domingo, fevereiro 14, 2016

O Bloco Soviético do carnaval e a esquerda que escolhe os opressores que rechaça


Quero me posicionar politicamente, para não mais gerar mal-entendido. Sou livre para decidir, questão por questão, ponto por ponto, caso por caso, com que concordo e de que discordo. Essa é a minha posição política. Se o aborto está em pauta, não consulto gurus políticos que determinarão o que devo pensar sobre ele: sou a favor. Se a redução da maioridade penal para crimes hediondos (porque por furto nem os maiores de idade deveriam ficar presos por anos: deveriam ficar presos até devolverem o equivalente ao que furtaram somado ao pagamento de uma multa) está em pauta, não vou ali ler a revista que me põe no cabresto ditando para onde devo seguir porque o estuprador de dezessete anos é apenas um oprimido social: sou a favor da redução. E, ainda, há temas caros à polaridade política brasileira (porque dicotomia, maniqueísmo e simplismo dominam num país que não compreende muito bem o que é ser de esquerda e o que é ser de direita partidariamente) sobre os quais não tenho opinião: a descriminalização da maconha, por exemplo. Muitos conhecidos meus ditos de esquerda são pacotes prontos: um tema surge e já sei, antes de um café ser passado, qual a opinião deles sobre o assunto. Não há ponderação e razoabilidade: há determinação por posição política severa (ou, pelo menos, que eles pensam ser severa). Muitos conhecidos meus ditos de direita são uma lata de opiniões previsíveis: com ideias produzidas em série por seus líderes sensacionalistas, adivinho tudo que pensam sobre as pautas do jornal televisivo. Tais posicionamentos são, portanto, como crenças religiosas: sanções serão aplicadas caso você cogite contestar uma verdade sagrada. “Mas é impossível que um menino de dezesseis anos que torturou e matou um casal de namorados não soubesse que fazia algo inaceitável legal e moralmente… Como esperar que seja tratado como criança de origem pobre e seja encarcerado por três anos com outros de mesma idade que cometeram crimes muito menores?” Levantar essa questão num círculo de esquerda é pedir para ser chamado de traidor. “Por que estamos querendo que mulheres que cometeram o deslize, por uma noite, de não usar camisinha, sejam castigadas por toda a vida com um filho indesejado que interromperá o curso que elas queriam dar à jornada delas? Estamos falando de um punhado de células de duas semanas que não são capazes de apreender o mundo!” Levantar essa questão num círculo de direita é pedir para ser chamado de traidor. 

Ao manifestar meu ceticismo partidário entre algumas pessoas, recebi duas reações que seriam hilárias se não fossem estúpidas: ao dizer “não sou nem de esquerda nem de direita” entre esquerdistas, fui tomada como uma pessoa de direita. Critiquei Lula, critiquei o governo Dilma, e recebi como uma flechada na testa um esquerdaloso “você defende o Cunha? E como fica o trensalão?” Faltou ser chamada de coxinha, mas tenho certeza de que se a discussão fosse na internet, onde todo mundo tira os sapatos, a cueca, coça as próprias partes e não quer nem saber se está desagradando ou soltando umas falácias atrás das outras, “coxinha” seria apenas o mínimo. Entre os de direita, critiquei Bolsonaro (desta vez na internet). Falei que a posição conservadora é muito interessante, mas que Bolsonaro é uma piada entre os conservadores sérios, justamente porque diz ser o que não é e defende barbaridades (estilo “64 foi o ano mais lindo”) que nenhum conservador estudado e racional defenderia. Do que fui chamada? De defensora de regimes totalitários de esquerda, adoradora do Che Guevara, votante da Dilma, esquerdista. Falei que admirava o conservadorismo sério? Falei, deixei isso claro como uma torta na cara, da qual ninguém pode passar incólume. Não adiantou nada. Criticar Bolsonaro, para o direitoso patético, acende a campainha dentro dele: “fã de Dilma Coração Valente”. Sim, todas essas pessoas precisam de ídolos, de alguém em quem se espelhar, e o ataque a seus mestres é como um pecado. Para mim, tanto o esquerdista adorador de Che Guevara, Fidel e Maduro quanto o direitista adorador de Bolsonaro e Donald Trump são aberrações. 

