sábado, julho 09, 2016

Rápidas e soltas 12: Escola sem partido, gênero, mulheres no jornalismo


A polêmica do momento é o avanço da aceitação do programa (transformado em projeto de lei) "Escola sem partido". O que leio? Dois lados. Quem está certo? Nenhum deles. Tenho a fortíssima impressão de que a reação mais comum a um extremismo é o surgimento de outro extremismo: oposto, mas igualmente estrondoso. Desponta uma opinião extrema que se transforma no pensamento de um grupo. Quem fará o contraponto? Raramente um grupo equilibrado, moderado, cauteloso. Possivelmente um grupo que vai propor o avesso de tudo que o primeiro propôs e também tacará fogo na civilização em nome do erguimento de uma nova. Acredito que muitas das minhas convicções precisam ser repensadas ou polidas – não faz tanto tempo que abandonei certos extremismos –, mas mesmo assim tenho me sentido, num meio dicotômico, uma pária. Não é diferente com o caso da escola sem partido. Em artigo para a morta-viva Revista de História da Biblioteca Nacional (aparentava ter morrido em novembro, implorou por doações para fechar as contas de 2015, não publicou nada desde dezembro e depois apareceu com uma edição solta em maio), Fernando de Araujo Penna critica a "criminalização da prática docente" e o que ele alega ser a proibição de o professor trazer para a aula assuntos do cotidiano. Foi isso o que ele entendeu do seguinte trecho do site que divulga o programa: “Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional”. Não entendi a indignação. Penna é professor universitário. Há quanto tempo está afastado das escolas de ensino básico? Existe uma abismal diferença entre um professor de história levar para a sala de aula assuntos controversos do momento para gerar algum debate e um professor chegar com aquela cara pedante, que inúmeros professores de história gostam de fazer (rivalizam, nesse ponto, com os de filosofia, e a marca que o tempo deixa no rosto os fará serem enterrados com essa estranha expressão de pato sabido), e soltar para os alunos o que está longe de ser um “incentivo ao diálogo”: “viram o golpe à democracia que acabamos de viver? Agora vocês entendem o que aconteceu em 1964”. Esses mesmos professores que levam esquerdismo para a sala – lobo trajado de “formação cidadã e crítica” – só execram o autoritarismo alheio: o deles é salutar e com finalidade ética. Quando descobrem que outro professor está defendendo, nas aulas, ideias abraçadas pela direita, passam a querer ser censores. 

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Ensino básico não é universidade. Quer fazer uma aula mais autoral em que assuntos de grande porte serão discutidos entre adultos e com a relativa igualdade que uma discussão entre adultos proporciona? Estude e vá lecionar na universidade, professor. Pare de querer achar que o ensino fundamental é campo para você brincar de ser importante ao estilo Hegel versus Schopenhauer vamos-ver-quem-consegue-mais-inscritos, porque os alunos não têm a opção de não ir a suas aulas e é uma tremenda covardia querer seduzir crianças a aderir a um discurso porque o professor bacanão – o “roqueiro”, o que “fala mesmo”, o maconheiro politizado de dreads, o tatuado, o motoqueiro selvagem, o que parece saído do presídio, o que conversa “na língua da galera” – sabe que é persuasivo. Na dúvida se está abrindo um debate ou se está doutrinando, pense se outro professor com opinião oposta (desde que não aberrante, como seria a defesa da tortura e do assassinato em massa) teria o direito de levantar as opiniões dele numa aula para o seu filho. Ninguém merece chegar a casa e ser chamado de racista pelo filho porque o professor simplista disse que todos que são contra cotas raciais são racistas. Assim como eu não mandaria uma criança para a escola para que ela aprendesse que o Collor foi um homem bom que foi traído, eu também não quereria que ela aprendesse que o Lula foi um homem bom que foi traído. “Ah, mas não conseguiram provar nada contra o Lula até agora.” E contra o Collor? Em 2014 o STF encerrou o caso da investigação de Collor por falta de provas. Se na falta de provas presumimos a inocência de Lula – mesmo que esteja há muitos anos sendo delatado e que tenha inúmeros amigos íntimos corruptos –, devemos presumir a inocência de Collor, e o professor de história não tem que usar dois pesos e duas medidas na hora de persuadir meu filho de que um é Sócrates e o outro é cicuta. 

