domingo, julho 26, 2015

Textos dos outros: Explosões sexistas - João Pereira Coutinho (Folha)


Antes da coluna do escritor português João Pereira Coutinho, de 16 de junho, para a Folha, algumas breves considerações: 

1. Copiar o texto de um sujeito público aqui não me faz concordar em plenitude com tudo que o sujeito defende. Responsabilizo-me por concordar estritamente com o texto que foi colado por mim. No Brasil das posições políticas confusas e dos ânimos acalorados, em que a religião foi substituída por partidos políticos, você aprovar algo que um conhecido esquerdista ou um conhecido direitista diz provoca cochichos no corredor. Já escrevi e repito: não queimarei meu nome defendendo políticos, partidos ou instituições. Às vezes penso como os chamados de direita, às vezes penso como os chamados de esquerda. Isso é fabuloso: quando opino sobre algo, não preciso primeiro consultar meus pastores políticos para ver "será que a galera da esquerda pensa como estou pensando ou devo ler o que eles estão dizendo, acatar e agradecer humildemente pelos esclarecimentos?".

2. Ainda sobre posições políticas: a esquerda e a direita severamente posicionadas e autoritárias são tão obtusas e corporativistas (Reinaldo Azevedo escrevia interessantes textos sobre a Operação Lava Jato: até que seu querido Cunha começou a ser investigado e ele, cego pelo posicionamento político, começou a criticar a metodologia da operação. Como alguém pode oferecer a própria face para defender um evangélico retrógrado como Eduardo Cunha? Não sei. Talvez pirraça no sentido de que "inimigo de inimigo meu é meu amigo". Coisa de criancinhas.) que é um erro ouvir e ler apenas um dos lados. Quando quero saber dos deslizes da dita direita, leio a Carta Capital e a Caros Amigos. Quando quero saber dos deslizes da esquerda, leio a Veja (não leio a IstoÉ simplesmente porque acho os textos mal escritos). Não tenho medo de ler nada que vá contra o que penso, pelo contrário: se um pensamento oposto ao meu tiver fundamentos muito melhores, proponho-me, imediatamente, a mudar de opinião, sem medo de ser expulsa de qualquer tácita corporação política criada na internet. Sem medo de deixar de fazer parte de "nós" ou de "eles".

3. Sobre a coluna do Coutinho: não acho bonito ou louvável cientistas dando a entender que mulheres em laboratórios são fracas, choronas e servem para que romances possam acontecer, assim como não acho agradável homens exaltando padrões estéticos rígidos para a mulher. Mas se eu comando uma instituição de pesquisa e um dos cientistas renomados que trabalham lá resolve aparecer trajando uma camiseta com a imagem da uma pin-up, tudo que vou pensar é "pfff...", somente. Não vou despedir um gênio por uma ninharia tão pequenininha. Não acho que a camiseta tinha que ter gerado uma discussão pública febril; não devia ter gerado nem discussão no setor onde o tal Matt Taylor, fã de mulheres simpáticas e esbeltas, atuava. Por que andamos tão tensamente policialescos? Por que pessoas precisam se desculpar em documentos oficiais por coisas banais? Que mundo politicamente corretíssimo é esse que gasta energia com regulação de quinquilharias cotidianas que não ferem ninguém? "Ah, mas padrões estéticos ferem as mulheres diariamente". E um homem cientista trajando uma camiseta tola é que deve ser tomado como bode expiatório desse problema e linchado diante do planeta? Se você, mulher feminista, está tão preocupada com o gosto estético de um homem lá de um laboratório distante (que para você representa todos os homens, pelo visto), para que serve seu feminismo? Achei que feminismo era sobre como nós nos vemos e como nós nos posicionamos diante da sociedade, e não uma forma de implorar que homens passem a amar mulheres fora do padrão para que as mulheres fora do padrão não se sintam mais um lixo. Sinta-se bonita sem ser uma pin-up, os homens gostando ou não. Não espere que um homem apareça trajando uma camiseta com uma mulher negra, gorda e de cabelo crespo assumido para se sentir bem (pensaram que eu ia dizer "empoderada"? Pois acho essa uma das palavras mais horrendas que já apareceram na nossa língua, apesar de compreender seu sentido). Seu feminismo é estranho para mim se você se sente tão incomodada com a camiseta com pin-up de um homem. Que nosso feminismo seja vitalício, e não apenas manifesto de ódio quando estamos por algum tempo sem namorado e sem que homens se interessem por nós. Uma mulher que está solteira porque é feminista é muito diferente de uma que é feminista porque está solteira. 

