segunda-feira, abril 18, 2016

Rápidas e soltas 09: Papudos, Falsos leitores, Congresso


Uma pessoa conhecida com quem simpatizo, mas que é muito papuda, havia adquirido uma semiconsciência sobre o desnecessário sofrimento animal e decidido: “não vou mais comer mamíferos”. Continuaria comendo galinhas, peixes, pus de mamíferos (leite e derivados), mas não comeria mamíferos assassinados. Achei pouco, achei preguiçoso, mas achei alguma coisa, e alguma coisa é sempre melhor do que nada. Questionei sobre galinhas e essa pessoa havia dito que “não tinha se comovido o suficiente com a situação das galinhas”. Não entendo como alguém vê uma galinha crescendo à base de hormônios, trancada numa gaiola com área de uma folha A4, sem poder socializar com outras galinhas, sem ciscar e tomar luz solar e não se comove com isso. É uma compaixão seletiva de rebanho: “há gente em considerável número se comovendo?; isso é pauta de algum grande e notável grupo?; se sim, comovo-me, se não, deixo para lá porque isso não agrega pontos ao meu status”. Não entrei nesse mérito, todavia, porque deixar de comer mamíferos já era uma boa atitude inicial e essa pessoa conhecida disse: “por enquanto não vou comer mamíferos, pois acho que devemos ir aos poucos”. Alguém que caminha aos poucos pode até demorar, mas um dia chega a algum lugar. Num recente encontro com essa pessoa, uma surpresa desagradável: ela “às vezes come carne bovina aos finais de semana”. A desculpa: “pois acho que devemos ir aos poucos”. Eu não sabia que ir aos poucos significava regredir tão severamente. Eu não sabia que ir aos poucos significa programar uma fraqueza. Uma coisa é você, humano sujeito a erros, determinar que não vai mais comer carne, um dia cair em tentação, comer, e depois se perguntar “por que fiz isso?” e sentir arrependimento. Isso é fraqueza, a isso muitos estão sujeitos e, apesar de eu não concordar com a licença moral (“hoje decido me dar o direito de ser imoral”), entendo a situação. Mas a fraqueza, como tal, raramente acontece, e ela sempre gera vergonha. Ninguém “programa” uma fraqueza moral “para os finais de semana”, quando “não é justo” que as pessoas ao redor possam saborear uma boa carne de mamífero morto na minha frente enquanto “eu apenas passo vontade”. Comer peixe, frango, ovos e todos os derivados do leite, que é uma atitude absurdamente conveniente e mandriona, não bastou. O próximo passo talvez seja fritar uma bisteca e se justificar (porque os hipócritas sempre precisam se justificar, já que a prática não tem contato com o discurso): “é que eu acho que precisamos ir aos poucos”. Em nome do “precisamos ir aos poucos”, logo essa pessoa achará adequado ir a um rodízio de carnes. Uma frase de Alfred Adler cai bem ao caso: “É mais fácil lutar por princípios que viver de acordo com eles”. 

