quinta-feira, março 31, 2016

Veganos nas Américas: Santiago (Chile)


E continuo viajando quando posso. Não há segredo: não sendo pobríssimo, tendo disciplina, algum inglês, vontade de fato (e não o exaustivo “um dia quero ir para a França” repetido todo ano há anos por quem nunca se esforça para transformar essa tagarelada em realidade) e noção de prioridade, todo mundo pode viajar para outros países. Noção de prioridade, que é o tópico com o qual mais lido quando outras pessoas me olham como privilegiada porque viajo (mesmo pessoas que têm salário melhor que o meu, interessantemente): isso significa colocar o que é importante na frente do que é trivial. Parece simples, mas a aplicação costuma ser falha. Atentem, meus caros: eu poupo no que me é tolo para gastar no que me alegra. Não tenho carro, nem sei dirigir. Nunca fui a uma manicure – fazer minhas próprias unhas é terapêutico e carinhoso comigo mesma: melhor do que entregar minhas mãos para alguém que vai falar mal de mim quando eu sair do salão. Há anos corto meu cabelo – aquilo que consideraram desastroso há muito tempo não era inaptidão, mas propósito. Só tive um celular e só vou trocá-lo quando estragar – tenho saudade do tempo em que podíamos, todos, estar inacessíveis e dispostos a ouvir reclamações: “tô ligando pra você há quatro dias/ sempre aquela voz metálica repete/ deixe seu recado/ ou ligue depois”. Passei a imensa parte da minha existência sem plano de saúde: primeiro, porque éramos pobres; depois, por achar desnecessário; então, aderi alguns meses a um plano; saí do emprego e do plano; no momento voltei a estar sem plano por opção temporária – não que seja algo para se orgulhar; ocorre que estar sem plano, para mim, é como a lei da inércia. Não acho que o final de semana foi inventado para a gente sair de casa como um dever. Não acho que comer fora deva ser mais frequente do que cozinhar. Não tenho filhos. Saí da casa dos meus pais para vir morar com meu namorado e não queremos uma segunda morada ou uma sobressalente casa na praia. Mas eu economizo nessas coisas para gastar “à vontade” no que importa: viajo, compro livros com frequência, tenho uma máquina fotográfica de uma marca especializada em máquinas fotográficas e uma adega de uma marca especializada em adegas, compro orgânicos sempre que possível, ajudo protetores de animais. Não sendo rica, preciso optar. Se eu passasse a frequentar salões semanalmente, se eu quisesse comprar e manter um carro, se eu entrasse em pânico e achasse que preciso de um plano que me coloque no melhor quarto caso eu seja hospitalizada, se eu tivesse filhos, se eu pagasse aluguel, se eu trocasse de celular todos os anos e quisesse aderir aos modismos de todas as estações – se eu passasse a viver esse tipo de vida, eu não poderia viajar para a Alemanha ou comer tomate sem agrotóxico. Viajo, portanto, não por privilégio, mas porque isso está entre as minhas prioridades. Para atender prioridades, sacrificamos gastos com trivialidades. E felizmente a maioria das trivialidades às quais me referi não faz minha cabeça, então não sinto falta por não vivê-las. 

Em novembro do ano passado fomos para Santiago, Chile. O mote foi um show da banda turca She Past Away que ocorreria lá (do cenário contemporâneo, uma das minhas bandas preferidas). Foi a primeira vez que visitei um outro país da América do Sul, e era um pouco engraçado pensar que o Brasil estava logo ali e que para os chilenos aquilo tanto fazia. Ir para o Chile pode ter uma viagem mais curta do que a visita a certos estados brasileiros: 4h de avião. Minhas duas primeiras notáveis impressões: como os tetos dos prédios são baixos (os apartamentos parecem um amontoado de caixinhas de fósforo) e como colocam abacate em tudo. Não tenho nada contra o abacate, mas pedaços de abacate dentro de um cachorro-quente (vegano, évidemment) me parece um exagero ou uma modernidade à qual meu conservadorismo não poderá se adaptar. Para qualquer restaurante que você olhe – ético ou não – há algum prato com abacate. Eu sugeriria que trocassem essa base culinária por batatas, mas isso, é claro, se trata de puro arbítrio porque eu adoro batatas, e acho que elas são densas candidatas a criar a infraestrutura na qual se apoiaria toda uma gastronomia forte. Pareço estar falando de uma nova modalidade de governo. Estou apenas falando de batatas. 