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Quanto à discussão sobre gênero em salas de aula, que os adeptos da Escola sem partido rejeitam, não há motivo para fingir que transgêneros não existem ou achar que é “natural” que outras crianças não saibam respeitá-los. Por mais que os pais considerem que “homens são homens e mulheres são mulheres”, os transgêneros estão no mundo e merecem ser tratados com urbanidade, concorde-se ou não com o que fazem com suas posturas e corpos. Falar sobre gênero na escola não é trocar a trigonometria por uma dinâmica de experimentação de papéis em que os meninos terão que vestir saias e passar batom enquanto as meninas lerão revistas sobre carros sentadas com pernas bem abertas. A escola não vai ensinar ninguém a trocar de gênero. Se esse tipo de abordagem tivesse aparecido nas aulas de sociologia e filosofia na minha infância e adolescência, por exemplo, teria sido muito mais fácil lidar comigo mesma num momento em que eu não sabia quem eu deveria ser. Eu adorava o universo masculino e queria tomar muitas coisas dele, mas também não estava disposta a abandonar o chamado universo feminino com tantas atribuições maravilhosas que estão no edital do concurso para ser mulher. Querendo viver nos dois âmbitos, fui expulsa dos dois clubes: as meninas não me queriam porque eu não era menina o suficiente e os meninos não me aceitaram porque eu não era, de fato e nem bem disfarçada, um menino. Revoltada com essa determinação de conduta tão taxativa – ou você é isso, ou é aquilo, não pode ser os dois –, fiquei em estado de graça quando descobri, no final do ensino fundamental, a proposta do feminismo de acabar com essa história de que por ser mulher tenho que falar assim, tenho que me vestir assado e ter um comportamento condizente com o gênero que me obrigaram a adotar. Também me apaixonei por figuras andróginas como David Bowie e Grace Jones, que tinham a sorte de poder usar calças e vestidos quando bem entendessem por causa da licença artística. Proibir que explicações sobre gênero apareçam na escola é impedir, na verdade, que crianças e adolescentes possam ser quem quiserem ser. Às vezes parece que pessoas como Marco Feliciano temem que falar sobre gênero possa transformar todos os garotos em travestis e todas as garotas em Thammy Miranda – uma visão estereotipada sobre o que significa entender que não precisamos nos portar como manda o peso dos séculos. Quando a primeira mulher apareceu de calças, havia uma questão de gênero ali. Quando uma mulher reivindica, em seu local de trabalho, que não é justo que ela tenha que usar salto para fazer a mesma coisa que um homem faz de tênis, há uma questão de gênero aí. Quando um homem, heterossexual, decide usar “roupas de mulher” porque acha que são mais bonitas, estamos falando de transgressão contra imposições de gênero. O que há de mais nisso? 

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Sempre tive receio de emitir julgamento sobre a sexualidade alheia por causa da postura. Pelo menos das pessoas que eu gosto. Havia esse rapaz. Ele era gentil, tinha mais amigas mulheres que amigos homens, nunca brincou de puxar a cueca dos outros. Diziam que ele era gay. Podia ser, é verdade, mas eu preferia não determinar isso. No fim, ele era gay. Eu estava errada em achar que não era? Não achei que não era por não querer que fosse, porque para mim tanto faz com quem as pessoas dormem e por quem seus sinos sexuais dobram, mas eu achei que não era gay porque considerava cansativo e de senso comum supor que só porque um rapaz é mais delicado isso significa que ele é homossexual. Questões hormonais podem influenciar o jeito de muitos homossexuais, mas isso não é regra. Lembro de uma amiga ter sido perguntada por colegas limitadas de um empreguinho ruim se era lésbica. O motivo que deram: porque ela usava tênis e mochila. Não é nenhum xingamento quando presumem que alguém é gay, mas essa presunção não costuma ser suave e complacente para o bem. É claro que reservamos maldades para nossos inimigos – não vejo problema em comentar em particular sobre um sujeito asqueroso que suponho viver no armário “ih, lá vai a bicha” –, mas acho estranho quando perseguimos nossos amigos ou os amigos de nossos amigos com julgamentos genéricos. Pior: quando difamamos alguém por uma hipotética sexualidade genuína não revelada. A maioria das pessoas que não são gays não querem que comentem que elas são. Uma amiga com mais de quarenta, solteira, diz que já acharam inúmeras vezes que ela era lésbica. Por quê? Porque ela é uma mulher mais velha solteira. Está proibido passar dos quarenta sem carregar parceiros do sexo oposto para o cinema, porque isso é sinal de “ser gay”. Um outro conhecido, homem, mas também mais velho, era alvo de comentários sobre ser gay porque nunca tinha sido visto com uma mulher. Mas ele adorava mulheres, elas é que o rejeitavam. Se sabia que suspeitavam que era gay, não sei, e perdi o contato com ele. Até espero que não saiba. 