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Tenho uma agenda muito bonita que comprei de uma marca chamada Teca. Embaixo da página de cada dia há um espaço em branco onde costumo anotar citações que me agradam, citações que encontro em compilações (Dicionário universal Nova Fronteira de citações, com seleção do Paulo Rónai, por exemplo) ou que leio por acaso em livros. Lembro quando eu tinha doze anos, ia cheia de moedas para a biblioteca pública da cidade e pedia para fotocopiar as seções “Entre aspas”, da Reader's Digest, e uma seção de máximas que a Superinteressante publicava todo mês. Com pouco dinheiro, mas vendo uma gigante impressora na biblioteca, eu pedia para colocarem quatro revistinhas da Reader's juntas porque assim eu teria quatro seleções de citações numa econômica folha só. Quando não tinha dinheiro nenhum, o que era comum, passava a tarde na biblioteca copiando as citações que me interessavam. Penso que todos deveríamos possuir um caderninho de citações. Elas nos lembram que devemos melhorar nossa conduta, elas são capazes de reduzir em poucas palavras um tratado inteiro sobre princípios, elas nos transformam em “categorizadores” de situações cotidianas. É sempre terno viver algum contratempo e recordar uma máxima que se encaixa nele (parece que o fato de existir uma citação para o contratempo o torna mais pacificado, mais humano), assim como é bom reler uma máxima instrutiva que nos traz de volta à realidade do que planejamos como estilo de vida, mas havíamos esquecido. Anoto minhas citações preferidas por esses motivos: para catalogar o que vivo com outros e para me policiar a ter uma conduta proba. Não estou falando de querer uma vida impecável “moralista”, estou falando de procurar ter um comportamento cotidiano que tenha coerência com aquilo em que creio acreditar. Citações de gênios de tantas épocas podem nos ajudar a melhorar e a sermos admirados por nós mesmos. Devemos procurar ser a pessoa que mais admiramos. Isso (de termos a nós mesmos na mais alta estima de caráter), é claro, não precisa ser do conhecimento de ninguém. Há poucas coisas mais chatas do que alguém que toma nosso tempo, sem permissão, para exibir o quanto é fabuloso. 

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Eu sempre disse que nosso amor ao conhecimento, aos livros, só é genuíno se for como o do tarado que “lê” a Playboy. Porque ninguém precisa obrigar o tarado a comprar sua revista, ele não “lê” sua revista somente para tagarelar seu conteúdo com os outros, ele não acrescenta pontos ao Lattes por conhecer todas as edições entre 1986 e 2004. O tarado não quer saber se a comunidade acadêmica, seu círculo de amigos ou o pessoal do trabalho vai achar importante e classudo que ele tenha tanto “saber” a respeito dos corpos nus de centenas de mulheres. Ele faz o que faz para si. Esse foi o jeito fácil e didático que encontrei de criticar mercenários que fingem amar a leitura, mas tratam livros como sapatos que a gente compra justamente para servir às vistas alheias (em casa, na solidão que revela quem nossos pés realmente querem ser, usamos chinelos ou andamos descalços). Esse foi o jeito que encontrei de repudiar com graça quem se orgulha de ter chumbo grosso no seu currículo de leituras, mas que, se não precisasse da serventia do calhamaço para escrever uma monografia ou palestrar entre coleguinhas que também gostam de exibir seus calçados, jamais teria comprado Geertz ou Walter Benjamin para ler no sofá, de pijamas, numa tarde de domingo. Eis que num livro de citações um dos meus escritores preferidos, Albert Camus, apareceu resumindo tudo isso numa sentença simples e sagaz: “Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres.” É claro que eu não admiro “leitores” da Playboy. Mas sua motivação é muito mais sincera e sua intenção é muito mais franca que a de muitos leitores que leem trabalhos maravilhosos por motivos vis. 

