de nossas vidas. As pessoas têm coisas irrelevantes na cabeça: e elas vão levá-las a público. Descobrimos que o vizinho tímido é o rei da comédia. Que nosso tio caladão tem opiniões políticas – por sinal, bem duvidosas. Que nossos amigos são mais fanfarrões do que imaginávamos, soltando opiniões rasas e de senso comum a respeito de temas muito profundos. Você vai escavando murais, seções de comentários, jornais, blogs e pensa: “então isso são as pessoas”, porque é tudo muito grotesco, extremo, ignorante, ofensivo. No meio dessas escavações, que muitas vezes ocorre por acaso, encontrei a bandeira dos gordos e a bandeira dos que têm nojo de gordos. Nesse pontinho, nada de novo para anotar no bloco das memórias de guerra in loco. Gordos são execrados há muito. O que achei interessante foi cada opinião extrema: de um lado, os que acham que qualquer pessoa acima do peso está prestes a morrer de infarto, que mulheres gordas deveriam usar burcas e não se manifestar “demais” em público (magras histéricas são divertidas; gordas histéricas estão “querendo aparecer”), que é preciso sempre querer emagrecer porque somente pessoas magras são bonitas e saudáveis. Do outro lado, pessoas obesas – geralmente mulheres – orgulhosas de seus pesos, chamando médicos de gordofóbicos, dizendo que são muito felizes como são, que é mentira da conspiração científica que gordos são mais propensos a doenças, que comem muito apenas porque “gostam muito de comer” e que pesar 150kg não é sinal de um possível desequilíbrio emocional, é apenas “fome” de quem “optou” pesar 150kg.

Escultura andina do Museu
Pré-Colombino, Santiago - Chile

Gostaria de dizer algumas coisas muito pessoais a esse respeito:

1. Já tive vinte quilos a mais do que tenho hoje (num corpo de 155cm). Se me entregarem um saco de vinte quilos para carregar, não conseguirei ir longe com ele. E digo: é extremamente desconfortável estar muito acima do peso ideal do ponto de vista biológico. Não estou falando de comentários alheios, com os quais eu acredito que sabia lidar até que bem, estou falando de desconforto físico. De joelhos que doem porque seus joelhos não foram “construídos” geneticamente para passar muitas horas do dia com imensa carga em cima deles. De coxas com assaduras ao se usar saias. De cansaço muito maior do que o normal. De não conseguir cruzar pernas direito. De não conseguir se abaixar com destreza para pegar algo que caiu no chão. De suar mais que todo mundo no verão. De ter, constantemente, que ajeitar roupas que com os movimentos acabam se bagunçando no corpo: ter que fazer o clássico trejeito do gordo de dar aquela “folgadinha” na camisa, geralmente na parte da barriga; ter que puxar as calças para cima num leve rebolado. De ter a sensação de que a gravidade é mais forte para você quando precisa fazer movimentos animados, para cima, como dar pulos ou erguer uma perna num alongamento. Sem aqueles vinte quilos há alguns anos, o ato de sentar é mais confortável. Fazer exercícios é menos penoso (nem é penoso, adoro fazer exercícios). Eu me movimento muito, mas muito melhor. Se eu admitia isso quando entrava num quadro de obesidade? Não. E não porque não quisesse fazer a associação, mas porque tinha me acomodado naquela vida desconfortável. Hoje, quando vejo uma pessoa obesa, penso duas coisas: primeiro, que é uma pessoa que come mais carne e laticínios que as outras, ou seja, é uma pessoa que está conseguindo piorar ainda mais a situação dos animais por causa de seu vício alimentar (pensamento inevitável após o despertar vegano); segundo, que é uma pessoa que não percebe o quanto toda aquela gordura dificulta a vida, o ir e vir, o conforto pessoal. Se me entregarem um saco de vinte quilos para carregar todos os dias durante um ano, em determinado momento vou me acostumar, é claro. Mas isso não vai deixar de me colocar numa posição muito desagradável: sem aquele peso todo, sou mais livre.

2. Muitos gordos defendem que a obesidade é um problema genético. Não duvido. Mas uma coisa é você ter predisposição genética para ser obeso, outra coisa seria a sua genética determinar que, querendo ou não, você será obeso, como se a obesidade fosse uma síndrome. Os gordos que se apegam à genética para defender suas compulsões alimentares parecem querer se livrar completamente da própria culpa. “Não sou gordo porque quero, sou gordo por ter um gene desfavorável.” Esse tipo de discurso tem sido muito comum numa época em que ninguém quer ser culpado de nada. O Fulano que come frango não tem culpa do que as galinhas passam na indústria, pois não é ele que mata essas galinhas, ele “só compra”. A Fulana que vai começar a “dieta do glúten” não tem culpa pelo corpo que tem, pois ela está como está porque o glúten, esse vilão, engorda o ser humano muito mais do que o normal (aliás, toda dieta radical tenta transferir a culpa do próprio peso para um alimento em especial: não se é “fora de forma” porque se come demais, mas porque o açúcar tem se escondido em todos os alimentos que participam da nossa mesa; não se está “fora de forma” porque lanchinhos industrializados são comidos à vontade entre as refeições, mas porque a farinha, por si, aumenta a cintura de todo mundo em dez centímetros – e assim por diante). Esse obeso cientista quer dizer que é obeso não por sua responsabilidade, mas porque a natureza quis assim. O que eu me pergunto é: se o excesso de gordura em tantos corpos deste novo século é um problema predominantemente genético, onde estavam esses genes da obesidade antes dos anos 80? Porque o boom da obesidade ocorreu nos anos 80 – a década do advento dos produtos industrializados muito fáceis e baratos de se conseguir, e muito rápidos de se preparar –, e aí eu me questiono como antes desse período tanta gente carregando genes obesos conseguia controlar a própria alimentação, mantendo-se não-obesa. O gene da obesidade não deve ter surgido por geração espontânea em 1981, quando a mistura de Coca-Cola e Elma Chips mudou o DNA das pessoas e fez com que passassem a ser obesas sem controle. Se o gene da obesidade existe, ele já estava por aí, dormitando em nossas máquinas de sobrevivência há muitas gerações. Que luta feroz deve ter travado o homem da década de 20 que conseguia ser magro mesmo carregando nas veias um gene obeso! Com raríssimas exceções, um obeso é obeso simplesmente porque come demais, com gene gordo ou não. O que é preciso investigar é por que se está comendo demais (quando esse hábito começou e por quê), e não “vamos mapear a genética dele para achar o gene obeso e colocar a culpa na biologia”. “Ah, mas existem biótipos!” É claro que existem, mas são raros os biótipos que oferecem variações chocantes como deixar uma mulher alta com 40 quilos ou um homem baixo com 130. Há indivíduos que comem tranquilamente, sem repressões, e vivem muito magros. Há outros que comem adequadamente, sem exageros, e vivem gordinhos. Obesidade é diferente disso, assim como anorexia é diferente disso. Culpe parte do seu biótipo por usar tamanho 44, mas não venha com essa de que seu biótipo fez você usar 56.

3. “Sou gordo, fiz exames de sangue e está tudo sob controle. Isso prova que gordura não é sinônimo de falta de saúde.” Um pouco de gordura eu não acredito que indique falta de saúde (eu mesma ainda estou num IMC de sobrepeso por causa de três quilos e não tenho me preocupado com isso), mas muita gordura pode se tornar falta de saúde a curto ou longo prazo. Viver como narrei no item 1 – com dificuldades para amarrar os tênis, cansaço maior que o habitual, vontade de sentar na primeira cadeira que aparece à vista – não deveria ser considerado “saudável”, mas digamos que você não veja problema nenhum em não conseguir cruzar as pernas ou ter que viver com coxas assadas e dor nos joelhos. Você faz um exame de sangue básico, ele está dentro dos parâmetros normais e agora você tenta provar ao mundo que a obesidade pode estar fundida à boa saúde. Essa será uma causa muito falaciosa (e eu já participei dela). Para cada obeso “com exímio exame de sangue” há outras dezenas com colesterol alto, triglicerídeos de muitas centenas e glicose preocupante. Por quê? Porque dificilmente um obeso é obeso porque está exagerando no abacate e no azeite de oliva; um obeso costuma ser obeso porque se entope de pão, de macarrão, de carnes, de doces tão doces que fazem o pâncreas trabalhar como um operário inglês do século XIX, de comidas salgadas demais, de frituras. E mesmo que ele coma tudo isso e seja “saudável nos exames de sangue” (lembre-se que os clínicos gerais costumam pedir uns sete itens, apenas, nos exames de sangue [os mais comuns: hemograma completo, colesterol completo, triglicerídeos, glicose], enquanto há mais de cem coisas que poderiam ser averiguadas por ali e você não sabe como estão porque não foram requisitadas – então paremos de falar em “O Exame de Sangue” como uma coisa única, padrão, imutável), qual é a idade desse campeão? Vinte, trinta? E crê mesmo que vai manter esse colesterol normal, comendo por três, até os cinquenta anos? Porque quase todo idoso toma seu remedinho para pressão alta, diabetes ou colesterol, mas os idosos obesos são muito mais acometidos por doenças e transtornos físicos (um pé destruído, um joelho estragado, varizes que formam árvores genealógicas). Os médicos não apregoam que a obesidade é prejudicial à saúde porque são gordofóbicos. Há vastíssima pesquisa que associa obesidade a inúmeras doenças. Aí você tem uma avó obesa de sessenta anos e diz que ela tem a saúde de uma criança. Para que servem os estudos científicos de alta amostragem se temos a sua avó para criar teorias, não é mesmo? Meu tio fumante de oitenta anos (de novo ele por aqui) também tem a saúde de um bebê e nem por isso vou entoar com Olavo de Carvalho a cantilena bisonha sobre “os males do cigarro serem lenda de grandes corporações”. Li muitas mulheres obesas defendendo que “médicos não deveriam nos falar, a cada consulta, que precisamos emagrecer, pois gordura não é necessariamente sinal de doença”. Necessariamente não é. Mas muita gordura acumulada, principalmente no abdômen, cria uma altíssima predisposição para várias doenças. Nem todo fumante vai morrer por causa de males decorrentes do cigarro, mas a predisposição para um câncer de pulmão ou um câncer de língua é grande. Os médicos não devem alertar fumantes sobre isso pois tal alerta é “intrometimento” constante? O papel do médico que vê um paciente levando uma vida arriscada é alertá-lo, e não apenas se ater ao objetivo da consulta colocado pelo paciente. “Fui ao consultório reclamando de uma dor na mão. O médico recomendou uma radiografia para a mão, mas aproveitou para me dizer que preciso perder circunferência abdominal. Gordofóbico.” Isso não é gordofobia, é profissionalismo. O médico não está “implicando” com você. O gótico que aparece cheio de cortes num consultório reclamando de resfriado não sairá de lá com uma mera receita contra resfriado. Inadequado mesmo é quando não-médicos querem abordar você sobre seu peso sem que você tenha clamado por nenhuma palestra: parentes, colegas de trabalho, “amigos”, estranhos.

