quarta-feira, março 09, 2016

Textos dos outros: Polícia e política - Demétrio Magnoli (Folha)


Antes da coluna, breves comentários meus.

1. Demétrio Magnoli é desses colunistas que poderiam escrever opiniões totalmente equivocadas que, mesmo assim, valeria a pena ler o que escreve pelo modo como escreve. É mais ou menos o tipo de recomendação que faço aos críticos das ideias de Nietzsche – perigosas e anticientíficas –, que deveriam lê-lo como se fosse literatura: pode ser um louco, mas é um louco que escreve melhor que muito lúcido antiquado e adepto de secura jornalística. Só que Magnoli dificilmente se equivoca. Por ser crítico do atual governo, é persona non grata no meio petista que só enxerga duas cores na paleta: preto e branco (ou azul e vermelho, e eles insistem em dizer que o azul é “de direita” em vez de entender que só um partido de centro-esquerda teria adotado certas políticas paternalistas que FHC adotou). Magnoli define-se como adepto de uma “esquerda clássica” e por isso não é afagado pela esquerda brasileira, que pensa, à falácia do verdadeiro escocês, que um esquerdista genuíno precisa ser favorável a cotas raciais e aborto no oitavo mês da mulher empoderada (sou favorável ao aborto, mas não nos últimos meses em que o bebê já está formado; "meu corpo, minhas regras" tem limite).

2. Como pode um erro de procedimento transformar um político quase certamente corrupto (tento ser justa e presumir alguma inocência de alguém que ainda não recebeu sua sentença) em um coitado? Moro faz uma condução coercitiva, “sob vara”, de Lula para depor, erra nesse procedimento e petistas fanáticos passam a se apoiar nisso para defender o quanto ele está sendo perseguido mesmo não tendo feito nada, mesmo tendo como único crime “ter tirado milhões da miséria”. Que Lula seja elogiado se suas políticas públicas, baseadas nas políticas de FHC, continuaram a impedir pessoas de morrer de fome, mas isso não justifica que esconda patrimônio, trafique influências e faça sua diversão às custas de dinheiro público. Se o slogan popular “rouba, mas faz” não valia para Maluf, não deve valer para Lula. O procedimento: pode ter sido errado, mas era justificável, como bem explica Magnoli na coluna abaixo. O que os petistas queriam? Que fossem avisados antecipadamente sobre o depoimento de Lula, como aconteceu da última vez, para que pudessem se organizar e criar tumulto no lugar marcado, como aconteceu da última vez, e impedir o depoimento do ex-presidente, como aconteceu da última vez?

Antes de ser o poder, Lula criticava os programas assistencialistas do PSDB, dizendo que tinham finalidade eleitoreira porque o pobre pensa com o estômago. O vídeo já é um clássico: 



3. O amor cego a partidos políticos deve ser acessado no mesmo local cerebral que o amor fanático à religião, eu suponho. Para petistas, Lula é como Jesus: anda com bandidos, come com bandidos, frequenta a casa de bandidos – mas não é bandido. Sendo amigo íntimo dos empresários mais ricos do país, eu me pergunto o que um ex-metalúrgico que declara amor ao povo pobre tem em comum com esses empresários para que a amizade vá adiante. O mesmo time de futebol? O mesmo apreço pelo rococó? A mesma vontade de colecionar vinhos? Amigos costumam ter alguma coisa afim, nem que seja a devoção ao dinheiro.

4. Lula, teatrólogo, volta a falar de sua origem humilde em palanques. Os pobres isso, os ricos aquele outro. Mas os bancos nunca lucraram tanto como no governo do PT e quem já era rico se tornou ainda mais rico graças à errada arrecadação de impostos ou aos investimentos que o BNDES fez em empresas que já eram gigantes, como a JBS Friboi. Vale a pena ser rico num Brasil petista em que o grosso do imposto incide sobre o consumo e pouco incide sobre a renda; em que você que ganha cinco mil por mês paga a mesma porcentagem de imposto que aquele bilionário que faz dinheiro em cima de dinheiro. A revista Superinteressante, que tem sido bem amiga das pautas da esquerda ululante porque está na moda problematizar o modo como a chuva cai, até fez uma boa reportagem sobre isso na edição de outubro do ano passado. O Brasil é um dos países que menos arrecadam impostos em cima de grandes heranças e mais arrecadam no consumo: e são os pobres e a classe média que gastam seus salários mensais em consumo, sem ter dinheiro sobrando que os permita formar herança.