Agora, a excelente coluna: 

"Será legítimo ordenar mulheres para o sacerdócio? Um amigo meu, católico praticante, é contra. Diz ele que, na missa, gosta de estar concentrado na liturgia. Uma mulher no púlpito pode abalar a fé de qualquer crente com pensamentos impuros. 

Entendo o problema. Rio com ele. "Mea culpa". Daqui para a frente, prometo controlar-me. E deixar um conselho a esse amigo: cala a boca, rapaz. O comentário é "sexista" e pode até custar um emprego. 

Se ele relinchar com minhas chicotadas, contarei a história de Tim Hunt, cientista britânico e vencedor de uma coisa chamada Prêmio Nobel de Medicina, em 2001. 

Os fatos circularam pela mídia – e, naturalmente, pelas catacumbas das redes sociais. Em conferência na Coreia do Sul, Tim Hunt partilhou uma piada com a audiência. Disse ele que as mulheres nos laboratórios podem perturbar o trabalho científico. "Você se apaixona por elas; elas se apaixonam por você, ou então choram quando as criticamos", afirmou o cientista. 

Foi o que bastou para que o University College, de Londres, fiel aos seus pergaminhos igualitários, tenha terminado a sua colaboração com o professor Hunt. Mesmo depois de o próprio, atônito e envergonhado, ter pedido desculpas pelo "erro" imperdoável. 

Não chega. O mínimo que se esperava de Tim Hunt era a devolução imediata do Nobel e, quem sabe, uma mudança de sexo por solidariedade feminista. 

Com o nome de Tina Hunt, o antigo Tim Hunt poderia finalmente mostrar ao mundo que as mulheres não se apaixonam nos laboratórios; que os homens não se apaixonam por elas; e que, em caso de crítica pelos pares masculinos, a nossa Tina permaneceria firme e hirta, sem verter uma única lágrima que fosse. 


E se um asteroide colidir com a Terra nos próximos anos? Não quero assustar o leitor sensível, mas pode acontecer. 

Leio na revista "Time" que a Agência Espacial Europeia reuniu vários sábios cosmológicos para discutir o apocalipse. No longo prazo, estaremos todos mortos, dizia Keynes. Mas o pior é que, no longo prazo, a humanidade inteira pode conhecer igual destino. 

Um exemplo: antes de 2040, um rochedo de nome Apophis, com capacidade destrutiva comparável a 58 mil bombas nucleares de Hiroshima, passará pela vizinhança e será observável pelos terráqueos. Mas outros rochedos vêm a caminho e podem acertar no alvo, acabando com a festa. Perante isso, o que fazer? 

Os especialistas informam que há duas soluções em cima da mesa. A primeira, digna de filme, é usar armamento nuclear para pulverizar o rochedo na sua cavalgada assassina. 

A segunda, mais delicada, implicará sempre o envio de um brinquedo humano para a superfície do rochedo, capaz de interferir com a sua rota. E, perante essa segunda solução, antecipo sérios problemas. 

O leitor sabe do que falo. Há menos de um ano, o mundo assistiu a um espantoso feito científico: uma sonda de nome Rosetta conseguiu pousar em um cometa, abrindo possibilidades de conhecimento (e proteção) para a raça humana. 

Houve aplausos. Houve festejos. Houve alegria. Mas um cientista envolvido no projeto, de nome Matt Taylor, apareceu perante as câmeras com uma infeliz camiseta colorida, onde era possível observar imagens de mulheres pin-up, em poses sensuais, ou seja, "degradantes" e "ofensivas". 

Para não variar, as catacumbas das redes sociais não perdoaram esse crime "sexista". E o feito científico da sonda Rosetta, que em teoria poderá salvar um dia a civilização, foi imediatamente jogado no lixo ante o machismo repulsivo do doutor Matt Taylor. 