(She Past Away - Gerçekten Özleyince: quem diz que "hoje em dia não se faz mais boa música" está ouvindo as rádios erradas.)

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

Descobri pelo caminho da dor que o abacate é para os chilenos o que a mandioca é para Dilma Rousseff. Fomos a um restaurante vegano, comemos dois pratos e pedimos cachorros-quentes para levar. Entre os ingredientes: “palta”. Tentamos deduzir o que era palta, e pelo contexto deduzimos que poderia ser batata palha, tão vezeira em cachorros-quentes. Mais tarde, com fome no hotel, abrimos as embalagens e encontramos pães recheados com mais palta do que salsicha. “Palta” é como os chilenos chamam o abacate (sim, eu também esperava que seu nome por lá fosse avocado). Se essas misturas são o futuro, nada é mais coerente do que eu voltar a fazer tricô (para quem não sabe, a maior parte da lã vendida em armarinhos é acrílica, ou seja, não provém de maus tratos a ovelhas: você pode ser vegano e tricoteiro). 

Fomos para o alto de um jardim para ver o
panorama; nos prédios, andares baixos

Resto do que devia ter sido
um agitado hotel/restaurante

Do trajeto para o Chile, recomendo que pelo menos um dos trechos da viagem seja feito durante o dia, pois do avião, próximo ao aeroporto, podemos ver a Cordilheira dos Andes, que é primorosa. Tirei inúmeras fotos da janelinha do avião: há partes em que a Cordilheira se assemelha a um bolo de chocolate cheio de açúcar de confeiteiro, há outras em que é possível ver, bem lá longe, pequenas vilas, e às vezes vemos lagos verdes – de um verde muito bonito – aos pés das montanhas. Perder essa vista é indesculpável. Voar em cima de algo tão sublime é maravilhoso. 

Trecho da Cordilheira dos Andes

Um dos lagos

Um bolo com açúcar? 

As cores são essas, mesmo



Tínhamos feito reserva num hotel barato na região central de Santiago. Esse hotel teve um problema de última hora no aquecimento e estava fora de funcionamento para hospedagens, então fomos transferidos para uma versão de “alto padrão” da mesma rede, sem custo adicional, em um bairro habitado pela classe média de Santiago: Las Condes, onde já moraram Augusto Pinochet, Salvador Allende e onde mora Michelle Bachelet. Se você tiver boas condições financeiras, é um excelente lugar onde se hospedar: calmo, arborizado, cheio de passarinhos cantando e pessoas andando com cachorros, além de vistas para as montanhas. Nós só nos hospedamos lá por sorte. Mas mesmo que você não se hospede nessa região, é um bom lugar por onde passear. Se a trilha sonora da parte comercial da cidade remete a cacofonias comerciais, perambular por Las Condes faz lembrar baladas ternas da Cat Power, como He war

