sexta-feira, novembro 06, 2015

Rápidas e soltas 05


Eu tinha o hábito de colecionar palavras para um futuro livro de ficção. Provavelmente de contos, para começar – porque acho que um romance gera muito envolvimento e criar um personagem que se estende por mais de uma centena de páginas é como um casamento para a vida inteira –, e cheio de vocábulos bem pensados. É preciso ter muita ponderação antes de colocar a palavra “solavanco” num papel, porque um parágrafo com “solavanco” lá no meio dificilmente parecerá romântico, suave, morno. Se eu quisesse parecer sutil em estilo, teria que ser uma acrobata para manter essa conduta mesmo escrevendo “solavanco”. Ou “turbina”. Ou “calhamaço”. Ou “iconoclasta”. Agora não tenho mais tempo para isso, infelizmente. Mas se meus planos derem certo, em dezembro voltarei a ter horas diárias para alimentar meu léxico. Não comento sobre os planos porque sou supersticiosa e acho que se comentamos demais nossos bons projetos a negatividade alheia (oculta num forçado “vai dar tudo certo!” ou num “ai, que bom” de papelão de baixíssima gramatura) tentará soterrá-los. Minha superstição é criada na mesma região cerebral onde está meu TOC, suponho, e por isso me permito ser isso e ser ateia. Tarde descobri que mesmo pessoas céticas têm superstições tolas. Talvez por isso agora tenho coragem de assumir essa fraqueza. E os planos que os olhos invejosos não veem os corações invejosos não sentem. (Não falo de “inveja” no sentido popular e musical; falo no sentido quase evolutivo, de que o ser humano é, de certa forma, invejoso por natureza por causa da luta pela sobrevivência. Ninguém está imune a isso. Mas alguns tendem a ser mais budistas que outros, e é ao lado de budistas que eu quero estar tomando café descafeinado e comendo bolinho.)

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Estamos reformando nosso apartamento. Só de dizer isso já me sinto muito feliz, porque, como já defendi inúmeras vezes, nossa casa é nosso refúgio, e só toscos moram em qualquer ninho de rato sem livros, sem estantes, sem plantas, sem cor, sem vida. Meu lar deve ser maravilhoso porque ele é meu ponto de partida e meu ponto de chegada, e na verdade só saio desse ponto pela obrigação trabalhista de conseguir dinheiro. No lar somos livres. Faz todo o sentido do mundo querer qualificar o lugar que nos permite sermos nós mesmos. Jamais compreenderei pessoas que não dão atenção a suas casas, que colocam na mesa cinco pratos de modelos diferentes, todos lascados, para jantar; que sentam num sofá nada ergonômico e preferem essa “economia” a tirar dinheiro debaixo do colchão para se proporcionar um merecido conforto; que tomam café em copo; que deixam as plantas do jardim morrerem por falta de cuidados; que cozinham em panelas de alumínio; que acham que “tanto faz” a cor das paredes do quarto, desde que não seja amarelo; que vão a uma loja de móveis e compram o que tiver de mais barato lá. Uns dirão que é falta de dinheiro. Eu digo que é falta de capricho, de amor, de bom gosto. Você olha nas revistas de arquitetura muitos ricos apresentando suas casas completamente desgraçadas de tão irrefletidas (deixam que arquitetos decidam o gosto deles por eles) e desinteressantes, e às vezes conhece a Maria da esquina que mantém sua casinha de três cômodos de maneira tão aconchegante que não se quer sair de lá tão cedo. Lojas de móveis usados vendem móveis baratos e de personalidade que qualquer pobre ou unha de fome pode comprar. Mudas de plantas custam uns míseros reais. Belos jogos de louças podem ser parcelados em doze vezes. As pessoas não abandonam suas casas à tragédia porque são pobres de dinheiro, mas porque são pobres de espírito. Casas medonhas refletem pessoas medonhas. Uma mudança aqui ou ali já dá outro ar a um cômodo. O diabo está nos detalhes.

