terça-feira, novembro 17, 2015

Esquerda festiva diabólica


No filme Festim diabólico (1948), do Hitchcock – uma das poucas vezes em que um título de cinema traduzido para nosso idioma fica melhor, já que Rope não é tão galante –, dois personagens matam um terceiro logo no começo do filme e tentam justificar moralmente sua ação. Um crime só é um crime dependendo de quem o faz: sujeitos moralmente superiores teriam razões para enforcar outro menos importante. É uma ideia que tem se aplicado bem à esquerda festiva, cheia de voz graças à internet que permite que qualquer patife faça pronunciamentos persuasivos e liberte seus demônios. Será que a paixão pela destruição da sanidade alheia também é uma paixão criativa?

Eu estava no Chile quando ocorreu o último atentado terrorista em Paris. Fui descansar no hotel na sexta-feira, 13, à tarde, e acordei duas horas depois com meu namorado contando a notícia que ele acabara de ler, e naquele momento os terroristas ainda mantinham reféns dentro da casa de shows Bataclan. Na hora já senti um mal-estar físico. Terrorismo e tortura são coisas que sempre me impressionaram. Saímos, fomos a um show, voltamos para o hotel tarde da madrugada e ansiosos para saber o que tinha acontecido ou o que ainda estava acontecendo em Paris (nossos celulares são daqueles antigos que só fazem chamadas e enviam mensagens, não tínhamos como acessar notícias durante o show). Mais um capítulo do horror fanático tinha terminado. Mas eu estava prestes a começar a receber notícias de outro horror: o revanchismo, a insensibilidade, a estupidez e a conspiração da esquerda do ódio brasileira. Tenho um perfil falso numa rede social, comecei a ver o que as pessoas estavam postando. Fiquei nervosa ao ver a esquerda do ódio despida.

Primeiro, reclamavam que “das vítimas da tragédia em Mariana ninguém fala, agora porque são franceses brancos estão dando ibope”. Debaixo de que pedra esse alienado vive? Todos os dias a mídia está falando do rompimento das barragens em Minas Gerais, muita gente na internet viralizou o assunto, você abre qualquer pasquim e lá está a manchete sobre a lama, o Rio Doce, o povo desabrigado. Talvez em Marte ninguém fale sobre a tragédia em Mariana, pois até a França mandou condolências ao Brasil pelo ocorrido. Depois, misturaram problemas sociais e de corrupção com terrorismo, como se fossem farinha do mesmo saco: “e os mortos pela polícia? E os LGBT que são assassinados por religiosos?” Porque a polícia brasileira mata mais do que deveria estamos proibidos de nos sensibilizarmos com a França dominada por radicais islâmicos, estamos proibidos de colocar a bandeira da França em nossas fotos como forma de compaixão. Ainda na maré da competição de tragédias, o bordão clássico veio ao baile: “e a fome na África?” Ninguém faz nada pela África, os Médicos Sem Fronteiras têm que implorar para que avarentos doem vinte reais mensais para ajudar a combater os problemas de saúde da África (que são também problemas sociais), mas basta que alguém se coce para fazer alguma manifestação sobre algo que não seja a África para todo mundo começar a fingir se importar com a África. Não é novo. Sendo vegana, já tive que ler e ouvir algumas vezes a cobrança sobre adotar gatos em vez de adotar crianças que passam fome e carência em orfanatos (isso de pessoas que já adotaram crianças? Não, nunca. Todo mundo quer ter seus próprios filhos de seu próprio sangue, mas cobrar do vizinho ambientalista que deixe de se preocupar com bovinos para adotar crianças, de preferência negras), ou sobre dar dinheiro para causas animais em vez de financiar causas humanas (isso de pessoas que gastam 10% de seus salários para melhorar o mundo contribuindo com causas nas quais colocam fé? Não, isso de pessoas que nunca doam porra nenhuma para nada, e quando doam cinco míseros reais para uma instituição acham que são os cidadãos do bem do mês). Nada melhor para a África que um atentado na França para que os esquerdistas, antes alheios por opção às grandes questões africanas, passassem a se preocupar com ela. Dê uma olhada nas postagens de quem resmunga "da África ninguém fala e agora esses franceses roubam protagonismo de sofrimento!" Antes dos atentados à França, nenhuma postagem sobre a África. De repente, a África volta a existir. É preocupação social de fato ou birra, vontade de azucrinar, mostrar que se é "muito crítico", muito "vejam como não me deixo manipular pela mídia golpista"? E então, o completo desvario: “isso é o que a França paga por sua história imperialista e por se achar superior a outros povos, é o eterno retorno, a vingança dos colonizados”. Interessante. Os mesmos que fazem essa palestra de ódio motivacional são os que repudiam quando justiceiros populares resolvem se unir para dar uma surra num ladrão que anda furtando coisas dos moradores da região. Ou seja, não é que eles tenham como princípio que “não devemos fazer justiça com as próprias mãos”, e sim que a vingança só pode acontecer contra aqueles que são eleitos como a representação do que há de ruim no mundo: o branco, o heterossexual, o ocidental, o europeu, o rico, o homem. Por essa “lógica de justiça do oprimido" perversa, que mesmo ídolos como Jesus estariam longe de aprovar, se um pobre me assalta eu não tenho o direito de ir atrás dele posteriormente para dar uma surra para me vingar, mas se o Estado Islâmico mete fuzil em franceses eles precisam se calar porque no passado a França andou colonizando países indevidamente. A esquerda festiva diabólica não quer acabar com a desigualdade e com o ódio. Ela quer trocar um ódio por outro, e quer que os papéis sejam invertidos não para que ricos e pobres possam jantar e estudar nos mesmos lugares, mas para que o pobre de hoje possa cuspir no rico amanhã. É por isso que há femistas pregando a destruição dos homens e alguns delirantes dentro do movimento negro estão pregando a destruição dos brancos (a novidade é que homens negros estão proibidos de se relacionar com mulheres brancas pois com isso eles estão “contribuindo para a solidão da mulher negra”): puro ódio, desejo de vingança. Que bem isso faz ao mundo? É esse o mundo que queremos?

