domingo, novembro 29, 2015

Gordos e gordofobia


Muitas vezes conseguimos, no passado, ocultar o diabo que chacoalha dentro de nós sob uma expressão plácida, aquela cara de quem vive deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. Até que a internet apareceu como um grande terapeuta disposto a nos encorajar à livre associação o tempo todo – e aquilo que arquivávamos permanentemente passou a figurar na pauta do dia de nossas vidas. As pessoas têm coisas irrelevantes na cabeça: e elas vão levá-las a público. Descobrimos que o vizinho tímido é o rei da comédia. Que nosso tio caladão tem opiniões políticas – por sinal, bem duvidosas. Que nossos amigos são mais fanfarrões do que imaginávamos, soltando opiniões rasas e de senso comum a respeito de temas muito profundos. Você vai escavando murais, seções de comentários, jornais, blogs e pensa: “então isso são as pessoas”, porque é tudo muito grotesco, extremo, ignorante, ofensivo. No meio dessas escavações, que muitas vezes ocorre por acaso, encontrei a bandeira dos gordos e a bandeira dos que têm nojo de gordos. Nesse pontinho, nada de novo para anotar no bloco das memórias de guerra in loco. Gordos são execrados há muito. O que achei interessante foi cada opinião extrema: de um lado, os que acham que qualquer pessoa acima do peso está prestes a morrer de infarto, que mulheres gordas deveriam usar burcas e não se manifestar “demais” em público (magras histéricas são divertidas; gordas histéricas estão “querendo aparecer”), que é preciso sempre querer emagrecer porque somente pessoas magras são bonitas e saudáveis. Do outro lado, pessoas obesas – geralmente mulheres – orgulhosas de seus pesos, chamando médicos de gordofóbicos, dizendo que são muito felizes como são, que é mentira da conspiração científica que gordos são mais propensos a doenças, que comem muito apenas porque “gostam muito de comer” e que pesar 150kg não é sinal de um possível desequilíbrio emocional, é apenas “fome” de quem “optou” pesar 150kg.

Escultura andina do Museu
Pré-Colombino, Santiago - Chile

Gostaria de dizer algumas coisas muito pessoais a esse respeito:

1. Já tive vinte quilos a mais do que tenho hoje (num corpo de 155cm). Se me entregarem um saco de vinte quilos para carregar, não conseguirei ir longe com ele. E digo: é extremamente desconfortável estar muito acima do peso ideal do ponto de vista biológico. Não estou falando de comentários alheios, com os quais eu acredito que sabia lidar até que bem, estou falando de desconforto físico. De joelhos que doem porque seus joelhos não foram “construídos” geneticamente para passar muitas horas do dia com imensa carga em cima deles. De coxas com assaduras ao se usar saias. De cansaço muito maior do que o normal. De não conseguir cruzar pernas direito. De não conseguir se abaixar com destreza para pegar algo que caiu no chão. De suar mais que todo mundo no verão. De ter, constantemente, que ajeitar roupas que com os movimentos acabam se bagunçando no corpo: ter que fazer o clássico trejeito do gordo de dar aquela “folgadinha” na camisa, geralmente na parte da barriga; ter que puxar as calças para cima num leve rebolado. De ter a sensação de que a gravidade é mais forte para você quando precisa fazer movimentos animados, para cima, como dar pulos ou erguer uma perna num alongamento. Sem aqueles vinte quilos há alguns anos, o ato de sentar é mais confortável. Fazer exercícios é menos penoso (nem é penoso, adoro fazer exercícios). Eu me movimento muito, mas muito melhor. Se eu admitia isso quando entrava num quadro de obesidade? Não. E não porque não quisesse fazer a associação, mas porque tinha me acomodado naquela vida desconfortável. Hoje, quando vejo uma pessoa obesa, penso duas coisas: primeiro, que é uma pessoa que come mais carne e laticínios que as outras, ou seja, é uma pessoa que está conseguindo piorar ainda mais a situação dos animais por causa de seu vício alimentar (pensamento inevitável após o despertar vegano); segundo, que é uma pessoa que não percebe o quanto toda aquela gordura dificulta a vida, o ir e vir, o conforto pessoal. Se me entregarem um saco de vinte quilos para carregar todos os dias durante um ano, em determinado momento vou me acostumar, é claro. Mas isso não vai deixar de me colocar numa posição muito desagradável: sem aquele peso todo, sou mais livre.

