sábado, fevereiro 13, 2016

Textos dos outros: Vidas negras - João Pereira Coutinho (Folha)


Tenho inúmeras ressalvas aos textos do cientista político português João Pereira Coutinho. Primeiro, porque ele desdenha os direitos animais e uma das justificativas para isso é fajuta: ele “nunca gostou muito de animais", mesmo. Será que as pessoas que não gostam de crianças – porque as consideram chatas, manhosas, bobinhas – escarnecem dos casos de violência infantil doméstica e sexual? Duvido. E ninguém é obrigado a adorar cachorros para só então considerar que torturá-los e matá-los é errado. Portanto, JPC diz o que diz, não querendo refletir a fundo o assunto da ética voltada aos animais, porque, simplesmente, está conformado com o gosto da carne e com a aceitação coletiva da carne. “Todos comem, sempre se comeu e o sabor é ótimo!” Se fossemos sempre agir conforme sempre se agiu, ainda moraríamos em cavernas. Mas em nome de um capricho do paladar, o colunista não quer perder tempo com animais inferiores aos supremos humanos, que merecem tratamento diferenciado só porque sabem fazer cálculos e poesia. Adiante, então. O segundo motivo é a sua recusa em entender premissas básicas do feminismo velho. Por que chamo de “feminismo velho”? Porque a nova onda feminista é uma desgraça que quase só incita ódio, paranoia, ignorância e censura perpétua. O feminismo que eu defendo é outro: é aquele que deseja igualdade de condições para participar em todas as esferas da sociedade em que mulheres e homens queiram, e possam, participar, sem firulas, sem chamar o próprio pai de opressor porque ele penetra a mãe e sem esse retrocesso jurídico de querer que não seja necessário provar que se foi estuprada. É horrível ter sido estuprada há muitos anos num lugar isolado, querer denunciar agora e não conseguir reunir provas? É. Mas sabe o que também é abominável? Possuindo esta vida apenas, ser condenado por algo que não se fez, como ocorria na época do direito penal colonial. Há mulheres mesquinhas, mimadas e vingativas denunciando homens por estupro após términos de namoro e desinteresse, achando que isso é “empoderamento”. O feminismo novo que bate palmas para isso ou fica silente quanto a isso é danoso e parcialíssimo. Felizmente as adeptas desta modalidade de ódio ele-não-me-ligou-no-dia-seguinte-então-ele-é-machista não costumam gostar muito de estudar e dificilmente alcançarão cargos como juízas e desembargadoras. Julgar probleminhas de adolescente rejeitada não dependerá da sentença delas. Voltando: o feminismo velho, que eu defendo, é motivo de chacota para Coutinho. Acha ele que no Ocidente já temos direitos (objetivos e tácitos) iguais, que mulheres bonitas são uma graça e as feias, uma desgraça… essas conversinhas tolas de homens que pensam ter um reizinho no umbigo e querem julgar mulheres mais por sua beleza que por sua cabeça. Para contemporizar, solta uns elogios aqui e acolá à inteligência feminina, à sensibilidade típica das mulheres. É uma bajulação vazia e eu continuo com meu mantra: sempre cuidar com bajuladores muito exaltados. O cavalheiro que hoje te chama de deusa, rainha e presidenta entre quatro paredes pode amanhã te acusar de Geni e querer jogar pedras e bosta na sua face. Qualquer pessoa que nos ame de graça (ou quase) ou nos odeie de graça (ou quase) merece um ninho de pulgas atrás de nossas orelhas. Muita paixão costuma ser mau sinal. 

Mesmo assim, continuo lendo Coutinho (gostei de seu livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários, em que ele diferencia conservadores – como Edmund Burke – de reacionários caricatos – como Bolsonaro), principalmente porque ousa – em tempos delirantes e histéricos isso é uma ousadia – criticar extremismos do politicamente correto. A cada dia uma nova problematização barata e rápida (não analisada entre uma cachimbada e outra numa escrivaninha particular) surge para acidificar os ânimos: é a esponja com cabelo black power de um reality show (sendo que a mesma linha tinha uma esponja com moicano e uma esponja com a cabeleira de uma rainha), é o pai vestido de Aladim que deveria perder a guarda do filho adotivo negro porque fantasiou esse filho de macaquinho Abu no carnaval (porque, vejam só, era o personagem preferido do filho), dentre outras inúmeras catástrofes que assolam a vida de oprimidos vitalícios. E a coluna do Coutinho de 26 de janeiro para a Folha é sobre qual polêmica? Aquela que diz que negros não foram indicados ao Oscar por racismo e que por isso o evento deveria ser boicotado. Ei-la: 

*

“Há falta de negros em Hollywood? Parece que sim. A Academia indicou 20 nomes para o Oscar de melhor ator, melhor atriz e melhores atores coadjuvantes. E, entre os eleitos, não há um único negro.

