quinta-feira, março 31, 2016

Veganos nas Américas: Santiago (Chile)


E continuo viajando quando posso. Não há segredo: não sendo pobríssimo, tendo disciplina, algum inglês, vontade de fato (e não o exaustivo “um dia quero ir para a França” repetido todo ano há anos por quem nunca se esforça para transformar essa tagarelada em realidade) e noção de prioridade, todo mundo pode viajar para outros países. Noção de prioridade, que é o tópico com o qual mais lido quando outras pessoas me olham como privilegiada porque viajo (mesmo pessoas que têm salário melhor que o meu, interessantemente): isso significa colocar o que é importante na frente do que é trivial. Parece simples, mas a aplicação costuma ser falha. Atentem, meus caros: eu poupo no que me é tolo para gastar no que me alegra. Não tenho carro, nem sei dirigir. Nunca fui a uma manicure – fazer minhas próprias unhas é terapêutico e carinhoso comigo mesma: melhor do que entregar minhas mãos para alguém que vai falar mal de mim quando eu sair do salão. Há anos corto meu cabelo – aquilo que consideraram desastroso há muito tempo não era inaptidão, mas propósito. Só tive um celular e só vou trocá-lo quando estragar – tenho saudade do tempo em que podíamos, todos, estar inacessíveis e dispostos a ouvir reclamações: “tô ligando pra você há quatro dias/ sempre aquela voz metálica repete/ deixe seu recado/ ou ligue depois”. Passei a imensa parte da minha existência sem plano de saúde: primeiro, porque éramos pobres; depois, por achar desnecessário; então, aderi alguns meses a um plano; saí do emprego e do plano; no momento voltei a estar sem plano por opção temporária – não que seja algo para se orgulhar; ocorre que estar sem plano, para mim, é como a lei da inércia. Não acho que o final de semana foi inventado para a gente sair de casa como um dever. Não acho que comer fora deva ser mais frequente do que cozinhar. Não tenho filhos. Saí da casa dos meus pais para vir morar com meu namorado e não queremos uma segunda morada ou uma sobressalente casa na praia. Mas eu economizo nessas coisas para gastar “à vontade” no que importa: viajo, compro livros com frequência, tenho uma máquina fotográfica de uma marca especializada em máquinas fotográficas e uma adega de uma marca especializada em adegas, compro orgânicos sempre que possível, ajudo protetores de animais. Não sendo rica, preciso optar. Se eu passasse a frequentar salões semanalmente, se eu quisesse comprar e manter um carro, se eu entrasse em pânico e achasse que preciso de um plano que me coloque no melhor quarto caso eu seja hospitalizada, se eu tivesse filhos, se eu pagasse aluguel, se eu trocasse de celular todos os anos e quisesse aderir aos modismos de todas as estações – se eu passasse a viver esse tipo de vida, eu não poderia viajar para a Alemanha ou comer tomate sem agrotóxico. Viajo, portanto, não por privilégio, mas porque isso está entre as minhas prioridades. Para atender prioridades, sacrificamos gastos com trivialidades. E felizmente a maioria das trivialidades às quais me referi não faz minha cabeça, então não sinto falta por não vivê-las. 

Em novembro do ano passado fomos para Santiago, Chile. O mote foi um show da banda turca She Past Away que ocorreria lá (do cenário contemporâneo, uma das minhas bandas preferidas). Foi a primeira vez que visitei um outro país da América do Sul, e era um pouco engraçado pensar que o Brasil estava logo ali e que para os chilenos aquilo tanto fazia. Ir para o Chile pode ter uma viagem mais curta do que a visita a certos estados brasileiros: 4h de avião. Minhas duas primeiras notáveis impressões: como os tetos dos prédios são baixos (os apartamentos parecem um amontoado de caixinhas de fósforo) e como colocam abacate em tudo. Não tenho nada contra o abacate, mas pedaços de abacate dentro de um cachorro-quente (vegano, évidemment) me parece um exagero ou uma modernidade à qual meu conservadorismo não poderá se adaptar. Para qualquer restaurante que você olhe – ético ou não – há algum prato com abacate. Eu sugeriria que trocassem essa base culinária por batatas, mas isso, é claro, se trata de puro arbítrio porque eu adoro batatas, e acho que elas são densas candidatas a criar a infraestrutura na qual se apoiaria toda uma gastronomia forte. Pareço estar falando de uma nova modalidade de governo. Estou apenas falando de batatas. 


(She Past Away - Gerçekten Özleyince: quem diz que "hoje em dia não se faz mais boa música" está ouvindo as rádios erradas.)

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

She Past Away, Santiago (Chile), Nov./2015

Descobri pelo caminho da dor que o abacate é para os chilenos o que a mandioca é para Dilma Rousseff. Fomos a um restaurante vegano, comemos dois pratos e pedimos cachorros-quentes para levar. Entre os ingredientes: “palta”. Tentamos deduzir o que era palta, e pelo contexto deduzimos que poderia ser batata palha, tão vezeira em cachorros-quentes. Mais tarde, com fome no hotel, abrimos as embalagens e encontramos pães recheados com mais palta do que salsicha. “Palta” é como os chilenos chamam o abacate (sim, eu também esperava que seu nome por lá fosse avocado). Se essas misturas são o futuro, nada é mais coerente do que eu voltar a fazer tricô (para quem não sabe, a maior parte da lã vendida em armarinhos é acrílica, ou seja, não provém de maus tratos a ovelhas: você pode ser vegano e tricoteiro). 

Fomos para o alto de um jardim para ver o
panorama; nos prédios, andares baixos

Resto do que devia ter sido
um agitado hotel/restaurante

Do trajeto para o Chile, recomendo que pelo menos um dos trechos da viagem seja feito durante o dia, pois do avião, próximo ao aeroporto, podemos ver a Cordilheira dos Andes, que é primorosa. Tirei inúmeras fotos da janelinha do avião: há partes em que a Cordilheira se assemelha a um bolo de chocolate cheio de açúcar de confeiteiro, há outras em que é possível ver, bem lá longe, pequenas vilas, e às vezes vemos lagos verdes – de um verde muito bonito – aos pés das montanhas. Perder essa vista é indesculpável. Voar em cima de algo tão sublime é maravilhoso. 

Trecho da Cordilheira dos Andes

Um dos lagos

Um bolo com açúcar? 

