quarta-feira, abril 27, 2016

Salto alto é uma questão feminista


Resumo minha atual situação com o feminismo: ele tem vivido a terceira onda e eu me satisfaço em adotar as reivindicações da segunda porque considero que a terceira defende o ódio (esse sentimento que forma placa nas artérias e impede que o sangue chegue ao cérebro), o relativismo cultural (um homem branco europeu que diz para sua mulher que ela não fica bonita usando amarelo merece ser tão ou mais combatido que um abusador muçulmano), o direito penal máximo em alguns casos (uma mulher bêbada beijada à força só será vingada se seu “estuprador” for para a cadeia), o direito penal mínimo em nome do esquerdismo (um negro pobre que cometa latrocínio não merece ir preso, nem pagar multa: ele precisa é de assistência social e um curso técnico gratuito) e o Direito da Mulher como um sofá onde deitam fracassadas para si mesmas (“engordei e não consigo um namorado fixo, é hora de defender o feminismo”). Rejeito todas essas bandeiras. E não tenho nenhuma paciência ou piedosa vontade de perder tempo ouvindo histórias de quem destruiu a própria vida numa grande festa machista e agora, após expulsão, resolve que eu e todas as outras mulheres somos suas irmãs contra todos os homens malvados e sexistas da Terra. Uma coisa é o esclarecimento, é a aquisição da capacidade de discernir. Outra coisa é achar que o feminismo é uma igreja evangélica disposta a receber de braços abertos quem viveu na farra e nas drogas e de repente, sem dinheiro e amigos, resolve “se arrepender” – porque não tem mais dinheiro e amigos. Se você foi traída por um homem ou “trocada” por outra mulher, não é feminismo grupal – o desejo de estar num meio, junto a pessoas – que você precisa procurar, mas uma conversa franca com a sua solidão fúnebre e com a sua autoestima. Acho o feminismo um movimento bonito demais para abrigar emoções torpes como a raiva histérica e a frouxidão. E jamais apoiarei o feminismo corporativista de causas banais: aquele em que Hillary Clinton pode interromper Bernie Sanders num debate, e o fato de ele acusar a interrupção – “espera aí que eu ainda estou falando” – é visto como “machismo”; esse feminismo que permite às mulheres serem mal-educadas porque não quer igualdade, mas privilégios. 

Interessantemente, a proposição “você não deixa de ser feminista por usar salto alto” é uma bandeira tanto do delírio da terceira onda quanto do feminismo liberal, individualista. Isso sempre me intrigou. Venho combatendo a obsessão pelo salto alto desde que me conheço como sujeitinho crítico de coerções indumentárias, e não consigo entender por que cargas d'água tantas feministas, mesmo de correntes tão opostas, insistem em defender essa mutilação em forma de calçado. “Barbara, é apenas um tipo de calçado.” Não, não é apenas um tipo de calçado, é um sofrimento em forma de calçado, uma estupidez em forma de calçado. Que sentido faz alguém usar, no cotidiano, algo que prejudique o andar, que peça às menos desenvoltas umas passadas esdrúxulas (algumas andam como galinhas, outras andam se equilibrando enquanto tremem os calcanhares), que faça mal à coluna, que destrua o músculo das panturrilhas e cause joanete? O que leva uma mulher, com vergonha da própria altura ou achando que usar calçados baixos a torna “menos feminina”, a optar pelo desconforto em nome de uma beleza tão tola? É claro que a maioria de nós quer ser bonita e eu não critico a busca pela beleza – desde que ela não seja doentia nem cause sofrimento. E então eu volto a uma pauta muito cara aos diversos feminismos: “a mulher deve ser livre para ser o que quiser, usar o que quiser, e isso é feminismo”. Discordo. Uma mulher que destrói a própria saúde, seu conforto, sua liberdade de transitar com tranquilidade, em nome de um artifício de beleza, não está sendo feminista. Ninguém defende que uma mulher tenha a liberdade de querer apanhar do marido, então por que achamos normal defender que uma mulher use, todos os dias, por vontade pessoal, algo que é tão imensamente antinatural e torturante? Não está certo que a beleza apareça muitíssimo antes do bem-estar. 