“É, Barbara, mas você tem que ver que milhares de pessoas morrem nas guerras africanas toda semana, enquanto na França morreram apenas 130 pessoas. Não é injusto fazer tanto alarde sobre isso?” Não, não é. Humanidade é você se importar com os africanos que morrem de fome, com os africanos que morrem nas mãos de facções criminosas selvagens e se importar com as vítimas do terrorismo islâmico na França. Se apenas números importassem, eu jamais moveria um cílio para me comover com causas humanas, porque anualmente morrem 70 bilhões de animais terrestres (vejam bem: terrestres – os aquáticos não estão nesse número) para alimentar as bocas de uma superpopulação que se acha dona de todas as espécies que por aqui vivem. O que é a África perto da morte de todos esses animais? Não morrem 70 bilhões de africanos, mulheres, pobres, homossexuais todos os anos. Não é que não possamos colocar números lado a lado para comparar as coisas em determinados contextos. Eu sempre faço isso em relação a animais, aliás. Mas não passei a dizer que a causa feminista é vã porque “morrem muito mais animais” ou que os negros devem calar a boca sobre a escravidão porque “morrem muito mais animais”. Se nos apegarmos somente a números, a simbologia de muitas tragédias perderá seu valor – valor que deve permanecer. Não vamos parar de nos chocar com os torturados pela ditadura militar “porque a fome na África mata muito mais todo mês do que o regime militar matou em duas décadas”. Não vamos parar de sentir calafrios a respeito dos campos de concentração nazistas “porque o machismo já matou muito mais mulheres na história do que o nazismo em poucos anos”. E, principalmente, não devemos deixar que nossos corações se tornem pedra estatística em nome de outras causas justamente no momento de uma grande tragédia. Ver gente parva mandando a França às favas ou fazendo mapinha do grau de importância das tragédias que ocorrem no mundo de acordo com a região dias após o impacto dessa notícia é perceber o quanto estamos nos tornando insensíveis e infelizes – por motivos políticos infundados.

A maior causa que existe para mim é a animal, porque os animais são as maiores vítimas de todos os tempos, e são vitimados por todas as classes. Mas isso não quer dizer que outras causas deixem de ser importantes. E isso não quer dizer que eu acho bom que as vítimas em Paris tenham morrido, "já que provavelmente todas elas comiam animais". Senti por elas, fiquei mal por elas. E este texto também não está aqui para passar minha imagem como missionária da paz. Eu sinto ódio, eu compreendo a vingança. Se os donos de grandes frigoríficos forem torturados e mortos, duvido que sentirei qualquer misericórdia. Mas porque eles fazem mal hoje, conscientemente, a milhões de seres sencientes. Já as vítimas do terrorismo islâmico: o que elas fizeram para que esquerdistas alienados queiram culpá-las pelo imperialismo francês do passado, para que queiram culpá-las porque houve a tragédia em Mariana, o que elas fizeram para que baldes de ódio do movimento negro digam que “não farão falta, pois são apenas pessoas brancas” (como tenho lido nesse mural da sinceridade que é a web)? O que, concretamente (e não num mundo conspiratório e doente), essas cento e tantas pessoas fizeram para receber desprezo da esquerda diabólica? Há ódios razoáveis – tenho o direito de odiar quem mata, quem estupra, quem tortura, quem faz mal aos outros objetivamente –, e há esses ódios de quem guarda um fascista dentro de si, mesmo que se diga falando em nome das minorias. Esse ódio eu odeio. Esse ódio merece ser massacrado porque ele apenas estimula mais ódio infinitamente, e ódio sobre pessoas que não têm culpa dos traumas, algumas vezes esquizofrênicos, dos que estão sentindo ódio. Eu não queria estar dentro desses corpos podres onde corre um sangue estressado, venenoso, que causa mal-estar físico e mental.

Por último: não é de uma injustiça máxima quando uma mulher estuprada passa a ser alvo de críticas, numa inversão de papéis entre vítima e agressor? É esse tratamento desumano que a esquerda festiva diabólica está dando ao terrorismo. Em vez de falarem sobre o Estado Islâmico, sobre o ISIS, estão colocando a culpa do terrorismo nas vítimas dele. Por que defender, resguardar, suavizar esses fanáticos religiosos? Que esquerdopatia é essa que trata de defender grupos mórbidos que são contra os valores que a própria esquerda diz que levou (e está levando) tanto tempo para conquistar? Não faz nenhum sentido “ver o lado” desses assassinos que são favoráveis à ditadura, à submissão feminina, contrários ao homossexualismo, contrários à liberdade de expressão, que chamam ouvintes de rock de “pervertidos idólatras” e acham que isso é motivo o bastante para fuzilá-los numa festa. Por que colocar a França no centro da questão, com todos os holofotes, enquanto esses assassinos em nome de deus fogem pelos bastidores, incólumes? Por que estamos criticando as vítimas em vez de criticar os agressores? Por que essa esquerda fanática trabalha com dois pesos e duas medidas?

Que nosso ódio e nossos compartilhamentos em redes sociais não sejam fruto da insensibilidade e da miséria intelectual. E que não achemos que povos ou grupos historicamente marginalizados são superiores e por isso têm direito de se vingar, num festim diabólico grotesco, de quem não tem nada a ver com o que eles passaram no passado. Amém.