4. Trabalhei com crianças de dois a quatro anos durante dois anos e meio. Eu as guiava na hora do almoço. Nunca vou me esquecer do dia em que deixei uma menina da minha turma repetir um prato de arroz com feijão, uma professora com mentalidade anoréxica (que, segundo ela mesma, tinha “pavor de ficar gordota como a própria mãe” – e a tal da mãe estava muito, mas muito longe de qualquer início de obesidade) viu, horrorizou-se e foi reclamar com a diretora da creche. Depois fui chamada para uma conversa (um monólogo, na verdade) sobre eu estar “contribuindo para engordar uma criança”. Se na época eu não fosse já um tanto esclarecida em relação a valores alimentares, teria me visto como a bruxa de João e Maria, engordando crianças para fazer um sopão de sustância. Não: eu permiti que uma criança com um corpo de massa bem distribuída comesse feijão com arroz à vontade. Na mesma época eu já criticava a lerdeza mental das pedagogas por defenderem, com a voz esganiçada que muitas têm, que “não devemos forçar crianças a comerem salada” e que “uns docinhos por dia não fazem mal”. Por que não devemos “forçar” crianças a comerem salada? Educação alimentar também é educação. Havia quatro opções de salada em cada almoço e eu determinava: “pelo menos uma salada vocês têm que comer”. Bastava dizer isso para receber olhares de desaprovação, como se eu estivesse dizendo às crianças para que comessem fragmentos de rocha. Depois, eu era contra os docinhos diários (meu querido, minha querida: se você dá açúcar diariamente para o seu filho e você tem alguma instrução, eu apenas acho que o seu amor ao seu filho não é amor, mas comodismo e carência de quem quer forçar uma criança a ser feliz dando um doce para ela), e isso era outra maldade suprema. Que valores deturpados, meu deus! Isso, sim, é gordofobia: você achar que é melhor uma criança comer lixo e ficar magrinha do que comer muito arroz e feijão e ficar gordinha. As pedagogas que achavam normal uma criança não querer almoçar e deixavam por isso mesmo não eram chamadas na sala da direção para uma conversinha. Também não eram chamadas as que pensavam ser “natural da infância” não gostar de saladas. Há pedagogas boas? É claro que há. Mas são tão raras quanto um obeso de cinquenta anos sem problemas de saúde. Elas entram na faculdade citando Paulo Freire, O Fácil. E depois de quatro anos elas saem de lá citando o quê? Paulo Freire, O Eterno. Estudam mais de uma dezena de educadores gigantes e só sabem falar de Paulo Freire, que está para a pedagogia como Clarice Lispector está para a literatura. (Há um grande problema quando a universidade funciona como um escorregador em que você entra o mesmo e sai o mesmo. E esse problema geralmente se chama: você.) Para aquelas pedagogas, uma criança comendo besteiras só passa a ser um problema quando começa a engordar por isso. Já a minimamente gordinha que vai para a mesa com seu lindo pratinho cheio de polenta, molho, repolho refogado e abóbora é olhada com espanto. Eis um tipo de padrão que precisamos criticar, porque até as crianças são reféns dele. Se o “peso normal” para uma dada altura é 30kg, não há razão para criar alarde em cima de uma criança de 32kg – desde que ela esteja se alimentando saudavelmente.

5. “É isso mesmo, vamos massacrar os obesos!” Negativo. Se por um lado você está errado ao querer convencer seus pares de que a obesidade pode ser saudável a longo prazo e que é confortável estar num corpo muito gordo, por outro você também estaria errado ao desrespeitar pessoas que não te devem satisfação sobre o próprio peso. Voltemos ao caso dos fumantes. Você tem todo o direito de odiar cigarros, de achar que fedem, de achar que fumar é um suicídio lento e que só fuma quem não pondera bem as coisas, já que é dado certo que fumar é prejudicial. Mas que direito tem você de chegar para um sujeito individual que só faz mal a ele mesmo para dizer que ele não deveria fumar? Entre íntimos isso até é permitido, mas a quantidade de estranhos que vinham me ordenar que parasse de fumar quando eu fumava (“Caro Dunhill Azul, sinto muito a sua falta, mas eu não podia permanecer numa relação que me matava aos poucos, por isso te troquei por vinho”) era espantosa. Não gosto de intrusos, não gosto que me digam o que fazer, não gosto que deem opiniões sobre minha vida particular se eu não pedi. Quem é que não sabe que cigarro faz mal? Todo mundo sabe (exceto o Olavo de Carvalho, claro, mas isso deve se dar porque nem Hegel, nem Heidegger, nem Husserl diziam isso nos livros). Por que raios você tem que se intrometer numa vida que não te deve nada? Você tem todo o direito do mundo de achar que a obesidade é uma coisa ruim, mas que falta de educação é essa que te faz pensar que deve chegar para um obeso e recriminar o peso dele? Sobre esse osso da vida em sociedade, sempre tive um princípio: “ache o que quiser a meu respeito, só não me fale”. Por quê? Porque não me interessa, e a sua liberdade de falar termina quando começa a minha de não querer ouvir. Em tempos muito gordos, cheguei a receber por e-mail uma dieta de uma conhecida – sendo que eu não a pedi. Aí, vejam, essa colega que uma vez mandou uma dieta para outra por e-mail e “aproveitou e já mandou para mim” (so sweet) tinha uma voz fanha. Eu não gostava da voz dela. Como seria se eu enviasse por e-mail uma dica de fonoaudiólogo que trabalha com fanhos? Seria falta de respeito, é claro. E por que não é falta de respeito eu receber por e-mail uma receita de regime que não requisitei? Gordos, fumantes, praticantes de parkour, qualquer sujeito et cetera que esteja vivendo de forma que você considera errada e que só faz mal a ele mesmo: ele não te deve explicações pessoais. Infelizmente pessoas gordas costumam evitar a devolutiva rude mesmo tendo recebido rudeza. Sou favorável à grosseria como reação: se vierem falar algo sobre seu corpo, suas roupas, seu cabelo, sua profissão, sua escolha estudantil que você não pediu, devolva. “Por que você não usa um creme para pentear nesse cabelo crespo?” “E por que você está sempre com mau hálito?” Chega de submissão a arrogantes. Ninguém deveria aturar com polidez quem não recebeu educação em casa.

6. “Gordofobia como problema social é lenda. Estamos apenas preocupados com a saúde dos gordos.” Mentira. Mentira porque muitos dos palestrantes dos ciclos “Gordura mata mais que terrorismo” e “Tenho nojo de gordos porque eles comem mal” são iludidos em relação à própria vida como modelo. Magreza não é sinônimo de saúde. Há magros trocando almoços por brigadeiros, há magros que não têm fôlego para correr por trinta segundos. Muitos dos magros que criticam gordos são sedentários, comem porcarias, abominam verduras. A saúde, portanto, é muitas vezes apenas uma desculpa para odiar um tipo de pessoa que a mídia, principalmente, nos ensinou a odiar. E isso não se aplica somente aos obesos. Isso se aplica à moça gorda que está usando 46. Vou falar porque já estive do lado dos massacrados: eu nunca ouvi falar tanto de dieta e nojo à gordura como quando eu estava muito gorda, porque as pessoas ao nosso redor simplesmente querem que saibamos que elas odeiam nossos corpos e que elas acham que é nossa obrigação “nos adaptarmos”, num pensamento resumido de “quem esses gordos pensam que são para serem felizes tão fora dos padrões? Vou mandar umas indiretas óbvias para ver se se tocam”. Se isso já é uma falta de educação em relação a roupas (você dizer que acha brega alguém usar botas no verão quando você está numa sala com uma pessoa que está usando botas no verão), imagine em relação ao corpo de alguém. Ao dizer “estou virada numa porca gorda, preciso emagrecer” perto de alguém que está mais gorda do que você, que espécie de sujeito você pensa ser? Exatamente, o tipo de sujeito que merece ser isolado socialmente, pois é como o vilão de novela que arquiteta o mal para atingir os outros e depois aparece em fotos com filtro de pôr-do-sol com a estafante frase “all you need is love” numa camiseta. “Ah, mas eu não tenho que achar que pessoas gordas são bonitas!” Não tem, realmente. Mas educação é saber calar quando sua opinião é desnecessária. Eu não saio exaltando meus padrões de beleza para pessoas que não estão dentro deles. Acho que sapatilhas são cafonas e que luzes no cabelo ficam feias em noventa por cento das mulheres que as fazem (e em cem por cento dos homens que as fazem). Nunca banquei a asquerosa perto de gente de sapatilha e luzes, porque meu gosto é problema meu e educação é não confundir sinceridade com escrotice. E se você está tão preocupado com os gordos “apenas pela saúde deles”, vamos ser mais coerentes nessa patrulha: vá e palestre para quem toma refrigerante todos os dias; mande indiretas para pessoas que comem doces todos os dias dizendo “acho tão asqueroso quem é viciado em açúcar” bem quando seu colega está colocando um donut na boca; questione seus amigos sobre se o café da manhã deles teve frutas e aveia; pare cada churrasqueiro para dizer que a carne vermelha é a pior, que o coração não vai longe desse jeito, que churrasco tem alcatrão como o cigarro; faça policiamento no corredor do miojo do supermercado e toda vez que uma família com crianças colocar um pacotinho desses no carrinho comece a apitar – e, principalmente, viva de modo saudável, já que está tão preocupado com “saúde, meramente”.

7. Não me reconheço nas fotos do tempo em que engordei demais. E a partir daí enxerguei qual era meu problema na época (além da ansiedade nas alturas e da insatisfação com os rumos da minha vida, que me faziam descontar tudo na comida), e que eu acho que é o problema de muitas pessoas muito gordas. Por mais que saibamos que estamos gordos, não achamos que estamos tão gordos quanto realmente estamos. Comer muito mais do que o necessário é um distúrbio alimentar, assim como comer muito menos do que o necessário também o é. A anoréxica olha para si no espelho e não enxerga o quanto está magra: pensa que ainda está gorda. Eu era a anoréxica ao contrário: olhava para o espelho e não enxergava o quanto estava gorda, achava que estava apenas “gordinha”. Por isso hoje eu vejo aquelas fotos e penso: “nossa, não era assim que eu me via na época”. Não duvido nada que muitas pessoas com problemas de obesidade passem pelo mesmo. Infelizmente essa distorção da autoimagem só é citada para se falar das mulheres com problemas de anorexia e bulimia, e ninguém fala sobre a distorção que os obesos podem ver no espelho. Se falássemos sobre isso, talvez pudéssemos ajudar as pessoas a perceber o cerne da questão, que muitas vezes é de ordem emocional. Mas, não. Continuamos naquela: de um lado, os execradores que veem cada pessoa gorda como uma relaxada que precisa ser humilhada, que “merece” ser humilhada; de outro, a ala extrema que vem crescendo: a das pessoas obesas que ostentam orgulho da própria gordura, baseadas em muitas mentiras (que é confortável, que são extremamente felizes assim, que são e sempre serão muito saudáveis, que qualquer crítica à obesidade é gordofobia). Não gosto de nenhum desses pontos de vista. Se hoje eu disser para a “ativista plus size” que eu acho que a maioria dos obesos padece do mesmo problema de distorção de imagem que os anoréxicos e que comer demais é um distúrbio alimentar, serei chamada de fascista, no mínimo. Não estou falando de quem veste 42, 44, 46. O IMC já deixou há muito tempo de ser uma marca confiável para determinar o peso ideal de alguém e eu não estou disposta a abdicar das minhas cervejas para me encaixar num padrão que eu sei que não é para mim, e acho que ninguém deve enxergar a hora de comer como sofrimento porque se é acometido por um medo absurdo de engordar três quilos nas férias (esse rigor é mórbido). Gosto de comer, sou saudável, estou com um peso que não me faz nem passar fome e nem perder a saúde. Estou falando de obesidade. Respeito os obesos no direito de eles terem o corpo que bem entendem, mas posso criticar, aqui, esse estilo de vida. E eu já vivi essa vida. A resposta para a pergunta “por que eu estou comendo demais e cada vez mais?” não é “porque eu gosto”. Não é correto, sob nenhum ponto de vista, que um corpo humano pese duzentos quilos. Você não está se preparando para uma temporada de fome no Ártico para armazenar tanta energia em forma de gordura no próprio corpo. Uma coisa é “gostar de comer” e por isso ter alguns quilos a mais do que os outros. Outra coisa é quando o vício em comida te faz carregar por aí quarenta quilos de pura gordura extra: a comida deixa de ser parte da vida para ser o centro dela. De qualquer forma, se mulheres anoréxicas não são humilhadas por não se enxergarem como são e por sofrerem um distúrbio alimentar, pessoas gordas também não deveriam ser tratadas com desprezo, risadas ou ofensas gritadas nas ruas. Lembre-se: além de não ser médico, você não é psicólogo para se meter na comilança de razão emocional dos outros. E mesmo que seja médico ou psicólogo: você está dentro do seu consultório para sair diagnosticando pessoas?

