domingo, novembro 06, 2016

Rápidas e soltas 13: Estive viajando, máquinas, Dilma & Temer, eleições, liberais


Esse recente hiato se deveu às minhas férias. Fui viajar por trinta e dois dias. Tomei muita chuva em Glasgow (Escócia), bati ponto anual em Berlim (já tenho restaurantes prediletos e uma loja de tecidos que visito sempre), morri de encanto outra vez por Estocolmo (é estranho que uma capital seja tão linda e limpa), encontrei dezenas de brasileiros em Dublim (que é bonita, mas não justifica tanto frisson) e fui a um festival pós-punk sensacional em Wroclaw (Polônia), o Return to the batcave. Viajar para a Europa é ótimo; só não é melhor porque os chuveiros são horrorosos em nove de cada dez hotéis. Brasileiro pode se gabar de fazer um bom feijão-preto e construir práticas áreas de banhos. 

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Berlim me parece a cidade de um bom futuro: cosmopolita, pouco violenta e com inúmeras possibilidades para veganos. E quando eu digo inúmeras, são inúmeras, e não algumas, como é em São Paulo, onde ainda há um estrago adicional: boa parte dos estabelecimentos veganos acha que veganismo é não maltratar animais sem necessidade (certo) e não beber cerveja (muito, muito errado). Num restaurante novo chamado Valladares, bebi cervejas IPA – um dos meus tipos favoritos –, comi cachorro-quente com chucrute (com exceção de Blumenau e região, onde mais se encontra chucrute em cachorro-quente no Brasil?) e de sobremesa saboreei um cheesecake com berries e um cappuccino descafeinado. Isso é Berlim. Um lugar onde veganos conseguem comer feito padres e não são advertidos por namastês de que álcool faz mal. 


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Mau futuro é aquilo que se vê em casa de parentes que não sabem o que fazer com o próprio dinheiro: gadgets sobrando e máquinas elétricas de fazer arroz. Muitas vezes eu subestimo o apelo da publicidade sobre as pessoas, o que me torna bastante ingênua. A indústria inventa máquinas especializadas em fazer uma coisa banal, o aparelho é lançado, eu penso que será um fracasso como seria uma bicicleta de rodas quadradas. Penso coisas como: "mas quem é que vai querer enfiar uma máquina só para fazer arroz em casa?, arroz, que é uma coisa tão fácil de se fazer" ou "quem é que vai achar melhor uma máquina para fazer pipoca quando se tem a boa e velha panela, que faz isso e muito mais?". Não, as pessoas gostam de enfiar tralhas dentro de suas casas porque publicitários souberam criar certas necessidades em suas cabeças. Ou os publicitários são muito espertos, ou as pessoas são muito tolas. Vejam, não estou criticando a máquina de fazer pão, que realmente poupa tempo e trabalho (não, não tenho uma nem terei). Nem estou praguejando contra a dádiva da máquina de lavar roupas (apesar de eu ainda achar muito bonito colocar uma musiquinha e esfregar roupas no tanque à noite). Isso não é um manifesto contra as máquinas, é um manifesto contra máquinas bobas que só servem para torrar o seu dinheiro, entupir a sua casa de parafernálias capazes de fazer uma coisa fácil muito específica ("essa máquina faz pipoca, essa faz arroz e não vejo a hora de inventarem a máquina que cozinha macarrão") e alienar. Nem eu fiquei imune a isso, na verdade. Comprei, com meu namorado, a tal fritadeira elétrica que não usa óleo. O fato de termos levado meio ano para usá-la pela primeira vez já foi uma demonstração de que a compra foi vã. Fiz coxinhas de cogumelo e de palmito, resolvi estreá-la. Sem óleo as coxinhas da primeira leva não ficaram saborosas. Coloquei azeite. Muito. E ainda assim as coxinhas não ficaram apetitosas como as que são fritas em óleo. Deve ser uma máquina boa para quem faz frituras semanalmente. Não é nosso caso. Não sendo nosso caso, não há nenhum perigo de câncer em fritar petiscos numa panela cheia de óleo uma vez a cada algumas semanas. Um bom rol de perguntas ao se comprar uma nova máquina talvez seja: 1. Vou usar com tal frequência que seja justificável não terceirizar o serviço? (Uma máquina de costura numa casa onde será usada somente uma vez por ano para fazer barras de calça é um contrassenso. Você pode mandar as calças para uma costureira: vai gerar renda para quem vive disso e vai liberar espaço na sua casa.) 2. Não é um modismo, algo que vou comprar porque está em alta? (Fabricantes de bicicletas ergométricas teriam sido muito inteligentes se tivessem feito bicicletas em massa para durar por apenas um ano de uso contínuo. Os poucos que não as usassem como cabideiro após um ano e percebessem o desgaste poderiam receber novas bicicletas realmente boas como substituição.) 3. Não é ridículo o que essa máquina se propõe a fazer? (Exemplo: máquina de fazer arroz. A menos que você não tenha panelas em casa. A menos que ache muito difícil a instrução de três linhas na embalagem sobre como fazer arroz em panelas. A menos que considere trabalhoso ter que verificar a panela duas vezes: numa para deixar o fogo brando após a fervura e noutra para desligar o arroz pronto.) 