(Muitos presunçosos dirão que é muito fácil “ficar em cima do muro”, que não assumir posição política é não querer carregar responsabilidades. Isso não faz nenhum sentido. Eu assumo posições sobre temas delicados, e isso me dá uma boa carga de responsabilidade. Quando eu dou uma opinião sobre aborto, programas sociais, intervenção estatal na economia, controle de natalidade, redução da maioridade penal, estou assumindo posições, não estou “em cima do muro”. É triste que as pessoas boicotem a própria liberdade quando resolvem mudar um mísero posicionamento e pensam estar obrigadas a migrar para o outro lado em tudo. Lobão, que já foi um petista fervoroso, passou a menosprezar o partido na idade madura. Podia muito bem ter ficado onde estava e, simultaneamente, menosprezar o PT. Não, Lobão achou que precisava migrar em completude para “o outro lado”, e começou a se envolver com um grupo estranho de pessoas que confiam com convicção em todas as matérias políticas da Revista VEJA. Claro, isso pode não ter vindo apenas dele: um tanto dessa migração pode ter acontecido por expulsão – a esquerda não aceita que você queira se dizer de esquerda apenas porque acha que há inúmeras coisas como saúde e educação que precisam da intervenção do Estado: para ser “um verdadeiro esquerdista” é preciso engolir partidos amados por grandões dentro dos movimentos de esquerda, é preciso engolir o discurso de ódio da ala delirante do movimento negro, é preciso aceitar a nova ordem de que um assovio na rua deveria ser comparado a estupro, é preciso chegar a uma plateia de homens e mulheres e dizer “todos e todas”, porque “todos” é machista e opressivo. Queira ser de uma esquerda clássica, meramente, e seja convidado a mudar para a esquerda autoritária moderna ou partir para o lado de lá. Não vou para lado algum, pois esses dois lados são podres. Ao precisar determinar o que eu penso sobre dado assunto, vou confiar na minha análise diante dos fatos e de distintas análises – porque leio tanto o que ditos esquerdistas têm a dizer quanto leio os direitistas –, e não em normas de pensamento e conduta estipuladas por quem não tem que se meter a cercear minha liberdade de opinião.)

Ocorre que eu tenho muito mais notícias da esquerda tresloucada que da direita de pouco estudo. Suspeito de alguns fatores: 1. há mais veganos esquerdistas que veganos de direita (alguns deles fazem imenso mal ao veganismo, querendo dizer que religiões afro, oprimidas, não devem perder o direito de sacrificar animais em rituais enquanto o homem branco opressor continua tendo o direito de comer peru no natal – você pode combater exploração animal entre ricos, brancos, heterossexuais, homens, mas não entre pobres, negros, homossexuais e mulheres); 2. no meio musical que eu “frequento”, onde há muitos punks, a maioria é de esquerda ou anarquista; 3. eu não precisaria me dizer de “área” nenhuma, pois tenho interesse em coisas de quase todas as áreas, mas meus estudos formais me transformaram “numa pessoa de Humanas” – e em Humanas, você sabe, não ter tendências esquerdistas é pedir para ser chamado de “fascista” (termo que a esquerda banalizou severamente). Eu sei que se eu for para uma cidade do interior do Paraná e me sentar com famílias de oito pessoas que louvam o trabalho acima de todas as coisas ouvirei absurdos de uma direita antiquada. Mas daqui onde estou, o que chega de troglodita e autenticamente ruim é o brado da esquerda. Por isso falo tanto dela. Com os justiceiros sociais metendo culpa em todo mundo pelo que ninguém fez – você é culpado pela escravidão que figurou até o século retrasado puramente por ser branco – e com seus berros ganhando espaço na internet em qualquer portal, também acaba sendo fácil receber notícias do que o esquerdismo faz de pior. Uma esquerdice recente que é nefasta? A parvoíce alegre do Bloco Soviético no carnaval. 

Você poderia dizer que “é só uma piada, não leve a sério”, mas ocorre que as pessoas que participam do Bloco Soviético, de esquerda, são as mesmas que não estão suportando piada nenhuma sobre os assuntos que lhes são afetos. O que é um homem vestido “de mulher” no carnaval? Para mim, uma brincadeira. Para as sovietes, um horror, uma afronta, merece cadeia, merece surra pública (pois é, a esquerda que é contra a popular justiça com as próprias mãos quando se quer bater num ladrão ou num menor estuprador é a mesma que não admite presunção de inocência na hora de julgar seus monstros assombrados: bater num opressor antes que ele possa se defender não é só um direito – é um dever). O que teríamos se criassem o bloco “Moçoilas de 17 é que são boas”, ou “sobre cavalos e povo, estamos com Figueiredo”, ou, ainda, “Minha mãe é bicha”? Nenhum desses blocos seria visto com mostra de dentes e expansão, simplesmente porque a esquerda paranoide não admite nenhuma piada nos termos acima e adota o autocrático “falo o que quero, mas não ouço o que não quero”. E então vão querer que o Bloco Soviético seja visto com leveza e tolerância? 