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A sociedade comum não está preparada para destruir (nada de “desconstruir”, essa palavra medonha que deveria ser enterrada com “pró-ativo” e “problematizar”) os blocos de gênero a fim de deixar todo mundo mais à vontade, mas muitas vezes precisamos ter paciência e compreensão com isso. No último ano em que trabalhei numa creche, peguei uma turminha de dois anos. Havia um menino que sempre observava quando eu e minha colega de sala arrumávamos os cabelos das meninas. Um dia, ele pediu para que fizéssemos uma “maria-chiquinha” no cabelo dele. Minha colega ficou muito constrangida e esperando que eu ajudasse a nos livrarmos da situação. Ajudei: disse para ela fazer (ele tinha pedido a ela) porque não havia nenhum problema nisso. Envergonhada – e entendo a reação dela, que sempre viveu no interior e achava que era bom que Patati e Patatá existissem (esses palhaços insuportáveis, mercenários e forçados) –, ela fez. Quando isso aconteceu de novo, na hora de ir embora o menino ia ficar com uma senhora porque eu saía meia hora antes de a creche fechar. No dia seguinte, ela veio até mim com tom repressor você-pensa-que-estamos-em-San-Francisco e disse que o pai pedira para que nunca mais fizessem chiquinhas no cabelo do filho. Não fiz. Mas deixei para minha colega explicar a ele, que pediu outras vezes, que aquilo “era coisa de menina”. Eu não tinha que desafiar o pai num ponto tão sensível. É claro que um novo penteado na infância não faria com que o menino, quando adulto, fosse trazer Carlos e Juan para passar as noites em seu quarto fazendo guerra de travesseiros, mas o pai achava isso e eu precisei entender que no lugar dele e com a formação dele eu pensaria o mesmo. Mantive meu combate às regras de gênero em outras coisas: pedindo “mãe, por favor, pare de mandar sua filha de sandálias para a creche, não é confortável brincar de sandálias”, ou “mãe, deixe o vestido para a missa, mande sua filha de bermuda ou de calça”, ou escolhendo brincadeiras que envolvessem todos em papéis, como quando brincávamos de casinha e os meninos lavavam a louça enquanto as meninas saíam para trabalhar. Obviamente muitas dessas coisas me transformavam em “Barbara, a estranha”, só que sem poderes paranormais, perante muitas pedagogas antiquadas. Eu é que devo achar estranho que em pleno século XXI muitas creches sejam centrais de reprodução dos anos 40. Não é um bom jeito de brincar de máquina do tempo. 

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O maior motivo para eu ter assinado a Folha de S. Paulo digital foi para poder ler colunas. As notícias o Uol disponibilizava de graça (o texto não parece tão bom e a própria fonte é desagradável, mas é válido que você só tenha que olhar anúncios para poder ler a página). Só hoje percebi que quase só gosto das colunas de homens. Leio tudo que o Ruy Castro escreve (ele é tão atraente que me faz querer ler sobre assuntos que nunca me interessaram – a vida de Carmen Miranda, por exemplo – só porque ele é o biógrafo). Bernardo Mello Franco é uma joia. Toda segunda leio Gregório Duvivier e Pondé – geralmente para passar raiva com ambos, mas leio, porque são melhores que muito escritor mosca-morta. Cony é aquele que eu queria que fosse meu vizinho. João Pereira Coutinho é precioso, apesar de venerar o capitalismo. Demétrio Magnoli e Elio Gaspari têm uma inteligência assombrosa. Há outros que leio quando o primeiro parágrafo me chama a atenção. Há os que não leio, porque são enfadonhos, como Antonio Prata, Kim Kataguiri e André Singer. Da parte das escritoras mulheres, que já são em menor número, a única que vale a sentada é a Fernanda Torres. As outras, ou têm vitalidade, mas não têm inteligência, ou têm inteligência, mas não têm vitalidade. Algumas são confusas. Tati Bernardi às vezes quer ser um corpo, às vezes quer ser um cérebro, e os homens que não acompanharem essa instabilidade receberão críticas. Então ela desanda a escrever sobre assuntos chatíssimos como celulite, magreza, gordura, sexo no tanque, fetiche com comida; ofende a si mesma e a outras mulheres que, como eu, saem piores do que quando entraram na coluna. De repente, lembra que é um ser humano e tenta ser um pouco profunda, um pouco feminista, mas não convence. Passa a achar que não é engraçada o suficiente quando fala de assuntos mais sérios e volta a falar sobre chocolate, papada, peito caído. Com Mariliz Pereira Jorge é parecido, apesar de ela ser um pouco melhor. Passa um tempo falando de futilidades femininas que só trazem doença, física e mental. Faz protesto contra invejosos, fala de ter uma bunda linda brilhando no sol, reclama da celulite, provoca que vai ali comer uma costela de porco ao falar de vegetarianos. Então lembra que tem coisas importantes a dizer e começa a escrever sobre tudo que há de podre no Rio de Janeiro romantizado que há muito tempo deixou de ser bacana, critica o sofrimento por que passam animais em parques aquáticos, pede aos pais que não limitem os desejos de suas filhas nesse mundo machista que oprime mulheres. Quer falar de opressão à mulher e ditadura da beleza, mas também do quanto é amedrontador levar uma vida com um corpo mais ou menos e que a idade assusta quando cria braços flácidos. O que essas colunistas têm de relevante no geral? Por que alguém deve ler coisas que induzam ao pavor de envelhecer? Sinto falta de uma mulher escrevendo como todos os homens que citei acima. Mulheres inteligentes, mas divertidas, com sacadas irônicas, talento literário. Mulheres que acrescentem. A Folha não faria mal convidando a nem sempre justa, mas ótima, Vilma Gryzinski para compor o quadro de colunistas.