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Desde que se deu início o processo de impeachment de Dilma Rousseff – ao qual fui favorável –, pensei ser dever da Justiça fazer com que Temer caísse junto o quanto antes e novas eleições fossem propostas à população. Já estava claro que isso não aconteceria no tempo necessário, mas ficou certo quando a ministra Cármen Lúcia deu uma entrevista no Roda Viva há poucas semanas dizendo que seria impossível o julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer ocorrer ainda este ano porque a instrução do processo é, por si, muito demorada. Ainda espero que Temer caia, mas uma nova eleição, que seria o correto, não gera mais nenhuma esperança. Temer deve cair porque foi beneficiado com a maquiagem econômica feita pela titular. Dilma venceu as eleições de forma apertada, e parte do seu sucesso se deveu à máscara que colocou sobre as contas do país em seu primeiro mandato. Até que pudesse se sentir segura na reeleição, sequer havia crise instalada, segundo ela mesma, e o uso do dinheiro público estava seguindo o roteiro programado. Com sua campanha mentirosa de “está tudo sob controle e quem vai entregar o Brasil aos banqueiros é a Marina”, pôde vencer, e assim também venceu seu vice, cúmplice. Decorativo, mas nada trouxa, e nada causador de indignação pelos apoiadores do PT – até se tornar um “traidor”. O PT fez as alianças mais repugnantes e deveu favores às pessoas mais tacanhas – Collor, Renan Calheiros, Marcelo Crivella, Cunha (para os que têm pouca memória, favor consultar jornais na internet) –, mas muitos de seus defensores preferem fechar os olhos para esses problemas que não surgiram somente nos últimos anos. Com tanto tempo de poder, rabo preso com figurões de tudo quanto é partido, quadrilhas de corrupção em que nos perguntamos se alguém se salva, sua queda foi boa para mostrar a seus soberbos porta-vozes que eles não eram donos do país. Também foi boa para que pudéssemos ver quantos “esquerdistas” são adeptos do provérbio malufista “rouba, mas faz”, já que muito deve ser perdoado ao PT pois foi “o partido que tirou 40 milhões da miséria”. Se Temer não cai ao agir com total laissez passer diante dos crimes orçamentários perpetrados por sua titular – crimes que o beneficiaram e ainda o beneficiam –, sua posição como vice se torna muito cômoda, muito sem responsabilidades. Espero que o TSE não o permita lavar suas mãos, como vem lavando. 


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O PT não foi o partido que tirou 40 milhões da miséria, como bem mostrou pesquisa velha do IPEA. Para chegar ao número de 36 milhões (era 40, depois passou a 36, mas costumo ouvir petistas fanáticos escolhendo o 40), o partido simplesmente utilizou o número de beneficiários do Bolsa Família em 2011. Cortou o número de pessoas que já vinham sendo beneficiadas com políticas assistencialistas iniciadas no governo FHC e que por causa delas saíram da miséria? Não. (É bom lembrar, novamente, que Lula criticava muito essas medidas, chamadas de “eleitoreiras”, quando criadas e aplicadas no período anterior ao seu.) Cortou o número de pessoas que recebem o Bolsa Família sem se adequarem ao perfil socioeconômico? Não (*). Segundo o IPEA, o número correto para mérito dos primeiros dez anos de administração petista seria de 8 milhões. Isso faz uma diferença e tanto num debate acalorado com um crente do PT. Há muitas estatísticas mentirosas nas quais insistimos em acreditar porque vestem bem as roupas dos nossos achismos. 


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Precisávamos de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para controlar os gastos do país. Mas por que temos que nos amarrar a um projeto que não se sabe se dará certo – no sentido de frear os gastos e ao mesmo tempo não massacrar a população – por vinte anos? “Em dez anos será feita uma revisão.” Ainda assim, muito tempo: dez anos é muita vida, são muitos anos para prosperar, amadurecer ou acabar em destruição. Que planos o atual governo tem para querer implantar uma medida severa dessas por vinte anos? 


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Causa-me assombro ver alguém pedindo mais Estado e menos impostos. E me causa confusão mental ver candidatos oferecendo mais Estado e menos impostos e sendo ovacionados nessa completa falta de lógica. 


