segunda-feira, novembro 28, 2016

O inferno são os outros e o Estado


Falemos sobre tagarelas. Mas de um tipo específico, já que há tantos. Desses tantos poderíamos citar alguns exemplos muito comuns. Existe o tagarela narcisista que não se cansa de falar sobre si em redes sociais ("isso é muito eu", e dá-lhe astrologia e outras besteiras que não acrescentam nada a ninguém, e não faltam idiotas para aplaudir outro idiota autocentrado) ou em presença, o que inibe a fuga. Existe o tagarela inculto que acha que é culto (talvez você que esteja me lendo e começou a pensar "é isso, Barbara, fale desse pessoal") porque "se preocupa com o baixo nível educacional do país". Basta assistir a entrevistas genéricas sobre educação feitas com o povo, que não é "educado" nesse sentido, em que se obtêm respostas como "ah, é muito ruim" sem que ninguém se veja como parte do problema... ou mesmo ler comentadores no site da Folha de S. Paulo esbanjando péssima ortografia em reportagens sobre a performance do Brasil no IDEB... ou acompanhar papudos que vivem, e isso não é mera força de expressão, conectados reclamando da educação, e então você se pergunta quando, entre dormir-comer-trabalhar-e-estar-conectado, essa turma tira um tempo de qualidade para se educar. Tudo bem, talvez achem que já estão participando da nata intelectual do país e por isso não precisam estudar mais. É o velho provérbio de que o tolo pensa que sabe tudo e o sábio admite que há muito para se aprender ainda. Sugiro que alguns dos que se acham cultos aproveitem o finalzinho do ano, peguem um papel, uma caneta e anotem todos os livros que leram na íntegra em 2016. A miséria de leituras, ou a miséria de leituras sérias, talvez dê um basta em tanta patifaria nos ilustres "preocupados com a educação" que só leem na internet e pegam atalhos sobre assuntos sérios junto aos “formadores de opinião”. Isso também vale para a imensa maioria dos estudantes de crânio ventoso que estão invadindo escolas. Existe o tagarela esquerdista, que pelo vício severo da problematização acaba mergulhando num oceano de contradições. Ele precisa opinar, precisa criar um problema sensibilizador em cima de qualquer piada, notícia, cabelo crespo e “homem que se diz feminista mas não namora trans”. A da vez: é errado que populares, ao encontrarem Cunha em aeroporto, comecem a xingá-lo e empurrá-lo, assim como é errado e irracional que o vídeo de Garotinho se debatendo pateticamente numa maca seja visto com escárnio. Há pouco mais de um ano esses mesmos problematizadores estavam dizendo que o jornal Charlie Hebdo foi atacado e seus jornalistas foram assassinados porque “ninguém mandou brincar com a religião alheia”. Quem não disse isso com essas palavras francas, contemporizou: “não sei quem é pior, não sei quem defender – se os jornalistas que debocharam da fé de um povo ou os assassinos”. Eles não sabiam se defendiam os assassinados por causa de uma charge ou os assassinos, repito. Cunha e Garotinho, ladrões que surrupiaram milhões, ladrões que gastaram dinheiro que era para ser público com roupas de grife, hotéis luxuosos, viagens, joias, ladrões que viviam na farra enquanto o povo os custeava – não podem ser motivo de zombaria nem de quase-surras de populares. Mas jornalistas que fizeram charge com Maomé “praticamente pediram o que tiveram”. Benditos aqueles que não têm nada a dizer e não dizem, escreveu algum pensador que era avesso a tagarelas. Sobre Fidel Castro que fuzilou pessoas quando já não estava mais em rebelião para tomar o poder? Silêncio. Ou contornos imorais: “Fidel matou, mas o capitalismo mata muito mais”. Aécio Neves supostamente bateu na mulher numa festa? Fogueira, histeria, urros. Um almofadinha não pode bater em mulher, mas um esquerdista pode fuzilar dezenas de inimigos em nome da “revolução”. Algo cheira muito mal no bueiro que é a boca desse tipo de falante. Só gritam rasgando a camisa quando o problema atinge sua ideologia ou corporação. Não vejo outro nome para isso senão canalhice

A figura pitoresca da vez, que é, sim, um tagarela (a maior parte dos males humanos passa pela tagarelice, e é por isso que nunca temos coisas más para falar dos animais – em não tagarelar reside parte de sua grandeza), pensa que o inferno são os outros e o Estado. Não que eu também não pense isso em alguns casos. Mas a cada dia trabalho para me afastar da vertente pérfida desse pensamento.

