quarta-feira, dezembro 02, 2015

Rápidas e soltas 06: Cunha, Wesley & Joesley, Cosac, Lolita


O maior problema do Brasil são seus políticos. “Anotação apreendida pela Procuradoria-Geral da República aponta que o banco BTG Pactual pagou 45 milhões ao deputado Eduardo Cunha (…) para ver interesse do banco de André Esteves atendido em uma emenda provisória” (Folha). Sobre o assunto, Cunha escreveu em seu Twitter: “isso está cheirando armação”. Quando o secretário-geral da UNE desestruturou uma entrevista que Eduardo Cunha dava à imprensa, jogando cédulas de dinheiro falso na cara do deputado enquanto gritava “trouxeram sua encomenda da Suíça!”, Cunha disse que o manifestante havia sido “contratado”. Perseguição política é o nome que o orador Cunha quer dar à sua tardia colocação como investigado por coisas das quais todos já suspeitávamos. 

Cunha é um evangélico fervoroso. O que será que Deus pensa dele?

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Num ato de cinismo tremendo, Cunha escreveu para a Folha de São Paulo na semana passada: sob o título “Fizeram de mim o inimigo número 1 das mulheres”, disse que “jamais houve imposição de pautas minhas” ao se referir sobre o aborto. Ano passado, todavia, tinha declarado que a legalização do aborto só seria permitida “por cima de seu cadáver”. Ninguém fez dele nada. Ele é que se fez e se faz a cada dia quando ousa levantar da cama todas as manhãs para calçar pantufas pagas com dinheiro público e para levar sua mulher de olhar estatelado (será que dorme com os olhos arregalados daquele jeito?) às aulas de tênis pagas com dinheiro de propina.

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Vale lembrar que a revista Veja, hoje tão crítica da fortuna súbita de Cunha, demorou demais para assumir de vez que o Brasil entrava numa cilada com um presidente desses na Câmara. A revista demorou tanto para assumir o que qualquer sujeito com boa visão política já sabia – você olha para o deputado e percebe que ele não presta – que usou eufemismo para se referir à canalhice dele como algo meio faceiro. Na edição de 25 de março, com Cunha glorificado na capa como uma espécie de “finalmente alguém não deixa barato esse governo do PT”, o jornalista responsável pela matéria principal escreveu: “Enquanto a maioria dos parlamentares delega as questões mais complexas para os assessores legislativos, Cunha, que é economista, estuda e domina os assuntos. Não é por acaso que, dada alguma demanda complexa de setores empresariais, o nome dele é o primeiro a ser lembrado como interlocutor na Câmara. Como só relógio trabalha de graça, Eduardo Cunha, conta-se, cobra caro dos empresários por sua dedicação ao tema de interesse deles. Pede doações para as campanhas políticas dos deputados que gravitam ao seu redor.” Que outro nome daremos à parte que grifei senão pilantragem? Como um deputado pode cobrar de empresários para defender, num ambiente de representação pública, interesses privados? Se fosse de um político do PT o mesmo modo de operar, ele seria rechaçado pela Veja? Claro. Assim como a Carta Capital suaviza as coisas para o lado dos políticos da dita esquerda.

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Gostaria de entender como é que Lula, que enquanto presidente ganhava uns 20 mil por mês, consegue comprar imóveis de milhões de reais. Se tivesse guardado integralmente cada salário, no final dos oito anos de mandato teria quase 2 milhões de reais na conta. Só assim seria possível comprar aquele apartamento triplex no Guarujá, avaliado por corretores em 1,5 milhão – e que Lula, que deve ser um negociador de primeira, disse ter comprado por R$48 mil. E eu achando que sabia barganhar bem quando dialogava descontos de uns reais no sebo! Parte da fortuna desse homem que embalou corações em 89 “vem de palestras”, alega o instituto que leva seu nome (instituto que serve para desmentir tudo de que Lula é acusado na imprensa). Intrigante. Mário Sérgio Cortella, que não está nadando em dinheiro, tem muito mais palestras no YouTube do que Lula, que alega viver de palestras – adquiridas justamente por empresas que são investigadas por corrupção.