As cores são essas, mesmo



Tínhamos feito reserva num hotel barato na região central de Santiago. Esse hotel teve um problema de última hora no aquecimento e estava fora de funcionamento para hospedagens, então fomos transferidos para uma versão de “alto padrão” da mesma rede, sem custo adicional, em um bairro habitado pela classe média de Santiago: Las Condes, onde já moraram Augusto Pinochet, Salvador Allende e onde mora Michelle Bachelet. Se você tiver boas condições financeiras, é um excelente lugar onde se hospedar: calmo, arborizado, cheio de passarinhos cantando e pessoas andando com cachorros, além de vistas para as montanhas. Nós só nos hospedamos lá por sorte. Mas mesmo que você não se hospede nessa região, é um bom lugar por onde passear. Se a trilha sonora da parte comercial da cidade remete a cacofonias comerciais, perambular por Las Condes faz lembrar baladas ternas da Cat Power, como He war

Eu seria totalmente incompetente para criar um site sobre viagens narrando as minhas experiências. “Veganos na Europa” – e agora “Veganos nas Américas” – serve para recomendar os bons restaurantes que visitei em outros países, mas também acaba por ser um pretexto para falar essa coisinha mínima sobre o que me chama atenção dentro de cada cidade. Não visito todos os pontos turísticos e já troquei museus de arte importantes por caminhadas em bairros desconhecidos – eis uma viajante que está mais à procura de novos ares do que de roteiro fechado. Em Santiago, o único lugar cultural em que pagamos para entrar foi o Museu Pré-Colombiano, porque já saí do Brasil determinada a conhecê-lo (aliás, indico a visita). As outras “atrações” que visitamos eram gratuitas porque nas ruas: praças, jardins, parques públicos, construções. Não visitei catedrais, museus de arte, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos (talvez na próxima), a casa de Pablo Neruda (não tenho interesse nele). Às vezes tenho a impressão de que minhas viagens com o André são mais sobre horas de caminhadas e conhecimento de novos restaurantes do que sobre visitar cinco atrações por dia. Cada um tem seu jeito de fruição em viagens. Nosso jeito é terminar o dia com os pés latejando sob a mesa de algum restaurante vegano que sirva cerveja ou vinho. 

Tambor de madeira da Cultura Asteca, Museu
Pré-Colombiano (ou "Colombino")

"Mulher com pequeno animal nos
braços", Cultura Chavín

Mulheres e a sua importância para a
fertilidade da terra



RESTAURANTES VEGANOS

Com a popularização da internet, quase ninguém mais tem desculpa para desconhecer alguma coisa por ausência de acesso à informação. Às vezes me perguntam: “mas onde você acha receitas de bolo sem ovos?” Internet. Qualquer coisa que você coloque na internet com a palavra “vegano” atrás terá dezenas de receitas. Feijoada vegana, bife acebolado vegano, sorvete vegano. “E como você encontra restaurantes veganos em países desconhecidos?” Pelo HappyCow. Pesquiso sobre os restaurantes, copio o endereço, coloco no Google Maps e peço as direções para o local, com o hotel como ponto de partida e fazendo aparecer, por exemplo, as estações de metrô que ficam na região. Dou um print no mapa e salvo num tablet. Antes de ter tablet, eu imprimia os mapas. 

EL ÁRBOL

É um restaurante ovolactovegetariano, mas eu quis visitá-lo por ter várias opções veganas e ser muito elogiado. Em qualquer viagem priorizo restaurantes veganos, pois gosto de dar dinheiro para quem realmente se esforça para acabar com qualquer tipo de exploração animal, mas em certas cidades com poucas opções veganas costumo acrescentar à lista de mapas um ou outro local ovolacto. Gostei de tudo que comi – a maior parte saudável –, exceto uma entradinha de torradas e vinagrete em que havia coentro em vez de salsa no molho. Questão pessoal: até rúcula é mais saborosa que coentro. Os sucos são ótimos (peça sem açúcar), há opções de cervejas e vinhos (recomendo com louvor a cerveja feita em Valdivia, a Kunstmann) e as comidas preenchem páginas no cardápio. Pedimos sanduíches, arroz com tofu agridoce, petiscos de tofu temperado e torta. A torta era dispensável: muito doce. 

Entrada do El Árbol

Suco de abacaxi com hortelã; e tofu temperado

Arroz branco e tofu agridoce

Sanduíches

Parte do quadro de bebidas

Kunstmann, cerveja de Valdivia

Torta de chantilly

BUNKER

Foi onde pedimos os cachorros-quentes de abacate. Fora essa paltamania, gostei bastante do prato que almoçamos e amei o bolo crudívoro que comemos na sobremesa. Não sou nenhuma idólatra de doces (já fui: não existia ficar um dia sem pelo menos um docinho), mas gostaria muito de viver num mundo em que a maior parte dos doces fossem crudívoros. Bolos, tortas e trufas crudívoras são um pedaço do céu alaranjado num final de tarde fresco em meio ao silêncio. Vai comer em algum lugar vegano e existe opção de doce crudívoro? Peça. Nunca me arrependi. (Para quem não sabe, alimentos crudívoros só levam coisas cruas como frutas, castanhas e folhas: sem farinha, sem açúcar, sem nada que tenha sido refinado ou esquentado.) Tentamos voltar lá para comer hambúrgueres, mas estava fechado e havia apenas um classudo gato na janela. O lugar, todavia, é um pouco amedrontador para alguém que, como eu, tem horror a justiceiros sociais. O Bunker usa a língua do x (que sabichões que não estudam gramática chamam de “a língua inclusiva de gêneros”) – “meninxs”, etc. – e acha errado separar banheiros masculinos e femininos. É verdade, num restaurante pequeno isso pode dar certo, mas eu não quero encontrar um homem usando o mesmo banheiro que eu em uma rodoviária. Por todos os lados, avisos de que não toleram homofobia, racismo, etc. É verdade, também não tolero. O problema é que justiceiros sociais tendem a ter uma visão muito diferente do que sejam essas coisas: alguém contrário ao sistema de cotas raciais, por exemplo, é, para eles, racista. Tentei esquecer o desconforto por estar num lugar que possivelmente me considera culpada pelo massacre de pobres, índios e negros e foquei minha atenção na comida. Era muito boa. A moça que nos atendeu, todavia, era ranzinza. Talvez porque ache que mulheres empoderadas não têm a obrigação de serem simpáticas. Chilenos falam espanhol de forma acelerada e demos a entender que não estávamos entendendo muito bem o que a atendente dizia. Ela não fez questão de explicar com maior lentidão. Fizemos o pedido sem saber exatamente o que viria. Uma outra moça que atendia outras mesas, contudo, era muito prestativa. Uma mulher que ficava no balcão e imagino ser a dona do lugar também era simpática. Na questão do atendimento, fomos azarados. Ponto negativo nas bebidas: sem cerveja e sem vinho. 

