domingo, março 20, 2016

Rápidas e soltas 08: Últimos comentários políticos deste mês (porque esse blog não é sobre política e me agradam outros assuntos)


Não vejo solução política para o país. Se vivêssemos num regime absolutista e decidíssemos nos insurgir contra o monarca, o monarca e sua trupe pomposa estariam depostos e pronto. Mas nosso sistema político é tão podre e emaranhado (se ao menos fosse apenas emaranhado…) que ao nos livrarmos de um sem-vergonha logo brotam outros quatro. Sai Dilma, arrogante e mentirosa (em parte por si, em parte por coação de seu partido, em parte por ordem de João Santana), entra Temer, arrogante e mentiroso, suspeito de n conluios. Se Temer cai com Dilma, entra temporariamente na presidência Cunha, enterrado até o pescoço com sua arrogância, suas mentiras e sua fortuna (em viagens internacionais, esse Riquinho de Bíblia na axila gasta em poucos dias em hotéis luxuosos o equivalente a mais de um mês de seu salário como deputado: para ele, Jesus não multiplica peixes, mas dinheiro). Se todos caírem no próximo ano, um Congresso corrupto (na Câmara dos Deputados, quase um terço da casa responde a processos criminais) decide quem vai governar o país. Se pudéssemos, hoje, escolher para a presidência alguém íntegro, ele estaria ilhado no Planalto: sem partidos aliados corruptos, nosso hipotético candidato de caráter dificilmente chegaria à presidência; se chega, não pode fazer nada justamente porque não se aliou a bandidos, que como retaliação vetarão todas as suas medidas em prol do país. Os políticos que temos, todavia, são a cara do Brasil sem estudo e sem memória: é impossível entender onde estavam os pensamentos dos que elegeram Tiririca (seus projetos de lei são mais sobre circos do que qualquer outro tema) e Jandira Feghali (conhecida pelo histrionismo, quis ir à Lua quando Roberto Freire afastou seu braço numa sessão – “agressão à mulher” –, mas é defensora de regimes assassinos como o da Coreia do Norte – seu partido, o PCdoB, manifestou profundo pesar quando da morte do ditador Kim Jong-il: “anti-imperialista, construtor de um Estado próspero que atende às massas populares, promotor da paz e da solidariedade entre os povos”). As perguntas que se sobressaem nesse cenário são: 1. como teremos uma reforma política se os capazes de realizá-la – os políticos – não têm interesse nela? 2. como teremos uma reforma política com um povo votante que dá poder a indivíduos que enxergam política como negócio? As últimas reformas políticas que tivemos foram boas, é claro – abolição dos “showmícios” e das camisetas de candidatos que vestiam nossas mães quando iam à padaria –, mas foram reforminhas tão modestas que seu efeito dá apenas uma roçada nos pelos do peito do monstro da corrupção. Para entender a reforma política (que pode ser qualquer coisa com esse nome genérico), recomendo a leitura do didático livro Reforma política: o debate inadiável, do advogado e cientista político Murillo de Aragão (Editora Civilização Brasileira, 16 reais). 