Verdade que o cientista, em aparições posteriores, pediu mil perdões a todos os selvagens que ele tinha melindrado com a sua indumentária. Mas eu, pelo sim, pelo não, freava desde já qualquer investimento nessa área. Só para evitar qualquer possibilidade de novas agressões "sexistas". 

Se isso implicar a destruição da humanidade por um rochedo imparável, paciência: restará a consolação de sabermos que o fim será cumprido no estrito respeito pela cartilha politicamente correta das patrulhas que nos dominam."

domingo, julho 05, 2015

Veganos na Europa: Berlim (Alemanha)


Se eu tivesse que morar em outro país, moraria na Alemanha. Gosto da educação, da diversidade de gostos, da beleza dos lugares (limpos, conservados, fruto da tal educação do povo alemão), da personalidade que foge ao nosso típico "malandro". Alemães não parecem querer levar vantagem nas coisas, e as pequenas corrupções cotidianas que costumam gerar riso entre brasileiros fazem alemães sentirem vergonha. Aí é você que escolhe: a "simpatia", o carisma, a "graça" do brasileiro comum que vem junto com o abuso, ou educação que vem com uma certa austeridade de escassos dentes à mostra. Estou dizendo tudo isso porque nasci em uma cidade de colonização majoritariamente alemã, e a maior reclamação que eu ouço das pessoas que vêm aqui para visitar ou morar é o fato de "alemães serem tão fechados". Eu considero um elogio e prezo por essa privacidade, esse respeito à vida alheia. A maioria dos visitantes pensa que isso é defeito. Querem festa, gargalhadas, intimidade com recém-conhecidos – essas coisas vãs de quem acha que risadas ao vento são sinônimo de felicidade (e não duvido que achem que todos os alemães fechados são infelizes). Não estou defendendo todos os descendentes de alemães daqui. Há alguns tantos (muitos deles vieram do interior do estado ou do interior dos outros estados sulistas) que vivem formando guetos coloniais para tomar chimarrão e desconfiam de qualquer vizinho que não seja como eles. Uma espécie de descendentes de alemães do mato, ao que parece. São desses que veem um novo vizinho negro e ficam bombeando para saber "o que raios ele está planejando aqui". Desconfiados até a medula, e de um jeito reles. Assemelhados a animais selvagens, mas diferentes deles porque não desconfiam dos outros para preservar a ninhada ou a própria vida. Enfim, prefiro lidar com gente séria que me respeite a lidar com gente sorridente que tente me passar a perna. A "passada de perna", tão comum no meu Brasilzinho, é ainda mais comum em território de pessoas altamente carismáticas, simpáticas e todas essas coisas maravilhosas. Dispenso. O adjetivo fechado sempre será tido por mim como "elogioso" (e com isso não estou dizendo que todas as pessoas "abertas" são ruins). 
Torre de TV


Portão de Brandemburgo

Relevo simulando livros no chão do Museu
da história de Berlim, simbolizando livros
queimados pelos nazistas


Tentei fazer algumas fotos de rua com
minha nova máquina e vi que ser fotógrafo de rua
é mais difícil do que eu pensava