9. “Li até aqui e, apesar da contemporização, só vi incentivo à gordofobia. Não tenho problema emocional, não sofro distúrbio alimentar e sou gorda, saudável e maravilhosamente linda.” A autoestima é uma coisa sublime. Eu evito ter em minha companhia pessoas de baixa autoestima ou pessoas que fingem ter muito amor-próprio, mas que se denunciam em pequenas atitudes (por exemplo: alguém que queira me rebaixar, por motivo fútil, para contrapor a própria vida como sensacional, usando arrogância para disfarçar complexo de inferioridade). Um sujeito de baixa autoestima vai sentir raiva se você se amar de verdade, porque a felicidade alheia incomoda. Mas é sempre necessário ver se não estamos enganando a nós mesmos quanto a nosso amor-próprio. A obesa que diz que “gordura é algo lindo”, que não tem problema nenhum com o peso, mas só tira fotos em que parece estar mais magra, de “ângulos magros” (o lado menos gordo do rosto, fotos de cima – em que a papada não aparece –, um milhão de fotos postadas de rosto e umazinha de corpo), parece enganar a si mesma. Se sua gordura é tão linda, por que mostra a todo mundo apenas fotos em que seu rosto parece ser o de uma pessoa de 70 quilos quando na verdade pertence a uma pessoa de 110? Outra coisa: a autoafirmação constante não é a estratégia bobinha dos inseguros? Por que isso de “sou gorda e linda, lidem com isso” se você realmente está segura da própria beleza? Para mim, tal discurso repetitivo se assemelha ao do professor que sempre se apresenta com seus títulos e faz questão de citá-los constantemente, como se fossem as bengalas da qual depende para se afirmar em relação aos outros, para se sentir aceito, num maneirismo adolescente risível quando não realizado por um adolescente. Nunca vemos pessoas aceitas pelo padrão de beleza vigente necessitando falar para os outros “eu me acho linda, sabia?” ou “sou maravilhosa como sou, aceitem ou não” justamente porque elas são seguras quanto à própria beldade – logo, não precisam reafirmá-la goela abaixo de seus contatos. “Ah, mas fazemos isso para mudar esse tal padrão de beleza muito rígido que exclui outras estéticas e torna todo mundo infeliz.” Acho que a melhor forma de fazer isso não é com autoafirmações forçadas, mas com a naturalidade de quem se ama e não dá muita importância se não está dentro do que a sociedade considera belo. Vá, coloque suas fotos por aí, ande como quiser, e tente ajudar a tornar natural para todos a beleza diferente, sem tanta agressividade. Não adianta berrar que é linda e que não se importa com leis estéticas quando um mero olhar ou “portar-se” seu em público denuncia insegurança (por exemplo, quando uma mulher “mais bonita” do que você entra no recinto e você não consegue parar de olhá-la de soslaio de cima até embaixo o tempo inteiro). Seja a revolução de beleza que você quer ver no mundo.

Em síntese, a obesidade não é saudável. Mas isso não dá direito a ninguém de ofender pessoas obesas, porque nós simplesmente não temos o direito de ofender alguém que não vive como nós e faz mal apenas a si mesmo. Pessoas gordas não precisam abdicar da vida em sociedade – dançar, cantar, atuar, apresentar um telejornal – por causa de um padrão tão rigidamente imposto. Nós não apenas não vemos pessoas obesas apresentando jornais ou atuando em novelas em papéis decentes: uma mulher que use tamanho 44 dificilmente será protagonista em qualquer coisa midiática. Modelos de tamanho 36 são preteridas por estilistas que têm ódio ao corpo feminino (será que por que gostariam de ter esse corpo?), numa normatização corporal forte que vem desde a época em que os costureiros que mandavam no tamanho dos corpos femininos eram todos homens. Isso é doentio. “Mas isso não é ser politicamente correto?” Não da minha parte. Eu acho que o humor tem hora e público. Num lugar uma piada sobre um povo pode ser muito engraçada, em outro, pode ser extremamente inadequada e agressiva. Características corporais podem aparecer em piadas? Na minha opinião, podem, desde que se avalie o contexto. Nunca foi novidade que meu jeito inofensivo de me vingar das pessoas que me chateiam é fazendo caricaturas delas: claro, ressaltando o que têm de mais bizarro. O politicamente correto quer que vivamos tensos como se estivéssemos dentro de uma loja de cristais calçando patins. Sou contra isso. Mas também sou contra falta de educação premeditada – estar perto de pessoas gordas e dizer em alto e bom som que acha qualquer gordurinha um horror nojento –, piadas em momentos impróprios e "estereotipamento" vitalício, que é quando, por exemplo, você tacitamente proíbe alguém fora do padrão de exercer um papel comum, como o protagonista de um filme ou o apresentador de um programa. É exaustivo que uma atriz que tenha engordado dois números passe a ter seu corpo mais comentado do que a atuação dela na peça em que acabou de atuar. É deprimente que o assunto mais comum em grupos de mulheres, gordas ou magras, seja dieta, e deve ser esse um dos motivos que por muitos anos me levou a considerar que era melhor ter amigos homens. Meu bem: ou você aceita que gosta de comer e que sempre será assim mais macia, ou faz logo uma consulta ao nutricionista para emagrecer e se tornar o que realmente acha que vai te fazer mais feliz – mas pare de viver falando sobre dieta todos os dias, porque, Jesus, que assuntozinho de cabeças vazias! Vamos falar sobre política, literatura, sociedade, música, cinema, e não sobre dietas. Vamos parar de odiar nossos corpos e odiar pessoas somente por causa de seus corpos. “Mas você disse que obesidade não é saudável, que pode ser coisa de quem tem problema emocional.” E desde quando devemos odiar as pessoas porque não são saudáveis ou porque têm problemas emocionais? Já pessoas chatas – como as que vivem falando sobre dietas ou aquelas que fazem questão de enviar indiretas para gordos – são muito difíceis de amar: eu mesma as coloco no saco “pessoas a evitar”, onde também estão fanáticos por Star Wars e defensores de Mao Tsé-Tung.

De minha parte, um conselho breve e equilibrado seria: não deixe que seu corpo pese tanto a ponto de você sentir que carrega duas pessoas dentro de si, mas não leve seu peso tão a sério na hora de decidir se deve pedir mais uma rodada de cerveja quando estiver se divertindo com pessoas queridas.

terça-feira, novembro 17, 2015

Esquerda festiva diabólica


No filme Festim diabólico (1948), do Hitchcock – uma das poucas vezes em que um título de cinema traduzido para nosso idioma fica melhor, já que Rope não é tão galante –, dois personagens matam um terceiro logo no começo do filme e tentam justificar moralmente sua ação. Um crime só é um crime dependendo de quem o faz: sujeitos moralmente superiores teriam razões para enforcar outro menos importante. É uma ideia que tem se aplicado bem à esquerda festiva, cheia de voz graças à internet que permite que qualquer patife faça pronunciamentos persuasivos e liberte seus demônios. Será que a paixão pela destruição da sanidade alheia também é uma paixão criativa?

Eu estava no Chile quando ocorreu o último atentado terrorista em Paris. Fui descansar no hotel na sexta-feira, 13, à tarde, e acordei duas horas depois com meu namorado contando a notícia que ele acabara de ler, e naquele momento os terroristas ainda mantinham reféns dentro da casa de shows Bataclan. Na hora já senti um mal-estar físico. Terrorismo e tortura são coisas que sempre me impressionaram. Saímos, fomos a um show, voltamos para o hotel tarde da madrugada e ansiosos para saber o que tinha acontecido ou o que ainda estava acontecendo em Paris (nossos celulares são daqueles antigos que só fazem chamadas e enviam mensagens, não tínhamos como acessar notícias durante o show). Mais um capítulo do horror fanático tinha terminado. Mas eu estava prestes a começar a receber notícias de outro horror: o revanchismo, a insensibilidade, a estupidez e a conspiração da esquerda do ódio brasileira. Tenho um perfil falso numa rede social, comecei a ver o que as pessoas estavam postando. Fiquei nervosa ao ver a esquerda do ódio despida.

Primeiro, reclamavam que “das vítimas da tragédia em Mariana ninguém fala, agora porque são franceses brancos estão dando ibope”. Debaixo de que pedra esse alienado vive? Todos os dias a mídia está falando do rompimento das barragens em Minas Gerais, muita gente na internet viralizou o assunto, você abre qualquer pasquim e lá está a manchete sobre a lama, o Rio Doce, o povo desabrigado. Talvez em Marte ninguém fale sobre a tragédia em Mariana, pois até a França mandou condolências ao Brasil pelo ocorrido. Depois, misturaram problemas sociais e de corrupção com terrorismo, como se fossem farinha do mesmo saco: “e os mortos pela polícia? E os LGBT que são assassinados por religiosos?” Porque a polícia brasileira mata mais do que deveria estamos proibidos de nos sensibilizarmos com a França dominada por radicais islâmicos, estamos proibidos de colocar a bandeira da França em nossas fotos como forma de compaixão. Ainda na maré da competição de tragédias, o bordão clássico veio ao baile: “e a fome na África?” Ninguém faz nada pela África, os Médicos Sem Fronteiras têm que implorar para que avarentos doem vinte reais mensais para ajudar a combater os problemas de saúde da África (que são também problemas sociais), mas basta que alguém se coce para fazer alguma manifestação sobre algo que não seja a África para todo mundo começar a fingir se importar com a África. Não é novo. Sendo vegana, já tive que ler e ouvir algumas vezes a cobrança sobre adotar gatos em vez de adotar crianças que passam fome e carência em orfanatos (isso de pessoas que já adotaram crianças? Não, nunca. Todo mundo quer ter seus próprios filhos de seu próprio sangue, mas cobrar do vizinho ambientalista que deixe de se preocupar com bovinos para adotar crianças, de preferência negras), ou sobre dar dinheiro para causas animais em vez de financiar causas humanas (isso de pessoas que gastam 10% de seus salários para melhorar o mundo contribuindo com causas nas quais colocam fé? Não, isso de pessoas que nunca doam porra nenhuma para nada, e quando doam cinco míseros reais para uma instituição acham que são os cidadãos do bem do mês). Nada melhor para a África que um atentado na França para que os esquerdistas, antes alheios por opção às grandes questões africanas, passassem a se preocupar com ela. Dê uma olhada nas postagens de quem resmunga "da África ninguém fala e agora esses franceses roubam protagonismo de sofrimento!" Antes dos atentados à França, nenhuma postagem sobre a África. De repente, a África volta a existir. É preocupação social de fato ou birra, vontade de azucrinar, mostrar que se é "muito crítico", muito "vejam como não me deixo manipular pela mídia golpista"? E então, o completo desvario: “isso é o que a França paga por sua história imperialista e por se achar superior a outros povos, é o eterno retorno, a vingança dos colonizados”. Interessante. Os mesmos que fazem essa palestra de ódio motivacional são os que repudiam quando justiceiros populares resolvem se unir para dar uma surra num ladrão que anda furtando coisas dos moradores da região. Ou seja, não é que eles tenham como princípio que “não devemos fazer justiça com as próprias mãos”, e sim que a vingança só pode acontecer contra aqueles que são eleitos como a representação do que há de ruim no mundo: o branco, o heterossexual, o ocidental, o europeu, o rico, o homem. Por essa “lógica de justiça do oprimido" perversa, que mesmo ídolos como Jesus estariam longe de aprovar, se um pobre me assalta eu não tenho o direito de ir atrás dele posteriormente para dar uma surra para me vingar, mas se o Estado Islâmico mete fuzil em franceses eles precisam se calar porque no passado a França andou colonizando países indevidamente. A esquerda festiva diabólica não quer acabar com a desigualdade e com o ódio. Ela quer trocar um ódio por outro, e quer que os papéis sejam invertidos não para que ricos e pobres possam jantar e estudar nos mesmos lugares, mas para que o pobre de hoje possa cuspir no rico amanhã. É por isso que há femistas pregando a destruição dos homens e alguns delirantes dentro do movimento negro estão pregando a destruição dos brancos (a novidade é que homens negros estão proibidos de se relacionar com mulheres brancas pois com isso eles estão “contribuindo para a solidão da mulher negra”): puro ódio, desejo de vingança. Que bem isso faz ao mundo? É esse o mundo que queremos?

