quarta-feira, janeiro 20, 2016

Canções 02: David Bowie


Eu estava despertando no meio de uma porção de caixas (a reforma é todo esse vilão de que falam, sim: tudo estava previsto para encerrar até 11 de dezembro, mas estamos quase em fevereiro e os móveis da cozinha e dos quartos ainda não foram instalados) e a primeira coisa que meu namorado disse foi: "tenho uma notícia ruim, um cantor de que você gosta morreu". Na hora eu sabia que era David Bowie. Há anos eu planejava que se ele voltasse a fazer shows e viesse ao Brasil eu pagaria nem que fosse quatrocentos reais para vê-lo. Seu fígado, que durou até demais, não permitiu que nosso encontro fosse possível.

Bowie e eu em Estocolmo (2013)

Sempre achei que eu choraria quando Bowie morresse. Ele vem embalando minha vida desde a infância, num tempo em que suas músicas tocavam na Antena 1 e eu não sabia que eram dele, pois não sabia quem era ele. Virei a adolescência tomando seu estilo como referência, e mesmo sem alcançar o laço das suas plataformas fui chamada por anos de esquisita por querer andar por aí como se fosse uma artista. Bowie sempre teve o adjetivo que eu almejava: "excêntrico". Essa coisa de às vezes ser homem, às vezes ser mulher sempre me fascinou, porque também cresci querendo adotar todos os papéis de gênero: a vida é mais divertida quando é tomada como um tipo de teatro em que você interpreta quem quiser sem amarras, e tanto Bowie quanto eu queríamos vestir vários personagens. Ele: magnífico, estiloso, digno de pôster para cada nova maquiagem, cada novo terninho, cada sorriso de dentes tortos e pontiagudos. Eu: desajeitada, falida, com trajes de brechó da década anterior e julgada numa cidade de cafonas (no sul conhecidos como "colonos"), sendo chamada de loira do cabelo Bombril e apontada: "se veste como um menino". Eu queria essa liberdade de estilo que Bowie tinha para usar e cantar o que quisesse. Mesmo assim, com uma ligação sentimental tão intensa, não chorei sua morte. Talvez ainda vá chorar. Quando Michael Jackson morreu é que descobri o quanto gostava dele, mas não chorei nem no dia da morte, nem no dia seguinte. Até ouvir Got to be there, do Jackson 5, e começar a me desesperar em lágrimas lembrando o quanto ele fora uma criança carente que se transformou num homem carente cheio de problemas. Algum dia desses, bebendo vinho e ouvindo músicas tristes do David Bowie, talvez eu chore. Do dia seguinte para cá, só consegui pensar em duas coisas: que é estranho estar num mundo onde Bowie não vive mais; e que ele contribuiu, diariamente, com seu sagrado sanduíche de presunto, para o massacre de animais. Às vezes temos que separar o artista de sua conduta para poder continuar a apreciar sua obra. Tenho devoção por porcos, estão entre meus animais preferidos, e me doeu demais ler na Folha, há um ou dois anos, que Bowie ia todos os dias à mesma lanchonete para comer o mesmo sanduíche de presunto. Recriminei esse hábito pessoal, mas continuei a apreciar o cantor. Da mesma forma, tive que separar Polanski, o cineasta, de Polanski, o estuprador de menores, para poder admitir que gosto de inúmeros filmes dele. Deus da carnificina é uma história simples, mas ótima (há pessoas que reclamam de filmes com muito diálogo, coisa que não compreendo). Bowie, o comedor de presunto, me causa enjoo. Bowie, o cantor, o criador de modas, o ator, me causa ternura.

Colherzinha de bolso que Bowie usava para cheirar
cocaína - Exposição do MIS em 2014 (A foto está
granulada porque foi tirada com meu celular que
me acompanha há 8 anos)

Basta que um artista famoso morra para que "fãs" apareçam aos borbotões. Não acho que admiradores precisam saber a cor preferida do artista e citar os nomes de todos os seus álbuns de cabeça, mas o outro extremo também é cabuloso: um dito de David Bowie que não lembra, sem consultar, de pelo menos dez músicas dele não é fã coisíssima nenhuma (faça o teste consigo mesmo e avalie se não é apenas um farsante que só lembra de Starman, Heroes, Space oddity e Let's dance). Da última vez que os Rolling Stones vieram para o Brasil, qual era a única música deles que os entrevistados pelos jornais (geralmente "famosos") sabiam cantar? (I can't get no) Satisfaction, que é uma das canções mais chatas de todos os tempos. Eram fãs de fato que iam aos shows? Na sua maioria, eram apenas os famigerados poseurs que nunca puseram Gimme shelter, Jigsaw puzzle ou Paint it black para ouvir em casa. Também é bom lembrar: fãs ouvem álbuns, e não apenas músicas soltas. Álbuns, que representam a obra completa de um momento; álbuns, que contam histórias; álbuns, que procuram, muitas vezes, criar sentido entre as canções, tanto é que artistas fazem questão de que certas músicas venham antes de outras. Eu nutriria profundo desprezo se alguém dissesse me adorar porque leu dois capítulos de um livro meu de quinze capítulos. Por que bandas e cantores não desprezariam supostos "fãs" que não ouvem seus álbuns por inteiro e conhecem apenas sucessos de rádio? 