"Mas a Alemanha, então, é um lugar de gente sisuda?" Não. Talvez no interior se possa encontrar esse tipo, mas as grandes e médias cidades são, digamos, moderadas. A Alemanha recebeu, nos últimos anos, muitas pessoas de diversos países. Isso gerou essa coisa bonita do cosmopolitismo, mas sem cair tanto na desgraça do aumento súbito da violência e da perda de valores locais. Portanto, não são só os alemães que compõem a Alemanha, mas também os estrangeiros que vão parar lá e ajudam a criar um país diversificado que não desandou. Berlim é a maior prova dessas nuances. Sempre me parece que todo mundo tem algum representante lá, assim como não é raro ouvir pessoas conversando em português brasileiro no metrô e nas ruas (se puxo conversa com elas? Jamais.). Interessantemente, andar em Berlim à noite nunca me causou medo. Em São Paulo, outra cidade enorme e cosmopolita, tenho medo de andar sozinha durante o dia, mesmo em lugares apinhados de gente. E foi assim que somente nos últimos tempos eu fui entender as pessoas que se declaravam loucas para morar em outros países. Sempre pensei: "mas por que não moram aqui e viajam para esses lugares nas férias?", mas isso não basta para todos, e, principalmente, não basta para quem vive com medo e desesperança nas grandes cidades. "Que vão morar nas pequenas" não é uma sensata sugestão, já que o que se ganha em segurança é perdido em cenário cultural e possibilidades (adoro São Paulo porque tem muitos restaurantes veganos e delivery, odeio São Paulo por essa perene apreensão que me dá no peito; odeio Blumenau porque sequer possui um restaurante ovolactovegetariano, adoro Blumenau porque não tenho medo de andar por ela). Berlim é um baile de cultura, de lugares para ir, de restaurantes veganos (de todas as cidades que já visitei, é a com mais opções magníficas), de variedade de coisas acontecendo nas ruas. E não gera pânico, e não invade a sua privacidade. Agora eu compreendo os brasileiros que se sentem estrangeiros no Brasil


Museu Ramones: você tem direito a uma cerveja
quando compra o bilhete de entrada

Eu precisaria de muitos dias em Berlim para conhecer todos os estabelecimentos veganos que existem lá. E precisaria de mais dias ainda para conhecer todas as lojinhas (o diminutivo não é por acaso) de decoração e tecidos que sobejam em muitos bairros. Este ano, comprei vários metros de tecidos tão bons e com estampas tão lindas que tudo o que consegui pensar quando voltei foi "por que não comprei mais?" Não acho aquelas dádivas cheias de raposas ou com padrões geométricos nada óbvios por aqui. Terei que esperar a próxima viagem para me reabastecer dessas singelezas que me deixam feliz como um gato numa almofada de veludo. Quanto aos restaurantes veganos, quase não há semana em que eu não comente com meu namorado, em momentos de fome, sobre algum deles. Comer uma pizza no Sfizy Veg no sábado à noite e receber um brunch farto do Ohlala no domingo ao meio-dia seria mágico se pudesse acontecer aqui. Já não há desculpas para não se tornar vegano em plena era de mercados por todos os lados, agricultura avançada e internet livre com milhares de receitas que não torturam animais. Em Berlim, com excelentes opções veganas fáceis em qualquer lugar, se havia algum restinho de desculpa, ela deveria ser recolhida e lançada por um estilingue na cara daquele que a proferiu. Lá, comi como um padre que faz vista grossa para o pecado capital da gula. Felizmente nunca gostei de calças jeans e as minhas calças de algodão com elastano conseguem se ajustar bem à barriguinha cheia. 

OHLALA 

Quando fomos, o local estava tão lotado que não pude tirar fotos e tivemos que dividir uma mesa minúscula do canto com duas moças. Estava lotado por dois motivos: era dia de brunch e as comidas eram sensacionais. Melhor: as comidas conseguiam ser sensacionais e sem glúten. Quase não pude acreditar que era tudo sem glúten quando vi a quantidade de opções. Comi uma estonteante bomba de chocolate que era difícil de acreditar que pudesse existir no meio das minhas mãos (a bomba não fazia parte do brunch; comprei porque sou gulosa, já que o brunch é tranquilamente satisfatório em quantidade e ninguém mais diria "esse banquete livre não foi suficiente, preciso de uma bomba de chocolate para preencher meu estômago"). Podíamos comer livremente pagando um valor fixo do qual não me recordo; só me lembro que era barato comparando com o padrão europeu e considerando que podíamos comer à vontade. Se for a Berlim, não deixe de ir lá e tente conseguir uma vaga para o dia do brunch (extenso e sem glúten). É uma lástima que eu não tenha uma foto sequer para mostrar e provar que era tudo lindo, mas seguem dois links em que algumas fotos podem ser visualizadas: 