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Muitos liberais esperam que o Estado nos dê o mínimo possível para que possamos agir com liberdade e independência. Acham que é função de cada pessoa saber o que oferecer para os outros – bens, serviços – que sejam atraentes e gerem sua renda. Querem que cada um saia de casa para lutar contra um leão por dia, porque alguém pode estar concebendo uma ideia genial no comércio ao lado. Acham que a penúria pode estimular a criatividade: “veja essa pessoa que era pobre e é um exemplo de superação criativa, pois hoje ganha milhões por mês com sua empresa que vende serviços domésticos sob medida”. Alguns vibram com o discurso do personagem de Alec Baldwin no início de Glengarry Glen Ross (O sucesso a qualquer preço, 1992). Gostam de citar aquele trecho conhecido de Adam Smith: “Não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas pelo cuidado que eles têm em relação aos seus interesses. Nós apelamos não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas antes das vantagens para eles.”. Como diz João Pereira Coutinho em As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (Editora Três Estrelas), “o mercado livre surge como um sistema no qual deságuam interesses próprios, porém reconciliáveis”. Parece bonito, e é mesmo um tanto bonito (com exceção da figura do açougueiro) quando pensamos nisso de maneira moderada. O problema é que muitos liberais querem levar esse pensamento às últimas consequências, abolindo o estado de bem-estar social (na cabeça de muitos desses utópicos – vejam como não é só a esquerda que vive de utopias –, num mundo de alguns necessitados sem Estado assistencialista as pessoas vão se unir para ajudar aqueles que precisam, como provam as condutas bondosas espontâneas de milionários filantropos como Bill Gates e George Soros) e fazendo com que cada um arranje seu sustento oferecendo aos outros algo que gere interesse. É uma fórmula fácil quando já se é bem estabelecido. Mas será justa? É justo que eu tire de uma pessoa pobre sua ajuda oriunda do Estado e diga a ela que “crie, apenas crie” um bem ou um serviço que interesse a seus pares e possa gerar sua renda de forma independente – quando essa pessoa pobre é pobre porque há gerações abusam de sua condição para explorá-la? Um dia, quando as terras eram mais ou menos de todos (somos animais, lutamos por território; mas na selva, se algum outro animal toma seu território, você pode lutar com ele ou ir ali ao lado e se estabelecer em outro espaço), graças ao poder alguém decidiu que algumas terras eram suas. Não acho que a propriedade privada seja um roubo, como disse Proudhon, mas o acúmulo de várias propriedades privadas foi, certamente, um roubo. No passado, alguns começaram a acumular terras e bens; consequentemente, muitos ficaram sem ter nada seu e passaram a depender daqueles poderosos que acumularam terras e bens. Foi por falta de criatividade que esses miseráveis se tornaram miseráveis? Foi porque não souberam “criar bens e serviços” que atendessem às necessidades de seus vizinhos e gerassem renda? Não. Se os liberais brasileiros, por exemplo, estivessem dispostos a concentrar tudo que é valioso financeiramente e dividir igualmente entre todos para então começarmos a tal sociedade liberal, até que seria interessante. O dono de uma empresa bilionária e o zelador do meu prédio iniciariam essa sociedade liberal com o mesmíssimo valor e cada um poderia começar a criar, a pensar em bens e serviços que agradem aos outros e produzam renda. Parece-me um pouco mais justo. Mas ainda assim é injusto, já que o zelador não tem o conhecimento de mercado e manipulação do consumidor que o dono da empresa tem. Em pouco tempo veríamos uma sociedade profundamente desigual se formar, com os mesmos sujeitos no topo e os mesmos sujeitos na base. Não defendo grandes Estados. Essas experiências fracassaram de forma muito grotesca para que eu confiasse que um punhado de senhores pudesse gerir meu dinheiro da melhor e mais honesta forma possível. E não me agrada quando o cidadão vê o governante como um pai, criando mitos superprotetores como Stálin, Getúlio Vargas e Lula. Também não defendo pequenos Estados, que gerarão concentração de renda nas mãos de poucos espertos ou psicopatas. Um estado moderado é do que precisamos. E isso nem PSOL, nem PT, nem PMDB, nem PSDB, nem PRB podem nos oferecer. 


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Muitas eleições municipais foram um fracasso. O povo não sabe votar. E não digo que o povo não sabe votar como dizem os esquerdistas desesperados ao ver que Crivella venceu no Rio e Dória em São Paulo (os mesmos para os quais “a voz do povo é a voz de Deus” quando o PT vencia a presidência do país por anos seguidos). Que o povo não vota por projetos políticos coesos, todos sabemos. Que o povo não tem muita coerência partidária, sabemos também (eu não duvido que muitos eleitores paulistanos que votaram no Dória por sua “simpatia e jeito para administrar” também votaram em Eduardo Suplicy “porque é bonzinho, simpático e simples”). Mas o que mais me incomoda é ver o povo votando em famigerados corruptos. Candidatos que quase não puderam concorrer nas eleições por ter pilantragem no currículo venceram pleitos em primeiro turno. O demagogo do interior que rouba e muita gente sabe vence a eleição porque “atravessa a rua para apertar a mão das pessoas”. O povo prefere votar em corruptos conhecidos a votar em honestos desconhecidos, de partido pequeno e pouco dinheiro para a campanha. Não se dá chance ao candidato novo que ainda não tem malandragem simplesmente porque ele “é coisa pouca”, “não vai vencer, mesmo”. Vota-se num rosto, numa lábia, num disfarce, numa grandiosidade. A quem serve a democracia quando o povo é estúpido a esse ponto? Quem elege um conhecido ladrão para ser o porteiro da própria casa só porque ele se veste bem e é carismático?