“É, Barbara, mas você tem que ver que milhares de pessoas morrem nas guerras africanas toda semana, enquanto na França morreram apenas 130 pessoas. Não é injusto fazer tanto alarde sobre isso?” Não, não é. Humanidade é você se importar com os africanos que morrem de fome, com os africanos que morrem nas mãos de facções criminosas selvagens e se importar com as vítimas do terrorismo islâmico na França. Se apenas números importassem, eu jamais moveria um cílio para me comover com causas humanas, porque anualmente morrem 70 bilhões de animais terrestres (vejam bem: terrestres – os aquáticos não estão nesse número) para alimentar as bocas de uma superpopulação que se acha dona de todas as espécies que por aqui vivem. O que é a África perto da morte de todos esses animais? Não morrem 70 bilhões de africanos, mulheres, pobres, homossexuais todos os anos. Não é que não possamos colocar números lado a lado para comparar as coisas em determinados contextos. Eu sempre faço isso em relação a animais, aliás. Mas não passei a dizer que a causa feminista é vã porque “morrem muito mais animais” ou que os negros devem calar a boca sobre a escravidão porque “morrem muito mais animais”. Se nos apegarmos somente a números, a simbologia de muitas tragédias perderá seu valor – valor que deve permanecer. Não vamos parar de nos chocar com os torturados pela ditadura militar “porque a fome na África mata muito mais todo mês do que o regime militar matou em duas décadas”. Não vamos parar de sentir calafrios a respeito dos campos de concentração nazistas “porque o machismo já matou muito mais mulheres na história do que o nazismo em poucos anos”. E, principalmente, não devemos deixar que nossos corações se tornem pedra estatística em nome de outras causas justamente no momento de uma grande tragédia. Ver gente parva mandando a França às favas ou fazendo mapinha do grau de importância das tragédias que ocorrem no mundo de acordo com a região dias após o impacto dessa notícia é perceber o quanto estamos nos tornando insensíveis e infelizes – por motivos políticos infundados.

A maior causa que existe para mim é a animal, porque os animais são as maiores vítimas de todos os tempos, e são vitimados por todas as classes. Mas isso não quer dizer que outras causas deixem de ser importantes. E isso não quer dizer que eu acho bom que as vítimas em Paris tenham morrido, "já que provavelmente todas elas comiam animais". Senti por elas, fiquei mal por elas. E este texto também não está aqui para passar minha imagem como missionária da paz. Eu sinto ódio, eu compreendo a vingança. Se os donos de grandes frigoríficos forem torturados e mortos, duvido que sentirei qualquer misericórdia. Mas porque eles fazem mal hoje, conscientemente, a milhões de seres sencientes. Já as vítimas do terrorismo islâmico: o que elas fizeram para que esquerdistas alienados queiram culpá-las pelo imperialismo francês do passado, para que queiram culpá-las porque houve a tragédia em Mariana, o que elas fizeram para que baldes de ódio do movimento negro digam que “não farão falta, pois são apenas pessoas brancas” (como tenho lido nesse mural da sinceridade que é a web)? O que, concretamente (e não num mundo conspiratório e doente), essas cento e tantas pessoas fizeram para receber desprezo da esquerda diabólica? Há ódios razoáveis – tenho o direito de odiar quem mata, quem estupra, quem tortura, quem faz mal aos outros objetivamente –, e há esses ódios de quem guarda um fascista dentro de si, mesmo que se diga falando em nome das minorias. Esse ódio eu odeio. Esse ódio merece ser massacrado porque ele apenas estimula mais ódio infinitamente, e ódio sobre pessoas que não têm culpa dos traumas, algumas vezes esquizofrênicos, dos que estão sentindo ódio. Eu não queria estar dentro desses corpos podres onde corre um sangue estressado, venenoso, que causa mal-estar físico e mental.

Por último: não é de uma injustiça máxima quando uma mulher estuprada passa a ser alvo de críticas, numa inversão de papéis entre vítima e agressor? É esse tratamento desumano que a esquerda festiva diabólica está dando ao terrorismo. Em vez de falarem sobre o Estado Islâmico, sobre o ISIS, estão colocando a culpa do terrorismo nas vítimas dele. Por que defender, resguardar, suavizar esses fanáticos religiosos? Que esquerdopatia é essa que trata de defender grupos mórbidos que são contra os valores que a própria esquerda diz que levou (e está levando) tanto tempo para conquistar? Não faz nenhum sentido “ver o lado” desses assassinos que são favoráveis à ditadura, à submissão feminina, contrários ao homossexualismo, contrários à liberdade de expressão, que chamam ouvintes de rock de “pervertidos idólatras” e acham que isso é motivo o bastante para fuzilá-los numa festa. Por que colocar a França no centro da questão, com todos os holofotes, enquanto esses assassinos em nome de deus fogem pelos bastidores, incólumes? Por que estamos criticando as vítimas em vez de criticar os agressores? Por que essa esquerda fanática trabalha com dois pesos e duas medidas?

Que nosso ódio e nossos compartilhamentos em redes sociais não sejam fruto da insensibilidade e da miséria intelectual. E que não achemos que povos ou grupos historicamente marginalizados são superiores e por isso têm direito de se vingar, num festim diabólico grotesco, de quem não tem nada a ver com o que eles passaram no passado. Amém.

sexta-feira, novembro 06, 2015

Rápidas e soltas 05


Eu tinha o hábito de colecionar palavras para um futuro livro de ficção. Provavelmente de contos, para começar – porque acho que um romance gera muito envolvimento e criar um personagem que se estende por mais de uma centena de páginas é como um casamento para a vida inteira –, e cheio de vocábulos bem pensados. É preciso ter muita ponderação antes de colocar a palavra “solavanco” num papel, porque um parágrafo com “solavanco” lá no meio dificilmente parecerá romântico, suave, morno. Se eu quisesse parecer sutil em estilo, teria que ser uma acrobata para manter essa conduta mesmo escrevendo “solavanco”. Ou “turbina”. Ou “calhamaço”. Ou “iconoclasta”. Agora não tenho mais tempo para isso, infelizmente. Mas se meus planos derem certo, em dezembro voltarei a ter horas diárias para alimentar meu léxico. Não comento sobre os planos porque sou supersticiosa e acho que se comentamos demais nossos bons projetos a negatividade alheia (oculta num forçado “vai dar tudo certo!” ou num “ai, que bom” de papelão de baixíssima gramatura) tentará soterrá-los. Minha superstição é criada na mesma região cerebral onde está meu TOC, suponho, e por isso me permito ser isso e ser ateia. Tarde descobri que mesmo pessoas céticas têm superstições tolas. Talvez por isso agora tenho coragem de assumir essa fraqueza. E os planos que os olhos invejosos não veem os corações invejosos não sentem. (Não falo de “inveja” no sentido popular e musical; falo no sentido quase evolutivo, de que o ser humano é, de certa forma, invejoso por natureza por causa da luta pela sobrevivência. Ninguém está imune a isso. Mas alguns tendem a ser mais budistas que outros, e é ao lado de budistas que eu quero estar tomando café descafeinado e comendo bolinho.)

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Estamos reformando nosso apartamento. Só de dizer isso já me sinto muito feliz, porque, como já defendi inúmeras vezes, nossa casa é nosso refúgio, e só toscos moram em qualquer ninho de rato sem livros, sem estantes, sem plantas, sem cor, sem vida. Meu lar deve ser maravilhoso porque ele é meu ponto de partida e meu ponto de chegada, e na verdade só saio desse ponto pela obrigação trabalhista de conseguir dinheiro. No lar somos livres. Faz todo o sentido do mundo querer qualificar o lugar que nos permite sermos nós mesmos. Jamais compreenderei pessoas que não dão atenção a suas casas, que colocam na mesa cinco pratos de modelos diferentes, todos lascados, para jantar; que sentam num sofá nada ergonômico e preferem essa “economia” a tirar dinheiro debaixo do colchão para se proporcionar um merecido conforto; que tomam café em copo; que deixam as plantas do jardim morrerem por falta de cuidados; que cozinham em panelas de alumínio; que acham que “tanto faz” a cor das paredes do quarto, desde que não seja amarelo; que vão a uma loja de móveis e compram o que tiver de mais barato lá. Uns dirão que é falta de dinheiro. Eu digo que é falta de capricho, de amor, de bom gosto. Você olha nas revistas de arquitetura muitos ricos apresentando suas casas completamente desgraçadas de tão irrefletidas (deixam que arquitetos decidam o gosto deles por eles) e desinteressantes, e às vezes conhece a Maria da esquina que mantém sua casinha de três cômodos de maneira tão aconchegante que não se quer sair de lá tão cedo. Lojas de móveis usados vendem móveis baratos e de personalidade que qualquer pobre ou unha de fome pode comprar. Mudas de plantas custam uns míseros reais. Belos jogos de louças podem ser parcelados em doze vezes. As pessoas não abandonam suas casas à tragédia porque são pobres de dinheiro, mas porque são pobres de espírito. Casas medonhas refletem pessoas medonhas. Uma mudança aqui ou ali já dá outro ar a um cômodo. O diabo está nos detalhes.

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Por ter muitos livros – e porque virei a ter muitos mais –, eu precisava de estantes até o teto. Também queria uma cozinha diferente (leia-se: não-branca e não de MDF ou MDP). Visitei, então, lojas de móveis sob medida. E descobri que o mundo dos ricos é, muitas vezes, alienado em relação ao valor merecido das coisas. Fui a uma certa loja e o vendedor me disse que um certo cantor sertanejo havia feito os móveis dele lá. Eu não fazia ideia de preços, mas nesse momento descobri que estava na loja errada, porque se um cantor famoso faz móveis numa loja isso apenas significa que eu não terei condições de fazer móveis nesse mesmo lugar. Quando o vendedor me informou sobre o valor que sairia fazer uma cozinha simples com eles, tive vontade de rir e perguntar em que mundo o dono daquela loja vivia para cobrar milhares de reais numa coisa feita de material não tão bom. Sou capaz de entender coisas caras para as quais olhamos e percebemos o motivo de serem caras (vejo batatas orgânicas algumas vezes mais caras que as comuns na feira e penso: “seu valor tem razão de ser”). Mas aquela cozinha por aquele preço só fazia sentido para um ricaço que não analisa muito bem onde está despendendo seu dinheiro. Tenho que trabalhar – o castigo de Deus para Adão e Eva após pecarem foi obrigá-los a trabalhar, então pensemos profundamente o significado dessa parte do mito – para arranjar dinheiro, não posso gastar em qualquer porcaria classuda que vale, em merecimento, um quinto do valor cobrado. Jogar dinheiro fora é como trabalhar de graça. Se eu tiver que aconselhar alguém a comprar algo bonito, de qualidade, sustentável e que vale o valor gasto, direi apenas “madeira de demolição”. Há empresas fazendo móveis de MDF e compensado e cobrando como madeira de demolição. Mais desrespeitoso que isso, só uma cusparada na cara.

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Há um problema com os ovolactovegetarianos. Na verdade, há vários, mas quero me referir a um deles em particular: o completo descaso em relação à quantidade de leite, derivados e ovos que comem. Eu sei que numa cultura como a nossa é difícil parar de comer carne, “imagine leite e ovos” (na cultura do estupro de certos países árabes também deve ser difícil deixar de estuprar uma moça que se deseja com todas as forças – vamos compreender esses homens que são antiéticos em nome da tradição?), mas o ovolactovegetariano costuma ser tão preguiçoso que ele mesmo justifica o “radicalismo” dos veganos. Um ovolactovegetariano não permanece nesse caminho do meio para ter direito de no sábado comer uma pizza com queijo e no domingo fazer uma omelete, excepcionalmente. O ovolactovegetariano permanece no caminho do meio para comer queijo num pão de manteiga e café com leite ao acordar, lanchar pão-de-queijo às 10h, almoçar ovos, à tarde tomar mais um café com leite saboreando um bolo entupido de leite condensado e à noite comer uma lasanha quatro queijos ou uma macarronada cheia de parmesão por cima. Isso em um dia. O ovolactovegetariano chega à lanchonete e pergunta quais as opções de pastel sem carne. Há de queijo e há de palmito. O ovolactovegetariano, que “já está comendo leite e ovos, mesmo” e por isso optou por uma cegueira seletiva, escolhe o de queijo. Ele vai às compras com a mamãe, sente calor e precisa de algo para se refrescar: em vez de tomar um suco de frutas, compra um milkshake, pois “leite eu ainda tomo”. Achar um ovolactovegetariano que tente minimizar ao máximo seu consumo de leite e ovos – restringindo-os a momentos de extrema fraqueza e desconsideração à dor animal – é tão raro quanto encontrar um best-seller relevante. O vegano “radical” faz sentido. O ovolacto é um preguiçoso que se esbalda em pus de vaca e ovos de galinhas que vivem apertadas numa gaiola com a área de um papel A4 – e não se esforça muito para mudar isso. Há exceções – há pessoas que estão numa jornada em que toda semana novas reduções de exploração são feitas –, mas a maioria vive nesse vício.