O bordão daquele que pensa que o inferno são os outros e o Estado é “alguém tem que fazer alguma coisa”. Alguém. Quem? Alguém. Alguém nunca sou eu, meus pais, meus familiares, meus amigos. Alguém está sempre adiante ou ocupando um cargo político que eu espero ser patronal. Alguém. Um cachorro agoniza na calçada da minha casa. Alguém tem que fazer alguma coisa. Há gente pobre morando nas ruas. Alguém tem que fazer alguma coisa. A educação do país é um espanto. Alguém tem que fazer alguma coisa. Empresas gigantes estão comprando empresas pequenas e criando oligopólios com ânsia de futuro monopólio. Alguém tem que fazer alguma coisa. Empresas das quais todo mundo sabe o nome utilizam trabalho escravo. Alguém tem que fazer alguma coisa. Grande parte dos produtos chineses vem de exploração humana retribuída com ninharia. Alguém tem que fazer alguma coisa. O chefe de uma repartição pública criou esquemas para ganhar dinheiro ilegal em licitações. Alguém tem que fazer alguma coisa. O problema nunca sou eu. E a solução nunca sou eu. O problema são os outros. E quem tem que resolver são os outros – e o Estado.

Um casal pobre e preguiçoso da cidade de São Paulo tem quatro filhos. Não foram planejados. Não estão recebendo educação adequada. Para quem pensa que o inferno são os outros e o Estado – vamos chamá-lo de infernizado –, talvez seja obrigação do Estado arranjar lugar para todas essas crianças. Em tempo de campanha política, ele vai gritar “mais creches!” porque acha que é função do Estado, pai bunda-mole, aceitar qualquer escultura de papel machê que seus filhos trazem para casa e chamar isso de arte. E colocar na estante da sala. Porque o Estado paternal está aqui para cuidar de você, e não para também receber contrapartida, que é você lutar para cuidar dele. O papel do Estado é aceitar que seus filhos tenham a prole que bem entenderem, e crie, de um dinheiro que aparentemente cai do céu (parece que muitas vezes é isso que o infernizado pensa sobre o dinheiro estatal), o número de creches que seus filhos precisarem. Grita-se “mais creches!” em vez de “mais políticas de controle de natalidade!” porque o Estado tem que dar assistência. Ou é incompetente. Ou é contra os pobres. Se o Estado aceitar criar mais creches, mas passar a cobrar mais impostos da população por isso, o infernizado chiará. A falta de creches é problema do Estado, não do infernizado, então o infernizado não pode ser cobrado por isso. O Estado, esse ente mágico que cria creches cruzando os bracinhos após sair de uma lâmpada. Pista: esse Estado é loiro e vive dizendo “sim, amo”.

Uma rede de fast-fashion é associada a trabalho escravo. Colônias de trabalho escravo são noticiadas não uma vez, mas várias. Quando a notícia é apresentada, o infernizado se comove, arregala os olhos ao ver a condição em que trabalham e vivem os bolivianos, faz uma palestrinha para os colegas sobre “como é dura a vida de quem é escravizado pela empresa X”. Alguém tem que fazer alguma coisa. O Estado tem que fechar a empresa. Algum órgão regulador deve multá-la com um valor exorbitante. Mas eu, bom, eu, o infernizado, continuarei comprando desta marca e de marcas similares, pois é função do Estado fechar a empresa, e não é minha função parar de comprar. Além do mais, uma belíssima blusa dessa marca custa setenta reais, enquanto uma similar feita por assalariados com direitos trabalhistas respeitados custa cem. Eu até boicotaria a empresa, caso os preços não fossem tão atraentes. O problema não sou eu que compro roupa oriunda de exploração humana, o problema é o Estado não fechar a rede de lojas dessa marca. E vou seguir reclamando que o Estado é o maior culpado pelo trabalho escravo promovido pela marca. E vou continuar achando “horrorosos” aqueles senhores de escravos que se utilizavam de trabalho humano forçado no século XVIII.