YOYO

Fica na mesma rua do Ohlala (se encontrar um lugar barato para se hospedar por ali, reserve, pois é uma região que vale a pena para veganos). Recomendo apenas para meus inimigos. Há quem goste e fico feliz com isso, pois restaurantes veganos precisam de clientes costumeiros para se manter, mas com a má experiência que tive lá em 2014, não ousei voltar em 2015. O homem que faz o seu lanche (que pode ser um hambúrguer, uma pizza individual ou uma pasta num cardápio com mais de cinquenta opções) é o mesmo que lida com o dinheiro. E isso, como já pontuei, é comum em alguns países europeus. Essa farra dos germes poderia causar multa aqui no Brasil. No Yoyo, era tão natural quanto respirar. O mesmo atendente/cozinheiro/faz-tudo era muito parecido com o cientista do filme De volta para o futuro, mas com os cabelos muito suados e levemente azulados. Obviamente o que me fez não gostar do restaurante não foi o estiloso cozinheiro (por sinal, meio mal humorado, mas quem não seria assim se tivesse que exercer inúmeras funções ao mesmo tempo e com o salão cheio de gente?) ou apenas a falta de higiene, mas a comida. Oleosa, sem sabor, sem amor. O cozinheiro era apenas a personificação da comida que ele estava fazendo às pressas, e qualquer humanitário que o visse como um polvo fazendo três pratos ao mesmo tempo questionaria se ainda estávamos na época da Revolução Industrial e se não era direito daquele trabalhador poder ir para casa lavar aqueles cabelos e descansar aqueles olhos de coveiro. Não recomendo, mas como há gosto para tudo, talvez você queira tentar. Quando comi e não gostei, fiquei impressionada ao olhar ao redor e ver tanta gente comendo com prazer como se fosse a primeira refeição de um alemão oriental após a queda do Muro de Berlim. 

MO, GOOD TO GO

Familiar, saudável, aconchegante e delicado como uma florzinha bordada em ponto-cruz num camafeu. Se você é extravagante como a Vera Verão, não vá lá. Eu, que sei assumir um papel de camponesa bordadeira quando necessário, pude me sentir um pouco rude conversando com a dona, de tão suave que ela era e de tão leve que era a atmosfera. O cardápio é bem restrito, mas cheio de princípios alimentares. Nada de glúten, nada de frituras, nada de álcool, nada de café: apenas rolinhos feitos com massa de arroz (recheados conforme pedir o cliente), algum smoothie, chás e duas opções de sobremesa. Pedimos auxílio para escolher o recheio dos rolinhos. Escolhemos dois chás – e fomos questionados por qual método queríamos que o chá fosse feito, porque "algumas pessoas acreditam que as propriedades das ervas se soltam na água de forma diferente dependendo do preparo". É claro que me encantei com isso. Eu me encanto com qualquer pessoa que ama o que está fazendo, nem que seja um chá. Rolinhos: deliciosos, "mas" supersaudáveis – se é do tipo que gosta de fortes emoções na língua e torce o beiço para qualquer alimento que tenha cara de natureba, duvido que gostará. Chás: uma benção, eu queria praticar yoga depois de bebericá-los. Sobremesa: costurei minha espontaneidade de viajante nas minhas vísceras para acabar não perguntando como era feito aquele pequeno mousse de chocolate com framboesa servido num vidrinho amável – maravilhoso. O lugar é recente e espero que consiga prosperar. Como o foco é o "good to go", há poucas mesas para sentar. Mas parecem bastar, já que éramos os únicos sentados lá (outras pessoas fizeram seus pedidos, mas pediram para levar).

