segunda-feira, maio 25, 2015

Doutor em desenho não é doutor em política


Algumas pessoas são realmente boas naquilo em que decidiram se especializar. Mas isso não faz delas doutas em qualquer outro assunto. Não estou falando de títulos, necessariamente. Estou falando de conhecimento. É fácil confundir o renome em uma área como passaporte para opinar sobre tudo. Só que isso pode ser perigoso. 

Laerte Coutinho, cartunista brasileiro, é, para mim, um dos melhores quadrinistas deste país. Ele é ótimo. Sempre foi. Com os Piratas do Tietê, Os Gatos, Hugo, Overman, na fase mais filosófica: parecia que tudo o que ele desenhava virava ouro. Ocorre que nos últimos tempos Laerte tem tomado as dores de uma certa esquerda (há diversas esquerdas, mas ele resolveu tomar as dores da menos letrada), talvez porque como transgênero se sentiu acolhido por essa vertente, e passou a fazer quadrinhos esquerdosamente politizados. Até aí, não vislumbramos grandes problemas. O problema real começa quando Laerte quer brincar de historiador e de conceituador e começa a errar a dose de crítica política. Isso não aconteceu nem uma, nem duas, nem três vezes. É recorrente. Em vez de ler um livro de história ou de tentar entender a opinião "dos outros", do lado oposto, Laerte prefere acreditar naquilo que lhe dizem fanáticos na internet. Um exemplo claro foi seu quadrinho publicado na Folha de São Paulo no dia 21 de abril. No desenho, um Tiradentes barbudo prestes a ser enforcado é achincalhado no último minuto por uma voz que vem da multidão: "vai pra Cuba!" 



O que Laerte está supondo com essa tirinha tola? Que se na época de Tiradentes tivéssemos os ventos políticos que temos hoje, o jovem revolucionário seria menosprezado em sua vontade de mudança e reduzido a um simples rebelde que deve provar do próprio veneno. Laerte parece não saber que o feriado de Tiradentes é de certa forma estúpido e que o dentista nada teria a ver com a esquerda. A charge, para se fazer historicamente correta e então justamente engraçada, teria que ter, no balãozinho, um "reacionário!", porque o movimento da Inconfidência Mineira foi elitista (movimento popular foi a Conjuração Baiana) e Tiradentes possuía escravos. Por que Laerte retrata um elitista que possuía escravos como um sujeito de esquerda? Porque não fez uma rápida consulta à História antes de desenhar sua charge que visava a agradar os seus e incomodar "os outros". É isso o que acontece quando a pessoa está imersa no delírio coletivo da posição política. Os fatos não importam. Importante é agradar a ideologia que se abraçou sem tirar nem pôr. 

Outro trabalho lamentável foi um que abordava o tema das cotas. O personagem contrário às cotas justifica que a ideia por trás delas é problemática porque no tempo da escravidão a captura e venda de escravos para senhores brancos era feita por negros. O outro personagem, bondoso e justiceiro, diz que isso não anula quatro séculos de humilhação, segregação e injustiça. Ora, alguém que é razoavelmente contra as cotas (sentença que a esquerda-do-pavio-curto alega abrigar um oximoro) nega o sofrimento que as pessoas negras passaram e passam? 



Laerte alimenta a ideia de que uma pessoa contrária às cotas raciais é, de certa ou de toda forma, racista. Não se admite que possa haver uma explicação coerente para se fazer oposição a essa ação afirmativa, porque o discurso delirantemente apaixonado vem antes do uso da razão para processar argumentos. E isso é deveras interessante, já que as pessoas razoavelmente contra as cotas raciais muitas vezes são favoráveis às cotas sociais, que acabariam beneficiando negros, já que a maioria deles é oriunda de famílias de baixa renda. Podemos retomar, em tópicos rápidos, o que dizem aqueles que se opõem às cotas raciais: 

1. O modelo adotado no Brasil é uma cópia do modelo utilizado nos EUA, sendo que o contexto de segregação pela cor ocorreu de modo muito diferente aqui. Enquanto nos EUA um negro com muito dinheiro não poderia chegar à universidade só pelo fato de ser negro, no Brasil o impedimento que faz um negro não chegar à universidade é de caráter socioeconômico. A pergunta chave para se entender essa questão é: um negro rico no Brasil tem algum impedimento para estudar em uma universidade pública? Não. Um negro de família rica vai estudar em colégios particulares e terá condições de disputar uma vaga em universidades públicas sem ter qualquer barreira criada por causa de sua cor. Ou seja, o problema é obviamente econômico. Um negro pobre não está estudando Medicina pelo mesmo motivo que um branco pobre não está estudando Medicina: nenhum deles teve bom estudo de base por causa da condição financeira de suas famílias. 

