segunda-feira, dezembro 19, 2016

Rápidas e soltas 14: Bagagens taxadas, a imprensa que adora Fidel, politicamente correto, crianças


Governo é quando nós estabelecemos um contrato com algumas pessoas, eleitas e escolhidas por nossos eleitos, para gerir aspectos de nossas vidas. Há governos que administram mais, há governos que administram menos. Não vejo problema que administrem parte de minha vida mediante meus impostos e minha escolha. Não vejo problema que recolham parte das rendas de todos, inclusive da minha, para redistribuí-la a quem necessita, de modo a corrigir desigualdades muito severas. (Nem preciso me delongar sobre isso dever estar aliado a políticas de controle de natalidade para populações pobres e sobre um governo decente pensar primeiro em criar renda para depois pensar em redistribuir.) O problema surge quando o governo quer se meter em parte da minha vida que não lhe compete ou quando o governo, graças à ignorância dos meus colegas votantes, é formado por paspalhos. Alguém chama um jardineiro para consertar os problemas mecânicos de um carro? Não. E por que é que há no legislativo, fazendo leis, gente que mal sabe ler? Como é que uma pessoa que lê mal pode sentar numa Câmara para legislar? Isso não é a defesa de um governo de ilustres ou de advogados. É a defesa de um governo com um mínimo de capacidade para entender metodologias.

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A ANAC prevê a criação de cobrança de taxa para bagagens despachadas. Ótimo. Eu viajo uma vez por mês de São Paulo para Blumenau, não despacho nada, mas preciso pagar o valor do peso das bagagens de outras pessoas que pegam avião comigo e despacham vinte quilos de malas. Empresários não são idiotas nesse quesito: embutem o valor das coisas “não cobradas” em algum outro lugar. O sujeito que despacha malas "de graça" toda vez que viaja pensa: "que bom não pagar taxas aqui no Brasil para despachar". Mas ele paga o valor do peso extra que está levando – e que faz o avião gastar muito mais combustível – no valor da passagem. Já eu, que não despacho, pago por um serviço que não uso, pago para usufruto alheio. Ocorre que senadores barraram a ideia e declararam que taxar bagagens despachadas é um "recuo grave para o direito do consumidor". Eis um típico caso de governo intrometido que ultrapassa sua competência e começa a legislar sobre coisinhas. Pior: sua pretensa justiça pelo "direito do consumidor" prejudica consumidores como eu, que injustamente pagam pelo peso das bagagens dos outros. Tudo bem fazer caridade. Mas para quem precisa. É tenebroso que me obriguem a pagar por parte dos inúmeros sapatos que minha vizinha de poltrona está levando para seu Natal fashion em Balneário Camboriú.

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Não entendi o papel da imprensa tradicional brasileira com a morte de Fidel Castro. Trataram um ditador responsável por milhares de mortes desnecessárias (sim, há mortes necessárias, e isso não inclui gente que vive em cidades comer galinhas, vacas, porcos e peixes) como "controverso". Controverso era o Paulo Francis, Fidel é ditador sanguinário, mesmo. Como já disse, leio "de tudo" que esteja minimamente bem escrito e não seja aberrante, e é por isso que leio a Veja e a Carta Capital e não leio o Brasil 247. Os mal informados devem imaginar que a Veja fez uma longa reportagem sobre o autoritário Fidel. Não fez. Publicou inúmeras fotos não muito comprometedoras e um texto de meia página tratando-o como um tipo de mito polêmico. Não falou de assassinatos. De perseguições. Da real controvérsia que é a educação em Cuba. Esquerdistas ou metidos a justiceiros, esqueçam aquela revista que vocês perseguiam entrando em comunidades do Orkut como “Leu na Veja, azar o seu”. Muitos textos da nova Veja estão bem ao paladar de vocês.