Bunker Vegano

Batatas, seitan, salada e suco

Área de sobremesas

Torta crudívora de amendoim e frutas

SHAKTI – COCINA DE VANGUARDA

Lugar pequeno. Cardápio muito reduzido. Mas tudo muito saboroso. Ao voltar a Santiago, é certeza que voltaremos lá. Sucos saborosos, comidas caprichadas. Acho que os donos são um casal: ela atende, ele cozinha. Recomendo o cannelloni bicolor e o cuscuz (vai coentro e coentro em espanhol é cilantro: cuidado, se não gosta, peça sem). O cardápio pode sofrer alterações com as temporadas. 

Sucos

Cannelloni bicolor

Cuscuz

PLANTA MAESTRA

Gostaria de declarar que reggae me causa mal estar físico. É um gênero musical que me incomoda tanto que ao ser obrigada a ouvi-lo perco, temporariamente, meu senso de humanidade. Gosto de bandas com influência reggae – Bad Brains, The Clash, Police –, mas me sinto muito mal com o reggae na sua versão “pura”. Tenho horror a reggae. Muito bem, há dois Planta Maestra em Santiago e nos dois só toca reggae no seu estilo mais horrível. Sei que pareço dramática, mas não tenho intenção nenhuma de voltar a um lugar com esse tipo de programação. “A comida não salva o local?” Na minha opinião, não. André não achou que fosse fantástica, mas também não achou ruim e voltaria. A lasanha de molho vermelho era pouco saborosa e estava fria. As empanadas eram uma massa básica com um recheio preguiçoso. Para beber, chá ou um suco ralo. Junto ao pedacinho de “restaurante” – parece-se mais com uma lanchonete – há um mercadinho. Por ele o lugar pode valer a pena, já que há vários itens veganos empacotados (molhos, temperos, biscoitos) e uma pequena seção de hortifrúti. A única boa coisa que eu trouxe de lá foi uma sacola para compras estruturada e forte. Pode não ser tão ruim para quem gosta de reggae. Se for seu caso, arrisque. De minha parte, não gosto de ter refeições em estado depressivo induzido por música ruim. 

Mercadinho de uma das unidades
do Planta Maestra

Lasanhas frias que não empolgam

PS: o show do She Past Away foi num lugar pequeno e com pouca gente (o lugar estava lotado por ser pequeno). Mas foi sensacional. Todo mundo que estava lá parecia adorar a banda e estar muito feliz por vê-la tocando no Chile.

domingo, março 20, 2016

Rápidas e soltas 08: Últimos comentários políticos deste mês (porque esse blog não é sobre política e me agradam outros assuntos)


Não vejo solução política para o país. Se vivêssemos num regime absolutista e decidíssemos nos insurgir contra o monarca, o monarca e sua trupe pomposa estariam depostos e pronto. Mas nosso sistema político é tão podre e emaranhado (se ao menos fosse apenas emaranhado…) que ao nos livrarmos de um sem-vergonha logo brotam outros quatro. Sai Dilma, arrogante e mentirosa (em parte por si, em parte por coação de seu partido, em parte por ordem de João Santana), entra Temer, arrogante e mentiroso, suspeito de n conluios. Se Temer cai com Dilma, entra temporariamente na presidência Cunha, enterrado até o pescoço com sua arrogância, suas mentiras e sua fortuna (em viagens internacionais, esse Riquinho de Bíblia na axila gasta em poucos dias em hotéis luxuosos o equivalente a mais de um mês de seu salário como deputado: para ele, Jesus não multiplica peixes, mas dinheiro). Se todos caírem no próximo ano, um Congresso corrupto (na Câmara dos Deputados, quase um terço da casa responde a processos criminais) decide quem vai governar o país. Se pudéssemos, hoje, escolher para a presidência alguém íntegro, ele estaria ilhado no Planalto: sem partidos aliados corruptos, nosso hipotético candidato de caráter dificilmente chegaria à presidência; se chega, não pode fazer nada justamente porque não se aliou a bandidos, que como retaliação vetarão todas as suas medidas em prol do país. Os políticos que temos, todavia, são a cara do Brasil sem estudo e sem memória: é impossível entender onde estavam os pensamentos dos que elegeram Tiririca (seus projetos de lei são mais sobre circos do que qualquer outro tema) e Jandira Feghali (conhecida pelo histrionismo, quis ir à Lua quando Roberto Freire afastou seu braço numa sessão – “agressão à mulher” –, mas é defensora de regimes assassinos como o da Coreia do Norte – seu partido, o PCdoB, manifestou profundo pesar quando da morte do ditador Kim Jong-il: “anti-imperialista, construtor de um Estado próspero que atende às massas populares, promotor da paz e da solidariedade entre os povos”). As perguntas que se sobressaem nesse cenário são: 1. como teremos uma reforma política se os capazes de realizá-la – os políticos – não têm interesse nela? 2. como teremos uma reforma política com um povo votante que dá poder a indivíduos que enxergam política como negócio? As últimas reformas políticas que tivemos foram boas, é claro – abolição dos “showmícios” e das camisetas de candidatos que vestiam nossas mães quando iam à padaria –, mas foram reforminhas tão modestas que seu efeito dá apenas uma roçada nos pelos do peito do monstro da corrupção. Para entender a reforma política (que pode ser qualquer coisa com esse nome genérico), recomendo a leitura do didático livro Reforma política: o debate inadiável, do advogado e cientista político Murillo de Aragão (Editora Civilização Brasileira, 16 reais). 