Entrada do Mo

Rolinhos embrulhados e molhos

Chá e rolinhos

Mousse de chocolate com framboesa

GOODIES/ VEGANZ

Veganz é o mercado vegano mais incrível que eu já conheci. Goodies é a lanchonete deles, que às vezes está acoplada ao mercado, às vezes está solta pela cidade (não sei quantos Goodies há em Berlim, talvez três). No Veganz é possível comprar coisas inimagináveis para um vegano brasileiro: salsicha de diversos sabores e diversas marcas, mortadela, queijos variados, snacks para crudívoros, imitação de peixe, etc. Um parvo poderia dizer que "esses veganos que comem imitações de carne estão apenas mostrando o quanto se sacrificam por uma causa difícil", mas é bom lembrar que a maioria das pessoas se tornou vegana não porque passou a sentir ojeriza pelo sabor de carnes, queijos e ovos, mas porque percebeu que seu paladar não deveria estar antes da sua ética. Eu nunca disse que é antinatural comer carne. Eu digo que é antiético comer carne dada a fase de desenvolvimento alimentar em que estamos. Não vejo problemas em querer comer carne falsa. Só vejo problemas, por exemplo, se um brasileiro alegar que não pode se tornar vegano porque aqui não se encontram as carnes falsas que são encontradas na Alemanha. Outra: eu gosto de carne falsa esporadicamente. Essas imitações de carne não costumam ser saudáveis do ponto de vista nutricional e prezo por comer da forma mais natural possível na maior parte da minha semana.

Balcão do Goodies em 2014

Sopa de abóbora

Bolos de chocolate

Rolinhos e chocolate quente

Após fazer compras no Veganz, por que não tomar um café no Goodies? Eles servem hambúrgueres, sopas, pães, bolos, tortas, smoothies, cafés de diversos tipos, rolinhos. O preço de algumas coisas é como uma faca gelada pousada sobre as costas nuas (em 2015, um smoothie de espinafre com banana e maçã era quase 5 euros, ou seja, uns 15 reais), mas outras coisas – os bolos – valem o valor pago. Nos dias frios o chocolate quente que vem num enorme copo de vidro é uma boa pedida. A sopa (de abóbora ou outro sabor) também é deliciosa e recomendo como entrada. Se quer fazer lanches para mais tarde, compre pão no Goodies – eles têm um pequeno setor de padaria – e coisas para passar no pão no Veganz: eis um bom jeito de economizar um pouco de dinheiro.

Entrada de um dos Veganz (há dois em Berlim)

De qualquer forma, não cogite ir a Berlim sem conhecer o Veganz. Não tenho fotos do mercado, mas basta jogar no Google Imagens o termo "Veganz Berlin" que é possível ter uma ideia do esplendor desse lugar.

VÖNER

Já tínhamos conhecido o Vöner que fica em Leipzig. Muito saboroso: havia uma carne falsa que parecia churrasco de verdade. Minha única reclamação seria a de eles não terem nem sucos, nem bebidas quentes. Ou você tomava cerveja, ou tomava refrigerante. (É claro que eu adoro cerveja, mas se eu almoço cerveja é um sacrifício ter pernas firmes para caminhar pela cidade depois.) Então achávamos que o Vöner de Berlim teria a mesma, digamos, receita de sucesso gustativo. Nada disso. Lugar apertado, lotado, cheirando a óleo – posso dizer fedendo a óleo? – de uma maneira irritante, comida nada impressionante e, para piorar, havia uma família com duas crianças lá e uma delas, de uns três anos, berrava manhosamente como só o Rei Sol Luís XIV devia fazer melhor para ter suas ordens atendidas. O lugar conseguiu sintetizar tudo que posso considerar péssimo enquanto faço uma refeição: barulho intenso vindo da boca de um ditador mirim, cheiro ruim e comida triste. Nem penso em dar uma nova chance em outra ocasião. Minha indignação era tanta que não consegui tirar a câmera do estojo para fotografar aquele cenário oleoso. Se eu tirasse uma foto, talvez ela sairia com as manchas de fritura que estavam no ar.



VEGO

Fast food fabuloso. Só fomos lá uma vez, mas adoramos. O hambúrguer com falso peixe frito era muito suculento. As cervejas eram saborosas. Só a batatinha frita, miúda, era dispensável. Atmosfera punk, com música punk e gente punk. Mesmo assim, o lugar era muito limpo (é claro que há punks limpos, assim como há punks que comem restos que encontram no lixo; mas quem não conhece esse universo pode achar que "punk" é sempre sinônimo de "sujo"), o banheiro estava um brinco e os lanches eram lindos. Recomendo com louvor.