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A preguiça é a mãe de todos os vícios. Um sujeito brada com veias saltadas contra o capitalismo, o monopólio das grandes empresas, a exploração do trabalhador, incomoda qualquer transeunte para se afirmar: "olha, eu sou de esquerda, viu?". Vai ao mercado e compra produtos da Nestlé, da Unilever, da P&G, sendo que há, ali mesmo, outras inúmeras marcas menores, modestas, tentando conquistar clientes. Preguiça de ler rótulos? Preguiça de testar uma nova marca menos conhecida? Preguiça de pensar se a tagarelice não está se sobrepondo à ação? O sujeito divulga seu humanitarismo ao compartilhar imagens de trabalhadores chineses explorados fazendo bonequinhas. Vai à feira de artesanato local e reclama que bonecas de pano feitas por vovós são “muito caras” e na hora de comprar panelas vai comprar aquelas feitas na China, “porque as outras custam um absurdo”. Ética tem preço, meus queridos. Para ser ético, não basta apenas falar, é preciso fazer, é preciso se esforçar, vai ser preciso dirigir até um estabelecimento mais longe ou comprar produtos de marcas pequenas em lojas online; é preciso abrir mão de produtos “com sabor de infância” que têm sabor amargo para funcionários, animais e florestas; é preciso largar o cheiro daquele sabão em pó que você usa há anos – e com o qual “já está acostumado” – para dar lugar a um que não seja de uma marca que quer dominar o mundo. Isso é ética. O resto é conversa para boi dormir. 

sexta-feira, setembro 18, 2015

Textos dos outros: A corrupção não acabou ontem - Bernardo Mello Franco (Folha)


Antes da breve coluna, um comentário meu. Ontem os jornais noticiaram uma medida excelente para quem quer uma reforma política de fato (e não as "reforminhas" que políticos presos ao Estado como um carrapato grudado ao pescoço de um cachorro costumam defender): o STF proibiu doações de empresas para campanhas eleitorais e partidos por considerá-las inconstitucionais. A direita com mania de mau agouro, que desconfia de qualquer proposta defendida pela dita esquerda, já estava escandalizada com o retorno dessa ideia há muito tempo, dizendo que "agora as coisas voltarão a ser como antes, com doações por debaixo dos panos". Sobre isso, três coisas. 

Primeiro, como bem diz a coluna abaixo, e que na verdade é o óbvio ululante, nenhuma empresa doa dinheiro a campanhas políticas por simpatia ao candidato ou ao partido. Por que a JBS Friboi doa milhões de reais para o PT e o PSDB (que simpatia política seria essa em que eu doo dinheiro para dois partidos tão imensamente rivais?) em vez de usar o mesmo montante para investir na extensão de seus negócios? Ora, porque investir em política é uma das melhores formas de investir em extensão de negócios. Não é dinheiro de graça. Se nem almoço grátis existe, que diremos de uma dádiva de milhões de reais? A doação de uma fortuna para partidos opostos da parte da JBS não é esquizofrenia, é oportunismo e investimento. A política se tornou, há muito tempo, um mercado de ações oficial. Deixou de ser oficial agora, graças à sábia decisão do STF. Pelo menos é o que se espera.

Segundo, a direita defendeu que "inúmeros países desenvolvidos permitem doações de empresas a campanhas". Isso me dá uma comichão nas costas, bem naquele ponto inalcançável. Não somos a Suíça, a Suécia, a Finlândia ou sei lá quais outros países tomados como referência para soluções rápidas a nossos problemas, soluções que os gênios escondidos pelas trevas do anonimato forçado lançam em rodas de bar como "é muito simples, basta ver como ocorre na Noruega". Nossa cultura é completamente diferente. Temos uma história longa de conflitos, desigualdade em diversos âmbitos, corrupção, "homem cordial", "jeitinho", criminalidade alta, e tudo isso nesse país de proporções continentais em que um cidadão do interior de Pernambuco acha que o cidadão do interior do Rio Grande do Sul é um alienígena cultural. Não dá para simplesmente pensar que "se funciona na Dinamarca há de funcionar aqui". Se política fosse tão simples, a presidente tiraria dúvidas sobre relações internacionais com o carteiro ou um caminhoneiro escolhido ao acaso. 

Terceiro, a direita (só dá ela hoje? É porque esse assunto a estava incomodando demais há muito tempo.) veio com essa fórmula capenga de que "as doações passarão a acontecer ilegalmente" e que por isso devemos manter as doações realizadas de modo legalizado. Perdoem a simplicidade das minhas comparações, agindo como se os leitores tivessem cinco anos e precisassem entender as coisas de maneira muito límpida e didática, mas isso é como dizer "não proíbo meus filhos de usar drogas porque a proibição é a porta para que eles passem a usar drogas de maneira escondida". A linha da direita (dessa direita, já que há muitas direitas e muitas esquerdas) é mais ou menos essa, mesmo: doações de empresas para campanhas podem não ser boas práticas, mas é melhor que sejam oficializadas do que terminarmos com doações feitas às escondidas. Ocorre que é preciso proibir doação de empresas para campanhas de modo oficial, como era, e combater mais severamente a doação ilegal. Precisamos de rigor na punição. É proibido doar. Doou? Pena rigorosa para quem doou e para quem recebeu a doação. Um pouco difícil de imaginar a aplicabilidade disso? Sim, é verdade, ainda mais num país com um sistema de justiça tão confuso e arbitrário onde alguém que estupra e mata passa apenas três anos na cadeia e alguém que furta uma trivialidade às vezes passa dez. Mas é o que temos para agora. 

Vamos à coluna, publicada hoje (18/09): 

"BRASÍLIA - Um corrupto confesso, preso e condenado na Operação Lava Jato, foi o autor da melhor definição para o sistema que financia as campanhas eleitorais no país.

"Esse negócio de doação oficial é a maior balela que tem no Brasil", disse o criminoso. "Nenhuma empresa vai doar milhões porque gosta de fulano de tal. As doações não são doações, são empréstimos. A empresa está emprestando ao cara e depois vai cobrar dele."

As palavras de Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras, resumem uma realidade que nenhum discurso pode escamotear. Os grandes financiadores não são entidades filantrópicas. Têm interesses diretos na administração pública e cobram caro de quem ajudam a eleger.

O dinheiro das campanhas está por trás dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas, do caso PC ao petrolão. Os propinodutos são montados nos palanques e ganham volume ao alcançar os palácios e sedes de estatais.

No julgamento concluído nesta quinta, o Supremo Tribunal Federal entendeu que as doações privadas contrariam a Constituição porque desequilibram o jogo democrático.

As empresas não têm direito a voto, mas exercem peso demais na escolha dos eleitos. Hoje a maior bancada do Congresso não é do PT, do PMDB ou do PSDB. É a das empreiteiras, seguida pelas dos bancos, das seguradoras e dos frigoríficos.

O veto às doações privadas é um passo importante, mas tratá-lo como uma solução mágica contra a corrupção será outra balela.

As grandes empresas continuarão de olho no dinheiro público, e o Estado continuará a precisar delas para tocar obras e conceder serviços. Sem as doações, os interessados buscarão outros meios para garantir vantagens e favorecimentos.

Será preciso reforçar a fiscalização contra o caixa dois, baratear o custo das campanhas e impedir novas fraudes nas contribuições registradas por pessoas físicas".

terça-feira, setembro 08, 2015

A biblioteca esquecida de Hitler - Timothy W. Ryback

“Ele foi, é claro, um homem mais conhecido por queimar livros do que por colecioná-los. Contudo, na época de sua morte, aos 56 anos, estima-se que possuísse cerca de 16 mil volumes. Em qualquer medida, uma coleção impressionante: primeiras edições das obras de filósofos, historiadores, poetas, dramaturgos e romancistas”.

Este homem é Adolf Hitler, e é assim que começa o prefácio do interessante A biblioteca esquecida de Hitler: os livros que moldaram a vida do Führer, do historiador Timothy W. Ryback. Comprei esse livro em julho de 2013 (costumo anotar no livro a data de compra), mas o li apenas agora (e pretendo começar a anotar no livro a data de leitura embaixo da data de compra, para que no futuro eu não me perca na minha própria história como leitora), em agosto. O título é chamativo, e talvez alguém possa se perguntar por que não li esse livro antes de saborear a recomendação feita pelo colunista e cientista político português João Pereira Coutinho, na Folha, mas eu tenho em casa tantos livros não lidos (todos aparentemente bons; não cometo mais o erro de comprar livros ruins por puro colecionismo) que ficava difícil uma obra sobre Hitler reaparecer na lista de leituras próximas. Eu sabia que leria esse livro quando voltasse a ler sobre Segunda Guerra Mundial. Na última vez em que procurei me “especializar” nesse assunto, estava no último ano do ensino médio e tomei emprestada uma porção de livros do tipo na biblioteca do colégio, além de ter comprado uma ou outra coisa no sebo. De lá para cá, li algumas coisas sobre Hitler e Segunda Guerra, mas nada tão intensivo. O tema sempre me instigou, mas eu tinha duas pulgas atrás de cada orelha sobre ele: primeiro, há muita gente bronca que não estuda nada de história, mas sente fascínio – um fascínio quase fetichista – sobre a II Guerra, e isso me desestimulava; segundo, conheci um ou outro (por que estou sendo aveludada?, conheci vários) patife que foi cursar História porque “gostava da II Guerra Mundial” e pretendia, já no final da graduação, escrever monografias sobre: e, não, não era vinculando a participação brasileira na II Guerra – era mesmo um pensamento calouro de quem não atenta que pesquisa acadêmica não é trabalho escolar em que você escreve um “estudo” sobre Hitler sem saber inglês, sem saber alemão e sem sair do conforto da sua morada numa cidade do interior. (Também cometi esse erro primário: cheguei à faculdade de Ciências Sociais – que não finalizei – jurando que meu trabalho de conclusão de curso seria provando que Deus era uma farsa. Felizmente, já nos primeiros meses alguns professores realistas, jardineiros da selva de pedra, vieram com suas tesouras de poda e me colocaram no lugar de raminho novo que eu era.) Evitando um pouco a II Guerra, eu estava fugindo do tema que é o pretinho básico da história, o tema que é escolhido como pauta de interrogatório quando você conta a leigos que é formado em História: ninguém quer saber por que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea ou se o estudo de Peter Gay sobre Freud é respeitado entre historiadores renomados – todos querem entender o nazismo. Para parecer um singular historiador entre não-historiadores, basta apostar a maioria das fichas nisso. Mussolini não exerce nem um quinto do encanto de Hitler. Nem Stálin, outra aberração política que mereceria o mesmo espanto.
 
Quando a II Guerra chegava ao fim e Hitler se preparava para a derrota do modo mais eficiente possível – cometendo suicídio –, milhares de livros seus eram deixados para trás. Terrivelmente, a maioria foi queimada ou sumiu. O trabalho de reconstituição de personalidade que historiadores passaram a fazer baseados nas leituras do antigo Führer apresentou inúmeras lacunas, e certamente muitos livros essenciais – livros com “intromissões a lápis”, na ótima expressão de Ryback – ficaram entre os sumidos. Pior: devem ter ficado entre os queimados. Um livro sumido é recuperável, tanto é que muitos livros de Hitler surrupiados por soldados americanos e soviéticos foram devolvidos posteriormente para bibliotecas temáticas e arquivos, mas um livro queimado não pode ser estudado: o fato de o corpo do ditador ter sido queimado após o suicídio impediu que estudiosos o dissecassem (do ponto de vista dos nazistas, foi sábio cremá-lo antes que as forças inimigas pudessem ostentá-lo como troféu e dispor dele como bem entendessem), assim como a ausência desses livros queimados nos impede de entender a plenitude da influência que Hitler, um leitor assíduo, sorveu de cabeças alheias. 