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Há tantos políticos corruptos para se criticar que nos falta tempo, mas gosto das críticas especiais a Lula, porque combatê-lo é como combater uma seita. Cunha, por exemplo, é puro ranço, mas não vemos ninguém na internet urrando que ele é probo, nem vemos passeatas pró-Cunha. Chutar Cunha, agora, é como chutar gente morta (a expressão original é “chutar cachorro morto”, mas, vocês sabem, eu amo cachorros...). Já para os discípulos de Lula, suas ligações não bastam como prova para nada, nem no tribunal popular: ele é honesto. Se Lula declarar que conferia vantagens políticas aos empresários que doaram dinheiro para sua campanha ou ao seu Instituto, nem assim seus discípulos acreditarão: vão dizer que ele assumiu o que não fez por tortura, por cansaço, por heroísmo humilde; Dilma repetirá seu mantra de que entende a autodelação de Lula “porque já foi presa na ditadura militar”. Vladimir Safatle, que faz boas críticas a Alckmin e aos “governantes de direita”, parece só prestar para criticar o PT quando o Brasil não está polarizado (eu gostava muito quando ele chamava o PT de “esquerda zumbi”): em sua última coluna para a Folha, o filósofo critica a ilegalidade do juiz Moro ao liberar para a imprensa as ligações telefônicas íntimas do Sr. Lula, mesmo que parte delas diga respeito aos interesses da população. Não, Safatle não critica somente o vazamento de ligações irrelevantes para a investigação, como aquela em que D. Marisa, a primeira-dama mais insossa deste país, diz que os “coxinhas” que criticam seu marido são “esses que não conseguem comprar apartamento de 500 mil e ficam pagando prestações” (com esse esnobismo classista, esperamos vê-la entrevistada no Luciana By Night). Safatle critica todas as ligações, e os holofotes passam a ser para a inconstitucionalidade das escutas, e não para o conteúdo delas. O mesmo Safatle que achou correto Julian Assange, do WikiLeaks, expor ao mundo, ilegalmente, segredos de governos. O mesmo Safatle que não me recordo de ter defendido Demóstenes Torres (ex-senador pelo DEM cassado por suas relações com um bicheiro) em 2012 quando escutas ilegais foram colocadas em seu telefone e jogadas na mídia. Por mais que todas as ligações comprometedoras de Lula possam ser consideradas provas inúteis (porque obtidas por meios ilícitos) pela Justiça, com maiúscula, elas não deveriam ser consideradas inúteis para quem espera criticar ou elogiar políticos de maneira justa aqui onde não estamos vestidos de toga. Você, preocupado com a inconstitucionalidade das ações da Polícia Federal: se descobrisse que um estuprador assumiu seus crimes em ligações telefônicas gravadas por meio de escutas ilegais, o que faria? A) Mergulhado em seu amor à Constituição, mas também preso à moral, diria que as ligações não deveriam ser usadas como prova na Justiça, mas passaria a execrar o estuprador e torcer para que ele fosse incriminado por meio de outras provas; ou B) Mergulhado em seu súbito amor à Constituição, defenderia o estuprador em tudo porque o fato de ele ter sua intimidade violada é praticamente a prova de sua inocência, e esse desrespeito ao seu direito de defesa merece que você coloque uma camiseta com o rosto dele e vá para as ruas apoiá-lo. Acho lamentável quando cabeças deixam de servir à lógica para servir a fins partidários. Uma toupeira partidária ouve situações supostas e responde: “depende”. “Você é a favor de empresas doarem milhões de reais para ex-políticos?” “Depende: o político é de esquerda ou de direita?” “Você é a favor de homens acharem engraçado uma mulher ser chamada de puta e vagabunda?” “Depende: esses homens são de esquerda ou de direita?”

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Em seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome (Editora Três Estrelas, 25 reais), Safatle defende que “toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal” porque todo cidadão tem o direito de se contrapor ao tirano que usurpa o poder e impõe um estado de terror. Quando a resistência do povo ocorre porque o governante não cumpre o que foi estabelecido com esse povo, “o Estado de Direito é quebrado em nome de um embate em torno da justiça”. Parece justo: assino um contrato com um governante ao elegê-lo, mas depois de eleito ele não cumpre o combinado e isso me confere o direito de rebelião. A pergunta é: Dilma honra o contrato que firmou com o povo? Na minha opinião, não cumpre. Provada que sua campanha recebeu dinheiro desviado da Petrobrás, provada sua tentativa de obstrução à Justiça (nunca se cogitou que Lula fosse ministro: quando estão para prendê-lo preventivamente, Dilma resolve colocá-lo no ministério mais importante “para que pudesse melhorar o país”), provadas as pedaladas fiscais (nem estou citando as inúmeras mentiras de sua campanha desesperada): isso tudo não é algo que merece a insurreição do povo? Para Safatle, em teoria e livro, sim. Para Safatle, se fosse num governo do PSDB, que também deu pedaladas fiscais, sim. Para Safatle, no governo do PT, não, porque é golpe. 