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Acho que a nova Veja começou no ano passado. Eu vi que ela estava diferente, discutindo progressivamente sobre gênero e parando de poupar ladrões do PSDB. Fui pesquisar e vi que os diretores de edição tinham mudado. Rodrigo Constantino, aquele que acha que sua formação em Economia o habilita a opinar sobre qualquer tema (se ele pesquisasse outros temas, tudo bem, porque ninguém precisa de formação universitária para falar sobre nada, mas não é o caso: ele intui críticas e um segundo depois opina), fora demitido com uma leva de outros jornalistas considerados conservadores. A revista como um todo estava mais arejada e aberta a criticar qualquer político corrupto. Mas deixar de falar quem foi Fidel faz parte do novo estilo? Preservaram-se de criticar ditadores de direita no passado e agora vão se abster de criticar ditadores de esquerda?

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Aos que estavam entusiasmados com o governo Temer e agora, após ele ter aparecido tantas vezes numa das delações da Odebrecht e ter recebido perguntas sugestivas de Eduardo Cunha, resolveram mentir que desde o começo o queriam na rua: que feio. É mais nobre admitir: “olha, fui um tolo”. Aos que fazem avaliação seletiva de vazamentos seletivos de delações, dependendo da vítima (se prejudica Lula, é contra a lei, se prejudica o "lado deles", vamos brindar): que canalhice, que falha de caráter.

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Cunha aparece nas listas de propina da Odebrecht como Caranguejo. Eu me perguntei o motivo. Só consigo pensar que deve ser porque a palavra câncer, proveniente do latim, significa caranguejo. Ser apelidado de Caranguejo ou Câncer é a mesma coisa.

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Um fabricante de móveis publicou uma propaganda em que uma mulher em trajes de banho se agarrava aos móveis para exibi-los. Cafona. Juízas diletantes das mulheres começaram a massacrar a empresa nas redes sociais, chamando-a de machista e dando-lhe notas baixas para que ficasse com uma reputação ruim. Disseram que iam boicotá-la (sendo que jamais comprariam na loja de qualquer jeito, portanto não sei que boicote é esse). A empresa não se rendeu e lançou um desafio: se a nota ficasse acima de tal valor, faria uma doação à AACD. Até aí eu nem quis perder tempo acompanhando a batalha entre jecas e jecas. Foi quando as juízas das mulheres começaram a ameaçar a AACD de não fazerem mais doações para ela (já doavam? Será mesmo?) caso a instituição aceitasse a doação da loja de móveis. Mais: disseram que se a AACD aceitasse a doação, estaria recebendo “dinheiro sujo”. Dinheiro sujo. É dinheiro ilícito? Não. Dinheiro que veio de sofrimento alheio? Não. É dinheiro de uma marca que resolveu fazer uma publicidade antiquada usando como garota-propaganda uma moça de biquíni maior de idade em plenas condições mentais para aceitar ou recusar o papel a que foi chamada. A AACD, temendo a histeria, disse que sente ter sido envolvida na polêmica e que vai analisar como proceder quanto à possível doação. Ano ruim para a AACD, que já tinha se envolvido sem querer no problema terminológico do Dória.

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Verbo do politicamente correto: asfixiar. O ódio que muitos politicamente corretos têm da polícia deve ser por inveja de não possuir o poder que a polícia tem de calar os outros na base da porrada. Sem armas e cassetetes, os politicamente corretos tentam calar os outros no grito, na humilhação pública, no discurso autoritário e através da novilíngua (muitos péssimos leitores dessa ala gostam de citar 1984 sem perceber que eles são o próprio 1984). São pequenos déspotas narcisistas que estão aí para urrar regras. Se você os critica, praticam a redução ao absurdo: você é fascista, machista, quer que os negros voltem para a senzala, quer revogar o voto das mulheres, acha que bullying faz parte da vida, deseja o genocídio dos pobres.