Placa da entrada

Hambúrguer de peixe falso, batatinhas e cervejas


SFIZY VEG

Sempre que for a Berlim, quero estar lá, nem que seja somente por uma noite. O restaurante parece meu quarto, cheio de bugigangas, brinquedos e peças velhas que montam um conjunto excêntrico muito especial. O ambiente é escuro e aconchegante, as paredes são repletas de coisas e as mesas, lotadas, muitas vezes precisam ser compartilhadas por pessoas que não se conhecem (não vejo problema desde que não puxem conversas longas). Pretende-se um restaurante italiano, então serve inúmeras opções de pizzas e pastas. Amei tudo o que comi. As sobremesas também eram deliciosas. Já o vinho... Bem, tenho que agradecer ao Sfizy por participar da abertura do meu paladar para vinhos. Em Dresden (Alemanha), eu tinha tomado um vinho desses que vêm com uma carteirinha (nome, lugar, safra) e tinha amado a explosão de sabores que ele me proporcionou. Depois de Dresden, fomos a Berlim. Fomos ao Sfizy. Pedi um vinho que se chamava "vinho", ou seja, "dane-se o nome desse copo de vinho que você está pensando em pedir". E então compreendi tudo: as portas da percepção do meu paladar se abriram e pude, finalmente, após anos tomando apenas vinho barato, tachar aquele vinho do Sfizy de "simplesmente horroroso". Graças a essa experiência, hoje tenho lido qualquer coisa sobre vinhos que caia no meu colo e nunca mais comprei nada que custasse menos de 30 reais. Em 2015, fomos lá três ou quatro vezes. Minha pizza preferida foi a Frutti di mare, cujo único defeito era vir com um punhado de rúcula fresca em cima ("defeito" porque eu não gosto de rúcula, que fique claro; meu namorado achou sublime o conjunto da obra). Os tais frutos do mar eram, obviamente, falsos, e o camarão falso era muito gostoso.

Decoração do Sfizy

Cada espaço é preenchido

Perto do balcão

Pizza Frutti di mare

Tiramissu

Cheesecake com cobertura de morango

ECONOMIZANDO NA ALIMENTAÇÃO

Muitas vezes, em viagem, fazemos apenas uma refeição por dia em restaurantes. Às vezes conseguimos tomar café no hotel (pão com geleia, frutas, café preto), almoçamos qualquer comida que levamos na mochila durante as caminhadas e deixamos o banquete em algum lugar especial para a noite. Por quê? Porque comer muito durante o dia prejudica as caminhadas e também o bolso. Então, quando possível, temos o hábito de procurar mercados (veganos ou não) para comprar coisas que possamos levar para preparar e comer no hotel. Isso poupa algum dinheiro e quebra galhos na hora do almoço – em vez de ir almoçar em algum lugar, montamos sanduíches no hotel e levamos conosco nos passeios. Isso geralmente. Às vezes almoçamos e jantamos fora.

Outra boa pedida é comprar lanches prontos e levar para o hotel. Certo domingo, estávamos hospedados numa região de Berlim em que não havia nada aberto. E o cansaço da recém-chegada à cidade não permitia que pegássemos transporte para procurar restaurantes veganos. Então encontramos uma barraca de turcos e lá compramos cervejas, batata frita e sanduíches de falafel (pedimos para não colocarem molhos que tivessem leite) – levamos tudo para o hotel e fizemos nosso jantar especial enquanto assistíamos a um dos jogos da Copa.

Holanda X México, Copa 2014

Por falar em Copa, estávamos em Berlim no fatídico dia em que o Brasil fanfarrão passou vergonha diante dos disciplinados alemães. Fotografamos o jogo quando estava em 4 a 0, achando que aquilo seria tudo. Piscamos mais longamente e de repente o jogo já estava em 7 a 0. Muitos me culparam pela traição, mas eu não tive nada a ver com isso e nem levantei da cama para festejar com o povo que estava eufórico nas ruas. Venceu o melhor e logo no começo dos jogos da Copa eu já tinha declarado em casa que a Alemanha venceria. Sou uma bruxinha vegana, mas não me queimem.

Brasil X Alemanha, ainda no 0X4

Ah, para quem gosta de cinema: no Sony Center há um museu sobre o cinema alemão que é muitíssimo bom. Não tenho fotos para mostrar porque não era permitido fotografar, mas vale a pena. E há um dia da semana em que a entrada é franca.

Abraços veganos e mochileiros a todos!