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O caos que estamos vivendo servirá de lição para as próximas eleições? Quando surgirem candidatos frescos no cenário político, saberemos acompanhá-los para ver se merecem nossos votos outra vez? Errar uma vez na escolha de candidatos é normal, errar duas vezes é estupidez. Uma coisa que é muito simples de se perceber é a questão patrimonial dos candidatos. Aquele sindicalista que andava de Monza e nunca tinha viajado para fora consegue se tornar deputado. De repente, ele está com um carro importado, está todo mês em Miami e sua família se torna um requinte que faz passeios de jatinho. Isso é muito suspeito. O salário de deputado no Brasil é muito mais alto do que deveria ser, mas não torna ninguém milionário em poucos meses ou anos. Qualquer um que enriqueça com a política deve ser motivo de desconfiança. Antes de Lula se tornar presidente, seu filho Lulinha era monitor no zoológico de São Paulo. Um cargo modesto de renda modesta para um biólogo de origem modesta. Após o pai subir à presidência, Lulinha monta uma empresa de entretenimento, tem parte da empresa comprada pelo dono da construtora Andrade Gutierrez (exato, aquela envolvida na Lava Jato) por 5 milhões e, claro, torna-se um milionário. Por que antes da ascensão política do pai ele não criou a empresa? Por que uma construtora gigante teve interesse em comprar parte de uma empresa que acabara de nascer? Empresários são sovinas. Empresários não jogam dinheiro fora, não dão tiro no escuro. Todo e qualquer empresário que invista em políticos está esperando retorno. 

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Como feminista da segunda onda (tive que me resignar a me intitular assim, já que a terceira onda feminista é delirante, ressentida e despótica), achei desrespeitoso Lula debochar do fato de a Marta Suplicy ter sido chamada de “vagabunda” e “puta” por “coxinhas”. Mas não achei o fim do mundo a ironia dele. Esperei, claro, que a terceira onda fosse achar o fim de todos os mundos desta galáxia, pois a terceira onda vê estupro em potencial onde há elogio a um penteado. Parece que me enganei, pois grande parte da terceira onda, subserviente ao esquerdo-lulismo, defendeu Lula. “Grelo duro” não foi, para elas, rude, mas “um reconhecimento da coragem e da força da mulher”. Interessante. Por muito menos, se fosse outra figura política, teriam queimado lojas de sutiãs e marchado contra a violência de gênero na Avenida Paulista. 

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Juízes não são deuses neutros. Tanto é que podemos recorrer de suas decisões várias vezes e em muitos casos juízes de segunda instância (desembargadores) corrigem as decisões dos juízes de primeira. Um juiz que não concorda com outro sobre o mesmo caso expõe a humanidade da qual a justiça é refém. Normal. Por isso, é normal desconfiar das motivações de Moro. O que não é normal é usar de má-fé porque ele é o responsável pela investigação de alguém que consideram “mito” (são tantos mitos na política que estamos nos tornando a nova Grécia clássica), usando seu salário (que não foi decidido por ele) contra sua pessoa e mentindo sobre esse salário. Circula na internet, “com prints tirados do Portal da Transparência como prova”, que o salário de Moro é de 87 mil mensais. A malícia na legenda: “Esse é seu herói? Seu herói ganha 87 mil mensais”. Suspeitei. Sei qual é o salário de um juiz. Fui ao Portal da Transparência do TRF da 4ª Região e pesquisei os últimos salários de Moro. O de 87 mil é o bruto (o líquido foi 57 mil) de um mês (janeiro) em que ele recebeu inúmeras gratificações e função de confiança. Ou seja, um mês excepcional. O salário líquido de outubro? 15 mil. O salário líquido de novembro? 20 mil, que é a média do que ganha um juiz em início de carreira. É parte da etiqueta intelectual básica verificar bem as informações antes de semeá-las.