2. Nessa discussão sobre cotas raciais sempre se comenta a "dívida histórica" que os brancos têm com os negros. O trunfo que desmancha esse castelo idealista que divide a humanidade em culpados e vítimas é que a escravidão não foi inventada pelos homens brancos para subordinar homens negros. A escravidão existe desde os tempos mais remotos e é praticada pelas mais variadas culturas. Quando esse temido homem branco começou a comprar escravos de alguns países africanos, não estava apenas negociando negros com vendedores negros que vendiam seus "irmãos" (como os negros do movimento negro gostam de se chamar), mas estava pegando carona para comprar pessoas num lugar onde a escravidão era parte natural da vida em sociedade. O mentiroso que fala da dívida histórica como se a opressão do negro escravo tivesse começado quando ele conheceu o homem europeu é o mesmo que discursa como se o negro fosse o novo bom selvagem corrompido pelo pérfido homem branco: a África seria um continente pacífico em que todos viviam em harmonia e igualdade, até que um dia navios cheios de brancos poderosos chegaram lá, destruíram essa cultura e zarparam com centenas de negros, antes livres, que passariam a ser mão-de-obra escrava em outros continentes. Quando se lê a história das relações entre África e Brasil (uma obra que eu recomendo é Um rio chamado atlântico, do Alberto da Costa e Silva, uma das referências brasileiras sobre o tema), percebe-se que nada era tão simples e romântico quanto uma vertente do movimento negro quer nos fazer supor. Os escravos emancipados no Brasil que logo procuravam ter seus próprios escravos não faziam isso porque "aprenderam maus modos contra seus próprios irmãos" ao conviverem com brancos na Casa-Grande. A cultura da escravidão já vinha da África, e, repito, era normalizada lá. Sempre torço para que falácias ideológicas não resistam ao julgamento da história, que apresenta fatos para contrapor emoções que emergem do achismo. Mas não é novidade que uma mentira contada por muitas pessoas acabe se tornando verdade no meio da multidão que não lê, não contesta, não busca fontes honestas. 

3. Cotas raciais (e mesmo as sociais) são extremamente cômodas para o governo. Não é preciso gastar um centavo para dar prosseguimento a uma política de cotas. Se se gasta, é apenas com despesa administrativa. Só. O governo não tem que fazer nada: quem tem que fazer é o professor universitário que recebe um aluno que veio de um ensino fundamental e médio péssimos e agora precisa adaptar suas aulas a essa realidade que políticos imediatistas não se comprometeram a consertar. E foi dito: "o governo fará as cotas e ao mesmo tempo melhorará o ensino básico para que no futuro os alunos pobres e negros não precisem do sistema de cotas para adentrar a universidade, pois serão capazes de competir com os alunos vindos das escolas privadas". Alguém viu alguma melhoria no ensino básico público após a instauração do sistema de cotas? Professores passaram a ser melhor remunerados e tiveram a carreira valorizada? As turmas têm menos alunos? A carga horária dos professores diminuiu? Foi realizado algum grande plano de formação docente? Estamos nos saindo bem em avaliações internacionais da educação? A resposta para todas essas perguntas é não. Isso, para mim, não é comprometimento com a educação. É comprometimento com a coleta de votos e fraqueza ao ceder aos anseios instantâneos de grupos que participam da manutenção do governo (ou seja, ainda é uma questão eleitoreira). Se a Coreia do Sul pôde reformar seu sistema educacional em poucas décadas, por que o Brasil não pode? Porque isso é muito oneroso e os frutos serão colhidos sabe-se lá em qual governo. 

Portanto, Laerte, o problema é muitíssimo mais embaixo. Você é um desenhista maravilhoso que me acompanha desde a minha infância e tudo o que você lança eu compro. Mas espero não ter que colocar lixo da vertente não-estudada da esquerda para dentro da minha casa só porque há uma assinatura sua no canto. Não estou pedindo para você mudar sua posição política, que sempre foi à esquerda. Só estou pedindo para que participe da esquerda que lê e fundamenta antes de sair desenhando coisas impróprias. Você ser doutor em desenho não te faz, automaticamente, um doutor em política. Para ser doutor em desenho você teve que desenhar muito. Para ser doutor em política você vai precisar estudar muito.