Quando li o nome dos indicados, confesso que não pensei no assunto. Quando começaram a surgir as primeiras críticas, limitei-me a fazer a mesma pergunta que a atriz Charlotte Rampling (indicada ao Oscar por um papel notável no bergmaniano "45 Anos") partilhou com uma rádio francesa: e se os desempenhos dos atores negros não atingiram em 2015 certos patamares de excelência?

Heresia. Se não existem negros na corrida, isso demonstra o intrínseco racismo de Hollywood, que persiste em desprezar as minorias. A solução passa pelo boicote à cerimônia.

Respeito a indignação dos simples. Mas, depois da indignação, talvez não fosse inútil olhar para alguns fatos. A revista "The Economist" fez o trabalho duro e chegou a uma conclusão severa: o número de atores negros indicados ao Oscar durante o presente século está em sintonia com o número de negros que compõem a sociedade americana.

Se os negros, demograficamente falando, constituem 12,6% dos habitantes do país, a verdade é que tiveram 10% das indicações ao Oscar de interpretação nos últimos 15 anos.

Se existem minorias sub-representadas na conta final, são os hispânicos, e não os negros, os verdadeiros perdedores: representam 16% da população geral — e apenas contam para 3% das indicações ao Oscar em igual período.

Claro que, para a "Economist", a existência de discriminação não estará na Academia propriamente dita, embora a composição dos membros (6.000, dos quais 94% são brancos) deveria ter acompanhado a evolução demográfica da nação.

A discriminação, a existir, está nas escolas de formação dramática e nas agências de casting. Mais números: o Screen Actors Guild (ou, para facilitarmos o latim, o sindicato de atores) é majoritariamente composto de brancos (70%), o que reflete bem a cor da pele dos profissionais que saem das escolas dramáticas.

Além disso, e em matéria de "top roles" (papéis principais), só 15% das minorias (hispânicos, negros, asiáticos etc.) estrelaram os filmes desde o início do século.

Agradeço os números. Mas, em relação a eles, confesso dúvidas. Será assim tão bizarro que 70% do sindicato de atores seja composto de brancos —quando, escusado será dizer, os Estados Unidos são uma nação majoritariamente branca (acima dos 63%)?

Em relação aos "top roles", é um fato que as minorias só conseguiram 15% dos papéis principais, o que se traduziu em 15% das indicações ao Oscar e 17% das vitórias.

Mas, ao mesmo tempo, os atores negros estão sobrerrepresentados nessa cota: eles ocupam 9% dos "top roles", com 10% das indicações ao Oscar e 15% das vitórias. Se alguém merece protestar na noite do Oscar, não são os negros. São os hispânicos, os asiáticos e, convém não esquecer, os povos nativos.

Seja como for, os delírios do pensamento politicamente correto sempre foram imunes à realidade. E a Academia já prometeu repensar as indicações ao Oscar de interpretação. Exemplo: será razoável indicar cinco atores quando é possível estender o manto para dez?

Boa pergunta. Imperiosa resposta: por que motivo ficamos nos dez e não avançamos imediatamente para 50? Ou cem? Ou até 500?

Aliás, para evitar qualquer discriminação, a Academia deveria indicar todos os atores que trabalharam no ano anterior, o que permitiria não esquecer ninguém e incluir todo o mundo.

Naturalmente que um esquema radicalmente igualitário como esse poderia inaugurar novas polêmicas: como falar de igualdade quando 70% dos atores continuariam sendo brancos?

Talvez a única solução seja estabelecer limites para o número de atores brancos que podem atuar em filmes.

Os restantes, se quisessem continuar em jogo, poderiam sempre pintar o rosto com graxa e imitar, no fundo, uma prática corrente da Hollywood primitiva: o "black face".

O que não deixaria de ser irônico: nas primeiras décadas do século passado, o "black face" era a suprema forma de exclusão e racismo.

Em 2016, pode ser a solução perfeita para o equilíbrio dermatológico perfeito.”