segunda-feira, janeiro 04, 2016

Ainda sobre Lolita


Um leitor amigo me escreve para reclamar do meu moralismo na parte do Rápidas e soltas 06 em que deixo claro meu repúdio à recepção que Lolita, de Nabokov, teve do grande público. Só faltou citar Goethe – “A obra de arte pode ter um efeito moral, mas exigir uma finalidade moral do artista é fazê-lo arruinar sua obra” – ou Oscar Wilde – “Não há livros morais e livros imorais. Há livros bem escritos ou mal escritos”. Acho que não fui compreendida. Se fui, mesmo assim não pretendo, por ora, mudar de opinião. Supondo não ter sido compreendida, explico-me. 

Lolita é a história de um pedófilo, Humbert Humbert, que abandona sua mera condição psiquiátrica para colocar em prática seu desejo por ninfetas: ou seja, passa a ser um abusador. Mas é um abusador muito cheio de humor, bem levinho e simpático. Nabokov soube construí-lo bem, com os encantos carismáticos muito típicos de certos canalhas: os homens de alguns galhos da minha família que batiam nas esposas eram dóceis e polidos fora de casa, desses que “ninguém diria”, tamanha era a entrega na teatralidade pública. Tudo bem, se personagens literários vêm sendo homicidas sem causa desde a Antiguidade, por que vamos rechaçar uma obra que contém um abusador infantil? Entendo não rechaçar a obra como “sintoma de espírito artístico refinado”, mas jamais entenderei que Humbert Humbert não seja rechaçado. Então cogitamos rapidamente: “será que Nabokov criou esse carisma todo em Humbert Humbert justamente para confundir a plateia e fazê-la, como numa feitiçaria, se render ao charme do criminoso?” Quem dera: Nabokov parece considerar seu abusador um sujeito normal que não deve ser julgado. Logo, vemos que não houve aqui nenhum truque, a menos que separemos o autor de sua intenção para com a própria obra e queiramos, nós mesmos, sovar o pão desse aparente engodo. O que eu indago é: por que somos leitores tão estúpidos que se apaixonam por uma criatura que deveria receber asco? Não digo “queimem Humbert!” ou “ele deveria ser preso no final!”, mas digo: admire a obra, admire a criação do personagem, sua sinceridade e elegância, mas não admire o que o personagem faz, porque o que ele fez é algo que aqui, na vida real, você possivelmente rejeitaria. “Ah, mas personagens não são reais, temos que separar os valores”. Engraçado. Nunca vi ninguém admirando os burgueses que causam a total miséria do protagonista sem nome de Notas do subsolo – pelo contrário, sentimos ódio deles. Nunca vi ninguém dizendo que Mildred, de Servidão humana (que no cinema ganhou merecidos Bette Davis eyes em 1934), não deveria ser julgada por ter destruído a vida de Philip: pelo contrário, mesmo que ela não tenha cometido crimes bárbaros, todos queremos esganá-la e quase ardemos de febre ao ver que Philip parece gostar dela cada vez mais. Poderia ficar aqui puxando pela memória vários antagonistas e coadjuvantes que nos causam dor no fígado de tanto desgosto. Que nos causam desgosto porque foram feitos para causar desgosto. Pelos quais é moleza sentir desgosto. Os autores orquestram nossos sentimentos com um lápis e caímos feito patinhos. Por que Mildred, que causa mal a Philip, merece nosso asco, e Humbert Humbert, que causa mal a Lolita, “não deve receber moralismo do mundo real”? Respondo: porque é um protagonista carismático. Leitores-marionetes que somos, julgamos personagens conforme autores querem que julguemos e saímos em defesa revolucionária de sujeitinhos que poderiam muito bem ser vistos como bem construídos – só que torpes, ou: “bonitinhos, mas ordinários”. Os vilões que amamos são apenas os consagrados pelos críticos, os que são protagonistas ou que foram feitos com tamanha vivacidade – torcemos pelo Batman, mas quem não se deixa seduzir pelo Coringa? – que nos enganam com a mágica de suas performances. Humbert, que é o protagonista, que está em primeira pessoa (outro trunfo para que nos hipnotize), que é carismático, recebe toda a defesa de um público que diz falar em nome da arte, essa deusa que não merece nenhuma opinião moral (exceto se for para os antagonistas, os coadjuvantes…). Já se fosse Lolita a narrar toda a história, veríamos uma troca: ela seria a vítima abusada por um inescrupuloso velho nojento e esse nojento não ganharia justificativas. Se Lolita narrasse, toda nossa moralidade humana poderia julgar o adulto que a explora. Como é Humbert Humbert que narra, estamos proibidos de emitir juízo de valor a sua conduta porque isso seria desrespeitar a arte. 