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A depressão é a grande doença do nosso tempo. E arrisco prever que seu alcance aumentará nos próximos vários anos. Parte disso é culpa da criação que os pais dão aos filhos, uma educação frouxa e centrada neles. As crianças são o centro da família. As crianças têm o direito de interromper adultos conversando. As crianças decidem o que vão comer e o que vão vestir. Os pais não dão mais ordens às crianças: eles perguntam coisas a elas, negociam com elas. Não é mais “coloque esse casaco”, mas “vamos colocar o casaco?” ou “que tal colocarmos o casaco?” A vida dentro de casa é fácil e tudo se obtém. E uma vida facilitada traz, é claro, o tédio. Do tédio para a depressão é um passo. Outro passo rápido para a depressão é considerar-se uma vítima de pessoas muito perversas. Um chefe que dá uma ordem, por exemplo. Como age uma pessoa com quem os pais sempre negociaram ou fizeram perguntinhas – “você quer comer salada?” – quando se depara com um chefe durão no primeiro emprego? Com fraqueza, suponho. É isso que os pais dessa época estão criando: fracos. Fracos para os quais qualquer probleminha é um problemão. Fracos que não estão acostumados a não serem adorados. O que eu acho interessante é essa virada para o extremo. Há não tantas décadas os pais eram exageradamente autoritários. Crianças não podiam estar no mesmo espaço que adultos. Crianças não conversavam demoradamente com seus pais. Uma educação horrível, fria, distante, militaresca. Em vez de a geração seguinte transformar esse extremo em equilíbrio, passa a adotar o exato oposto: filhos de pais autoritários se transformaram em pais bundões, permissivos demais. Vemos aí uma multidão de crianças chatas (insuportáveis?) que são resultado da educação molenga de seus pais. Se foi para isso que o casal saiu de casa para trabalhar – para depois se sentir culpado por ter trabalhado o dia inteiro, ter estado longe dos filhos, e nos momentos juntos fazer as vontades deles –, é melhor voltarmos à época em que um dos dois ficava em casa enquanto o outro trabalhava. Crianças mal-educadas não são engraçadas. Não são “cheias de personalidade”. Não “são assim” (foram feitas assim). E são fortes candidatas à depressão num mundo adulto que não perdoa bananas.

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Se aparecer um novo livro publicado pela Companhia das Letras e for do seu interesse, não deixe para comprar depois. Uma vez esgotado, o livro pode não ser reimpresso e, dependendo da fama do autor, os sebos praticarão preços abusivos sobre ele. Há dois livros que eu queria e estão esgotados há algum tempo: A morte da fé, do Sam Harris, e Isto é biologia, do Ernst Mayr. Entrei em contato com a editora e ela me disse que não há previsão de republicação. Procurei em sebos e os livros estão custando algumas vezes o valor médio original (que tal pagar 200 reais por um livro que custava 50?). Resta-me fazer algo que não me agrada: ir a uma biblioteca pública, tomar esses livros emprestados e fotocopiá-los do começo ao fim. Na Black Friday procurei garantir todos os livros da Companhia das Letras que me interessavam e foram publicados recentemente, pois assim não corro o risco de ficar sem eles. Acontece com outras editoras também, mas na minha história acontece principalmente com a Companhia das Letras.

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Até o natal os livros da Martins Fontes e os quadrinhos publicados pela Conrad estão com 50% de desconto na loja virtual da Martins Fontes (e frete grátis para sul e sudeste nas compras acima de 90 reais). O que recomendo: livros do Voltaire, dicionário de italiano Parola Chiave e todos os livros do Calvin & Haroldo. Para quem gosta da Mafalda, todos os livros da coleção dela estão com desconto também. Não a recomendo porque acho-a chata e forçadamente politizada para uma criança. Costumo gostar dos outros trabalhos do Quino, todavia. Já o Calvin é sensacional: filosófico e engraçado sem deixar de parecer uma criança. Deixa a Mafalda no chinelo. A seção de filosofia está com muitas coisas boas em promoção (e muitas coisas ruins também, como Foucault) e dela destaco Sobre o ofício do escritor, do mestre Schopenhauer.