quarta-feira, junho 15, 2016

Rápidas e soltas 11: Duvivier e Millôr, Cosac Naify, Temer


Novamente Gregório Duvivier quer adaptar Millôr Fernandes, o múltiplo, a seus esquadros politicamente corretos. Não é a primeira vez que vem, em coluna, insinuar que Millôr tinha um humor atilado, revolucionário, "crítico", contra-hegemônico. Talvez queira adorar Millôr, mas sabe que não pode porque o humorista-tradutor-autodidata não se encaixa em seu novo espírito de censor que se confunde com amor ao coitado do próximo. Para poder adorar Millôr sem ser apedrejado pela esquerda que promove justiçamentos virtuais, Gregório resolveu "esquecer" o desenho de muitas das facetas de Millôr. "Esqueceu" que já nos anos 70 e 80 Millôr criticava o vocabulário politicamente correto. "Esqueceu" que Millôr criticava o comunismo e o socialismo por seu autoritarismo inerente. "Esqueceu" que Millôr tinha asco do Chico Buarque porque, como dito no Roda Viva, desconfiava "de todo idealista que lucra com o seu ideal". "Esqueceu" que Millôr repudiava outro grupo além dos médicos, dos políticos e dos psicanalistas: o das feministas (aquelas que difamaram o "feministo" Gregório quando ele apareceu numa capa de revista defendendo o aborto: para elas, em outras palavras e de acordo com seu jargão de clube, "roubando protagonismo"). "Esqueceu" que Millôr falava coisas sobre as mulheres – e as meninas de treze anos – que provocariam gritos de seios pelados na Avenida Paulista. Enfim, o Millôr que Gregório louva não existe. Para que Millôr pudesse deixar de ser o desbocado que era e se tornasse o cristão promotor de lava-pés que Duvivier quer que ele seja, seria preciso cortar, queimar e enterrar mais da metade de sua obra. A gente lê A Bíblia do caos e se pergunta se aquele que escreve e aquele que Gregório elogia em colunas esquerdistas é o mesmo sujeito. 

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Algumas de Millôr que foram compiladas no Millôr definitivo: a Bíblia do caos: “Murilo Mendes, mineiro e poeta, sempre com aquele ar de quem compra queijo-de-minas em Amsterdã”; “A boca é o aparelho excretor do cérebro”; “Esnobar/ É exigir café fervendo/ E deixar esfriar”; “Quando um intelectual para de falar parece que está desempregado”; “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!”; “Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta”; “Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? También soy”; “Sempre tive o bom senso de não me aliar nem a grupos de escoteiros nem a grupos políticos, ou mesmo intelectuais e artísticos. Todos os grupos (sobretudo os altamente filantrópicos), ao fim e ao cabo, são apenas agências de emprego para seus membros”; “Uma vida passada entre quadros não faz um conhecedor de arte (vide vigias de museu)”. 

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Comecei a ler Millôr quando estava na sétima ou oitava série. Tomava emprestados alguns livros dele da biblioteca municipal. (Na mesma época, eu lia Agatha Christie com voracidade. Hoje, na estante da minha casa em São Paulo, só faço questão de ter O caso dos dez negrinhos.) Desde sempre gosto de humor e Millôr é muito fácil de ler. Mas mesmo naquele tempo eu já me horrorizava com algumas coisas: os ataques à psicanálise, o endeusamento de mulheres bonitas como as melhores mulheres (não à toa Katharine Hepburn dizia que as mulheres feias entendiam mais dos homens do que as bonitas), o tratamento rude dado às feministas, a crítica a qualquer coisa, seja porque fosse muito conservadora ou muito revolucionária. Millôr era bom, mas não escapava de vaias: como muitos humoristas, usa sarcasmo para encobrir a ignorância sobre certos assuntos. É mais fácil zombar daquilo que se desconhece do que tentar entender e perder a piada. O lema de muitos: "não entendo nada sobre isso, então vou tirar sarro".

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As coisas boas sobrevivem ao tempo. E me parece que somente as boas pessoas valorizam as coisas boas que sobrevivem ao tempo. Quando vejo gentes se debatendo para ir ao encontro de novidades (filmes, música, livros), eu me questiono se isso é amor ou é temporada. Uma novidade pode ser boa, é claro, apesar de ser muito mais fácil que não seja. Mas resistirá ao apelo por modernidade máxima de seus atuais discípulos? Todas aquelas pessoas que ouviam euro dance nos anos 90 e alegavam que aquele era o ritmo de uma era, que aquilo era para dançar ou morrer – nunca mais as encontrei ouvindo AB Logic ou 2 Brothers On The 4th Floor (eu, aliás, ouço). E para onde vão todos os medonhos livros de listas de “mais lidos” após dez ou vinte anos, já que perdemos contato com a maioria deles? 