2. Muitos gordos defendem que a obesidade é um problema genético. Não duvido. Mas uma coisa é você ter predisposição genética para ser obeso, outra coisa seria a sua genética determinar que, querendo ou não, você será obeso, como se a obesidade fosse uma síndrome. Os gordos que se apegam à genética para defender suas compulsões alimentares parecem querer se livrar completamente da própria culpa. “Não sou gordo porque quero, sou gordo por ter um gene desfavorável.” Esse tipo de discurso tem sido muito comum numa época em que ninguém quer ser culpado de nada. O Fulano que come frango não tem culpa do que as galinhas passam na indústria, pois não é ele que mata essas galinhas, ele “só compra”. A Fulana que vai começar a “dieta do glúten” não tem culpa pelo corpo que tem, pois ela está como está porque o glúten, esse vilão, engorda o ser humano muito mais do que o normal (aliás, toda dieta radical tenta transferir a culpa do próprio peso para um alimento em especial: não se é “fora de forma” porque se come demais, mas porque o açúcar tem se escondido em todos os alimentos que participam da nossa mesa; não se está “fora de forma” porque lanchinhos industrializados são comidos à vontade entre as refeições, mas porque a farinha, por si, aumenta a cintura de todo mundo em dez centímetros – e assim por diante). Esse obeso cientista quer dizer que é obeso não por sua responsabilidade, mas porque a natureza quis assim. O que eu me pergunto é: se o excesso de gordura em tantos corpos deste novo século é um problema predominantemente genético, onde estavam esses genes da obesidade antes dos anos 80? Porque o boom da obesidade ocorreu nos anos 80 – a década do advento dos produtos industrializados muito fáceis e baratos de se conseguir, e muito rápidos de se preparar –, e aí eu me questiono como antes desse período tanta gente carregando genes obesos conseguia controlar a própria alimentação, mantendo-se não-obesa. O gene da obesidade não deve ter surgido por geração espontânea em 1981, quando a mistura de Coca-Cola e Elma Chips mudou o DNA das pessoas e fez com que passassem a ser obesas sem controle. Se o gene da obesidade existe, ele já estava por aí, dormitando em nossas máquinas de sobrevivência há muitas gerações. Que luta feroz deve ter travado o homem da década de 20 que conseguia ser magro mesmo carregando nas veias um gene obeso! Com raríssimas exceções, um obeso é obeso simplesmente porque come demais, com gene gordo ou não. O que é preciso investigar é por que se está comendo demais (quando esse hábito começou e por quê), e não “vamos mapear a genética dele para achar o gene obeso e colocar a culpa na biologia”. “Ah, mas existem biótipos!” É claro que existem, mas são raros os biótipos que oferecem variações chocantes como deixar uma mulher alta com 40 quilos ou um homem baixo com 130. Há indivíduos que comem tranquilamente, sem repressões, e vivem muito magros. Há outros que comem adequadamente, sem exageros, e vivem gordinhos. Obesidade é diferente disso, assim como anorexia é diferente disso. Culpe parte do seu biótipo por usar tamanho 44, mas não venha com essa de que seu biótipo fez você usar 56.