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Há tantos políticos corruptos para se criticar que nos falta tempo, mas gosto das críticas especiais a Lula, porque combatê-lo é como combater uma seita. Cunha, por exemplo, é puro ranço, mas não vemos ninguém na internet urrando que ele é probo, nem vemos passeatas pró-Cunha. Chutar Cunha, agora, é como chutar gente morta (a expressão original é “chutar cachorro morto”, mas, vocês sabem, eu amo cachorros...). Já para os discípulos de Lula, suas ligações não bastam como prova para nada, nem no tribunal popular: ele é honesto. Se Lula declarar que conferia vantagens políticas aos empresários que doaram dinheiro para sua campanha ou ao seu Instituto, nem assim seus discípulos acreditarão: vão dizer que ele assumiu o que não fez por tortura, por cansaço, por heroísmo humilde; Dilma repetirá seu mantra de que entende a autodelação de Lula “porque já foi presa na ditadura militar”. Vladimir Safatle, que faz boas críticas a Alckmin e aos “governantes de direita”, parece só prestar para criticar o PT quando o Brasil não está polarizado (eu gostava muito quando ele chamava o PT de “esquerda zumbi”): em sua última coluna para a Folha, o filósofo critica a ilegalidade do juiz Moro ao liberar para a imprensa as ligações telefônicas íntimas do Sr. Lula, mesmo que parte delas diga respeito aos interesses da população. Não, Safatle não critica somente o vazamento de ligações irrelevantes para a investigação, como aquela em que D. Marisa, a primeira-dama mais insossa deste país, diz que os “coxinhas” que criticam seu marido são “esses que não conseguem comprar apartamento de 500 mil e ficam pagando prestações” (com esse esnobismo classista, esperamos vê-la entrevistada no Luciana By Night). Safatle critica todas as ligações, e os holofotes passam a ser para a inconstitucionalidade das escutas, e não para o conteúdo delas. O mesmo Safatle que achou correto Julian Assange, do WikiLeaks, expor ao mundo, ilegalmente, segredos de governos. O mesmo Safatle que não me recordo de ter defendido Demóstenes Torres (ex-senador pelo DEM cassado por suas relações com um bicheiro) em 2012 quando escutas ilegais foram colocadas em seu telefone e jogadas na mídia. Por mais que todas as ligações comprometedoras de Lula possam ser consideradas provas inúteis (porque obtidas por meios ilícitos) pela Justiça, com maiúscula, elas não deveriam ser consideradas inúteis para quem espera criticar ou elogiar políticos de maneira justa aqui onde não estamos vestidos de toga. Você, preocupado com a inconstitucionalidade das ações da Polícia Federal: se descobrisse que um estuprador assumiu seus crimes em ligações telefônicas gravadas por meio de escutas ilegais, o que faria? A) Mergulhado em seu amor à Constituição, mas também preso à moral, diria que as ligações não deveriam ser usadas como prova na Justiça, mas passaria a execrar o estuprador e torcer para que ele fosse incriminado por meio de outras provas; ou B) Mergulhado em seu súbito amor à Constituição, defenderia o estuprador em tudo porque o fato de ele ter sua intimidade violada é praticamente a prova de sua inocência, e esse desrespeito ao seu direito de defesa merece que você coloque uma camiseta com o rosto dele e vá para as ruas apoiá-lo. Acho lamentável quando cabeças deixam de servir à lógica para servir a fins partidários. Uma toupeira partidária ouve situações supostas e responde: “depende”. “Você é a favor de empresas doarem milhões de reais para ex-políticos?” “Depende: o político é de esquerda ou de direita?” “Você é a favor de homens acharem engraçado uma mulher ser chamada de puta e vagabunda?” “Depende: esses homens são de esquerda ou de direita?”

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Em seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome (Editora Três Estrelas, 25 reais), Safatle defende que “toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal” porque todo cidadão tem o direito de se contrapor ao tirano que usurpa o poder e impõe um estado de terror. Quando a resistência do povo ocorre porque o governante não cumpre o que foi estabelecido com esse povo, “o Estado de Direito é quebrado em nome de um embate em torno da justiça”. Parece justo: assino um contrato com um governante ao elegê-lo, mas depois de eleito ele não cumpre o combinado e isso me confere o direito de rebelião. A pergunta é: Dilma honra o contrato que firmou com o povo? Na minha opinião, não cumpre. Provada que sua campanha recebeu dinheiro desviado da Petrobrás, provada sua tentativa de obstrução à Justiça (nunca se cogitou que Lula fosse ministro: quando estão para prendê-lo preventivamente, Dilma resolve colocá-lo no ministério mais importante “para que pudesse melhorar o país”), provadas as pedaladas fiscais (nem estou citando as inúmeras mentiras de sua campanha desesperada): isso tudo não é algo que merece a insurreição do povo? Para Safatle, em teoria e livro, sim. Para Safatle, se fosse num governo do PSDB, que também deu pedaladas fiscais, sim. Para Safatle, no governo do PT, não, porque é golpe. 

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O caos que estamos vivendo servirá de lição para as próximas eleições? Quando surgirem candidatos frescos no cenário político, saberemos acompanhá-los para ver se merecem nossos votos outra vez? Errar uma vez na escolha de candidatos é normal, errar duas vezes é estupidez. Uma coisa que é muito simples de se perceber é a questão patrimonial dos candidatos. Aquele sindicalista que andava de Monza e nunca tinha viajado para fora consegue se tornar deputado. De repente, ele está com um carro importado, está todo mês em Miami e sua família se torna um requinte que faz passeios de jatinho. Isso é muito suspeito. O salário de deputado no Brasil é muito mais alto do que deveria ser, mas não torna ninguém milionário em poucos meses ou anos. Qualquer um que enriqueça com a política deve ser motivo de desconfiança. Antes de Lula se tornar presidente, seu filho Lulinha era monitor no zoológico de São Paulo. Um cargo modesto de renda modesta para um biólogo de origem modesta. Após o pai subir à presidência, Lulinha monta uma empresa de entretenimento, tem parte da empresa comprada pelo dono da construtora Andrade Gutierrez (exato, aquela envolvida na Lava Jato) por 5 milhões e, claro, torna-se um milionário. Por que antes da ascensão política do pai ele não criou a empresa? Por que uma construtora gigante teve interesse em comprar parte de uma empresa que acabara de nascer? Empresários são sovinas. Empresários não jogam dinheiro fora, não dão tiro no escuro. Todo e qualquer empresário que invista em políticos está esperando retorno. 

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Como feminista da segunda onda (tive que me resignar a me intitular assim, já que a terceira onda feminista é delirante, ressentida e despótica), achei desrespeitoso Lula debochar do fato de a Marta Suplicy ter sido chamada de “vagabunda” e “puta” por “coxinhas”. Mas não achei o fim do mundo a ironia dele. Esperei, claro, que a terceira onda fosse achar o fim de todos os mundos desta galáxia, pois a terceira onda vê estupro em potencial onde há elogio a um penteado. Parece que me enganei, pois grande parte da terceira onda, subserviente ao esquerdo-lulismo, defendeu Lula. “Grelo duro” não foi, para elas, rude, mas “um reconhecimento da coragem e da força da mulher”. Interessante. Por muito menos, se fosse outra figura política, teriam queimado lojas de sutiãs e marchado contra a violência de gênero na Avenida Paulista. 