5. Dilma, petulante, fala uma coisinha que está na boca de todo petista que gosta mais de papagaiar do que de ler: que “nunca se investigou tanto nesse país”. Como se o mérito das investigações fosse dela, como se fosse ela a mandatária das ações da Polícia Federal. É muita ousadia querer colocar em seu currículo o resultado do trabalho alheio. Para esse e outros clichês petistas, é obrigatória a leitura desse artigo do Spotnik (“5 clichês que você está cansado de ouvir dos petistas sobre a Lava Jato”), que pode ser um site que às vezes levanta questões de modo exagerado (não gostei da análise sobre a regulamentação do sal nas mesas de restaurantes de Porto Alegre, onde meteram Hitler no meio), mas que em matéria de críticas às mentiras e ao vitimismo do PT está indo muito bem.

Agora, a perfeita coluna do Magnoli do dia 05 de março de 2016: 

*

"A violência praticada contra o ex-presidente Lula é uma agressão ao Estado de Direito que atinge toda sociedade brasileira. A ação da chamada força-tarefa da Lava Jato é arbitrária, ilegal, e injustificável, além de constituir grave afronta ao Supremo Tribunal Federal." A nota do Instituto Lula acusa o juiz Sergio Moro, os procuradores e policiais federais de promoverem uma conspiração política. Uma nota divulgada pelo PT denuncia a suposta implantação de um "regime de exceção" pela força-tarefa da Lava Jato. A alegação é um escárnio, pois cada uma das iniciativas judiciais e policiais submete-se ao controle das instâncias superiores do Judiciário. Mas, de fato, num sinal agourento, o timing da condução coercitiva de Lula foi ditado pela política. 

Aqui, inexistem coincidências. A Operação Aletheia eclodiu na sequência da troca de guarda no Ministério da Justiça. Dilma Rousseff é responsável pela politização da polícia: segundo o próprio ex-ministro José Eduardo Cardozo, sua demissão derivou de pressões oriundas do PT pelo "controle da Polícia Federal", eufemismo para a interferência do Executivo nas investigações da Lava Jato. Cedendo às pressões e nomeando o indicado por Jaques Wagner, um "soldado de Lula", a presidente anunciou um confronto institucional. No fundo, passou a agir em obediência à providencial tese lulista do "regime de exceção". 

"Isso não é justiça, é uma violência", declarou o ministro Miguel Rossetto, acrescentando que a Aletheia "é um claro ataque ao que Lula representa, como liderança política e social". Rossetto emitiu a nota oficial adiantando-se a qualquer pronunciamento da presidente, com a finalidade de oferecer uma resposta à militância petista ou de precipitar um protesto formal do governo. Mas ele não é um Rui Falcão, pois está subordinado a Dilma. Sua permanência no cargo, após a nota, tem significado inequívoco: na vez de Lula, o Planalto insurge-se abertamente contra a Lava Jato. 

"É um exagero", reagiu o ministro Edinho Silva. Dilma, "inconformada", concluiu o raciocínio classificando como "desnecessária" a condução coercitiva de Lula. A crítica pública do Planalto a uma decisão judicial abre perigoso precedente: se vale no caso de Lula, valerá nos de João, Maria, José ou um tal de Cunha, o que nos conduziria até a ruptura do princípio da separação de poderes. Sob o lulopetismo, politizou-se a economia, a Petrobras, a identificação de quilombos, a demarcação de terras indígenas, o currículo escolar e até o Aedes egypti. A introdução da política no âmbito do sistema de justiça, esse passo nascido do desespero, assinala o outono de um projeto de poder. 

De qualquer modo, o argumento da "desnecessidade" merece exame. Há um mês, quando o Ministério Público de São Paulo intimou Lula a prestar esclarecimentos, os "movimentos sociais" petistas convocaram uma manifestação diante do Fórum Criminal da Barra Funda, no horário do depoimento. O cerco de um fórum pela militância partidária configura tentativa de intimidação de policiais, procuradores e juízes. Decidindo-se pela condução coercitiva sem aviso prévio, Moro jogou segundo as regras políticas impostas pelo PT –e acabou derrapando no barro da arbitrariedade. 

O Brasil não é a Venezuela. Por aqui, o "Estado de Direito" é definido pelo Judiciário, não pelo Instituto Lula, o PT ou mesmo o Planalto. A Aletheia sustenta-se sobre uma representação do Ministério Público Federal que aponta indícios de prova contra o ex-presidente. O fogo de artilharia disparado por Lula e pelos seus na direção da "imprensa golpista" pretende o que já não é possível: iludir um país inteiro. Se Lula crê que seus direitos constitucionais foram violados, resta-lhe procurar amparo nos tribunais superiores. Ou, como José Dirceu, erguer o braço e fechar o punho em desafio à democracia.