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Gosto muito das Havaianas desde que elas deixaram de ter aquele formato de castanha-do-pará que tinham na minha infância. Gostava tanto da marca que há dois meses aproveitei uma promoção e comprei alguns pares com personagens de desenho (porque eu adoro desenhos), a fim de mantê-los guardados até que o par em uso estivesse desgastado. Foi quando Wesley e Joesley, donos da JBS-Friboi, compraram marcas como Mizuno, Osklen, Timberland – e Havaianas (veja AQUI). Agora, dar dinheiro para as Havaianas é dar dinheiro para os irmãos que matam milhões de bois todos os anos, compram partidos políticos (porque, já escrevi aqui, não existe afinidade partidária alguma quando você faz doação milionária para a campanha de dois partidos rivais como o PT e o PSDB) e engolem empresas menores com o auxílio do BNDES. Pois é: admirável mundo novo em que num governo dito de esquerda é que Wesley e Joesley podem alimentar seu monopólio. Tenho horror a monopólios porque eles suprimem nossa liberdade de escolha, massacram trabalhadores (que diferença faz trabalhar para a Antarctica ou para a Brahma se as duas pertencem ao polvo AMBEV?), destroem as esperanças dos pequenos empresários e tendem a estar envolvidos em atitudes antiéticas, como testes em animais (que a Unilever faz), destruição de florestas (que a Nestlé promove) e trabalho infantil (que grandes marcas de tênis apoiam). Quantos pequenos empresários não morrem na praia enquanto Wesley e Joesley recebem dinheiro do BNDES para comprar empresas nacionais e internacionais? A partir de hoje, não comprarei mais Havaianas. Nem Mizuno, que era uma marca de tênis que eu considerava excelente para corrida e que tinha a graça de ser vegana. Havendo outras opções de chinelos e de tênis, por que vou contribuir para o enriquecimento de quem quer dominar o mundo? O que eu tenho dessas marcas, usarei. Mas depois de se desgastarem, não comprarei mais, já que a partir de agora os lucros irão para os bolsos de Wesley e Joesley. E foi por causa dessa notícia que descobri que as Havaianas pertenciam às Alpargatas, que pertenciam ao Grupo Camargo Corrêa, que pertence ao rol das principais empresas investigadas na Operação Lava Jato. Está difícil fugir do que é errado. Mas não é impossível.

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O boicote é uma grande arma que permanece guardada no fundo da gaveta do consumidor. Sua opção em não usá-la é puro comodismo de quem veio a este planeta para comer, trabalhar, procriar e produzir lixo, tão somente. Uma amiga me disse que em Blumenau também houve passeata de mulheres “#foraCunha”. Enquanto protestavam pela cidade, o dono de uma ótica de lá, a Look, postou numa rede social algo como “essas loucas vão para a rua para defender aborto, mas não vão para a rua bater panelas contra os políticos; hipocrisia”. As mulheres que estavam na passeata recomendaram o boicote à ótica. Achei muito bom. Mas também achei muito pouco. É tão, mas tão fácil boicotar a Look que a defesa do boicote já veio de uma maioria que nem comprava óculos na Look, mesmo. É tranquilo como um grilo boicotar uma marca da qual nunca se precisou. Isso me lembra uma mocinha muito rebel yell que ficou revoltada por não poder comprar os novos queijos vegetais da Superbom e disse que veganos de todo o Brasil deveriam escrever para a marca dizendo que se não baixassem os preços seria feito um boicote. Só que o intento de um boicote não é exatamente esse. Você não está boicotando nada quando não compra de uma marca porque não pode, por motivos financeiros. Se assim fosse, deveríamos dizer que moradores de favelas estão cotidianamente boicotando Prada, Donna Karan, Louis Vuitton, Burberry. Boicote é quando você pode comprar, mas não compra por questão de princípio. Em relação à Look, acho que o boicote deveria ser algo que tem mais impacto em nossas vidas. É fácil boicotar uma ótica de uma cidadezinha. É louvável – já que o dono é um desinformado que não pensa duas vezes antes de expor as próprias ideias curtas na internet –, mas é fácil. Quero ver as pessoas boicotando marcas antiéticas no supermercado, quero ver a “preocupada com os problemas do mundo” deixando de comprar Omo e Bombril para comprar Ypê ou (melhor ainda) Amazon, deixando de comprar Maizena para comprar o amido de milho de uma marca pequena, deixando de comprar bolachas recheadas de farinha, gordura vegetal e açúcar da Nestlé para comprar cookies da Mãe Terra. O animal político é sempre um animal político. Ele não adentra o supermercado e passa a ser um alienado. No meu mundo ideal, as pessoas veriam o ato de comer e de fazer compras como atos políticos. Nada melhor para transformar a sociedade do que agir naquilo que a movimenta tanto: o comércio.