E para não dizerem que o Laerte só tem feito quadrinhos errados, fica aí um bom quadrinho politizado bem certinho: 



terça-feira, maio 05, 2015

Textos dos outros: Governo autista - Vladimir Safatle (Folha)


Inauguro uma nova tag neste blog: TEXTOS DOS OUTROS. Por meio dela, publicarei textos interessantes (geralmente curtos) que encontro em jornais e sites favoritados. Talvez teça algum breve comentário sobre eles, mas a intenção é partilhá-los pelo seu valor em si. Como agora assino a Folha de São Paulo digital, por exemplo, tenho acesso a milhares de colunas maravilhosas a que vocês, talvez, não tenham (o limite para não-assinantes é de somente dez colunas mensais). E às vezes me chateio em saber que um texto tão bom só poderá ser lido por assinantes, e por isso pretendo, vez ou outra, colá-los aqui. É claro que avaliarei esses textos não só pela qualidade, mas pela pertinência: se fosse só pela qualidade (e se eu quisesse levar uma chamada de atenção da Folha), colaria nas postagens todas as colunas do Professor Pasquale. 

O primeiro texto é a coluna de 28/05 do professor da USP Vladimir Safatle. Chama-se Governo autista. Safatle é esquerdista, mas, antes que algum petista sorria e esfregue as mãos, digo que ele não é um esquerdista petista (partido ao qual muitos reduziram a esquerda no Brasil). Safatle é filiado ao PSOL e faz críticas ao governo do PT (chamando-o, tal como é hoje, de esquerda sazonal e esquerda zumbi). Na coluna abaixo, ele critica o governo do PSDB sobre o descaso com a educação estadual, mas é sempre bom ponderarmos: a educação passou a ser a arma que cada extremista usa para criticar seu opositor. Alguém que critique apenas o governo Alckmin a respeito da educação não está preocupado com educação, assim como alguém que só critique o governo Dilma pela diminuição drástica da verba destinada à área também não está. Se encontrar alguém criticando somente um dos lados, não hesite: trata-se de um canalha que se serve da educação para fazer politicagem. Canalhas veem seus partidos cometendo barbaridades e não dizem nada. Quando veem o partido "alheio" vacilando, são os primeiros a urrar. Como Safatle parece não suavizar para nenhum dos lados, acho que merece referência. Eis a coluna (o grifo é meu): 

"Não há nada mais patético no Brasil do que ouvir políticos falarem sobre educação.

Todos concordarão que a educação é a prioridade nacional, assim como descreverão programas maravilhosos aplicados em seus Estados que teriam redundado em inquestionável impacto na qualidade do ensino. Então, números fabulosos aparecem corroborando mais uma história de sucesso, até que um mal intencionado programa internacional de avaliação joga todos os números nacionais no chão.

O princípio vale para o problema central do ensino brasileiro, a saber, a destruição da carreira de professor. A Coreia do Sul é sempre lembrada como exemplo de salto educacional. Seus professores do ensino público ganham em média US$ 4.000, ou seja, ao menos quatro vezes mais do que seus similares brasileiros.

Com isso, não admira que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores, criando uma profissão completamente sucateada e precarizada. Sem bons professores, não haverá tablet, matemática em 3D ou consultor de Harvard que conseguirá transformar nossa educação pública em algo minimamente aceitável.

Então você lê, em algum pé de página de jornal, que 'professores do Estado de São Paulo estão em greve há 44 dias' ou 'professores do Estado do Paraná entram em greve por tempo indeterminado'. Começam a aparecer relatos das condições precárias de trabalho, salas de aulas fechadas para a concentração de alunos em outras unidades, professores com mestrado e doutorado há dois anos sem reclassificação salarial e defasagens inexplicáveis de salários entre professores e outros funcionários públicos com o mesmo nível de formação.

Em outras épocas, depois de 44 dias de greve, você esperaria que o poder público se mobilizasse para dar alguma resposta ou que a sociedade civil se indignasse com a passividade daqueles que gerem o dinheiro de seus impostos. Mas, ao menos em São Paulo, temos outra forma de resolver problemas. Aqui, o governo desenvolveu um método incrivelmente eficaz que pode ser chamado "eliminação nominalista". Por exemplo, perguntado sobre a greve de seus professores, o governador de São Paulo afirmou nesta segunda-feira (27): 'Não existe greve de professores em São Paulo'.

Ele é particularmente bom nisso. Há alguns meses, confrontado com racionamentos de água que afetavam a população de seu Estado, não temeu em afirmar: 'Não existe racionamento de água em São Paulo'.

Você também pode tentar isso em casa. Faça cara de sério, pense em algum problema grave e diga de maneira firme e pausada: 'Este problema não existe'. Ao menos em São Paulo, a técnica funciona".