eu poderia dizer que o que falta a essa gente é uma boa aula de história, mas não vou, porque sei que tipo de aula de história tem sido dada no Brasil. O professor esquerdista não precisa ficar despido de sua opinião política para dar aulas, é claro, porque não vai conseguir se tornar um mestre imparcial nem que se esforce ao máximo. Só que o querido professor de história esquerdista, esse vezeiro em salas de aula, nem faz questão de disfarçar um pouquinho sua ideologia: vai deitando nos alunos a doutrina que acha correta, sem se importar muito com a ética profissional que recomendaria a ele ensinar história em vez de ensinar opiniões políticas pessoais. Quer lá uma vez ou outra dar sua opinião? Dê, mas deixe claro que é uma opinião, e não uma lei, que é como muitos alunos vislumbrados costumam tomar o que dizem seus professores sensuais. Sim, porque ao professor de história típico não basta a doutrina como método, é preciso ser irônico com tudo, fazer caras e bocas, usar o papel de O Crítico Contumaz Que Destrói Tudo Com Suas Tiradas, é o Ronaldo Ésper da escola, alfinetando todo mundo. Esse professor, muito amado porque põe os pingos nos ii, passa por Hitler espumando pela boca e deixando claro que o nazismo matou milhões de pessoas, e de repente estufa o peito ao dizer que lá vinha Stálin, poderoso e bigodudo, para colocar um basta no poder de Hitler e acabar com tanto sofrimento. Ele não necessariamente pula as partes da história que são uma catástrofe para Stálin, mas suaviza, não imprime tanta emoção no teatralizar. Hitler merece sua ênfase, seu suor; Stálin cometeu erros ao querer implantar seu sonho proletário, mas quem é que não comete erros? Os mais ponderados ainda mostram desgosto com Stálin, mas para louvar Lênin. Lênin é que era grande! Fabuloso! Jamais esperaria morrer tão cedo e deixar seu sonho bolchevique nas mãos de um rigoroso estadista como Stálin, que, petulante, mandou matar o camarada Trótski, outro que never had a dream come true, by Stevie Wonder. Dependendo desse tipo de professor, como esperar que o Bloco Soviético saiba que carnaval não combina com louvar a URSS? Então lá vai um parágrafo sucinto e didático sobre o regime soviético. 