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Há somente dois seriados que acompanhei por completo: Friends (pela comédia; as cenas de amor são para ir buscar algo na geladeira ou trocar o novelo do tricô) e Sex and the city (pela tremenda empáfia: que mulheres são essas vivendo desse jeito?). Podem me julgar à vontade. Também me julguei. Para me julgar menos, eu colocava legendas em inglês, porque então pensava: “pelo menos estou aprendendo algo”. E aprendi muito. Foi graças a Samantha Jones que entendi o que David Bowie queria dizer com “suck, baby, suck/ give me your head”, de Cracked actor – até então, eu não captava o que era “give a head” para alguém, até porque na época eu ainda não conhecia o ótimo Urban Dictionary (que não é apenas um lugar para conhecimento, mas para diversão: entrar lá e acompanhar as palavras de cada dia é se perder). Recentemente baixei Seinfeld, que tenho visto aos poucos. Mas não entendo se sobra tempo – e para quê – na vida de quem trabalha, dorme, come e acompanha os diversos seriados que surgem a cada estação. E também não entendo como esse tipo de maratonista deprimente se julga no supremo direito de criticar quem assiste a diversas novelas. A falta de critério é muito similar, a fuga para um lugar falso e bobo como uma constante é muito similar. Para mim, sempre foi difícil respeitar quem vê muita televisão: quem mora na rua me parece menos fracassado que isso. Alguns respeitáveis me disseram que Downton Abbey é bom. Talvez eu veja algum dia. 

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Ainda não consegui superar a morte da Cosac Naify, a editora que era como uma xícara de porcelana cheia de café (descafeinado) numa noite fria, como um bolo de fubá com goiabada recém-saído do forno, como o cair da tarde no inverno, como andar de trem na República Tcheca. A Cosac nos proporcionava maravilhas. Existirá outra editora como ela? Tenho sentido a dor da saudade toda semana, porque às terças-feiras a Amazon faz promoção de livros da Cosac a partir do meio-dia (com o fechamento da loja virtual da editora, os livros passaram a ser vendidos pela Amazon) e toda semana tenho aproveitado para comprar o que me interessa. Na quarta os livros já estão aqui. Eu abro a caixa e são só encantos. Quem era o curador dessas obras? Quem escolhia o papel de dentro, o papel de fora, as fotografias, a diagramação, a cor do texto? Quem quase nos mata de sentimento afetivo toda vez que a gente abre um livro da Cosac para ficar estupefato? Eu até sinto vergonha de pagar o valor módico que estou pagando por essas pequenas delicadezas artísticas: os Contos completos de Tolstói, três livros lindos de chorar, numa caixinha graciosa por menos de cem reais é uma mixaria (que é uma palavra que nem combina com a Cosac). Como gosto muito do universo infantil, também compro, de vez em quando, livros infantis da editora: dá vontade de arranjar uma criança educadinha na rua e contar todas as histórias para ela de dentro de uma cabana montada no tapete da sala. Não há dia ruim que resista a ir para debaixo do edredom com Ter um patinho é útil. Quem folheia (sem ler – estou falando, no momento, apenas de apreciar a beleza física dos livros) as Novelas exemplares, do Cervantes, e não se sente emocionado com o trabalho concedido àquele volume não é digno de empatia. 

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Dilma Rousseff é culpada duas vezes, no mínimo: por fazer um governo tão ruim e por nos legar um substituto tão incompetente. Para Temer, eu poderia usar palavras obscuras tiradas de um vocabulário prolixo, mas nenhuma delas teria tanta perfeição de vestimenta quanto: bundão. Bundão porque toma decisões e volta atrás. Não que as decisões sejam acertadas (algumas são, outras, não) e que ele não devesse voltar atrás, mas basta alguém se manifestar – e em São Paulo, é incrível, há manifestação sobre alguma coisa quase todos os dias, seja de taxista, de artista, de feminista, de corintiano ou de sindicato – e tecer críticas um pouco mais severas ao governo que ele coloca o rabo entre as pernas e muda o rumo. “Ah, mas pelo menos nesse ponto ele é democrático, ele está ouvindo o clamor das ruas.” Não é por democracia que ele volta atrás, é por medo. Medo de ser detestado, medo de ser desrespeitado (não chegou a alegar que estavam destratando seu psicológico?), medo de falhar em seu governo provisório. Se espera admiração, não entende muito do espírito das massas. Afinal, quem é que idolatra gente frouxa?