sexta-feira, março 18, 2016

Rápidas e soltas 07: Esquerda dos banqueiros, Lula que não viaja de avião com pobre, STF


O que tem sido mais interessante a respeito dos recentes acontecimentos do país é que descobrimos uma esquerda com o rabo entre as pernas que teme criticar seus antigos ídolos. Uma esquerda que acha que para ser de esquerda é preciso ser lulista. Que não enxerga nuances dentro da esquerda (que era para ser um arco-íris político: basta ler os divergentes programas de todos os partidos que se dizem de esquerda no país). Que critica coisas nas manifestações contra Lula que ela não é capaz de criticar nas manifestações pró-Lula (atos violentos e ativistas ultrajantes que defendem medidas autoritárias, por exemplo). Uma esquerda que diz falar em nome dos menos favorecidos, mas que defende um corrupto que manda tudo às favas, é amigo dos empresários mais ricos do país, permitiu que esses empresários mais ricos do país enriquecessem assustadoramente em seu governo e criou um Instituto de fachada para receber dinheiro desviado dos cofres públicos. Uma esquerda que pensa que ao repudiar Lula estaria, por corolário, passando o café da elite que faz comprinhas na Karl Lagerfeld em Paris. É a mesma esquerda que em outras épocas dizia: "Existem diversas esquerdas! Somos a esquerda dos pobres, dos oprimidos, somos contra conchavos políticos com a burguesia!" Os milhões que as empreiteiras roubaram dos cofres públicos e foram parar no Instituto Lula para depois parar nos bolsos dos filhos de Lula (como "pagamento por serviços prestados") vieram de onde, queridos? "Das elites" que não pagam imposto por suas altas heranças porque o governo não mexe nas heranças da elite? Ou do povo que paga impostos diariamente porque consome diariamente num governo que arrecada o grosso dos seus impostos em cima de bens de consumo? Empreiteiras investigadas na Lava-Jato doaram, juntas, milhões ao Instituto. Um dos filhos de Lula, Fábio, que possui uma empresa de tecnologia digital, recebeu do Instituto mais de um milhão de reais por serviços realizados. O Instituto recebe milhões não só de empreiteiras, mas de bancos (Bradesco, Santander, Itaú) e de grandes empresas (recebeu 2,5 milhões da J&F Investimentos, dona da Friboi). É preciso usar dois tapa-olhos para não enxergar o óbvio ululante. Já escrevi isso algumas vezes e repito: se nem almoço grátis existe, por que alguém doaria milhões, sem querer contrapartida, ao instituto de um ex-presidente que tem muita força política? E como é que existe gente "de esquerda" defendendo isso só para não dar o braço a torcer?

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Não dar o braço a torcer. Essa vaidade me parece o maior motivo para os lulistas não pararem de defender seu líder. Contra fatos há argumentos, porque eles acham que não existem fatos (apenas “interpretações”) e que provas obtidas ilegalmente demonstram o quanto o ex-presidente é inocente. 

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E aquele seu amigo esquerdo-lulista no lado esquerdo do peito que nega estar defendendo o ex-presidente, mas apenas se manifesta sobre possíveis abusos do Judiciário? É de se perguntar: “se tivessem divulgado na mídia, sem poder, o mesmo tipo de prova ilícita contra o Cunha, Fulano arderia tanto em nome da Constituição?” Se alguém leigo está, nesse momento de teatro desmoronado, tomando mais dor pelo método do que pelo que foi obtido pelo método, eis o atestado: lulista. Seu amigo que nunca leu nem três páginas da Constituição e vem falando de “inconstitucionalidade dos atos” é lulista. 

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“Ex-assessor de Lula diz que engenheiro da Odebrecht pagou obras em sítio”. É mentira, dizem os fanáticos. “Polícia Federal encontra inúmeros bens pessoais de Lula e esposa em sítio, bens que não estariam na casa se o casal fosse mero visitante”. É mentira, eles dizem. “Lula é citado em delação de Delcídio”. É mentira, eles dizem. “Aécio é citado em delação de Delcídio”. É verdade, gritam eles. É verdade e isso está estampando os mal escritos, mal posicionados e até mal desenhados (!) jornais da mídia “isenta” e não-golpista: Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo. 