A biblioteca esquecida de Hitler perfaz a história do Führer desde 1915, quando ele era cabo do 16º Regimento de Infantaria de Reserva Bávaro, então com 26 anos, até sua morte, em 1945. A busca de Hitler por vingança – não somente por causa da humilhação sofrida pela Alemanha após a Primeira Guerra, mas também pela falida vida pessoal –, sua importância dentro do Nacional-Socialismo que surgia, a ascensão ao poder e as decisões militares tomadas no decorrer da Segunda Guerra fazem sentido nessa obra quando vinculadas a leituras, principalmente. Não é uma história genérica sobre o Nazismo, mas uma história de como livros ajudaram a construir um dos capítulos mais negros da história mundial. Ao escrever um capítulo dedicado ao que seria o terceiro livro de Hitler (Mein Kampf teve dois volumes, um sobre vida pessoal e outro sobre política, lançados em tempos diferentes e por isso considerados como dois títulos) – livro que ele, Hitler, ficou aliviado de não ter publicado porque teria atrapalhado sua guinada no governo – Ryback escreve brevemente sobre o momento da ascensão:

“Um ano após completar o que se tornaria o Alvo nº 589, Hitler viu suas possibilidades políticas, tão sombrias no verão de 1928, mudarem drasticamente. Em 3 de outubro de 1929, Gustav Stresemann sofreu um violento ataque cardíaco. Três semanas depois, a Bolsa de Nova York despencou, e com esta a economia alemã. A popularidade de Hitler disparou. Não mais ocioso pela marginalização política, Hitler abandonou a carreira de escritor. Em três breves anos, se tornaria chanceler da Alemanha”.

Esse trecho encerra um capítulo. Quem quiser saber mais detalhes da transição de Hitler das sombras para a cabeça do governo terá que procurar outras bibliografias. Não é, portanto, um livro sobre a II Guerra. É um livro sobre livros, com a II Guerra como pano de fundo da maior parte dos capítulos.

Um autor que acompanha todo o livro é Walter Benjamin e seu ensaio Unpacking my library: a talk about book collecting. Pensei que não fosse encontrá-lo em português, até porque não me lembro de ter ouvido falar de algum texto do Benjamin sobre coleções de livros, mas existe: o ensaio está na compilação Obras escolhidas II: rua de mão única, lançada pela Editora Brasiliense. Já encomendei, e já sei de quase tudo que trata, pois Ryback busca uma porção de excertos desse texto para basear o sentido da existência de bibliotecas particulares, a relação entre o colecionador e seus livros e como tudo isso tem a ver com Hitler. Benjamin era um adorador de livros. Consequentemente, um colecionador. Faz todo sentido (e cria um notável embelezamento) que Ryback vá tomando aquele ensaio para abrir e fechar assuntos, costurando-os:

“Walter Benjamin certa vez disse que dá para saber muita coisa sobre um homem pelos livros que ele mantém: seus gostos, seus interesses, seus hábitos. Os livros que guardamos e os que descartamos, os que lemos bem como os que decidimos não ler, dizem algo sobre quem somos. Como um judeu alemão crítico da cultura nascido numa época em que era possível ser 'alemão' e 'judeu', Benjamin acreditava no poder transcendente da Kultur. Acreditava que a expressão criativa, além de enriquecer e iluminar o mundo que habitamos, também proporciona a argamassa cultural que liga uma geração à próxima, uma interpretação judaico-germânica do antigo ditado ars longa, vita brevis”.

É possível saber muito sobre Hitler analisando a biblioteca que expandiu ao longo dos anos, vendo os livros em que fez questão de se intrometer com seu lápis – marcando trechos, colocando pontos de exclamação ou de interrogação ao lado de parágrafos –, os livros que não apresentam muitas intromissões, mas possuem sinais de manuseio, e os livros que não leu. Os livros que não leu foram inúmeros, até porque muitos deles só se juntaram à coleção como oferenda: além disso, havia um filtro para esses presentes que o Führer deveria receber, e só uma parte do que queriam dar a ele chegava, de fato, ao seu acervo (sem o filtro de assessores, a montanha seria muito maior). Em dado momento, Benjamin é revivido em sua análise para nos lembrar que dificilmente os bibliófilos leem todos os livros de suas coleções – na verdade, segundo estima Benjamin, e de acordo com “fontes confiáveis”, esses colecionadores costumam ler apenas dez por cento das obras que possuem. Ocorre que a análise feita em cima do acervo de Hitler que restou deixa passar inúmeros livros que devem ter sido queimados, mas que foram fundamentais na vida do ditador. Hitler não leu dez por cento dos livros que pesquisadores estudam, já que boa parte dos livros desapareceu, e sim dez por cento de uma biblioteca que só podemos supor. Há uma avaliação de Ryback (avaliação que João Pereira Coutinho faz questão de frisar em sua coluna para mostrar que Hitler, apesar de ávido leitor, lia muitas coisas medíocres e não se aprofundava em filosofia, por exemplo) que considero um pouco receosa: a de que Hitler só usou nomes como Nietzsche e Schopenhauer de forma superficial em seus discursos e elogios, e que associá-lo com eles é um tanto suspeito.

“Embora não haja razão para duvidar que possuía exemplares das obras de Schopenhauer, encontrei um só volume desse filósofo entre os livros remanescentes de Hitler, uma reedição de 1931 de uma tradução feita por ele de A arte da sabedoria mundana: um oráculo de bolso, do jesuíta do século XVII Baltasar Gracían. Essa edição em encadernação barata, de 92 páginas, é tão modesta no tamanho que o ex-libris de Hitler preenche toda a contracapa. O indício mais sólido da centralidade de Schopenhauer na vida de Hitler é o busto do filósofo descabelado que Hitler exibia em uma mesa no seu escritório em Berghof”.

O que eu me pergunto é: seria Hitler tão pedante a ponto de colocar, em seu escritório, o busto de um filósofo que ele mal leu? O fato de Hitler ser odioso moralmente não faz com que ele seja automaticamente absurdo em outras searas. Tratando-se de um leitor crônico, também fica difícil suspeitar que ele, como tantos, se aproveitou de uma figura e louvou essa figura até em pequena estátua por pura vaidade fraudulenta. Sendo ele uma pessoa que não lê, eu não duvidaria da empáfia desse oportunismo intelectual. Como era um leitor contumaz, apenas acho que se poucas obras de autores que ele tanto citava, como Schopenhauer e Nietzsche, foram encontradas, pode ser porque elas estavam entre os livros perdidos.

Leni Riefenstahl, atriz e cineasta que dirigiu, em 1934, o tributo ao Partido Nazista Triunfo da vontade, e, pouco depois, Olympia, o documentário em duas partes sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, foi, por muitos anos, estimada por Hitler. Segundo conta, teve uma desavença com ele ao comentar sobre alguns amigos judeus que estavam tendo problemas com o governo, mas desculpou-se por sua intromissão em assuntos políticos presenteando-o com a primeira edição das obras completas de Fichte, encadernadas em couro branco. Foi ela uma das fontes que assegurou o gosto de Hitler por Schopenhauer:

“Riefenstahl proporciona um relato igualmente eloquente, mas contraditório. 'Tenho muita coisa a pôr em dia', Riefenstahl lembra que Hitler contou no conforto guarnecido de livros de seu apartamento na praça Príncipe Regente. 'Na minha juventude, não tive os meios ou a possibilidade de obter uma educação adequada. Toda noite leio um ou dois livros, mesmo quando vou para a cama tarde'. Ele disse que aquelas leituras constituíam sua fonte básica de conhecimentos, a essência de que derivava seus discursos públicos. 'Quando se dá também se precisa tirar, e eu tiro o que preciso dos livros', ele disse. Quando Riefenstahl perguntou a Hitler o que gostava de ler, ele teria respondido: 'Schopenhauer'.
'Nietzsche não?', Riefenstahl perguntou.
'Não, não consigo aproveitar muito Nietzsche', Riefenstahl lembra que Hitler respondeu. 'Ele é mais artista do que filósofo; falta-lhe a compreensão cristalina de Schopenhauer. Claro que valorizo Nietzsche como um gênio. Ele escreve talvez a linguagem mais bonita que a literatura alemã pode oferecer atualmente, mas não é o meu guia'”.

Páginas antes, Ryback coloca uma nota de rodapé comentando que Steven Bach, autor de uma recente biografia de Leni Riefenstahl, sugere a necessidade de cautela com os relatos dela, já que era “uma narradora nada confiável”. Eu inquiro: mas o que ela teria a ganhar mentindo sobre isso? Pessoas mentirosas, desde que não sejam mitômanas, costumam mentir para se livrar de um problema, para criar problemas para outros ou para conseguir alguma coisa. Se fosse para Riefenstahl, narcisista, mentir sobre algo, talvez preferisse mentir sobre seus feitos ou dizendo que chegara a se preocupar com a situação dos judeus na época do nazismo. Mas de que problema ela estaria se livrando ou que coisa ela conseguiria inventando o diálogo que teve com Hitler sobre Nietzsche e Schopenhauer?

Outra razão para Ryback considerar que Hitler não fora um grande leitor de Schopenhauer foi o fato de ter encontrado o nome do filósofo grafado de forma errada em “anotações sobreviventes de discursos manuscritos”, com dois “p”: “Schoppenhauer”. Como é que alguém que admira tanto um teórico não sabe escrever o nome dele? Mas parece que não era privilégio de sobrenomes germânicos complicados receberem má escrita de Hitler, pois mesmo palavras simples eram grafadas de maneira incorreta. O Führer chegou a escrever erros que seriam equivalentes ao nosso “prizão” e “presado”, palavras que eram corriqueiras nos livros que lia. Nem sempre quem lê vorazmente presta atenção no que lê, na formação das palavras e na composição das sentenças. Hitler, leitor, tinha problemas com a ortografia de seu idioma e não dera muito certo como escritor: Mein Kampf teve que passar por severa revisão antes de ser publicado. Por isso, humildemente, não considero que grafar erradamente o nome de Schopenhauer seja forte indício da falta de leitura e que a apropriação de saber foi rasa.

Há, claro, algumas situações estranhas, mas são estranhas como a humanidade. Por exemplo, o fato de Hitler admirar tanto Fichte. Como Hitler poderia admirar Fichte e Schopenhauer se Schopenhauer possui bons e claros textos desprezando completamente a contribuição de Fichte para a filosofia? Seu ódio por Fichte talvez só fosse menor que seu ódio por Hegel, então será que isso não seria um indício de que Hitler não leu Schopenhauer de verdade? Essa questão é minha, não está no livro. Mas Ryback apresenta outra coisa que pode depor contra o Hitler schopenhaueriano: diz-se que ele levara O mundo como vontade e representação para ler no front enquanto era estafeta. Ryback duvida que ele tenha perambulado em meio à guerra com um calhamaço daqueles. Mas eu volto a perguntar: e por que isso desabonaria o possível gosto de Hitler por Schopenhauer? Eu mesma não li essa obra (tenho-a há anos, mas permanece na estante como um livro inescrutável para o qual ainda não me sinto preparada) e me considero no direito de me declarar uma amante de Schopenhauer “somente” porque li e reli todas as belas compilações que a Martins Fontes publicou das ideias dele. Não é preciso ler toda a obra de alguém para se poder declarar, com justiça, admirador desse alguém. Talvez Hitler não gostasse de colóquios muito metafísicos e preferisse o Schopenhauer que fala sobre matérias de ordem prática. Logo, não vejo como mesmo essas situações pontuadas por Ryback podem quase provar que Hitler era uma fraude em suas menções ao filósofo como um de seus mentores intelectuais.