“Então você acha que saltos deveriam ser abolidos?” Acho que certos tipos de saltos deveriam ser abolidos não pela lei ou pelas empresas, mas pelas pessoas, que criam a demanda para a indústria de calçados. Uma mulher não precisa (ou não deveria precisar) usar salto alto para provar seu valor ou para mostrar que “é muito feminina” mesmo estando no mercado de trabalho. Fico em estado de graça quando encontro mulheres em posição de comando usando calçados baixos, mocassins, tênis (com sapatilha não fico "em estado de graça" porque acho um calçadinho muito feio, cafona, mas é claro que o ponto aqui não é meu gosto fashion), porque a maioria delas parece precisar provar que não perdeu a feminilidade mesmo sendo altíssimas chefes. Resgatemos a crítica feminista do portar-se em sociedade, tão forte na segunda onda: o salto alto faz parte disso. Uma mulher de vestido justo e salto alto é uma mulher que está no seu lugar e não faz movimentos que não condizem com sua feminilidade, é uma mulher “dominada”. É claro que muitos homens riem desse tipo de análise, mas aí eu os convido a comprar um salto agulha (não precisa ser dos mais altos) e usá-lo por algumas semanas, diariamente. Pode ser dentro de casa, umas três horas por dia em horários em que é preciso se levantar e fazer coisas. “Mas como é que muitas mulheres usam e não reclamam?” Não reclamam porque na cabeça manipulada delas o valor da estética é maior que a dor causada pelo calçado que leva a essa suposta beleza, ou seja: “eu me sinto bem sofrendo para ficar mais bonita”. Vi, com estes olhos que a terra há de comer depressa, inúmeras professoras da educação infantil usando saltos – educação infantil, onde muitas vezes você precisa correr para salvar uma criança de um acidente ou sentar na areia para fazer uma atividade que preste (se um dia eu montar uma creche, o uniforme será camiseta de algodão, calça legging e tênis – quem não gostar que vá arranjar um cargo administrativo, porque salto alto e roupinha justa não combinam com atividade pedagógica com pequenos). O feminismo não evoluiu para que achemos normal que uma mulher opte pelo sofrimento em nome da “feminilidade”. Sobre mulheres que optam, é bom que nos perguntemos duas coisas: 1. é da vontade dela? 2. causa sofrimento desnecessário? Eu dou meu total apoio se uma mulher optou por ser dona de casa sendo respeitada pelo marido, mesmo que o papel da dona de casa tenha representado, no passado, uma condição subalterna. Ser dona de casa porque se quer e ser dona de casa porque se é obrigada ou porque nunca lhe foi apresentada outra alternativa são situações muito diferentes. Em relacionamentos igualitários, acho que mais casos de donos de casa deveriam acontecer, principalmente quando esses casais montam família: é bom que um dos pais esteja em casa para cozinhar, cuidar das crianças de verdade (colocar em frente à TV não é “cuidar da verdade”, queridos), montar uma horta, fazer compras (aliás, dos meus sete anos para cá meu pai tinha sido "do lar", e era muito bom tê-lo para cuidar de mim, preparar as refeições, organizar o vasto quintal, reformar a casa). Não envolvendo obrigação e sofrimento, é ótimo que uma mulher possa ser dona de casa, se quiser. Não havendo obrigação e sofrimento, é ótimo que uma mulher passe uma lâmina nos pelos das axilas e no excesso entre as pernas (sou totalmente contra as depilações de gemidos a que muitas mulheres se submetem, mas isso fica para outra vez). Já certos tipos de salto, mesmo que optados, jamais serão indolores e confortáveis. Eles são a representação da submissão a um padrão mórbido, por mais que a dona do salto seja uma Primeira-Ministra ou a nova administradora de uma empresa tradicionalmente guiada por homens. Sempre digo, inspirada em Schopenhauer, que devemos aprender a lidar com o sofrimento porque a vida é feita dele. Isso não tem nada a ver com provocar sofrimento em vão. Causar o próprio sofrimento sem necessidade legítima é preocupante. 

Por fim, uma cena que sempre cito quando falo de saltos. Há anos, quando eu assistia ao seriado House com a minha mãe, o protagonista deixou de contratar uma médica porque ela estava usando um salto muito alto. A justificativa: a candidata devia ser muito insegura para se submeter a trabalhar com um salto daqueles. House, um personagem machista, nessa se saiu melhor que muitas feministas modernas que pensam que para serem íntegras é preciso defender as mulheres em tudo. Um feminismo que age como uma mãe coruja. E mães corujas, nós sabemos, costumam ser uma catástrofe para o bom desenvolvimento de seus filhinhos.