3. “Sou gordo, fiz exames de sangue e está tudo sob controle. Isso prova que gordura não é sinônimo de falta de saúde.” Um pouco de gordura eu não acredito que indique falta de saúde (eu mesma ainda estou num IMC de sobrepeso por causa de três quilos e não tenho me preocupado com isso), mas muita gordura pode se tornar falta de saúde a curto ou longo prazo. Viver como narrei no item 1 – com dificuldades para amarrar os tênis, cansaço maior que o habitual, vontade de sentar na primeira cadeira que aparece à vista – não deveria ser considerado “saudável”, mas digamos que você não veja problema nenhum em não conseguir cruzar as pernas ou ter que viver com coxas assadas e dor nos joelhos. Você faz um exame de sangue básico, ele está dentro dos parâmetros normais e agora você tenta provar ao mundo que a obesidade pode estar fundida à boa saúde. Essa será uma causa muito falaciosa (e eu já participei dela). Para cada obeso “com exímio exame de sangue” há outras dezenas com colesterol alto, triglicerídeos de muitas centenas e glicose preocupante. Por quê? Porque dificilmente um obeso é obeso porque está exagerando no abacate e no azeite de oliva; um obeso costuma ser obeso porque se entope de pão, de macarrão, de carnes, de doces tão doces que fazem o pâncreas trabalhar como um operário inglês do século XIX, de comidas salgadas demais, de frituras. E mesmo que ele coma tudo isso e seja “saudável nos exames de sangue” (lembre-se que os clínicos gerais costumam pedir uns sete itens, apenas, nos exames de sangue [os mais comuns: hemograma completo, colesterol completo, triglicerídeos, glicose], enquanto há mais de cem coisas que poderiam ser averiguadas por ali e você não sabe como estão porque não foram requisitadas – então paremos de falar em “O Exame de Sangue” como uma coisa única, padrão, imutável), qual é a idade desse campeão? Vinte, trinta? E crê mesmo que vai manter esse colesterol normal, comendo por três, até os cinquenta anos? Porque quase todo idoso toma seu remedinho para pressão alta, diabetes ou colesterol, mas os idosos obesos são muito mais acometidos por doenças e transtornos físicos (um pé destruído, um joelho estragado, varizes que formam árvores genealógicas). Os médicos não apregoam que a obesidade é prejudicial à saúde porque são gordofóbicos. Há vastíssima pesquisa que associa obesidade a inúmeras doenças. Aí você tem uma avó obesa de sessenta anos e diz que ela tem a saúde de uma criança. Para que servem os estudos científicos de alta amostragem se temos a sua avó para criar teorias, não é mesmo? Meu tio fumante de oitenta anos (de novo ele por aqui) também tem a saúde de um bebê e nem por isso vou entoar com Olavo de Carvalho a cantilena bisonha sobre “os males do cigarro serem lenda de grandes corporações”. Li muitas mulheres obesas defendendo que “médicos não deveriam nos falar, a cada consulta, que precisamos emagrecer, pois gordura não é necessariamente sinal de doença”. Necessariamente não é. Mas muita gordura acumulada, principalmente no abdômen, cria uma altíssima predisposição para várias doenças. Nem todo fumante vai morrer por causa de males decorrentes do cigarro, mas a predisposição para um câncer de pulmão ou um câncer de língua é grande. Os médicos não devem alertar fumantes sobre isso pois tal alerta é “intrometimento” constante? O papel do médico que vê um paciente levando uma vida arriscada é alertá-lo, e não apenas se ater ao objetivo da consulta colocado pelo paciente. “Fui ao consultório reclamando de uma dor na mão. O médico recomendou uma radiografia para a mão, mas aproveitou para me dizer que preciso perder circunferência abdominal. Gordofóbico.” Isso não é gordofobia, é profissionalismo. O médico não está “implicando” com você. O gótico que aparece cheio de cortes num consultório reclamando de resfriado não sairá de lá com uma mera receita contra resfriado. Inadequado mesmo é quando não-médicos querem abordar você sobre seu peso sem que você tenha clamado por nenhuma palestra: parentes, colegas de trabalho, “amigos”, estranhos.

