domingo, junho 05, 2016

Textos dos outros: A esquerda e a universidade - Hélio Schwartsman (Folha)


Antes da coluna, um breve comentário meu.

Nas vezes em que discuti sobre universidade pública paga com esquerdistas, ouvi o mesmo argumento, que eles dão como se fosse o encerramento glorioso da discussão: “se alguns tivessem que pagar para estudar, perderíamos a ideia da universidade pública e gratuita para todos”. Se isso pode ser chamado de um argumento completo – eu acho que é apenas o antebraço de um argumento, porque está faltando muita coisa para ter nexo –, é, pelo menos, muito ruim. Que sentido faz o rapaz que sempre estudou em colégios particulares caríssimos ir para a universidade pública sem pagar nada por isso – já que ele pode pagar? Eu certamente não me identifico com os dois grandes blocos posicionais políticos, porque, contra a direita, eu não defendo o Estado Mínimo imediato num ambiente de absurda desigualdade social, e, contra a esquerda, eu não acho que precisamos ser todos o mais iguais possível: uma certa desigualdade é que move o mundo das ideias, infelizmente (ou os românticos acham que as pessoas estudam tanto para entupir o Lattes só por amor ao conhecimento?), e o real problema é quando a desigualdade é avassaladora em vez de natural e saudável. Com exceção das licenciaturas e um ou outro curso marginalizado (como Enfermagem e Biblioteconomia), em que a concorrência para entrada é baixa, grande parte dos acadêmicos das outras áreas provém de famílias com excelente renda. Estudam gratuitamente às custas do governo durante o ensino superior, depois se formam e não retribuem ao Estado o que lhes foi fornecido, porque obviamente não são obrigados: o recém-médico quer montar consultório ou trabalhar em hospitais de renome; não pensa em passar uns anos atuando em postos de saúde e no pronto-socorro de hospitais públicos. Se alguns estudantes precisam de incentivo financeiro para prosseguir com os estudos – como faria a jovem pobre que veio do interior, está morando sozinha num quartinho barato e não pode trabalhar para se custear porque seu curso de Economia é em período integral? –, outros podem pagar, tranquilamente, para se beneficiar do ensino superior público a que sempre almejaram. É lamentável – e estranho, como pontua o colunista Hélio Schwartsman – que a esquerda não perceba essa questão tão essencial. E ela não condiz, afinal, com um dos interessantes lemas esquerdistas: “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”? 

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A coluna, de 31 de maio: 

"O fato de que (...) sejam 'gratuitos' também os estabelecimentos de ensino superior significa tão somente que as classes altas pagam suas despesas de educação às custas do fundo de impostos gerais". Se interpretarmos a frase acima segundo o "Zeitgeist" (espírito do tempo) atual, concluiremos que ela partiu de um neoliberal, ou, pior, de um membro do governo Temer – ambos incapazes de esconder seu ranço direitista.

Seria uma boa aposta. O novo ministro da Educação, afinal, já insinuou que seria favorável à cobrança de mensalidades para alguns tipos de curso em universidades públicas. No mais, estaria no DNA da direita tentar destruir conquistas sociais como a "universidade pública gratuita e de qualidade".

Como o mundo é sempre mais complicado do que nossas palavras de ordem, sinto-me obrigado a revelar que a frase não tem como autor um entusiasta do Estado mínimo como Milton Friedman ou Friedrich Hayek, mas o insuspeito Karl Marx. Ela consta da "Crítica ao Programa de Gotha", de 1875, em que o pai do comunismo faz comentários às teses que os social democratas alemães defenderiam no congresso do partido.

E as críticas do pensador alemão não param por aí: "Isso de 'educação popular a cargo do Estado' é completamente inadmissível. (...) Longe disso, o que deve ser feito é livrar a escola tanto da influência por parte do governo como por parte da igreja".

Como todos os filósofos que pretenderam criar sistemas, Marx cometeu alguns equívocos graves, mas isso não tira dele o mérito de ter sido um grande sociólogo e um arguto observador da realidade. Ao criticar a "universidade pública gratuita", ele só viu o que ela de fato representa: um subsídio que os mais pobres dão aos mais ricos – algo que não combina muito com as ideias socialistas. Seria interessante tentar entender como a esquerda contemporânea ficou tão míope nessa matéria.