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Juízes não são deuses neutros. Tanto é que podemos recorrer de suas decisões várias vezes e em muitos casos juízes de segunda instância (desembargadores) corrigem as decisões dos juízes de primeira. Um juiz que não concorda com outro sobre o mesmo caso expõe a humanidade da qual a justiça é refém. Normal. Por isso, é normal desconfiar das motivações de Moro. O que não é normal é usar de má-fé porque ele é o responsável pela investigação de alguém que consideram “mito” (são tantos mitos na política que estamos nos tornando a nova Grécia clássica), usando seu salário (que não foi decidido por ele) contra sua pessoa e mentindo sobre esse salário. Circula na internet, “com prints tirados do Portal da Transparência como prova”, que o salário de Moro é de 87 mil mensais. A malícia na legenda: “Esse é seu herói? Seu herói ganha 87 mil mensais”. Suspeitei. Sei qual é o salário de um juiz. Fui ao Portal da Transparência do TRF da 4ª Região e pesquisei os últimos salários de Moro. O de 87 mil é o bruto (o líquido foi 57 mil) de um mês (janeiro) em que ele recebeu inúmeras gratificações e função de confiança. Ou seja, um mês excepcional. O salário líquido de outubro? 15 mil. O salário líquido de novembro? 20 mil, que é a média do que ganha um juiz em início de carreira. É parte da etiqueta intelectual básica verificar bem as informações antes de semeá-las. 

sexta-feira, março 18, 2016

Rápidas e soltas 07: Esquerda dos banqueiros, Lula que não viaja de avião com pobre, STF


O que tem sido mais interessante a respeito dos recentes acontecimentos do país é que descobrimos uma esquerda com o rabo entre as pernas que teme criticar seus antigos ídolos. Uma esquerda que acha que para ser de esquerda é preciso ser lulista. Que não enxerga nuances dentro da esquerda (que era para ser um arco-íris político: basta ler os divergentes programas de todos os partidos que se dizem de esquerda no país). Que critica coisas nas manifestações contra Lula que ela não é capaz de criticar nas manifestações pró-Lula (atos violentos e ativistas ultrajantes que defendem medidas autoritárias, por exemplo). Uma esquerda que diz falar em nome dos menos favorecidos, mas que defende um corrupto que manda tudo às favas, é amigo dos empresários mais ricos do país, permitiu que esses empresários mais ricos do país enriquecessem assustadoramente em seu governo e criou um Instituto de fachada para receber dinheiro desviado dos cofres públicos. Uma esquerda que pensa que ao repudiar Lula estaria, por corolário, passando o café da elite que faz comprinhas na Karl Lagerfeld em Paris. É a mesma esquerda que em outras épocas dizia: "Existem diversas esquerdas! Somos a esquerda dos pobres, dos oprimidos, somos contra conchavos políticos com a burguesia!" Os milhões que as empreiteiras roubaram dos cofres públicos e foram parar no Instituto Lula para depois parar nos bolsos dos filhos de Lula (como "pagamento por serviços prestados") vieram de onde, queridos? "Das elites" que não pagam imposto por suas altas heranças porque o governo não mexe nas heranças da elite? Ou do povo que paga impostos diariamente porque consome diariamente num governo que arrecada o grosso dos seus impostos em cima de bens de consumo? Empreiteiras investigadas na Lava-Jato doaram, juntas, milhões ao Instituto. Um dos filhos de Lula, Fábio, que possui uma empresa de tecnologia digital, recebeu do Instituto mais de um milhão de reais por serviços realizados. O Instituto recebe milhões não só de empreiteiras, mas de bancos (Bradesco, Santander, Itaú) e de grandes empresas (recebeu 2,5 milhões da J&F Investimentos, dona da Friboi). É preciso usar dois tapa-olhos para não enxergar o óbvio ululante. Já escrevi isso algumas vezes e repito: se nem almoço grátis existe, por que alguém doaria milhões, sem querer contrapartida, ao instituto de um ex-presidente que tem muita força política? E como é que existe gente "de esquerda" defendendo isso só para não dar o braço a torcer?

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Não dar o braço a torcer. Essa vaidade me parece o maior motivo para os lulistas não pararem de defender seu líder. Contra fatos há argumentos, porque eles acham que não existem fatos (apenas “interpretações”) e que provas obtidas ilegalmente demonstram o quanto o ex-presidente é inocente. 

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E aquele seu amigo esquerdo-lulista no lado esquerdo do peito que nega estar defendendo o ex-presidente, mas apenas se manifesta sobre possíveis abusos do Judiciário? É de se perguntar: “se tivessem divulgado na mídia, sem poder, o mesmo tipo de prova ilícita contra o Cunha, Fulano arderia tanto em nome da Constituição?” Se alguém leigo está, nesse momento de teatro desmoronado, tomando mais dor pelo método do que pelo que foi obtido pelo método, eis o atestado: lulista. Seu amigo que nunca leu nem três páginas da Constituição e vem falando de “inconstitucionalidade dos atos” é lulista. 

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“Ex-assessor de Lula diz que engenheiro da Odebrecht pagou obras em sítio”. É mentira, dizem os fanáticos. “Polícia Federal encontra inúmeros bens pessoais de Lula e esposa em sítio, bens que não estariam na casa se o casal fosse mero visitante”. É mentira, eles dizem. “Lula é citado em delação de Delcídio”. É mentira, eles dizem. “Aécio é citado em delação de Delcídio”. É verdade, gritam eles. É verdade e isso está estampando os mal escritos, mal posicionados e até mal desenhados (!) jornais da mídia “isenta” e não-golpista: Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo. 

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Por falar em mídia isenta, todos conhecemos inúmeros “intelectuais” que defendem a imparcialidade e a honestidade da revista Carta Capital, a revista “que não é manipulada nem tenta manipular seus leitores”. Venho, há algum tempo, criticando essa convicção e alertando que a CC é tão posicionada quanto a Veja: por isso, é de bom tom ler as duas, sem medo de ler o que tem a dizer “o outro lado” (saber o que o outro lado pensa faz bem para arejar o cérebro de opiniões em bloco). Eu leio. Leio até a Caros Amigos, que vê opressão onde Freud via representação fálica: em tudo. E não é que em uma das ligações a seus satélites Lula declara que tinha conversado com Mino Carta sobre uma reportagem em seu benefício que a Carta Capital deveria publicar? Lula disse a Mino Carta para fazer assim e assado. Alguma notícia de que o editor tivesse recebido a ideia com contrariedade? Nenhuma. Há veículos midiáticos que até tentam buscar a neutralidade, apesar de ela ser um dom inalcançável. E há veículos que nem tentam, mas falam que tentam: e os leitores acreditam que estão diante de um oráculo. 