Sendo um camaleão, Bowie tem diversas músicas para os mais variados momentos. Até músicas chatíssimas ele tem, como Dancing in the street, que canta com Mick Jagger (em cujo clipe Jagger faz danças que certamente influenciaram Chandler Bing). Música para avós, como Absolute beginners (a menos, claro, que seu avô seja um purista que acha que a música devia ter ido somente até o jazz). Música que parece ter sido feita para ouvir no Texas, como Andy Warhol. Música para piano, como a belíssima Life on Mars? Músicas que são boas, mas que tocaram tanto que nos cansaram, como Rebel rebel. Abaixo, segue uma curta seleção minha de músicas que farão com que eu sinta muita saudade do talento gigantesco de seu criador. 

DJ (Lodger, 1979)
"I am a DJ, I am what I play/ Can't turn around, no, can't turn around, huu"
Música do álbum Lodger, que pertence à trilogia de Berlim (não porque gravada em Berlim, mas porque Bowie morava lá nessa época). O clipe é viciante.



Look back in anger (Lodger, 1979)
"You know who I am, he said/ The speaker was an angel..."
A trilha sonora de Christiane F. (1981) é toda do David Bowie, e essa música está lá. Linda, empolgante, jovial. O clipe parece ter uma leve alusão a Dorian Gray, mas se tiver que ver alguma coisa enquanto ouço a música, prefiro o trecho do filme ao clipe.



Repetition (Lodger, 1979)
"Johnny is a man/ and he's bigger than her"
Também do álbum Lodger, descobri essa música em um CD-coletânea do Bowie que comprei nas Americanas quando estava no ensino médio. Era um tempo em que eu tinha tão pouco dinheiro que andava um bocado maltrapilha, então imagino que devo ter deixado de comprar uma das apostilas do colégio para poder comprar o CD. Música pouco lembrada, pouco tocada, sem grande clímax, mas que considero muito agradável na melodia. Já na letra... a "repetição" parece se referir ao cotidiano de Johnny, um homem machão que bate em sua esposa.



Speed of life (Low, 1977)
Música instrumental, a primeira do Low, o que faz muito sentido. Como boa parte das músicas instrumentais, tende a combinar com mais momentos do que músicas cantadas. Se tivesse um programa de rádio, eu a manteria de fundo. (Tudo bem, ou ela, ou a Saturate, do Chameleon, que é uma banda progressiva dos anos 70 de carreira bem curta e tem essa canção que é uma viagem lisérgica.)



Criminal world (Let's dance, 1983)
"What a criminal world/ The boys are like baby-faced girls"
Essa música é, na verdade, de uma banda inglesa chamada Metro. Sempre me pareceu que Bowie fazia sua versão bem sensualizada, o que criou um resultado divino que me dá vontade de dançar em meia-luz enquanto beberico um cálice de vinho. Como não tem clipe, já criei em minha mente uns dez tipos de clipes para ela.



Ashes to ashes (Scary monsters, 1980)
"Ashes to ashes/ Funk to funky/ We know Major Tom's a junkie [...] My mama said to get things done/ You'd better not mess with Major Tom"
Essa música tem tantos significados atribuídos que nem me permitirei escolher um versinho para desenrolar discursos. Gosto de músicas muito mais pela sonoridade do que pela letra, e se a letra for ruim, mas a sonoridade das palavras cantadas for boa: ótimo, perfeito. Há músicas com letras espetaculares que têm uma melodia de passar mal. Nesse caso, os autores delas deveriam ter se metido em poesia, não em música. Música, para mim, é como pintura: não me interessa tanto o que está pintado, e sim a beleza do que está na tela. Há quadros "sobre as amarguras da guerra" que parecem rabiscos pueris. Há quadros sobre uma mulher tomando sopa numa mesa que têm beleza arrebatadora. Com uma letra cheia de microvilosidades e devaneios drogados (Bowie ainda usava drogas em 1980? Não sei.), tudo o que me importa de Ashes to ashes é sua melancolia melodiosa. (Existe clipe, mas não consegui colar aqui. Bug do Blogger.) O final "My mama said..." é de chorar.



Pretty thing (Tin Machine, 1989)
"Tie you down/ Pretend you're Madonna/ Never gonna treat you wrong"
No final dos anos 80 Bowie criou uma banda chamada Tin Machine, que gravou dois álbuns. Considero os dois álbuns muito bons e Pretty thing (não confundir com Oh! You pretty things) é a minha preferida. Sensualíssima.



Comecei a postagem dizendo que não tinha chorado a morte de Bowie. Da morte para cá eu não tinha ouvido nenhuma música dele. Enquanto escrevia aqui, fui ouvindo as músicas que selecionei. E é claro que chorei. Já sinto muito a sua falta. Como não sentir falta de alguém que é, coisa rara, insubstituível?