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A Cosac & Naify, uma das minhas editoras preferidas, está fechando suas portas. É triste. Li a chamada no jornal e pensei “não acredito que isso está acontecendo com este país”, porque para mim é como se um importante museu de arte fechasse. Não falaram de crise, mas o discurso leva a crer que problemas financeiros estão entre os motivos do fechamento. Temo pelo futuro das boas editoras e espero que não haja um efeito dominó. Num país onde sequer os professores leem ou compram livros (porque “são muito caros”, eles dizem antes de tagarelar o clichê de a educação no país precisar melhorar enquanto eles mesmos passam os dias sentados vendo TV – “maratona de dezenas de séries” é a nova imbecilidade que coopta mesmo os estudados – e falando pelos cotovelos), não duvido que logo outras editoras comecem a quebrar. Eu queria que o Brasil me desse os arrepios que o hino dele me dá. Ultimamente, só tem dado desgosto.

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Li Lolita, do Nabokov, há uns dois ou três anos. Não sei se Italo Calvino consideraria o livro um clássico, mas as editoras parecem considerar, já que a obra figura entre inúmeras coleções de clássicos da literatura, e foi por isso que li. Lembro de ler e sentir náuseas em muitos trechos. “Engraçado, para mim isso não passa de pedofilia colocada em prática”, foi o que conjecturei. Mas Lolita era tão comentada, tão celebrada, tão glamourizada pela arte que eu não me aprofundei na questão. Fiz uma pesquisa no Google e vi que era a obra preferida de Luís Fernando Veríssimo (que só deveria escrever roteiros para a TV e livretos para adolescentes, na minha opinião, porque a única coisa que encontrei de aproveitável dele para adultos foi um texto em referência ao Collor, brincando como seria o país se taxistas fossem presidentes). Vi também que Nabokov parecia considerar a acusação de banalização da pedofilia uma coisa muito moralista. A arte tem dessas: faz com que crimes sejam vistos como belos, suaves, porque com nova roupagem. Lolita, uma criança de doze anos, passa a ser a sedutora de um quarentão que não resiste à sua doçura pueril e cativa milhares de leitores. Hoje de manhã li um texto muito bom da blogueira Amanda Venicio sobre essa relativização de Lolita, principalmente no cinema (AQUI). Gosto muito do Kubrick, acho que tanto seus filmes quanto suas fotografias são excelentes, mas não compreendi muito bem como um homem com filhas pôde adaptar uma obra que brinca com a pedofilia. A história é bem escrita? É. Não é o primor estético que eu tomaria como referência ou deixaria no meu criado-mudo, mas é. A trama, no entanto, não deixa de ser torpe por isso. O que me faz atônita não é a publicação do livro em si ou a ousadia da sua escrita, mas a receptividade de abraço que o protagonista ganhou. Poderia ser um livro “é apenas uma história que pode ter acontecido a muita gente” já que a literatura não obrigatoriamente tem que expurgar dentro da própria trama os crimes que acontecem nela, num engajamento severo, mas não foi isso que vimos acontecer. Tanto não foi “apenas um drama que está imitando a vida” que Lolita passou a ser referência para comportamento, vestimenta, sensualidade. Era para ser uma personagem tida como desgraçada por ter encontrado em sua vida um imundo ególatra como Humbert Humbert, mas é vista por deslumbrados tapados como “ai, que delícia essa vida Lolita”. O mesmo sentimento tive quando li Memórias de minhas putas tristes, do Márquez (único livro que li dele, na verdade). A história: um velho prestes a fazer 90 anos quer se dar de presente uma noite de sexo com uma adolescente virgem. Em vez de ser rechaçado, esse senhor é visto com leveza: “que gênio esse Gabo, no final faz o velho deixar a menina dormir em vez de trepar com ela”. Não sei se Gabo queria polemizar – “vejam como sou atrevido escrevendo sobre tabus” –, se realmente naturaliza a história que narrou – “é só uma literatura, nenhum personagem deveria ser julgado moralmente, cristãos” – ou se, velho, nutria desejos por adolescentes virgens e fez com que seu livro libertasse a vontade que existia nele. Só sei que não gostei da obra – e muito menos da recepção serena que ela teve. Não acho que a literatura precise de personagens morais. Mas personagens são pessoas, e, tal como as pessoas, recebem julgamentos. Qual é a motivação de um personagem para ser imoral? Uma boa motivação ou identificação pode nos cativar – quem não se afeiçoa a Raskolnikov? –, mas que tipo de simpatia poderíamos alimentar por Humbert Humbert? Ele é apenas um abusador sem justificativas, não merece ser abonado. Que exista como personagem dentro de um livro que não estou condenando à extinção, mas que receba o julgamento que merece e deixe de ser adorado só porque está inserido numa arte. O papel da arte também é nos causar ojeriza. Você não é obrigado a criar laços de simpatia com qualquer protagonista vil que caia no seu colo. 