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Lula, aquele que beija crianças pobres suadas em pose para fotos, é defendido das manifestações contra seu partido: “a manifestação do dia 13 teve participação de gente branca de classe média que não suporta ver preto pobre pegando avião”. Explicando à Polícia Federal os gastos que envolvem suas palestras, o ex-presidente declarou que não pega aviões comuns para fazer seus discursos caríssimos: “se quiser me contratar tem que pagar avião, senão não contrata”. Se é assim que vive um homem do povo, como vive um homem burguês? Não, Lula não precisa comer arroz, feijão e farinha num prato Duralex lascado para provar que de fato é um homem popular, mas esses aviões são um exagero. Mais um pouco e estaria colecionando carros, como Fidel. 

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Os comedores de mortadela negam que Dilma deu um ministério a Lula para que ele pudesse fugir das investigações, pois ele continuará como investigado, só que agora pelo STF. Da investigação de modo geral Lula podia até não pretender fugir, mas fugia de uma possível prisão cautelar e é por isso que o termo de posse deveria ser usado “em caso de necessidade”. Já quanto ao STF, Lula comprovou numa de suas divertidas e desbocadas ligações que se acha capaz de influenciar os ministros desse Supremo Tribunal, e por isso recomendou a Jacques Wagner, o "carregador de documentos", que dissesse a Dilma para ajeitar coisas com a Ministra Rosa Weber. Não duvido da idoneidade da ministra – apesar de também não considerá-la infalível em seus anseios humanos –, mas Lula parte de uma coisinha que é muito incômoda na nossa Constituição, que é a prerrogativa do presidente para escolher os ministros do STF. O presidente escolhe os ministros que irão julgar seus crimes, se um dia vier a cometê-los: dos 11 que estão lá hoje, 8 foram escolhidos por Lula e Dilma. Desses 8, o que mais me intriga é o Toffoli, claro, porque o cargo de Ministro do STF pede reputação ilibada e notáveis conhecimentos jurídicos, sendo que Toffoli prestou concurso para a magistratura duas vezes e não foi aprovado (que notável conhecimento jurídico é esse que não o torna capaz de ser um juiz de primeira instância, mas o permite ser nomeado para ser ministro da terceira?). Antes de ser nomeado ministro, quem era Toffoli? Advogado de longa data do Partido dos Trabalhadores. Eu quero crer que os membros do STF não se sintam na necessidade de “retribuir favores” aos presidentes que os indicaram para o cargo que ocupam. Quero crer que não se preocuparão se Lula os chamar de “ingratos filhos da puta”, que é uma expressão tipicamente sua. Mas Lula parece achar que tem poder de lábia não só com seus discípulos e os miolos de nozes da CUT, mas com aqueles que podem vir a julgá-lo. Espero que seja só prepotência da parte dele avaliar o Supremo dessa forma.