Stálin para crianças. Muitos dizem: “sabe o que eu gosto no Stálin? Essa coisa de ele ter acabado com Hitler, é disso que eu gosto”. Mas por que elogiaríamos alguém que poderia ter impedido Hitler de fazer o que fez desde o começo? Em 1939, a União Soviética sabia que Hitler queria atacar outros territórios. Resolveu detê-lo? Não. Resolveu assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, que era um pacto de não-agressão entre URSS e Alemanha por cinco anos. A invasão da Polônia, que marcaria o início da guerra, teria como consequência a divisão de seu território entre as duas nações. Domínio de territórios aqui, aprisionamento e morte de pessoas ali, em 1941 a Alemanha quebra o pacto por assumir interesse em tomar posse da URSS. Até então, Stálin estava tranquilo como um grilo. Resolve despertar de seu profundo sono dogmático quando sua nação passa a ser atacada. A pergunta é: até que ponto Stálin deixaria Hitler agir sobre o mundo, sem se unir aos aliados, se Hitler não tivesse avançado sobre a União Soviética? Stálin arma seu exército, aplica a tática da terra arrasada e os alemães vão perdendo poder. Stálin passa a ser amado por uma multidão de desavisados. Interessantemente, hoje estamos escolados, mas Stálin continua sendo amado ou atenuado, apesar de sabermos que (só para citar algumas coisinhas): a) seu projeto de coletivização tirou de muitos camponeses o poder sobre suas próprias terras e os obrigou, de certa forma, a serem escravos do Estado. Comunistas tendiam a abominar camponeses que não fossem pobres (kulaks: que poderiam ser camponeses muito abastados ou apenas um pouco mais abastados que a média de seus vizinhos, ou seja, era subjetivo diferenciar o que era um camponês pobre, aliado do Estado, e o que era um kulak, um "vampiro" explorador) porque os consideravam privilegiados diante dos operários. Trabalhando para o Estado, esses camponeses só podiam comer uma parte irrisória do que plantavam, parte estipulada pelo Estado. Se algum roubasse comida (a comida que ele mesmo plantava), poderia receber a pena de morte ou dez anos de trabalhos forçados; b) famílias que viviam no campo e eram consideradas abastadas tiveram seus bens confiscados, foram para campos de trabalho forçado (prática comum) ou exiladas na Sibéria; c) camponeses que resistiam em outros países dominados pela URSS, como a Ucrânia, foram impedidos de receber alimento em suas cidades; para que não migrassem em busca de comida, o exército fechou regiões escapatórias e assim entre 6 e 7 milhões de pessoas morreram de fome; d) rivais que estivessem crescendo dentro do partido eram torturados e mortos a mando de Stálin. Nada mal para uma esquerda que execra com ranger de dentes o sadismo do regime militar brasileiro querer colocar panos quentes no currículo de Stálin, não é? Os “inimigos” de Stálin eram torturados pelas autoridades até que confessassem crimes que não cometeram. Sob extrema tortura física e psíquica que levava dias, muitos diziam que tinham cometido os crimes de que eram acusados, pois era melhor a ideia do alívio da morte por execução que imaginar mais sofrimento por dias sem fim; e) após assinar trinta listas com nomes de pessoas inimigas da revolução que deveriam ser executadas, Stálin foi ao cinema ver um filme de comédia; f) não delatar um vizinho simpático ao capitalismo era crime, então pessoas começaram a ser executadas por banalidades e o clima entre famílias era sempre de desconfiança; f) durante 1937 e 1939, em média mil pessoas, “anti-soviéticas”, eram executadas por dia; g) intelectuais eram coagidos a escrever textos agradáveis ao regime, ou poderiam ser punidos; h) lembram-se que os nazistas tiveram que passar pelo julgamento de Nuremberg, tribunal instituído para punir seus crimes, quando perderam a guerra? Quando a URSS caiu, nenhum dos responsáveis pela execução de membros da própria sociedade soviética foi julgado e punido por um tribunal internacional. E isso tudo é apenas uma parte do governo stalinista, e sem a tortura dos detalhes. Mas não pensem que com Lênin a URSS estava muito melhor, pois esse marxista também era favorável à execução de inimigos, também menosprezava camponeses mais abastados, também não se importava que partes da população irrelevantes para a revolução morressem de fome e liberdade era algo que não existia sob seu domínio: censura e manipulação da imprensa eram regra. 

A ratificação da assinatura do Pacto que determinou:
Stálin não se meteria nos planos de Hitler desde que
pudesse ter seus ganhos com a II Guerra

A União Soviética possuindo uma história de revirar o estômago, quem, exatamente, o Bloco Soviético quer homenagear? Nikita Krushov? O esquerdista padrão que estou criticando pode até dizer que “em nenhum momento louvou Stálin”, mas para ele eu reservo o mesmo ceticismo e a mesma repulsa que sinto pelas feministas da terceira onda que escrevem teses sobre o papel da mulher nos seriados cômicos ou nos filmes de ação, mas reservam uma linha ou duas para falar sobre aquelas que são massacradas por suas defendidas minorias. É claro que todo mundo se horrorizou com o estupro coletivo no Piauí perpetrado por garotos que eram menores, mas quantas páginas as doces feministas irracionais escreveram sobre isso? Dá-se muita importância ao chifre que não está na cabeça do cavalo para se gastar pouquíssimo tempo teorizando questões realmente sérias. Você não é o que fala que é, é o que faz. Um esquerdista que se comove com as vítimas de Hitler e não se comove com as vítimas de Lênin e Stálin está deixando sua capacidade crítica ser massacrada pela honra política. Hitler não é horror nível 10 e Stálin nível 6. Ambos instauraram regimes totalitários que torturaram e mataram pessoas inocentes que não tinham importância dentro de seus caprichos, manias de grandeza, narcisismo e objetivo de perfeição nacional. A piada do “Bloco Soviético” é tão engraçada quanto a possível criação de um “Bloco Nazista”, um “Bloco Pol-Pot” ou um “Bloco Revolução Cultural Chinesa”: ou seja, uma piada de extremo mau gosto. Que condenem uns ditadores e relevem outros, isso não é nenhuma novidade a respeito da esquerda psiquiátrica. Que feministas e homossexuais componham o grosso do Bloco Soviético nos faz perguntar se ali faltou leitura ou se faltou remédio para colocar os miolos no lugar. São as possíveis explicações para o povo que vive censurando o humor porque “com coisa séria não se brinca”, mas homenageia um regime assassino em frivolidades carnavalescas.

