domingo, março 13, 2016

Explicando o Brasil atual a estrangeiros em 5 minutos


É um país conhecido pelo histórico de corrupção, que é “cultural”. Mesmo assim, é permitido que empresas privadas doem dinheiro para campanhas políticas. E elas doam milhões para vários partidos. Coincidentemente, essas empresas têm se tornado cada vez mais ricas com medidas tomadas pelos governos que elas patrocinaram. Seus cabeças dizem que os milhões que doam são almoços grátis. Um ex-presidente é investigado por quem sabe ser o dono de um apartamento cuja reforma ele e a esposa acompanharam. A reforma foi paga por uma empreiteira investigada num grande esquema de corrupção envolvendo nomes ligados à coisa pública e nomes ligados à coisa privada, porque o Brasil não sabe diferenciar bem as duas esferas. O mesmo ex-presidente vivia passando finais de semana num tal sítio que não é dele, segundo ele mesmo, mas que pertence ao sócio de um dos filhos dele. O sócio, suposto dono do sítio, parece não morar lá. O ex-presidente frequenta mais o sítio do que o próprio “dono”. Para reunir toda a lambança na qual o ex-presidente parece estar envolvido – incluam aí doações dos empresários mais ricos do país ao seu Instituto, os mesmos empresários que pagaram boa parte de suas palestras milionárias das quais, na era da tecnologia onde tudo é filmado, não temos nenhuma notícia de vídeo para comprovar que ocorreram –, puseram três promotores que ficaram conhecidos como “os três patetas” porque a acusação por eles apresentada foi muito mal feita. A inépcia dos “três patetas” serve, para os lulistas (lulistas são os que louvam o ex-presidente como uma espécie de deus que não pode ser contestado e investigado), como prova de que o ex-presidente é inocente de tudo que o acusam. Um dos promotores confundiu Engels com Hegel e citou um Nietzsche que ninguém sabia ser tão Rousseau: para os lulistas, mais uma prova de que o ex-presidente é inocente. Antes, ainda, o juiz encarregado de todo esse caso mandou o ex-presidente depor coercitivamente para poupar a sociedade e a justiça do berreiro que os adoradores e os execradores costumam fazer, após procissão, em todo lugar onde o ex-presidente apareça para prestar esclarecimentos. Uma medida errada do juiz, mas justificável. Para os lulistas, no entanto, a medida errada é prova cabal de que o ex-presidente é inocente. Nos palanques, o ex-presidente não explica objetivamente o patrimônio de seu instituto, o enriquecimento de seus filhos que se beneficiaram fartamente com medidas tomadas em seu governo ou por que tanto frequenta imóveis que não lhe pertencem. Tergiversa. Diz que está sendo perseguido pelas elites, sendo que nos governos de seu partido os bancos lucraram de modo absurdo, e lucraram ainda mais quando o povo brasileiro começava a viver o que chamamos de “crise política e econômica”. Diz que os ricos ainda não aprenderam a aceitar a ascensão de um ex-metalúrgico, sendo que o seu governo, dito “do povo”, não mudou o esquema de arrecadação de impostos: no Brasil, em vez de os ricos pagarem altos impostos em cima de sua renda, é a parcela pobre e média da população que sustenta o governo (e os ricos que o governo acalenta) quando consome produtos cuja carga de imposto é altíssima. Nem em governos “mais à direita” essa desigualdade brutal ocorre, mas o Brasil, com “seu governo de esquerda”, funciona assim. O primeiro contraponto ao ex-presidente e sua sucessora é um senador de centro-esquerda que construiu um aeroporto de milhões de reais no terreno de um tio. O aeroporto fica perto de uma fazenda do senador. O aeroporto é do Estado, mas fechado a chave pelos parentes do senador. O segundo contraponto é um ser aparentemente mitológico que defende o período da ditadura militar brasileira (quando pessoas eram perseguidas, torturadas e mortas, muitas vezes meramente por divulgar opiniões políticas contrárias à ditadura), a cura gay (para ele, o homossexualismo é uma aberração), a pena de morte e “os valores familiares e cristãos”, a saber: o retorno da década de 20, mas sem a Semana de Arte Moderna. Mulheres prepararão o café da manhã de seus maridos e filhos usando aventais, depois irão para o salão arrumar seus cabelos; maridos sairão para a fábrica com suas marmitas; os filhos levarão palmadas dos professores na escola e ao chegar em casa colocarão macacão e sairão por aí para brincar com estilingue ou pião. Um dos contrapontos a esse personagem mitológico que foi expulso do domínio de Zeus é um deputado homossexual (é importante citar essa informação porque foi do eleitorado gay que ele recebeu grande parte de votos e é por defender causas gays que ele é mais fortemente conhecido) que contemporiza a ditadura cubana, acha que Che Guevara foi um herói e, apesar de inteligente em algumas áreas, acha que o homem cultural é o lobo do homem cultural porque o selvagem era bom e a sociedade corrompe os espíritos e é em nome de todos esses bons corrompidos que a esquerda brasileira deve se erguer. Tomando conta do país onde política é negócio, temos uma presidente que viaja centenas de quilômetros para saudar um tubérculo, que brinca de bióloga justiceira e cria a espécie mulher sapiens, que quer ressuscitar um imposto que seu partido se orgulhava de combater antes de entrar no poder, que disse, em campanha, que sua candidata opositora traria fome e poder aos bancos se vencesse – quando essa presidente é, hoje, a responsável pela crise econômica e pela fortuna dos bancos –, que acha que ministérios a gente distribui a amigos (até pouco tempo, se sobravam amigos na distribuição, novos ministérios eram criados para que ninguém se chateasse), que demitiu um ministro porque ele não estava cerceando as investigações da Polícia Federal em cima de seus colegas de partido. Se essa presidente cai, uma pessoa que somente conhecemos após recente longa carta chorosa sobe. Se esse estranho é cassado com a presidente, quem sobe ao poder por 90 dias é o presidente da Câmara dos Deputados, um homem evangélico que considera a pílula do dia seguinte um crime, que sempre cobrou para estudar os interesses de empresários (interessados em vantagens públicas para suas coisas privadas), que negou ter contas no exterior, mas apareceu com uma polpuda conta na Suíça, e que diz que jamais renunciará à presidência da Câmara porque ela é sua em nome de Deus. Se a presidente cair só a partir do ano que vem, teremos eleições indiretas: o Congresso, composto de boa parte de sujeitos investigados por diversos crimes, decidirá quem será o novo presidente do país dentro de 30 dias. Eleições indiretas com um Congresso como o nosso é o que podemos chamar de golpe: golpe ao povo brasileiro. Esse é o atual Brasil. Os brasileiros? A maioria acha que é errado ser contra todos esses personagens envolvidos em corrupção, e que é preciso escolher: ou você é “nós” e defende o imaculado ex-presidente, ou você é “eles” e acha certo aquele aeroporto mal explicado, a militarização das escolas e a bancada evangélica. Se você disser que é contra todos esses corruptos, não adiantará de nada: o Nós e o Eles decidirão por você de que lado você está. Entre Nós você será Eles. Entre Eles, você será considerado um Nós. Difícil se situar? Sinta-se Daniel na cova com todos esses leões.