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Por falar em mídia isenta, todos conhecemos inúmeros “intelectuais” que defendem a imparcialidade e a honestidade da revista Carta Capital, a revista “que não é manipulada nem tenta manipular seus leitores”. Venho, há algum tempo, criticando essa convicção e alertando que a CC é tão posicionada quanto a Veja: por isso, é de bom tom ler as duas, sem medo de ler o que tem a dizer “o outro lado” (saber o que o outro lado pensa faz bem para arejar o cérebro de opiniões em bloco). Eu leio. Leio até a Caros Amigos, que vê opressão onde Freud via representação fálica: em tudo. E não é que em uma das ligações a seus satélites Lula declara que tinha conversado com Mino Carta sobre uma reportagem em seu benefício que a Carta Capital deveria publicar? Lula disse a Mino Carta para fazer assim e assado. Alguma notícia de que o editor tivesse recebido a ideia com contrariedade? Nenhuma. Há veículos midiáticos que até tentam buscar a neutralidade, apesar de ela ser um dom inalcançável. E há veículos que nem tentam, mas falam que tentam: e os leitores acreditam que estão diante de um oráculo. 

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Lula, aquele que beija crianças pobres suadas em pose para fotos, é defendido das manifestações contra seu partido: “a manifestação do dia 13 teve participação de gente branca de classe média que não suporta ver preto pobre pegando avião”. Explicando à Polícia Federal os gastos que envolvem suas palestras, o ex-presidente declarou que não pega aviões comuns para fazer seus discursos caríssimos: “se quiser me contratar tem que pagar avião, senão não contrata”. Se é assim que vive um homem do povo, como vive um homem burguês? Não, Lula não precisa comer arroz, feijão e farinha num prato Duralex lascado para provar que de fato é um homem popular, mas esses aviões são um exagero. Mais um pouco e estaria colecionando carros, como Fidel. 

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Os comedores de mortadela negam que Dilma deu um ministério a Lula para que ele pudesse fugir das investigações, pois ele continuará como investigado, só que agora pelo STF. Da investigação de modo geral Lula podia até não pretender fugir, mas fugia de uma possível prisão cautelar e é por isso que o termo de posse deveria ser usado “em caso de necessidade”. Já quanto ao STF, Lula comprovou numa de suas divertidas e desbocadas ligações que se acha capaz de influenciar os ministros desse Supremo Tribunal, e por isso recomendou a Jacques Wagner, o "carregador de documentos", que dissesse a Dilma para ajeitar coisas com a Ministra Rosa Weber. Não duvido da idoneidade da ministra – apesar de também não considerá-la infalível em seus anseios humanos –, mas Lula parte de uma coisinha que é muito incômoda na nossa Constituição, que é a prerrogativa do presidente para escolher os ministros do STF. O presidente escolhe os ministros que irão julgar seus crimes, se um dia vier a cometê-los: dos 11 que estão lá hoje, 8 foram escolhidos por Lula e Dilma. Desses 8, o que mais me intriga é o Toffoli, claro, porque o cargo de Ministro do STF pede reputação ilibada e notáveis conhecimentos jurídicos, sendo que Toffoli prestou concurso para a magistratura duas vezes e não foi aprovado (que notável conhecimento jurídico é esse que não o torna capaz de ser um juiz de primeira instância, mas o permite ser nomeado para ser ministro da terceira?). Antes de ser nomeado ministro, quem era Toffoli? Advogado de longa data do Partido dos Trabalhadores. Eu quero crer que os membros do STF não se sintam na necessidade de “retribuir favores” aos presidentes que os indicaram para o cargo que ocupam. Quero crer que não se preocuparão se Lula os chamar de “ingratos filhos da puta”, que é uma expressão tipicamente sua. Mas Lula parece achar que tem poder de lábia não só com seus discípulos e os miolos de nozes da CUT, mas com aqueles que podem vir a julgá-lo. Espero que seja só prepotência da parte dele avaliar o Supremo dessa forma.