Como apreciadora de Schopenhauer, é claro que eu não acho agradável que eu mesma esteja forçando as pessoas a acreditar que Hitler, um ditador megalomaníaco que estava disposto a matar milhões de pessoas para alcançar seu ideal de povo superior, também apreciava Schopenhauer. Mas história é isso: ela é o que é, e não o que queremos, com nosso moralismo e nossas desculpas, que ela seja. Já reparei em alguns bons livros de escritores mais antigos que costuma haver uma vontade do editor e do tradutor para fazer com que nós, leitores, perdoemos autores que tinham pensamentos antiéticos no passado. Explico: peguemos, por exemplo, um livro de Nietzsche, uma passagem em que ele deixa bem claro, talvez, que considera as mulheres inferiores. Não tardaremos encontrar comentaristas e estudiosos revolvendo outros fatos da vida dele que mascarem essa discriminação. Você lerá ou ouvirá desses aduladores: “apesar desta passagem parecer preconceituosa, na verdade Nietzsche não pode ser chamado de machista, pois em outro momento, ao encontrar uma mulher inteligente, ele disse que mulheres podem ser etc.” Isso é só um exemplo. Meu ponto aqui é mostrar que amamos tanto certos teóricos que queremos sacralizá-los. “Nesta passagem, Schopenhauer parece mostrar asco por índios, chamando-os de primitivos, mas há um outro momento em que ele elogia comunidades indígenas etc”. Tenta-se poupar Schopenhauer de qualquer fiapo que ligue um filósofo que respeitamos a um juízo antiquado que depreciamos. Tenta-se poupar qualquer sujeito canonizado de qualquer maculação muito severa, sendo “desculposo” em nome de um autor antigo que vivia em outra sociedade, numa outra época, com outro espírito social. Como mulher que lê Nietzsche no século XXI, sinto-me mal ao ler as más referências que ele faz ao meu sexo? Concordar, não concordo, mas não passo mal, nem de longe. Eu entendo que ele vivia em outro universo e não tinha obrigação de ser pioneiro em tudo, não era todo o assunto que ele abordava que precisava se transformar em ouro. Passar mal eu passaria se alguém que vive na mesma sociedade que eu levantasse aquelas ideias como se fossem teses perfeitamente aplicáveis a este tempo. Ao tentar, com insistência, poupar Nietzsche e Schopenhauer de terem sido lidos por Hitler, acho (apenas acho) que Ryback está fazendo como tantos estudiosos que temem macular nomes sagrados ligando-os a discípulos pérfidos. Esse mau julgamento social por causa da vinculação entre um e outro não deveria querer dizer nada, pois Schopenhauer não tem culpa daqueles que o leram, e se o leram errado. Ryback mesmo aponta em alguns episódios que Hitler era um leitor estúpido porque procurava nos livros meras ratificações melhor teorizadas para aquilo que ele já pensava. Não era um leitor de mente aberta disposto a mudar suas opiniões caso argumentos fundamentados provassem que ele estava equivocado. Na idade adulta, colhia o que já estava disposto a colher, não demonstrava alterar radicalmente o que reputava: já tinha uma ideia troncal e os livros só permitiram que a partir disso ele desenvolvesse galhos. Assim, se leu Schopenhauer, deve ter passado por diversos pareceres que execrou. Roubou o que queria e moldou sua oratória com isso. Não cabe a ninguém querer sofrer com essa ligação tortuosa, posto que em nenhum lugar de sua obra Schopenhauer, por mais misantropo que fosse, defendeu genocídio (pelo menos até onde li). Se fosse o caso, talvez pudéssemos nos alarmar. Mas se fosse mesmo o caso, provavelmente Schopenhauer nem teria adquirido a grandeza que adquiriu.

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Max Osborn era um crítico de arte alemão aclamado no começo do século XX. Em 1915, ocioso em sua posição de soldado-mensageiro por causa de forte chuva, Hitler adquiriu o livro Berlim, de Osborn, que tratava da história arquitetônica da cidade. Em vez de comprar cigarros, aguardente ou gastar com mulheres, preferiu usar quatro marcos para comprar um livro, escolha de lazer atípica para um cabo da linha de frente. Efetuada a compra, marcou timidamente seu nome, local e data no canto superior direito da contracapa: “A. Hitler, Fournes 22/novembro, 1915”. A personalidade de Osborn é pitoresca, logo, instigante. Irreverente, escreveu uma história cultural de Satã, em que chamava os anjos de “as mais enfadonhas das criaturas de Deus”. Em sua época, já criticava certa frivolidade dos populares:

“Em 1908, quando a editora Seeman Verlag solicitou a Osborn que escrevesse um guia de Berlim, ele concordou mas sob o pressuposto de que era um crítico de arte, não um guia turístico. Desse modo, recebeu o leitor em seu Berlim com a advertência maldosa: por que seu editor incluiria essa cidade entre as 'capitais culturais' da Europa quando 'o que o mundo do século XX acha mais fascinante na capital do Reich alemão não é exatamente a beleza de seus monumentos históricos ou de sua rica herança cultural'?”

Crítico de arte, passou a temporariamente ser crítico de guerra. Ao ver um mensageiro galopando num cavalo pelo campo aberto, comparou a cena em que homem e animal usavam máscaras contra gás a uma tela de Hieronymus Bosch. Ficou horrorizado ao ver tantos corpos humanos em decomposição, com ratazanas se alimentando deles. Lugares antes encantadores tinham se transformado em imagens de horror: “simplesmente incompreensível”, escrevera.

O exemplar de Hitler de Berlim está completamente desgastado, sinal de que foi lido com entusiasmo por aquele soldado que tinha tantas ambições artísticas. Muito do ideal estético nazista faz menções indiretas aos gostos de Osborn: se Hitler realmente começou a pensar que a Alemanha deveria ser “depurada” de “elementos estrangeiros” nas artes a partir da leitura do crítico – também adepto de expressões mordazes para se referir a essas contaminações, como “selvageria do gosto” ou “profusão de pragas artísticas” –, não está claro no livro de Ryback, mas a ideia de ambos nesse âmbito parece casada, já que Osborn também louvava a Grécia revivida em território prussiano, como ele considerava o caso do Portão de Brandemburgo. (Para entender rapidamente o apreço estético consagrado na ditadura nazista, recomendo o conhecido documentário Arquitetura da destruição.)

No mesmo livro, Osborn utiliza um capítulo de trinta páginas “sobre Frederico, o Grande, o lendário rei-guerreiro do século XVIII que consolidou a primazia da Prússia como potência militar” (palavras de Ryback). Frederico se tornaria o futuro ídolo de Hitler, mas Osborn se põe a criticá-lo: chama o monarca de intrometido, avarento, “filho total da mediocridade artística de sua época”, mais preocupado com a beleza das próprias perucas que com as construções públicas. O desmoronamento da igreja do Gendarmenmarkt é narrado com prazer especial: o rei obrigou os construtores a encerrarem a obra em metade do tempo previsto e com orçamento reduzido; quando os operários estavam terminando o telhado, as paredes da igreja desabaram, matando quarenta deles. Osborn comenta sobre o jocoso livreto Sinto muito escrito pelos cidadãos berlinenses, defendendo a irônica teoria de que as paredes haviam sido construídas com pão de mel em vez de pedras. Esse capítulo tem claros sinais de manuseio e exame cuidadoso da parte de Hitler. Nem por isso o futuro ditador alemão deixou de louvar e tomar Frederico como referência de liderança. Assim, esse caso ajuda a responder a pergunta que fiz lá em cima sobre se o fato de Hitler adorar Fichte e Schopenhauer – sendo que Schopenhauer desprezava Fichte com convicção – poderia ser um sinal de que alguém não foi realmente lido desses dois. Hitler parece ter adotado diversas ideias de Osborn, mas não a desse capítulo em particular que pretendia inspirar menosprezo por Frederico. Com certeza admirou muitos homens responsáveis pelos livros que lia, mas de maneira seletiva.

O capítulo sobre Osborn (capítulo chamado de Livro 1: Leituras da linha de frente, 1915), encerra com alguns parágrafos interessantes, deixados providencialmente para o final. Ryback frisa que o exemplar de Berlim pertencente a Hitler seria guardado com ele para o resto da vida e:

“Na segurança protetora da coleção de Hitler, esse volume sobreviveu à queima de livros de maio de 1933 – como judeu, Osborn constava da lista dos autores proibidos e acabou emigrando para os Estados Unidos – e aos bombardeios subsequentes dos Aliados na década de 1940”.

Esse é aquele momento da leitura em que você para, pousa o livro no colo e digere tudo que veio antes de forma diferente por causa da inserção de uma informação essencial que dá um novo tom ao capítulo a ser findado. É aquele momento em que você tem vontade de largar o livro para dar um passeio reflexivo. Ryback poderia nos ter dito que Osborn era judeu lá nos primeiros parágrafos. Ciente de como mostrar ao leitor o que ele deve sentir e em qual instante da leitura é preciso demonstrar esse sentimento, deixou o impacto para o final. Não vale somente para a literatura: um livro é valioso não somente pelo que informa, mas como informa.

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A biblioteca esquecida de Hitler certamente abriga inúmeras histórias valiosas sobre os autores que Hitler leu, as pessoas com quem fez amizade – e que acabaram influenciando suas leituras com recomendações –, sua atitude diante do desenrolar da guerra. Não me cabe aqui resumir todos esses causos, até porque não quero que ninguém perca a vontade de ler o livro por ele já estar todo revelado em estrutura nesta postagem, então vou me ater a apenas mais um capítulo escolhido ao acaso (já que todos me interessaram muito – exceto aquele sobre misticismo, e percebi que não me interessara por ele porque páginas e páginas se passaram e não senti vontade de acentuar nada com minha lapiseira). É o capítulo 3º, A trilogia de Hitler, sobre a escritura do Mein Kampf.

Na noite de 8 de novembro de 1923, Hitler surgiu numa cervejaria de Munique dando um tiro de pistola no teto, anunciou uma revolução nacional e sob a mira de armas obrigou a liderança política da cidade ali reunida a jurar fidelidade. Na manhã seguinte, marchou com 2 mil radicais de direita para o centro de Munique, pretendendo reproduzir a marcha de Mussolini sobre Roma que possibilitou a ascensão do governo fascista. Na praça Odeon, foram recebidos a tiros por um cordão militar. Dezesseis morreram. Hitler foi preso três dias depois.

“Quase imediatamente, Kahr, Seisser e Lussow [os membros da liderança política local] se afastaram do empreendimento fracassado. Alegaram ter tentado dissuadir Hitler de realizar o golpe, o que era verdade, e que ele os coagira a cooperar sob a mira de armas, o que também era. Hitler alternou-se entre a perplexidade e a raiva pela 'traição' deles. Primeiro cogitou suicidar-se, depois realizou uma breve greve de fome, e enfim decidiu 'ajustar contas'”.

O ajuste de contas começou com um texto de sessenta páginas que serviu para sua defesa perante o tribunal. Encerrou dizendo que seria absolvido pela história (pelo visto, uma expressão recorrente entre ditadores que esperam justificar atrocidades). Depois, recebendo a regalia de ter luz acesa durante a noite na prisão, começou a fazer leituras que embasariam a obra pela qual é conhecido, obra que inicialmente se chamaria Uma batalha de quatro anos e meio contra mentiras, estupidez e covardia, mas que mudara de nome graças à sugestão de Max Amann, empregado na editora do Partido Nazista. Essas leituras seriam chamadas por ele de “formação superior às custas do Estado”, já que, de certo modo, parecia nutrir ressentimento por não ter podido prosseguir seus estudos formais. Além de escrever o livro por motivação vingativa, Hitler também o fez para se livrar de dívidas financeiras, principalmente aquelas que contraíra com o assessor jurídico que o ajudara a preparar a defesa em seu julgamento. Assim, contava com um alto número de vendas quando seu trabalho fosse publicado.

Henry Ford foi uma das maiores inspirações de Hitler no combate aos judeus:

“Além do perfil racial do povo alemão, de Günther, outra influência importante sobre o conteúdo intelectual de Mein Kampf foi uma tradução alemã de O judeu internacional, de Henry Ford. Embora não disponhamos mais do exemplar pessoal de Hitler da tradução em dois volumes do execrável tratado racista, sabemos que Hitler possuía uma, assim como um retrato do autor, ao menos um ano antes de começar a redigir Mein Kampf. 'A parede junto à escrivaninha no escritório particular de Hitler está decorada com um retrato grande de Henry Ford', informou o New York Times em dezembro de 1922. 'Na antecâmara, uma mesa grande está coberta de livros, quase todos sendo uma tradução de um livro escrito e publicado por Henry Ford'.
O livro de Ford havia sido publicado naquele ano em alemão sob o título Der internationale Jude: Ein Weltproblem, e foi uma sensação imediata. 'Li-o e me tornei antissemita', recordou Baldur von Schirach, o futuro líder da Juventude Nazista, que era adolescente quando surgiu o livro de Ford. 'Naquela época aquele livro causou uma impressão tão profunda nos meus amigos e em mim porque víamos em Henry Ford a imagem do sucesso, bem como o expoente de uma política social progressista'”.