domingo, março 13, 2016

Explicando o Brasil atual a estrangeiros em 5 minutos


É um país conhecido pelo histórico de corrupção, que é “cultural”. Mesmo assim, é permitido que empresas privadas doem dinheiro para campanhas políticas. E elas doam milhões para vários partidos. Coincidentemente, essas empresas têm se tornado cada vez mais ricas com medidas tomadas pelos governos que elas patrocinaram. Seus cabeças dizem que os milhões que doam são almoços grátis. Um ex-presidente é investigado por quem sabe ser o dono de um apartamento cuja reforma ele e a esposa acompanharam. A reforma foi paga por uma empreiteira investigada num grande esquema de corrupção envolvendo nomes ligados à coisa pública e nomes ligados à coisa privada, porque o Brasil não sabe diferenciar bem as duas esferas. O mesmo ex-presidente vivia passando finais de semana num tal sítio que não é dele, segundo ele mesmo, mas que pertence ao sócio de um dos filhos dele. O sócio, suposto dono do sítio, parece não morar lá. O ex-presidente frequenta mais o sítio do que o próprio “dono”. Para reunir toda a lambança na qual o ex-presidente parece estar envolvido – incluam aí doações dos empresários mais ricos do país ao seu Instituto, os mesmos empresários que pagaram boa parte de suas palestras milionárias das quais, na era da tecnologia onde tudo é filmado, não temos nenhuma notícia de vídeo para comprovar que ocorreram –, puseram três promotores que ficaram conhecidos como “os três patetas” porque a acusação por eles apresentada foi muito mal feita. A inépcia dos “três patetas” serve, para os lulistas (lulistas são os que louvam o ex-presidente como uma espécie de deus que não pode ser contestado e investigado), como prova de que o ex-presidente é inocente de tudo que o acusam. Um dos promotores confundiu Engels com Hegel e citou um Nietzsche que ninguém sabia ser tão Rousseau: para os lulistas, mais uma prova de que o ex-presidente é inocente. Antes, ainda, o juiz encarregado de todo esse caso mandou o ex-presidente depor coercitivamente para poupar a sociedade e a justiça do berreiro que os adoradores e os execradores costumam fazer, após procissão, em todo lugar onde o ex-presidente apareça para prestar esclarecimentos. Uma medida errada do juiz, mas justificável. Para os lulistas, no entanto, a medida errada é prova cabal de que o ex-presidente é inocente. Nos palanques, o ex-presidente não explica objetivamente o patrimônio de seu instituto, o enriquecimento de seus filhos que se beneficiaram fartamente com medidas tomadas em seu governo ou por que tanto frequenta imóveis que não lhe pertencem. Tergiversa. Diz que está sendo perseguido pelas elites, sendo que nos governos de seu partido os bancos lucraram de modo absurdo, e lucraram ainda mais quando o povo brasileiro começava a viver o que chamamos de “crise política e econômica”. Diz que os ricos ainda não aprenderam a aceitar a ascensão de um ex-metalúrgico, sendo que o seu governo, dito “do povo”, não mudou o esquema de arrecadação de impostos: no Brasil, em vez de os ricos pagarem altos impostos em cima de sua renda, é a parcela pobre e média da população que sustenta o governo (e os ricos que o governo acalenta) quando consome produtos cuja carga de imposto é altíssima. Nem em governos “mais à direita” essa desigualdade brutal ocorre, mas o Brasil, com “seu governo de esquerda”, funciona assim. O primeiro contraponto ao ex-presidente e sua sucessora é um senador de centro-esquerda que construiu um aeroporto de milhões de reais no terreno de um tio. O aeroporto fica perto de uma fazenda do senador. O aeroporto é do Estado, mas fechado a chave pelos parentes do senador. O segundo contraponto é um ser aparentemente mitológico que defende o período da ditadura militar brasileira (quando pessoas eram perseguidas, torturadas e mortas, muitas vezes meramente por divulgar opiniões políticas contrárias à ditadura), a cura gay (para ele, o homossexualismo é uma aberração), a pena de morte e “os valores familiares e cristãos”, a saber: o retorno da década de 20, mas sem a Semana de Arte Moderna. Mulheres prepararão o café da manhã de seus maridos e filhos usando aventais, depois irão para o salão arrumar seus cabelos; maridos sairão para a fábrica com suas marmitas; os filhos levarão palmadas dos professores na escola e ao chegar em casa colocarão macacão e sairão por aí para brincar com estilingue ou pião. Um dos contrapontos a esse personagem mitológico que foi expulso do domínio de Zeus é um deputado homossexual (é importante citar essa informação porque foi do eleitorado gay que ele recebeu grande parte de votos e é por defender causas gays que ele é mais fortemente conhecido) que contemporiza a ditadura cubana, acha que Che Guevara foi um herói e, apesar de inteligente em algumas áreas, acha que o homem cultural é o lobo do homem cultural porque o selvagem era bom e a sociedade corrompe os espíritos e é em nome de todos esses bons corrompidos que a esquerda brasileira deve se erguer. Tomando conta do país onde política é negócio, temos uma presidente que viaja centenas de quilômetros para saudar um tubérculo, que brinca de bióloga justiceira e cria a espécie mulher sapiens, que quer ressuscitar um imposto que seu partido se orgulhava de combater antes de entrar no poder, que disse, em campanha, que sua candidata opositora traria fome e poder aos bancos se vencesse – quando essa presidente é, hoje, a responsável pela crise econômica e pela fortuna dos bancos –, que acha que ministérios a gente distribui a amigos (até pouco tempo, se sobravam amigos na distribuição, novos ministérios eram criados para que ninguém se chateasse), que demitiu um ministro porque ele não estava cerceando as investigações da Polícia Federal em cima de seus colegas de partido. Se essa presidente cai, uma pessoa que somente conhecemos após recente longa carta chorosa sobe. Se esse estranho é cassado com a presidente, quem sobe ao poder por 90 dias é o presidente da Câmara dos Deputados, um homem evangélico que considera a pílula do dia seguinte um crime, que sempre cobrou para estudar os interesses de empresários (interessados em vantagens públicas para suas coisas privadas), que negou ter contas no exterior, mas apareceu com uma polpuda conta na Suíça, e que diz que jamais renunciará à presidência da Câmara porque ela é sua em nome de Deus. Se a presidente cair só a partir do ano que vem, teremos eleições indiretas: o Congresso, composto de boa parte de sujeitos investigados por diversos crimes, decidirá quem será o novo presidente do país dentro de 30 dias. Eleições indiretas com um Congresso como o nosso é o que podemos chamar de golpe: golpe ao povo brasileiro. Esse é o atual Brasil. Os brasileiros? A maioria acha que é errado ser contra todos esses personagens envolvidos em corrupção, e que é preciso escolher: ou você é “nós” e defende o imaculado ex-presidente, ou você é “eles” e acha certo aquele aeroporto mal explicado, a militarização das escolas e a bancada evangélica. Se você disser que é contra todos esses corruptos, não adiantará de nada: o Nós e o Eles decidirão por você de que lado você está. Entre Nós você será Eles. Entre Eles, você será considerado um Nós. Difícil se situar? Sinta-se Daniel na cova com todos esses leões.

quarta-feira, março 09, 2016

Textos dos outros: Polícia e política - Demétrio Magnoli (Folha)


Antes da coluna, breves comentários meus.

1. Demétrio Magnoli é desses colunistas que poderiam escrever opiniões totalmente equivocadas que, mesmo assim, valeria a pena ler o que escreve pelo modo como escreve. É mais ou menos o tipo de recomendação que faço aos críticos das ideias de Nietzsche – perigosas e anticientíficas –, que deveriam lê-lo como se fosse literatura: pode ser um louco, mas é um louco que escreve melhor que muito lúcido antiquado e adepto de secura jornalística. Só que Magnoli dificilmente se equivoca. Por ser crítico do atual governo, é persona non grata no meio petista que só enxerga duas cores na paleta: preto e branco (ou azul e vermelho, e eles insistem em dizer que o azul é “de direita” em vez de entender que só um partido de centro-esquerda teria adotado certas políticas paternalistas que FHC adotou). Magnoli define-se como adepto de uma “esquerda clássica” e por isso não é afagado pela esquerda brasileira, que pensa, à falácia do verdadeiro escocês, que um esquerdista genuíno precisa ser favorável a cotas raciais e aborto no oitavo mês da mulher empoderada (sou favorável ao aborto, mas não nos últimos meses em que o bebê já está formado; "meu corpo, minhas regras" tem limite).

2. Como pode um erro de procedimento transformar um político quase certamente corrupto (tento ser justa e presumir alguma inocência de alguém que ainda não recebeu sua sentença) em um coitado? Moro faz uma condução coercitiva, “sob vara”, de Lula para depor, erra nesse procedimento e petistas fanáticos passam a se apoiar nisso para defender o quanto ele está sendo perseguido mesmo não tendo feito nada, mesmo tendo como único crime “ter tirado milhões da miséria”. Que Lula seja elogiado se suas políticas públicas, baseadas nas políticas de FHC, continuaram a impedir pessoas de morrer de fome, mas isso não justifica que esconda patrimônio, trafique influências e faça sua diversão às custas de dinheiro público. Se o slogan popular “rouba, mas faz” não valia para Maluf, não deve valer para Lula. O procedimento: pode ter sido errado, mas era justificável, como bem explica Magnoli na coluna abaixo. O que os petistas queriam? Que fossem avisados antecipadamente sobre o depoimento de Lula, como aconteceu da última vez, para que pudessem se organizar e criar tumulto no lugar marcado, como aconteceu da última vez, e impedir o depoimento do ex-presidente, como aconteceu da última vez?