Eu, o infernizado, vejo no YouTube a entrevista que o Professor Pasquale concedeu ao Antônio Abujamra no antigo programa Provocações, da TV Cultura(1). Considero importantíssimo o que ele fala sobre educação; sobre o Brasil ser um país que não lê; que, quando lê, lê mal; que muitos têm desgosto pela leitura porque não gostam da solidão, o que prova que não gostam de si mesmos. Acho uma crítica acertada e bonita. Quero falar para todo mundo dessa entrevista e também protestar para que o governo invista mais em educação, porque do jeito que está não dá, há universitários que não sabem interpretar textos simples, etc. Saio do YouTube, vou para uma rede social. Posto o vídeo para meus amigos. Escrevo uma pequena queixa sobre o desleixo que é o sistema de ensino do país, e repito que ninguém lê livros. Depois, passo horas no computador vendo vídeos de outros revoltados como eu. Então assisto ao jornal. Vou comer. Vejo se recebi algum e-mail ou curtida. Vou dormir. Acordo e vou checar minhas redes sociais. Saio mais cedo de casa para comprar um videogame para presentear meu afilhado, “aquele figuraça” que passa noites jogando. Vou para o trabalho. No intervalo, almoço e converso com colegas sobre banalidades e fofocamos sobre outros colegas. No final do dia, volto para casa. Faço maratona de séries. Tiro fotos minhas com ar PJ Harvey. Posto na internet. Vejo que um amigo curtiu minha postagem sobre o problema da educação no Brasil e recomendou outro vídeo, de um vlogueiro que comenta, com estatísticas e comparações com outros países, o quanto somos atrasados. Escrevo que é por isso que o país não vai para a frente e digo que o professor é mal valorizado. Também lembro que meu TCC que está na biblioteca da universidade nunca foi tomado emprestado por ninguém, ou seja, ninguém quer saber desse conhecimento maravilhoso sobre o qual me debrucei obrigatoriamente (para poder me formar) enquanto estava na faculdade, esse conhecimento sobre qual era a relação entre patrões e empregadas na indústria têxtil de Brusque nos anos 60. Reflito com meus contatos que, poxa, um tema tão instigante não foi buscado espontaneamente por ninguém na biblioteca. Termino minha apresentação diária para o mundo, minha farsa, vou dormir. Não costumo ler livros, não tenho tempo. Talvez leia dois ou três por ano. Não estudo idiomas porque acho que os cursos são caros e estou pagando prestações do meu carro. Nunca li o TCC de ninguém na biblioteca da universidade, exceto o meu. Entreguei meu TCC em cima da hora porque não tinha paciência para terminar a parte terceira e fazer a conclusão. Encerrei o texto às pressas e acho que isso pode ser chamado de conhecimento científico. Quando estou em casa à noite, gosto de ver séries. Um dia quero fazer uma pós-graduação em Sociologia, porque sempre gostei dessa matéria. Não compro livros de Sociologia para ler. Lerei quando um professor me obrigar a isso na pós-graduação, que é quando a leitura terá alguma utilidade para artigos e seminários. Mas o problema da educação no país é muito grave. Ninguém quer saber de ler livros, como disse o Pasquale. Somos vergonhosos no ranking de proficiência no inglês como segunda língua. A maior prova de que não há vontade de conhecimento é que ninguém nunca tomou emprestado meu TCC na biblioteca. O governo tem que fazer alguma coisa, por exemplo, investir mais em educação. As pessoas deveriam ler mais. O problema da falta de cultura intelectual do Brasil não sou eu, que passo muito tempo na internet, faço maratona de séries, prefiro papo-furado a uma leitura na hora do intervalo no trabalho, finjo que livros são caros demais para mim, mesmo ganhando mais do que a média. O problema são as pessoas que não leem livros. O problema é quem assiste ao Faustão. O problema são os nordestinos que “falam errado”. O problema são os adolescentes que “não querem saber de nada além de diversão barata”. O problema é o governo que não investe 30% do PIB em educação.

*

Acho bizarras essas leituras de mundo. “Vejo o problema. Faço parte do problema. Mas não faço nada. Não faço nem a migalha que está ao meu alcance, porque meu negócio não é fazer, é tagarelar. Eu poderia simplesmente calar a boca. Mas como vou me vender com a boca calada?”