sábado, fevereiro 13, 2016

Textos dos outros: Vidas negras - João Pereira Coutinho (Folha)


Tenho inúmeras ressalvas aos textos do cientista político português João Pereira Coutinho. Primeiro, porque ele desdenha os direitos animais e uma das justificativas para isso é fajuta: ele “nunca gostou muito de animais", mesmo. Será que as pessoas que não gostam de crianças – porque as consideram chatas, manhosas, bobinhas – escarnecem dos casos de violência infantil doméstica e sexual? Duvido. E ninguém é obrigado a adorar cachorros para só então considerar que torturá-los e matá-los é errado. Portanto, JPC diz o que diz, não querendo refletir a fundo o assunto da ética voltada aos animais, porque, simplesmente, está conformado com o gosto da carne e com a aceitação coletiva da carne. “Todos comem, sempre se comeu e o sabor é ótimo!” Se fossemos sempre agir conforme sempre se agiu, ainda moraríamos em cavernas. Mas em nome de um capricho do paladar, o colunista não quer perder tempo com animais inferiores aos supremos humanos, que merecem tratamento diferenciado só porque sabem fazer cálculos e poesia. Adiante, então. O segundo motivo é a sua recusa em entender premissas básicas do feminismo velho. Por que chamo de “feminismo velho”? Porque a nova onda feminista é uma desgraça que quase só incita ódio, paranoia, ignorância e censura perpétua. O feminismo que eu defendo é outro: é aquele que deseja igualdade de condições para participar em todas as esferas da sociedade em que mulheres e homens queiram, e possam, participar, sem firulas, sem chamar o próprio pai de opressor porque ele penetra a mãe e sem esse retrocesso jurídico de querer que não seja necessário provar que se foi estuprada. É horrível ter sido estuprada há muitos anos num lugar isolado, querer denunciar agora e não conseguir reunir provas? É. Mas sabe o que também é abominável? Possuindo esta vida apenas, ser condenado por algo que não se fez, como ocorria na época do direito penal colonial. Há mulheres mesquinhas, mimadas e vingativas denunciando homens por estupro após términos de namoro e desinteresse, achando que isso é “empoderamento”. O feminismo novo que bate palmas para isso ou fica silente quanto a isso é danoso e parcialíssimo. Felizmente as adeptas desta modalidade de ódio ele-não-me-ligou-no-dia-seguinte-então-ele-é-machista não costumam gostar muito de estudar e dificilmente alcançarão cargos como juízas e desembargadoras. Julgar probleminhas de adolescente rejeitada não dependerá da sentença delas. Voltando: o feminismo velho, que eu defendo, é motivo de chacota para Coutinho. Acha ele que no Ocidente já temos direitos (objetivos e tácitos) iguais, que mulheres bonitas são uma graça e as feias, uma desgraça… essas conversinhas tolas de homens que pensam ter um reizinho no umbigo e querem julgar mulheres mais por sua beleza que por sua cabeça. Para contemporizar, solta uns elogios aqui e acolá à inteligência feminina, à sensibilidade típica das mulheres. É uma bajulação vazia e eu continuo com meu mantra: sempre cuidar com bajuladores muito exaltados. O cavalheiro que hoje te chama de deusa, rainha e presidenta entre quatro paredes pode amanhã te acusar de Geni e querer jogar pedras e bosta na sua face. Qualquer pessoa que nos ame de graça (ou quase) ou nos odeie de graça (ou quase) merece um ninho de pulgas atrás de nossas orelhas. Muita paixão costuma ser mau sinal. 

Mesmo assim, continuo lendo Coutinho (gostei de seu livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários, em que ele diferencia conservadores – como Edmund Burke – de reacionários caricatos – como Bolsonaro), principalmente porque ousa – em tempos delirantes e histéricos isso é uma ousadia – criticar extremismos do politicamente correto. A cada dia uma nova problematização barata e rápida (não analisada entre uma cachimbada e outra numa escrivaninha particular) surge para acidificar os ânimos: é a esponja com cabelo black power de um reality show (sendo que a mesma linha tinha uma esponja com moicano e uma esponja com a cabeleira de uma rainha), é o pai vestido de Aladim que deveria perder a guarda do filho adotivo negro porque fantasiou esse filho de macaquinho Abu no carnaval (porque, vejam só, era o personagem preferido do filho), dentre outras inúmeras catástrofes que assolam a vida de oprimidos vitalícios. E a coluna do Coutinho de 26 de janeiro para a Folha é sobre qual polêmica? Aquela que diz que negros não foram indicados ao Oscar por racismo e que por isso o evento deveria ser boicotado. Ei-la: 

*

“Há falta de negros em Hollywood? Parece que sim. A Academia indicou 20 nomes para o Oscar de melhor ator, melhor atriz e melhores atores coadjuvantes. E, entre os eleitos, não há um único negro.