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Ontem à noite passei algumas horas assistindo a um filme de horror. Era a sessão na Câmara dos Deputados para votar se o processo de impeachment deveria ser aceito e prosseguir seu curso. Como já escrevi algumas vezes, sou contrária ao governo Dilma, seja porque considero crime as coisas de que a acusam, seja porque achei sua última campanha absurdamente nojenta na modalidade vale-tudo (depois, recebemos a óbvia revelação: a presidente acabou fazendo todas as monstruosidades que disse que seus adversários fariam). Mas eu me oponho a seu governo legitimamente eleito pelo voto popular assim como me oponho a esse Congresso que – pasmem, esquerdistas romantizadores do bom selvagem povo – também foi legitimamente eleito pelo voto popular. Foi o povo (esse oprimido, esse trabalhador, esse feminil, esse negro, esse condenado à vida marginal que lhe foi dada como única opção) que colocou todos aqueles canalhas no poder; foi o povo, mal instruído e modorrento, que elegeu todos esses evangélicos burlescos que querem fazer do Brasil uma quase versão da Idade Média, só que neopentecostal; foi o povo, que o movimento negro diz ser de maioria negra, que votou para que deputados decidissem assuntos concernentes ao país tendo como referência seus filhos, netos, esposas (quase todos nomeados, como se recebessem citação e beijos no Programa do Gugu); foi o povo, “que não aguenta mais ver político corrupto massacrar os trabalhadores”, que permitiu que deputados enforcassem uma mentirosa de um partido fraudulento e corrupto para salvar a pele de alguém que vem enriquecendo com a coisa pública desde o escândalo do PC Farias. “Ah, mas o povo não tem culpa da própria ignorância estrutural e milenar, advinda de sua exploração.” Então o povo, admitamos de uma vez, não tem capacidade de votar. A democracia num país sem instrução só serve aos ricos e poderosos. O dono da Friboi, que doa milhões a partidos políticos variados e depois recebe bilhões do BNDES, adora a democracia. Cunha idolatra a democracia. Renan Calheiros acha que a democracia é o que há, e que tudo que está fora dela está eivado de abominações. Coronéis legitimamente eleitos pelo voto popular afagam a democracia. Os deputados ruralistas, da bancada da bala, da bancada evangélica glorificam a democracia. Essa sessão do Congresso de domingo foi fruto da democracia. Quando a democracia elege para cargos políticos candidatos que sempre se inspiraram no fascismo, ainda assim estamos vivendo uma democracia. Bolsonaro não deu um golpe para estar onde está: ele foi democraticamente eleito, tanto pelo povo empresarial que ri dos torturados pela ditadura militar quanto pelo povo que mesmo na merda pensa que é certo colocar crianças no mundo para afugentar o tédio da existência e acha bonito quem fala grosso. Então, por favor, parem de romantizar o povo. Parem de selecionar quando a voz do povo é a voz de Deus – ou seja, quando a Dilma vence eleições – e quando o povo é levado, por forças alheias às suas vontades, a votar em deputados que não representam ninguém. Como bem lembrou Eduardo Bolsonaro, o povo votou, no ano de 2005, em referendo, para que não houvesse proibição no comércio de armas de fogo e munição no Brasil. O povo, que a esquerda do desarmamento diz representar. O povo, quando consultado, é favorável à pena de morte – esse povo que a esquerda insiste em dizer que é de esquerda. O Congresso estúpido e vergonhoso é a cara do povo brasileiro: estúpido e vergonhoso. Não deixa de ser, é lamentável, um Congresso muito democrático

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Está para nascer alguém que seja tão cínico quanto o Eduardo Cunha. Mas pensemos juntos. Lembram quando o Lula assumiria a Casa Civil para poder ser investigado a mando do STF em vez de a mando do Sérgio Moro? Lembram que lulopetistas – fanáticos tão abomináveis quanto “bolsomiteiros” – diziam que Lula não teria vantagem nenhuma recebendo foro privilegiado e sendo julgado pelo STF? Esses benzinhos são os mesmos que reclamam sobre a profanação moral da justiça brasileira em manter Cunha solto e ainda presidindo uma sessão sobre o impeachment da presidente. Ué, mas Cunha tem foro privilegiado, é julgado pelo STF. Por que o STF é legítimo quando chamado a julgar Lula-Ministro, mas sequer é citado quando esquerdistas se revoltam com o privilégio free as a bird de Cunha? Parece que tanto Lula quanto Cunha sabem que o STF é leniente, na perfeita adjetivação do jornalista José Nêumanne Pinto ao enfrentar o ministro Marco Aurélio de Mello no Roda Viva, há poucas semanas. No Brasil, é dever moral não buscar harmonia com a esquerda ululante ou a direita ululante. Ambas são doentes. Ambas são delirantes. Ambas procuram um Grande Líder para adorar. Meu ateísmo não permite essa celebração de homens e partidos como deuses.