Eu seria totalmente incompetente para criar um site sobre viagens narrando as minhas experiências. “Veganos na Europa” – e agora “Veganos nas Américas” – serve para recomendar os bons restaurantes que visitei em outros países, mas também acaba por ser um pretexto para falar essa coisinha mínima sobre o que me chama atenção dentro de cada cidade. Não visito todos os pontos turísticos e já troquei museus de arte importantes por caminhadas em bairros desconhecidos – eis uma viajante que está mais à procura de novos ares do que de roteiro fechado. Em Santiago, o único lugar cultural em que pagamos para entrar foi o Museu Pré-Colombiano, porque já saí do Brasil determinada a conhecê-lo (aliás, indico a visita). As outras “atrações” que visitamos eram gratuitas porque nas ruas: praças, jardins, parques públicos, construções. Não visitei catedrais, museus de arte, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos (talvez na próxima), a casa de Pablo Neruda (não tenho interesse nele). Às vezes tenho a impressão de que minhas viagens com o André são mais sobre horas de caminhadas e conhecimento de novos restaurantes do que sobre visitar cinco atrações por dia. Cada um tem seu jeito de fruição em viagens. Nosso jeito é terminar o dia com os pés latejando sob a mesa de algum restaurante vegano que sirva cerveja ou vinho. 

Tambor de madeira da Cultura Asteca, Museu
Pré-Colombiano (ou "Colombino")

"Mulher com pequeno animal nos
braços", Cultura Chavín

Mulheres e a sua importância para a
fertilidade da terra



RESTAURANTES VEGANOS

Com a popularização da internet, quase ninguém mais tem desculpa para desconhecer alguma coisa por ausência de acesso à informação. Às vezes me perguntam: “mas onde você acha receitas de bolo sem ovos?” Internet. Qualquer coisa que você coloque na internet com a palavra “vegano” atrás terá dezenas de receitas. Feijoada vegana, bife acebolado vegano, sorvete vegano. “E como você encontra restaurantes veganos em países desconhecidos?” Pelo HappyCow. Pesquiso sobre os restaurantes, copio o endereço, coloco no Google Maps e peço as direções para o local, com o hotel como ponto de partida e fazendo aparecer, por exemplo, as estações de metrô que ficam na região. Dou um print no mapa e salvo num tablet. Antes de ter tablet, eu imprimia os mapas. 

EL ÁRBOL

É um restaurante ovolactovegetariano, mas eu quis visitá-lo por ter várias opções veganas e ser muito elogiado. Em qualquer viagem priorizo restaurantes veganos, pois gosto de dar dinheiro para quem realmente se esforça para acabar com qualquer tipo de exploração animal, mas em certas cidades com poucas opções veganas costumo acrescentar à lista de mapas um ou outro local ovolacto. Gostei de tudo que comi – a maior parte saudável –, exceto uma entradinha de torradas e vinagrete em que havia coentro em vez de salsa no molho. Questão pessoal: até rúcula é mais saborosa que coentro. Os sucos são ótimos (peça sem açúcar), há opções de cervejas e vinhos (recomendo com louvor a cerveja feita em Valdivia, a Kunstmann) e as comidas preenchem páginas no cardápio. Pedimos sanduíches, arroz com tofu agridoce, petiscos de tofu temperado e torta. A torta era dispensável: muito doce. 