O colecionador, de John Fowles, livro que me marcou na adolescência e a cujo filme ainda quero assistir, tem dois momentos. No primeiro, Frederic narra. Fala-nos de sua obsessão por Miranda, de como a sequestra, de como a machuca. Sinto pena dele. No segundo momento, Miranda, a aprisionada, passa a narrar. Minha visão juvenil muda: passo a me afeiçoar a Miranda e me pone loca a petulância de Frederic, imundo como um Calibã. Ludibriada pela maestria literária, sinto pena de um sequestrador. Não, não sinto pena somente porque ele tem momentos agradáveis de grande humanidade. Sinto pena dele por inteiro porque é ele que narra, em primeira pessoa, a situação do ângulo dele. Matar um árabe na praia, sem razão ou “por causa do sol”, também é errado. Mas o personagem sem nome de O estrangeiro tem tantos outros momentos de franqueza, reflexão e pessimismo que seu assassinato não o oprime por inteiro na minha opinião e imagino que na opinião de ninguém. Ele é muito mais do que um homicida. Humbert Humbert, em contraponto, é um adorador de ninfetas mais do que qualquer coisa, e o grosso de Lolita gira sobre isso. Fala bem, narra bem, é engraçado, precisamos admitir. Mas é asqueroso. Como eu disse na postagem anterior, que exista como é, pois não combato sua existência, mas que deixe de ser amado em sua personalidade em si (não estou falando da criação de sua personalidade) como se tivesse motivos para esse abraço coletivo. Amar a literatura não é vê-la de forma imparcial em nossa condição de leitores: personagens estão aí para nos provocar sentimentos e náuseas. E se queremos, hipocritamente, falar de imparcialidade, vejamos se muitos dos vilões que tramaram armadilhas para nossos adorados protagonistas foram tratados com a mesma imparcialidade moral ou se para eles, de repente, deixamos de ser esses narizes empinados artísticos e nos tornamos humanos entupidos de princípios. Para considerar um livro bem escrito não é preciso alisar o protagonista, ser seu advogado, ir à lua por ele. Pode-se, com bastante razoabilidade, declarar: “acho Lolita um livro muitíssimo bem escrito. Humbert Humbert é um patife, sem dúvida, mas é muito realista, bem engendrado”. O que costumamos ouvir, todavia, é: “Lolita é um livro incrível e Humbert é sensacional”. Podemos diferenciar as coisas. Há inúmeros assassinos em série que têm a vida explorada por legiões de pessoas. Concordam com os assassinatos deles? Não. Mas a história de vida deles e a forma como cometiam os assassinatos (com muitos detalhes) as fascina. Não é preciso dizer, com indiferença, que “não há nada de mais no que Humbert faz à Lolita” para poder considerar que Nabokov escreveu bem seu livro mais conhecido. Não é a moralidade ou a imoralidade de um personagem que o faz eterno, mas sua manifestação no mundo do livro no qual se insere. Há personagens bons que são chatos como parentes que discorrem sobre o clima e há personagens imorais que são muito bons – sem ser “do bem”. O fato de serem bons, contudo, não nos obriga a elogiá-los em todas as suas ações e aplaudir seus crimes. 

“Mas o que diremos de tudo isso se pensarmos que o próprio Nabokov não julgou como más as atitudes de seu protagonista?” Problema dele. A mera opinião de um escritor sobre seu personagem não muda em nada o personagem. A emissão de sua opinião não é como a explicação de uma metáfora, que pode mudar nosso entendimento da trama. Para mim, Humbert ainda é um abusador medonho, mesmo que Nabokov o considere apenas um homem desprendido e hedonista. 

Ao leitor amigo, digo: estou sempre disposta a mudar de opinião caso consigam me convencer que falo abobrinhas, porque a vaidade de manter uma opinião ruim é muito banal. Foi assim, convencida por livros, amigos e a realidade, que deixei de defender esquerdices (sustentadas por quem não entende da natureza humana, lê pouco ou é oportunista, mesmo). Posso mudar minha opinião sobre a questão da obra Lolita, da arte, da moralidade. Por enquanto, mantenho essa. Só retiro a parte do "não sei como Kubrick, tendo filhas, pôde adaptar uma obra brincando com a pedofilia". Foi como dizer: "uma obra que trata de assuntos proibidos não deve existir". E isso é de uma extrema moralidade de colonos. 

PS: estudando em escola pública nas últimas séries do ensino fundamental, pude conhecer pessoalmente diversas moças de 11 anos que eram verdadeiras mulheres. E eram sedutoras, e gostavam de seduzir rapazes mais velhos, e mentiam a idade em festas, e queriam imitar as repetentes de 17 anos que estavam na oitava série e posavam de femme fatale. A sabedoria popular nos diz: "cada caso é um caso". Mas é preciso que haja uma lei que proteja as garotas de 11 anos que estão onde deveriam estar (na infância) e trate como exceção casos de garotas que se tornaram mulheres muito cedo. A justiça já fez isso. Quando um homem de 23 anos foi condenado por ter relações sexuais com uma garota de 12 anos, recursos foram apresentados até que a decisão fosse tomada pelo STF em 1996: não era justo condenar o homem pelo ato, já que a moça de 12 anos agia como mulher, tinha corpo de mulher, queria a relação sexual e já tivera outras relações anteriores (e os pais da menina só o denunciaram depois que o namoro terminou). Sabendo que há moças com essa idade que são praticamente mulheres, concordo com a decisão (femistas urrarão). Ela, todavia, não invalida o cuidado que temos que ter com meninas que vivem numa sociedade da objetificação. Não vamos invalidar a Lei Maria da Penha porque há homens que também apanham de suas esposas. Não vamos tratar crianças como mulheres por causa de casos muito particulares dentro de contextos muito específicos, geralmente contextos de pobreza. Na mesma linha das exceções, conheci moças de 15 anos que deveriam ser tratadas como crianças, pois imaturas mentalmente e fisicamente. A lei de proteção deve existir, mas também deve saber avaliar casos que fogem à regra (a própria Lei Maria da Penha já foi usada, por jurisprudência, para defender um homem que era espancado pela mulher).