Casou com a mãe para ficar com a filha: se fosse no jornal, espanto; na arte, aplausos

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Ainda sobre abusos, a campanha “#meuprimeiroassédio”. O que mais me assustou sobre os depoimentos das mulheres não foi o teor, mas a idade que relatavam que tinham quando foram assediadas pela primeira vez. Sete, oito, nove, dez anos. Eram crianças sendo assediadas, alisadas, convidadas para fazer alguma coisa sexual em troca de dinheiro ou doces. Portanto, não estamos falando de algo “tão raro que nem deveria virar manchete”, estamos falando de uma criança do sexo feminino não poder exercer sua infância com plenitude porque há homens que se acham no direito de desejar aqueles corpos e demonstrar isso. Eu tive seios muito cedo porque menstruei muito cedo e lembro muito bem como era apavorante ser considerada objeto de desejo por estranhos numa época em que eu queria carregar bichinhos de pelúcia dentro da mochila. O primeiro assédio de muitas mulheres não foi vivido na infância tendo como causador o coleguinha de mesma idade do sexo masculino que não atinava muito bem sobre respeito. Foram marmanjos, adultos, velhos provocando crianças. O que Roger, do Ultraje a Rigor, que calado é um Sêneca e morto seria um Hesíodo, teve a dizer sobre a campanha? Que aos dez anos uma empregada deixou que ele pegasse nos seios dela e foi excelente. Certo, não duvido que tenha sido excelente, mas vamos dar o devido peso aos sexos e à cultura? Quando adolescente, já recebi cantadas e olhadas demoradas de lésbicas. Nunca senti medo. Bastava um homem me olhando se aproximar de mim na rua para ficar apreensiva, todavia. Assim, eu gostaria de perguntar ao Roger se teria sido gostoso e excelente se aos dez anos um adulto tivesse mandado que ele passasse a mão no pênis dele (desse adulto). Será que teria sido deliciosamente marcante e motivo de orgulho para divulgar no Twitter? Acho que não, né? Acho que nosso querido músico de QI estratosférico teria ficado traumatizado. Então vamos respeitar o problema específico de cada um, porque nem tudo que parece ter o mesmo peso merece ser avaliado com a mesma medida. 

PS: a pedofilia é caracterizada como transtorno psiquiátrico, portanto não necessariamente um abusador de crianças é um pedófilo (que só sente atração sexual por crianças). Para mim, tanto o pedófilo quanto o abusador, ao colocarem em prática seus desejos, violando crianças, merecem ser execrados. Um pedófilo nem sempre vai chegar a abusar de uma criança, apesar de desejá-la. Mas se chegar, que não seja amenizado por sua condição psiquiátrica, pois é plenamente capaz de coordenar seus atos. Perguntamo-nos: e como é que tantos homens assediam crianças se eles não são pedófilos no sentido psiquiátrico da coisa? É que há homens que não podem ver nada que para eles remeta a sexo que já vão se sentindo excitados. Não erguemos a civilização para permitir esse tipo de selvageria. 

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O Natal costuma ser uma época terrível para os animais. Você, que não vai ficar mais pobre por causa de uns vinte reais, pode minimizar esse sofrimento fazendo uma doação para vários queridos que estão lá no Natal Animal. Leia a história deles, doe e divulgue: http://natalanimal.com.br/animais/