Quando li o nome dos indicados, confesso que não pensei no assunto. Quando começaram a surgir as primeiras críticas, limitei-me a fazer a mesma pergunta que a atriz Charlotte Rampling (indicada ao Oscar por um papel notável no bergmaniano "45 Anos") partilhou com uma rádio francesa: e se os desempenhos dos atores negros não atingiram em 2015 certos patamares de excelência?

Heresia. Se não existem negros na corrida, isso demonstra o intrínseco racismo de Hollywood, que persiste em desprezar as minorias. A solução passa pelo boicote à cerimônia.

Respeito a indignação dos simples. Mas, depois da indignação, talvez não fosse inútil olhar para alguns fatos. A revista "The Economist" fez o trabalho duro e chegou a uma conclusão severa: o número de atores negros indicados ao Oscar durante o presente século está em sintonia com o número de negros que compõem a sociedade americana.

Se os negros, demograficamente falando, constituem 12,6% dos habitantes do país, a verdade é que tiveram 10% das indicações ao Oscar de interpretação nos últimos 15 anos.

Se existem minorias sub-representadas na conta final, são os hispânicos, e não os negros, os verdadeiros perdedores: representam 16% da população geral — e apenas contam para 3% das indicações ao Oscar em igual período.

Claro que, para a "Economist", a existência de discriminação não estará na Academia propriamente dita, embora a composição dos membros (6.000, dos quais 94% são brancos) deveria ter acompanhado a evolução demográfica da nação.

A discriminação, a existir, está nas escolas de formação dramática e nas agências de casting. Mais números: o Screen Actors Guild (ou, para facilitarmos o latim, o sindicato de atores) é majoritariamente composto de brancos (70%), o que reflete bem a cor da pele dos profissionais que saem das escolas dramáticas.

Além disso, e em matéria de "top roles" (papéis principais), só 15% das minorias (hispânicos, negros, asiáticos etc.) estrelaram os filmes desde o início do século.

Agradeço os números. Mas, em relação a eles, confesso dúvidas. Será assim tão bizarro que 70% do sindicato de atores seja composto de brancos —quando, escusado será dizer, os Estados Unidos são uma nação majoritariamente branca (acima dos 63%)?

Em relação aos "top roles", é um fato que as minorias só conseguiram 15% dos papéis principais, o que se traduziu em 15% das indicações ao Oscar e 17% das vitórias.

Mas, ao mesmo tempo, os atores negros estão sobrerrepresentados nessa cota: eles ocupam 9% dos "top roles", com 10% das indicações ao Oscar e 15% das vitórias. Se alguém merece protestar na noite do Oscar, não são os negros. São os hispânicos, os asiáticos e, convém não esquecer, os povos nativos.

Seja como for, os delírios do pensamento politicamente correto sempre foram imunes à realidade. E a Academia já prometeu repensar as indicações ao Oscar de interpretação. Exemplo: será razoável indicar cinco atores quando é possível estender o manto para dez?

Boa pergunta. Imperiosa resposta: por que motivo ficamos nos dez e não avançamos imediatamente para 50? Ou cem? Ou até 500?

Aliás, para evitar qualquer discriminação, a Academia deveria indicar todos os atores que trabalharam no ano anterior, o que permitiria não esquecer ninguém e incluir todo o mundo.

Naturalmente que um esquema radicalmente igualitário como esse poderia inaugurar novas polêmicas: como falar de igualdade quando 70% dos atores continuariam sendo brancos?

Talvez a única solução seja estabelecer limites para o número de atores brancos que podem atuar em filmes.

Os restantes, se quisessem continuar em jogo, poderiam sempre pintar o rosto com graxa e imitar, no fundo, uma prática corrente da Hollywood primitiva: o "black face".

O que não deixaria de ser irônico: nas primeiras décadas do século passado, o "black face" era a suprema forma de exclusão e racismo.

Em 2016, pode ser a solução perfeita para o equilíbrio dermatológico perfeito.”