Entrada do El Árbol

Suco de abacaxi com hortelã; e tofu temperado

Arroz branco e tofu agridoce

Sanduíches

Parte do quadro de bebidas

Kunstmann, cerveja de Valdivia

Torta de chantilly

BUNKER

Foi onde pedimos os cachorros-quentes de abacate. Fora essa paltamania, gostei bastante do prato que almoçamos e amei o bolo crudívoro que comemos na sobremesa. Não sou nenhuma idólatra de doces (já fui: não existia ficar um dia sem pelo menos um docinho), mas gostaria muito de viver num mundo em que a maior parte dos doces fossem crudívoros. Bolos, tortas e trufas crudívoras são um pedaço do céu alaranjado num final de tarde fresco em meio ao silêncio. Vai comer em algum lugar vegano e existe opção de doce crudívoro? Peça. Nunca me arrependi. (Para quem não sabe, alimentos crudívoros só levam coisas cruas como frutas, castanhas e folhas: sem farinha, sem açúcar, sem nada que tenha sido refinado ou esquentado.) Tentamos voltar lá para comer hambúrgueres, mas estava fechado e havia apenas um classudo gato na janela. O lugar, todavia, é um pouco amedrontador para alguém que, como eu, tem horror a justiceiros sociais. O Bunker usa a língua do x (que sabichões que não estudam gramática chamam de “a língua inclusiva de gêneros”) – “meninxs”, etc. – e acha errado separar banheiros masculinos e femininos. É verdade, num restaurante pequeno isso pode dar certo, mas eu não quero encontrar um homem usando o mesmo banheiro que eu em uma rodoviária. Por todos os lados, avisos de que não toleram homofobia, racismo, etc. É verdade, também não tolero. O problema é que justiceiros sociais tendem a ter uma visão muito diferente do que sejam essas coisas: alguém contrário ao sistema de cotas raciais, por exemplo, é, para eles, racista. Tentei esquecer o desconforto por estar num lugar que possivelmente me considera culpada pelo massacre de pobres, índios e negros e foquei minha atenção na comida. Era muito boa. A moça que nos atendeu, todavia, era ranzinza. Talvez porque ache que mulheres empoderadas não têm a obrigação de serem simpáticas. Chilenos falam espanhol de forma acelerada e demos a entender que não estávamos entendendo muito bem o que a atendente dizia. Ela não fez questão de explicar com maior lentidão. Fizemos o pedido sem saber exatamente o que viria. Uma outra moça que atendia outras mesas, contudo, era muito prestativa. Uma mulher que ficava no balcão e imagino ser a dona do lugar também era simpática. Na questão do atendimento, fomos azarados. Ponto negativo nas bebidas: sem cerveja e sem vinho. 

Bunker Vegano

Batatas, seitan, salada e suco

Área de sobremesas

Torta crudívora de amendoim e frutas

SHAKTI – COCINA DE VANGUARDA

Lugar pequeno. Cardápio muito reduzido. Mas tudo muito saboroso. Ao voltar a Santiago, é certeza que voltaremos lá. Sucos saborosos, comidas caprichadas. Acho que os donos são um casal: ela atende, ele cozinha. Recomendo o cannelloni bicolor e o cuscuz (vai coentro e coentro em espanhol é cilantro: cuidado, se não gosta, peça sem). O cardápio pode sofrer alterações com as temporadas. 

Sucos

Cannelloni bicolor

Cuscuz

PLANTA MAESTRA

Gostaria de declarar que reggae me causa mal estar físico. É um gênero musical que me incomoda tanto que ao ser obrigada a ouvi-lo perco, temporariamente, meu senso de humanidade. Gosto de bandas com influência reggae – Bad Brains, The Clash, Police –, mas me sinto muito mal com o reggae na sua versão “pura”. Tenho horror a reggae. Muito bem, há dois Planta Maestra em Santiago e nos dois só toca reggae no seu estilo mais horrível. Sei que pareço dramática, mas não tenho intenção nenhuma de voltar a um lugar com esse tipo de programação. “A comida não salva o local?” Na minha opinião, não. André não achou que fosse fantástica, mas também não achou ruim e voltaria. A lasanha de molho vermelho era pouco saborosa e estava fria. As empanadas eram uma massa básica com um recheio preguiçoso. Para beber, chá ou um suco ralo. Junto ao pedacinho de “restaurante” – parece-se mais com uma lanchonete – há um mercadinho. Por ele o lugar pode valer a pena, já que há vários itens veganos empacotados (molhos, temperos, biscoitos) e uma pequena seção de hortifrúti. A única boa coisa que eu trouxe de lá foi uma sacola para compras estruturada e forte. Pode não ser tão ruim para quem gosta de reggae. Se for seu caso, arrisque. De minha parte, não gosto de ter refeições em estado depressivo induzido por música ruim. 

Mercadinho de uma das unidades
do Planta Maestra

Lasanhas frias que não empolgam

PS: o show do She Past Away foi num lugar pequeno e com pouca gente (o lugar estava lotado por ser pequeno). Mas foi sensacional. Todo mundo que estava lá parecia adorar a banda e estar muito feliz por vê-la tocando no Chile.