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Por ter muitos livros – e porque virei a ter muitos mais –, eu precisava de estantes até o teto. Também queria uma cozinha diferente (leia-se: não-branca e não de MDF ou MDP). Visitei, então, lojas de móveis sob medida. E descobri que o mundo dos ricos é, muitas vezes, alienado em relação ao valor merecido das coisas. Fui a uma certa loja e o vendedor me disse que um certo cantor sertanejo havia feito os móveis dele lá. Eu não fazia ideia de preços, mas nesse momento descobri que estava na loja errada, porque se um cantor famoso faz móveis numa loja isso apenas significa que eu não terei condições de fazer móveis nesse mesmo lugar. Quando o vendedor me informou sobre o valor que sairia fazer uma cozinha simples com eles, tive vontade de rir e perguntar em que mundo o dono daquela loja vivia para cobrar milhares de reais numa coisa feita de material não tão bom. Sou capaz de entender coisas caras para as quais olhamos e percebemos o motivo de serem caras (vejo batatas orgânicas algumas vezes mais caras que as comuns na feira e penso: “seu valor tem razão de ser”). Mas aquela cozinha por aquele preço só fazia sentido para um ricaço que não analisa muito bem onde está despendendo seu dinheiro. Tenho que trabalhar – o castigo de Deus para Adão e Eva após pecarem foi obrigá-los a trabalhar, então pensemos profundamente o significado dessa parte do mito – para arranjar dinheiro, não posso gastar em qualquer porcaria classuda que vale, em merecimento, um quinto do valor cobrado. Jogar dinheiro fora é como trabalhar de graça. Se eu tiver que aconselhar alguém a comprar algo bonito, de qualidade, sustentável e que vale o valor gasto, direi apenas “madeira de demolição”. Há empresas fazendo móveis de MDF e compensado e cobrando como madeira de demolição. Mais desrespeitoso que isso, só uma cusparada na cara.

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Há um problema com os ovolactovegetarianos. Na verdade, há vários, mas quero me referir a um deles em particular: o completo descaso em relação à quantidade de leite, derivados e ovos que comem. Eu sei que numa cultura como a nossa é difícil parar de comer carne, “imagine leite e ovos” (na cultura do estupro de certos países árabes também deve ser difícil deixar de estuprar uma moça que se deseja com todas as forças – vamos compreender esses homens que são antiéticos em nome da tradição?), mas o ovolactovegetariano costuma ser tão preguiçoso que ele mesmo justifica o “radicalismo” dos veganos. Um ovolactovegetariano não permanece nesse caminho do meio para ter direito de no sábado comer uma pizza com queijo e no domingo fazer uma omelete, excepcionalmente. O ovolactovegetariano permanece no caminho do meio para comer queijo num pão de manteiga e café com leite ao acordar, lanchar pão-de-queijo às 10h, almoçar ovos, à tarde tomar mais um café com leite saboreando um bolo entupido de leite condensado e à noite comer uma lasanha quatro queijos ou uma macarronada cheia de parmesão por cima. Isso em um dia. O ovolactovegetariano chega à lanchonete e pergunta quais as opções de pastel sem carne. Há de queijo e há de palmito. O ovolactovegetariano, que “já está comendo leite e ovos, mesmo” e por isso optou por uma cegueira seletiva, escolhe o de queijo. Ele vai às compras com a mamãe, sente calor e precisa de algo para se refrescar: em vez de tomar um suco de frutas, compra um milkshake, pois “leite eu ainda tomo”. Achar um ovolactovegetariano que tente minimizar ao máximo seu consumo de leite e ovos – restringindo-os a momentos de extrema fraqueza e desconsideração à dor animal – é tão raro quanto encontrar um best-seller relevante. O vegano “radical” faz sentido. O ovolacto é um preguiçoso que se esbalda em pus de vaca e ovos de galinhas que vivem apertadas numa gaiola com a área de um papel A4 – e não se esforça muito para mudar isso. Há exceções – há pessoas que estão numa jornada em que toda semana novas reduções de exploração são feitas –, mas a maioria vive nesse vício.

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A preguiça é a mãe de todos os vícios. Um sujeito brada com veias saltadas contra o capitalismo, o monopólio das grandes empresas, a exploração do trabalhador, incomoda qualquer transeunte para se afirmar: "olha, eu sou de esquerda, viu?". Vai ao mercado e compra produtos da Nestlé, da Unilever, da P&G, sendo que há, ali mesmo, outras inúmeras marcas menores, modestas, tentando conquistar clientes. Preguiça de ler rótulos? Preguiça de testar uma nova marca menos conhecida? Preguiça de pensar se a tagarelice não está se sobrepondo à ação? O sujeito divulga seu humanitarismo ao compartilhar imagens de trabalhadores chineses explorados fazendo bonequinhas. Vai à feira de artesanato local e reclama que bonecas de pano feitas por vovós são “muito caras” e na hora de comprar panelas vai comprar aquelas feitas na China, “porque as outras custam um absurdo”. Ética tem preço, meus queridos. Para ser ético, não basta apenas falar, é preciso fazer, é preciso se esforçar, vai ser preciso dirigir até um estabelecimento mais longe ou comprar produtos de marcas pequenas em lojas online; é preciso abrir mão de produtos “com sabor de infância” que têm sabor amargo para funcionários, animais e florestas; é preciso largar o cheiro daquele sabão em pó que você usa há anos – e com o qual “já está acostumado” – para dar lugar a um que não seja de uma marca que quer dominar o mundo. Isso é ética. O resto é conversa para boi dormir.