Outro bom exemplo sobre o inferno que são os outros vem da minha história de empregos. Posso dizer que cresci financeiramente no decorrer dos anos, o que foi muito reconfortante não só porque é bom ter dinheiro, mas porque vim de uma família que sempre viveu quebrada – e eu, de certa forma, consegui sair da inércia da pobreza que poderia me estar destinada. É uma dádiva você querer alguma coisa e poder comprá-la sem se preocupar se o valor gasto num novo tênis vai fazer falta na feira da última semana do mês. Estou muito satisfeita com o que recebo em contrapartida pelo que faço. Mas em nenhum emprego em que trabalhei deixei de conhecer imensos insatisfeitos, e insatisfeitos que achavam que a real mordomia, o privilégio e a abundância estavam no andar de cima. Comecei como estagiária. Achava que ganhava pouco, como os outros estagiários também achavam. Achava pouco, e naquela época não havia férias, mas na verdade era o bastante para o que fazíamos e para a oportunidade de aprender e adquirir experiência. Depois trabalhei por um mês numa padaria, num período da minha vida que costumo chamar de “a treva”. Para minhas colegas de trabalho, o problema local eram os funcionários públicos, principalmente os da prefeitura, vistos quase como marajás – ideia que valia tanto para os amigos do prefeito quanto para aquele auxiliar administrativo seboso que ainda passava gel no cabelo. Passei num concurso da prefeitura, fui trabalhar numa creche. Anos depois, começaram a construir um prédio de Instituto Federal em frente à creche. “Esse pessoal ganha bem”, era o que se dizia, e muitas vezes isso era dito com ranço. Abriu o concurso. Fiz, passei. Atravessei a rua. Meu salário era ótimo para o nível de ensino requisitado: com a exigência de ensino fundamental eu ganhava mais que pessoas graduadas do meu convívio trabalhando para empresas privadas. Quando fiz greve, pedi reajuste, e não aumento salarial. Meus colegas estavam satisfeitos? Não. Além de alguns quererem que coisas absurdas virassem pauta de reivindicação – o governo pagar a gasolina dos funcionários para que se deslocassem de suas casas até o trabalho –, havia o monstro do andar de cima que era o câncer do país: o pessoal administrativo do Judiciário. Não existiu greve em que o Judiciário não ocupasse seu lugar como parâmetro, como coisa enojante, como parasita, como “o vale-alimentação dos ricos”. E qual foi uma das primeiras reclamações que ouvi ao entrar para o corpo administrativo do Judiciário, onde eu ilusoriamente pensei que estaria entre gente grata? Que o salário dos juízes era muito alto e que “o nosso” salário não é o bastante. Hoje eu me pergunto de que salário os juízes devem reclamar. Porque ninguém está satisfeito e ninguém é parte do problema. O outro é que ganha demais, e todo mundo tem um outro para querer se equiparar. Deve ter sido assim que certos cargos públicos acabaram sugando tantos recursos, num efeito cascata assustador. Você conhece alguém que admite ganhar o suficiente? Nem faxineiras, nem gerentes, nem políticos. 

A esquerda brasileira fala de taxar grandes fortunas. Eu concordo, até que alguém me convença do contrário – sou sincera quando digo que estou aberta a mudar de opinião e a prova de que isso é verdade está no fato de que já mudei muitas vezes de opinião. A questão é que essa medida não substituiria a PEC dos gastos. Mesmo que fortunas sejam taxadas, o problema da dívida brasileira estará longe de ser resolvido. Mas o mais interessante é quando você vê, por exemplo, professores universitários muitíssimo bem remunerados defendendo que grandes fortunas sejam taxadas. O negócio não é com eles, claro, porque o que recebem não pode ser chamado de fortuna. Mas não será na faixa de salário de muitos desses professores universitários que o governo deveria começar a cobrar mais impostos? Se o salário médio no Brasil gira em torno de R$2.300, o que leva alguém que recebe 12 mil por mês a achar que é o andar de cima, o da fortuna, que deve pagar a conta sozinho? É claro que nós não vamos ouvir ninguém dizendo “nós, desta faixa salarial, deveríamos ajudar a pagar a conta”, porque ninguém acha que é parte do problema. O inferno são os irrisórios afortunados. Até os procuradores que recebem acima do teto constitucional acham que seus salários são apenas justos, e não demasiados. Quando um político diz “olha, acho que já ganhamos o bastante”, a fala vira manchete, e inquirimos se isso é um pronunciamento autêntico ou demagogia de quem sabe que vai se destacar com o populacho sem que seu salário congele de fato. Na hora de pagar impostos, todo mundo se considera pobre demais para participar. O esquerdista romântico que grita “mais creches!” está disposto a pagar mais impostos para que essas creches sejam construídas? Se ele visse, discriminado num comprovante, o quanto paga por mês de impostos para que seja possível a construção de mais creches para seu vizinho pobre que deseja viver na cidade aplicando a lógica reprodutiva do sítio, talvez ele mudasse a fala. Não vê. E quer que o Estado resolva, não interessa como, a falta de vagas para pequeninos que deveriam ter permanecido como óvulos e espermatozoides num mundo superpovoado demais. 