Antes de ser o poder, Lula criticava os programas assistencialistas do PSDB, dizendo que tinham finalidade eleitoreira porque o pobre pensa com o estômago. O vídeo já é um clássico: 



3. O amor cego a partidos políticos deve ser acessado no mesmo local cerebral que o amor fanático à religião, eu suponho. Para petistas, Lula é como Jesus: anda com bandidos, come com bandidos, frequenta a casa de bandidos – mas não é bandido. Sendo amigo íntimo dos empresários mais ricos do país, eu me pergunto o que um ex-metalúrgico que declara amor ao povo pobre tem em comum com esses empresários para que a amizade vá adiante. O mesmo time de futebol? O mesmo apreço pelo rococó? A mesma vontade de colecionar vinhos? Amigos costumam ter alguma coisa afim, nem que seja a devoção ao dinheiro.

4. Lula, teatrólogo, volta a falar de sua origem humilde em palanques. Os pobres isso, os ricos aquele outro. Mas os bancos nunca lucraram tanto como no governo do PT e quem já era rico se tornou ainda mais rico graças à errada arrecadação de impostos ou aos investimentos que o BNDES fez em empresas que já eram gigantes, como a JBS Friboi. Vale a pena ser rico num Brasil petista em que o grosso do imposto incide sobre o consumo e pouco incide sobre a renda; em que você que ganha cinco mil por mês paga a mesma porcentagem de imposto que aquele bilionário que faz dinheiro em cima de dinheiro. A revista Superinteressante, que tem sido bem amiga das pautas da esquerda ululante porque está na moda problematizar o modo como a chuva cai, até fez uma boa reportagem sobre isso na edição de outubro do ano passado. O Brasil é um dos países que menos arrecadam impostos em cima de grandes heranças e mais arrecadam no consumo: e são os pobres e a classe média que gastam seus salários mensais em consumo, sem ter dinheiro sobrando que os permita formar herança.

5. Dilma, petulante, fala uma coisinha que está na boca de todo petista que gosta mais de papagaiar do que de ler: que “nunca se investigou tanto nesse país”. Como se o mérito das investigações fosse dela, como se fosse ela a mandatária das ações da Polícia Federal. É muita ousadia querer colocar em seu currículo o resultado do trabalho alheio. Para esse e outros clichês petistas, é obrigatória a leitura desse artigo do Spotnik (“5 clichês que você está cansado de ouvir dos petistas sobre a Lava Jato”), que pode ser um site que às vezes levanta questões de modo exagerado (não gostei da análise sobre a regulamentação do sal nas mesas de restaurantes de Porto Alegre, onde meteram Hitler no meio), mas que em matéria de críticas às mentiras e ao vitimismo do PT está indo muito bem.

Agora, a perfeita coluna do Magnoli do dia 05 de março de 2016: 

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"A violência praticada contra o ex-presidente Lula é uma agressão ao Estado de Direito que atinge toda sociedade brasileira. A ação da chamada força-tarefa da Lava Jato é arbitrária, ilegal, e injustificável, além de constituir grave afronta ao Supremo Tribunal Federal." A nota do Instituto Lula acusa o juiz Sergio Moro, os procuradores e policiais federais de promoverem uma conspiração política. Uma nota divulgada pelo PT denuncia a suposta implantação de um "regime de exceção" pela força-tarefa da Lava Jato. A alegação é um escárnio, pois cada uma das iniciativas judiciais e policiais submete-se ao controle das instâncias superiores do Judiciário. Mas, de fato, num sinal agourento, o timing da condução coercitiva de Lula foi ditado pela política. 

Aqui, inexistem coincidências. A Operação Aletheia eclodiu na sequência da troca de guarda no Ministério da Justiça. Dilma Rousseff é responsável pela politização da polícia: segundo o próprio ex-ministro José Eduardo Cardozo, sua demissão derivou de pressões oriundas do PT pelo "controle da Polícia Federal", eufemismo para a interferência do Executivo nas investigações da Lava Jato. Cedendo às pressões e nomeando o indicado por Jaques Wagner, um "soldado de Lula", a presidente anunciou um confronto institucional. No fundo, passou a agir em obediência à providencial tese lulista do "regime de exceção". 

"Isso não é justiça, é uma violência", declarou o ministro Miguel Rossetto, acrescentando que a Aletheia "é um claro ataque ao que Lula representa, como liderança política e social". Rossetto emitiu a nota oficial adiantando-se a qualquer pronunciamento da presidente, com a finalidade de oferecer uma resposta à militância petista ou de precipitar um protesto formal do governo. Mas ele não é um Rui Falcão, pois está subordinado a Dilma. Sua permanência no cargo, após a nota, tem significado inequívoco: na vez de Lula, o Planalto insurge-se abertamente contra a Lava Jato. 

"É um exagero", reagiu o ministro Edinho Silva. Dilma, "inconformada", concluiu o raciocínio classificando como "desnecessária" a condução coercitiva de Lula. A crítica pública do Planalto a uma decisão judicial abre perigoso precedente: se vale no caso de Lula, valerá nos de João, Maria, José ou um tal de Cunha, o que nos conduziria até a ruptura do princípio da separação de poderes. Sob o lulopetismo, politizou-se a economia, a Petrobras, a identificação de quilombos, a demarcação de terras indígenas, o currículo escolar e até o Aedes egypti. A introdução da política no âmbito do sistema de justiça, esse passo nascido do desespero, assinala o outono de um projeto de poder. 

De qualquer modo, o argumento da "desnecessidade" merece exame. Há um mês, quando o Ministério Público de São Paulo intimou Lula a prestar esclarecimentos, os "movimentos sociais" petistas convocaram uma manifestação diante do Fórum Criminal da Barra Funda, no horário do depoimento. O cerco de um fórum pela militância partidária configura tentativa de intimidação de policiais, procuradores e juízes. Decidindo-se pela condução coercitiva sem aviso prévio, Moro jogou segundo as regras políticas impostas pelo PT –e acabou derrapando no barro da arbitrariedade. 

O Brasil não é a Venezuela. Por aqui, o "Estado de Direito" é definido pelo Judiciário, não pelo Instituto Lula, o PT ou mesmo o Planalto. A Aletheia sustenta-se sobre uma representação do Ministério Público Federal que aponta indícios de prova contra o ex-presidente. O fogo de artilharia disparado por Lula e pelos seus na direção da "imprensa golpista" pretende o que já não é possível: iludir um país inteiro. Se Lula crê que seus direitos constitucionais foram violados, resta-lhe procurar amparo nos tribunais superiores. Ou, como José Dirceu, erguer o braço e fechar o punho em desafio à democracia.