A adoração a Ford também se mostraria na frequente menção a ele nos discursos de Hitler e sua declaração a um repórter: “considero Ford minha inspiração”. Eu, que já abomino Ford desde minhas leituras sobre o nazismo na adolescência, questiono: Hitler teria sido menos nefasto caso o empresário de carros não tivesse existido? É claro que naquele tempo havia muito material anunciando, às escâncaras, o ódio pelos judeus e a superioridade racial de alguns povos, mas Ford pareceu muito “didático” e prático em seu livro. Além disso, muitas pessoas o tiveram em grande crédito e por meio dele passaram a externar com orgulho um antissemitismo antes retraído. Não duvido que um sujeito perverso e megalomaníaco como Hitler pudesse se tornar ainda pior por causa das leituras que levava em consideração e das quais tirava aprimoramentos de suas ideias. Nada estava tão ruim que não pudesse piorar no turbulento começo do século XX.

Houve uma série de adiamentos até que o trabalho de Hitler pudesse ser publicado. Uma das preocupações de Max Amann era com o fraco mercado de livros da época: com Hitler ainda proibido de falar em público por causa de sua condenação, não seria possível fazer comício nas cervejarias, e com isso se perdia uma grande fonte de venda de livros. Mas o principal motivo para o adiamento foi o processo de edição da obra: até sete companheiros de Hitler afirmaram ter trabalhado no texto antes de seu lançamento. A “formação superior às custas do Estado” da qual Hitler se vangloriara, pensando-se um exemplar autodidata, parece não ter surtido efeito na erradicação de seus constantes erros gramaticais e fragmentos intelectualmente vazios, cheios de vícios que podiam passar despercebidos na fala, mas que num livro ficavam gritantes.

“Hanfstaengl recorda que batalhou com Hitler em torno das setenta primeiras páginas dos originais, afirmando ter eliminado os 'piores adjetivos' e seu 'emprego excessivo de superlativos', discordando sobre várias nuances. Quando Hitler escreveu sobre seu 'talento' como pintor, Hanfstaengl teria censurado: 'Você não pode dizer isso. Outros podem dizer, mas você mesmo não pode'. Hanfstaengl também observou 'pequenas desonestidades', como o fato de Hitler usar o termo 'funcionário público graduado' para seu pai. Hanfstaengl também reclamou da natureza provinciana do intelecto de Hitler, que o fez aplicar um termo como história do mundo – Weltgeschichte – a 'conflitos europeus pouco importantes'. Após essa sessão de revisão inicial, Hanfstaengl afirma, Hitler nunca mais lhe mostrou nenhuma parte do manuscrito”.

Rudolf Hess e Ilse, sua esposa, também recordaram a “batalha” que viveram com Hitler e seu original por meses. Só aos poucos Hitler dera razão às modificações que se mostravam necessárias em seu manuscrito.

Se Hitler esperava aclamação pública quando do lançamento do livro, deve ter ficado decepcionado com o que recebeu. Jornais descreveram sua obra como ato de suicídio político num artigo intitulado “O fim de Hitler”, duvidaram da “estabilidade mental do autor” e um crítico observou que faltou ao recente escritor ajustar contas consigo próprio. Mesmo pessoas de extrema direita teceram comentários negativos sobre a obra, ofendendo-se com o antissemitismo exacerbado que advogava. Um jornal brincou com seu nome e disse que deveria se chamar “Sein Krampf” (Sua cãibra). O livro, ilegível (no sentido de que não valia a pena ser lido) para muitos, se tornou motivo de piada em certos círculos. Mesmo assim, Hitler não se deixou capitular: presenteou muitas pessoas com sua obra e passou a trabalhar no segundo volume dela. Em pouco tempo terminara a proposta.

“(...) enquanto o volume I foi recebido com sarcasmo e desprezo pelos resenhistas, o volume 2 foi simplesmente ignorado – não apenas pelos críticos, mas pelos leitores também. Vendeu menos de setecentos exemplares após um ano no mercado”.

Pouco tempo depois, já estava escrevendo seu terceiro livro, que nunca seria publicado: um livro sobre suas memórias de guerra, inspirado nos relatos de Ernst Jünger (um dos livros dele sobre o tema, Tempestade de aço, foi publicado pela Cosac). O livro era mais comedido e analítico que os anteriormente escritos, tentando ser filosófico de maneira eclética. As ideias são apresentadas sem referências às fontes, mas é possível perceber uma colcha de pensamentos de um leitor que lia tudo. Ryback aposta em dois motivos para o livro não ter sido finalizado: primeiro, porque Hitler voltou à atividade política intensa – e seus momentos de escrita só apareciam quando ele estava em situação de privação, como quando estava preso ou sem forças políticas –, segundo, porque o mercado de livros estava fraco e as publicações anteriores do futuro ditador já tinham sido um fracasso no mercado.

“O próprio Hitler pode também ter reconhecido as falhas intrínsecas na estrutura eclética e irregular do livro ou possivelmente suas limitações como escritor. 'Que belo italiano Mussolini fala a escreve', Hitler comentou com seu advogado pessoal e futuro Gauleiter, Hans Frank. 'Não sou capaz de fazer isso em alemão. Simplesmente não consigo organizar meus pensamentos quando estou escrevendo'. Em comparação com a obra de Mussolini, Hitler observou, Mein Kampf parecia um exercício de fantasia 'atrás das grades', pouco mais que uma 'série de artigos para o Völkischer Beobachter'. 'Ich bin kein Schriftsteller', Hitler disse para Frank. 'Não sou um escritor'”.

Com o chamado das obrigações políticas que o levaram a governar a Alemanha, Hitler nunca mais teve tempo e viço para escrever. Continuou, todavia, lendo livros até o dia de sua morte.

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Foi muito proveitoso voltar a ler sobre a II Guerra com A biblioteca esquecida de Hitler. O livro é sério e bem escrito (há livros sérios, fidedignos, mas escritos de maneira plástica; ou, pior e surrealisticamente, há livros cujo estilo nos remete à palavra “alumínio”, se entendem o que digo), passa por uma fatia de assunto meio marginal a respeito do nazismo. Não é o único a escrever sobre os livros de Hitler – Ryback menciona autores de estudos com o mesmo objetivo –, mas é o que temos à mão facilmente aqui no Brasil, na bela publicação da Companhia das Letras. A partir dele, algumas breves e esparsas ponderações:

Há uma foto de Hitler no Arquivo de Nietzsche, em Weimar. Muitos tentam ligar Nietzsche ao antissemitismo, quando, como bem assinala Ryback, antissemita declarada era a irmã de Nietzsche, cuidadora daqueles arquivos. É claro que o filósofo alemão inspira algo de sensacional – Hitler apropriou-se de alguns de seus termos fortes como “vontade de poder” –, mas não deve ser responsabilizado pelo Nazismo. Sua irmã, sim, era visivelmente desequilibrada em plena sanidade. Nietzsche, que não era antissemita mas que defendia uma filosofia que podia ser usada para fins perversos, ainda possui a desculpa de sua doença para justificar ideias extravagantes.
(Já visitei esse arquivo em Weimar. É estranhamente inóspito a visitantes. Há duas salas. Na primeira, objetos de Nietzsche, inúmeros recortes de jornais em vidros e nas paredes – inclusive da época do Nazismo, ligando o filósofo ao Führer –, mas tudo em alemão. Pensei em fotografar para que depois, no dia em que aprendesse alemão, pudesse traduzir, mas no primeiro click a recepcionista, ranzinza não sei se por si ou se por obrigação da função, veio informar que eu não podia tirar fotos e que deveria apagar a que tirara. Na segunda sala, estátuas de Nietzsche, alguns livros e uma cadeira numa janela, cadeira onde ele passou muitos de seus dias mórbidos, quando mental e fisicamente incapaz. Nessa sala, a recepcionista não apareceu para nos sondar. Então tomamos a libertinagem de tirar algumas fotos. Na saída ela perguntou de onde éramos – só conseguimos nos comunicar com ela por intermédio de um casal de amigos que moram na Alemanha, já que ela não falava inglês – e disse que na semana anterior um brasileiro estivera lá fazendo pesquisas. Quem me dera saber alemão e poder ir lá fazer pesquisas!)


Muito se comenta sobre o vegetarianismo de Hitler. As falácias argumentativas dos carniceiros crescem como o pé-de-feijão do João e saem pela cidade espalhando jatos de fogo e cólera. Não me lembro de em nenhum momento ter cogitado que “comer carne é algo maligno porque, veja, não há histórico de psicopata que tenha sido vegetariano e a grande maioria dos ditadores comia carne”, porque posso falhar nas minhas análises, mas acho que não falho de forma tão absurdamente ignorante e débil. Mas já ouvi e li muitos doutores de fórum virtual essa fusão entre Hitler e vegetarianismo como prova de que... Pois é, prova de quê? Acho que carniceiros se sentem imorais comendo carne e querem tentar provar que imorais são os vegetarianos, pois Hitler era vegetariano. Mas em que biografia, documento, discurso, relato médico está escrito que Hitler era vegetariano por compaixão aos animais? Li certa vez que era mesmo vegetariano, mas que às vezes burlava a dieta (não lembro onde li, então não sei se é uma informação honesta). O filósofo Michel Onfray, em O ventre dos filósofos: crítica da razão dietética, encerra um capítulo com a informação solta sobre o vegetarianismo de Hitler, de certo modo insinuando que um ditador notoriamente cruel era vegetariano. Não sei qual é a necessidade dessa vinculação (e Onfray parece muito tomado de ódio para ser levado tão a sério, vide suas críticas de lamaçal a Freud) e, mesmo que seu vegetarianismo fosse por amor aos animais, não entendo o que pretende provar. Mas temos certeza que não era por amor, pois Ryback bem cita as palavras de Hitler: “As vacas foram criadas para dar leite; os bois, para conduzir cargas”. Quem nesse mundo que se preocupe com os animais pensará que eles têm a função de nos prover com leite e labor? Hitler, ególatra pensando que o planeta deveria se render a ele e a seu ideal de raça perfeita, só era vegetariano pelo bem de si mesmo e de sua saúde debilitada. Não deveria jamais ser citado em discussões sobre veganismo.

Por último, nosso conhecimento de Hitler como leitor só nos faz refletir o quanto era miserável. Interessante – se não fosse interessante, eu não me preocuparia em ler livros sobre ele –, mas miserável. Lia livros todas as noites, lia quase tudo que lhe caía nas mãos, desde tratados militares e catálogos sobre armas até estudos astrológicos e autoajuda popularesca. Schopenhauer o teria desprezado nessas leituras em série, diria que não era capaz de lidar com a própria solidão e de ter pensamentos próprios. Demonstra não ter lido ou não ter prestado atenção a esses textos que o fariam tão bem para crescer como indivíduo. Optou por adotar apenas a antissociabilidade de Schopenhauer e deixou que o monstro que havia dentro de si se estendesse para o mundo. Quis ser lembrado de maneira poderosa, mas a posteridade o vê como alguém que alcançou poder absoluto de maneira muito difícil de entender (a pergunta é: “como é que a sociedade pôde conceber alguém como Hitler?” – não me lembro onde li isso, acho que foi no Conversas com Albert Speer, do Joachim Fest, que estou terminando) e depois fracassou. Merece, enfim, ser lembrado como um mau leitor. Fico feliz, ao encerrar A biblioteca esquecida de Hitler, em saber que um dos piores ditadores da história era, no fim das contas, um leitor muito fraco que não sabia escolher tão bem o que lia e confundia quantidade com qualidade. Se fosse um bom leitor, eu ficaria tentada a admirá-lo um bocado, pelo menos nesse aspecto dos livros. Não aconteceu. Prossigo nas leituras sobre ele porque realmente é de se questionar como no século XX uma pessoa com tamanha degeneração moral pôde adquirir poder. Como leitor, é possível entender Hitler, mas jamais louvá-lo. Acho que sei separar as coisas e mesmo reconhecer as possíveis qualidades de alguém que socialmente recebe puro menosprezo. Com pontuais exceções, não precisei separar Hitler de seus livros: sua biblioteca o define.