E, claro, eu não poderia deixar de falar dos avarentos humanitários que sempre esperam que os outros – ou o governo – façam todo o trabalho de ajuda a pessoas e animais necessitados. Há duas coisas que me comovem nos que aderem a uma causa, seja à causa dos pobres, das vítimas de guerra ou dos animais: a doação de tempo e dinheiro (desde que isso não seja motivo para o narcisístico “vejam o que eu faço, vejam”). Doa tempo aquele que sai pelas ruas realizando panfletagem, distribuindo refeições, passeando com cães abandonados em centros de zoonoses, cuidando de animais feridos, fazendo trabalho voluntário (limpando, ensinando, brincando de graça). Doa dinheiro aquele que vê a imensidão de instituições pelo mundo precisando de ajuda para conseguir prosseguir em seu trabalho, vê que não está apertado e sabe que não há sentido em esconder dinheiro embaixo do colchão ou acumular imóveis, e doa. Mas doa de verdade, mensalmente, e sem achar que é um ser precioso e único digno de aplausos porque desembolsou vinte reais para a Unicef no Natal passado. O calcanhar de Aquiles de muitos ativistas tagarelas está justamente no relógio e no bolso. Não são capazes de doar tempo e dinheiro para nada porque acham que debater na internet já é uma forma suficiente de ativismo, que estão conscientizando voluntariamente. É interessante, mas não basta. A criança que está morrendo de uma doença simples de ser tratada porque você, acumulador de dinheiro (outra doença), não é capaz de tirar cinquenta reais por mês para doar ao Médicos Sem Fronteiras, não quer saber se você acha que o Estado deveria fazer alguma coisa por ela ou se você vai à missa, crê em Deus e reza pelos mais fracos. Ela precisa que você deixe de ser mesquinho. E que você entenda que se Deus existisse e visse você agindo como age – inoperante, alheio, frio, falso –, certamente o inferno seria seu destino. Seu Deus bíblico manda para o paraíso o bom samaritano e encaminha ao inferno o fariseu, que é papudo, formalista (segue preceitos religiosos no ritual, não no sentido prático) e insensível ao apelo do próximo. Não sei que divindade é essa que todo mundo trata com tanto desrespeito para considerar um mero amuleto usado como adesivo de carro, penduricalho de espelho do carro (que péssimo lugar para se estar se é necessária tanta parafernália celestial) ou recurso na doença. Há muito espaço reservado para religiosos tagarelas nos galpões de Lúcifer, certamente.

Se espera algo de Deus quando vê alguém sofrendo, espera errado: se Ele não existe, não fará nada; se existe, espera que você faça para provar a Ele que merece sossegar entre nuvens na posteridade (o Deus bíblico tem essa característica de testar as pessoas). Acumular bens está muito longe da recomendação de “viver como Jesus viveu”, e já dizia o belo livro de contos que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. (Nesse excerto bíblico, infelizmente, todo mundo passa a achar que rico é o outro, é o chefe, é o desembargador, o Sarney, o Silvio Santos.) Se espera do Estado, espera errado: o Estado faz menos do que pode e não é a sua mera esperança que o fará agir – mesmo que aja, não conseguirá fazer tudo(2). Se espera dos outros, também espera errado: os outros na maioria dos casos são tão tolos quanto você e estão esperando que seus outros (cada um tem seus outros, que levam todas as culpas) ajam. O principal inferno dos que sofrem não são os outros e o Estado: é você.

Se somos parte do problema, devemos ser parte da solução. E se não queremos ser parte da solução porque estamos no mundo somente para comer, procriar, gerar lixo e virar matéria orgânica no final, que, pelo menos, façamos silêncio. Muito se compromete quem muito tagarela. 

(1) Essa entrevista do Pasquale no Provocações teria sido melhor se o Abujamra não interrompesse o tempo todo, não sei se por ansiedade ou presunção.

(2) Não se preocupem. Não esqueci que parte da inépcia do Estado brasileiro em atender o povo é oriunda da má conduta de políticos corruptos, que parecem ser maioria. Ainda assim, se um dia a corrupção for erradicada e o dinheiro público conseguir voltar a escoar para o público, espero que o apliquem em políticas de controle de natalidade em vez de novas creches. Sugiro mais: que o Estado pague para que pessoas realizem, voluntariamente, procedimentos de vasectomia e laqueadura. Não será gasto. Será investimento. Não é belo oferecer dinheiro para que uma família deixe de dar à luz crianças mal assistidas, mas nem tudo que é necessário é belo.