4. Trabalhei com crianças de dois a quatro anos durante dois anos e meio. Eu as guiava na hora do almoço. Nunca vou me esquecer do dia em que deixei uma menina da minha turma repetir um prato de arroz com feijão, uma professora com mentalidade anoréxica (que, segundo ela mesma, tinha “pavor de ficar gordota como a própria mãe” – e a tal da mãe estava muito, mas muito longe de qualquer início de obesidade) viu, horrorizou-se e foi reclamar com a diretora da creche. Depois fui chamada para uma conversa (um monólogo, na verdade) sobre eu estar “contribuindo para engordar uma criança”. Se na época eu não fosse já um tanto esclarecida em relação a valores alimentares, teria me visto como a bruxa de João e Maria, engordando crianças para fazer um sopão de sustância. Não: eu permiti que uma criança com um corpo de massa bem distribuída comesse feijão com arroz à vontade. Na mesma época eu já criticava a lerdeza mental das pedagogas por defenderem, com a voz esganiçada que muitas têm, que “não devemos forçar crianças a comerem salada” e que “uns docinhos por dia não fazem mal”. Por que não devemos “forçar” crianças a comerem salada? Educação alimentar também é educação. Havia quatro opções de salada em cada almoço e eu determinava: “pelo menos uma salada vocês têm que comer”. Bastava dizer isso para receber olhares de desaprovação, como se eu estivesse dizendo às crianças para que comessem fragmentos de rocha. Depois, eu era contra os docinhos diários (meu querido, minha querida: se você dá açúcar diariamente para o seu filho e você tem alguma instrução, eu apenas acho que o seu amor ao seu filho não é amor, mas comodismo e carência de quem quer forçar uma criança a ser feliz dando um doce para ela), e isso era outra maldade suprema. Que valores deturpados, meu deus! Isso, sim, é gordofobia: você achar que é melhor uma criança comer lixo e ficar magrinha do que comer muito arroz e feijão e ficar gordinha. As pedagogas que achavam normal uma criança não querer almoçar e deixavam por isso mesmo não eram chamadas na sala da direção para uma conversinha. Também não eram chamadas as que pensavam ser “natural da infância” não gostar de saladas. Há pedagogas boas? É claro que há. Mas são tão raras quanto um obeso de cinquenta anos sem problemas de saúde. Elas entram na faculdade citando Paulo Freire, O Fácil. E depois de quatro anos elas saem de lá citando o quê? Paulo Freire, O Eterno. Estudam mais de uma dezena de educadores gigantes e só sabem falar de Paulo Freire, que está para a pedagogia como Clarice Lispector está para a literatura. (Há um grande problema quando a universidade funciona como um escorregador em que você entra o mesmo e sai o mesmo. E esse problema geralmente se chama: você.) Para aquelas pedagogas, uma criança comendo besteiras só passa a ser um problema quando começa a engordar por isso. Já a minimamente gordinha que vai para a mesa com seu lindo pratinho cheio de polenta, molho, repolho refogado e abóbora é olhada com espanto. Eis um tipo de padrão que precisamos criticar, porque até as crianças são reféns dele. Se o “peso normal” para uma dada altura é 30kg, não há razão para criar alarde em cima de uma criança de 32kg – desde que ela esteja se alimentando saudavelmente.

5. “É isso mesmo, vamos massacrar os obesos!” Negativo. Se por um lado você está errado ao querer convencer seus pares de que a obesidade pode ser saudável a longo prazo e que é confortável estar num corpo muito gordo, por outro você também estaria errado ao desrespeitar pessoas que não te devem satisfação sobre o próprio peso. Voltemos ao caso dos fumantes. Você tem todo o direito de odiar cigarros, de achar que fedem, de achar que fumar é um suicídio lento e que só fuma quem não pondera bem as coisas, já que é dado certo que fumar é prejudicial. Mas que direito tem você de chegar para um sujeito individual que só faz mal a ele mesmo para dizer que ele não deveria fumar? Entre íntimos isso até é permitido, mas a quantidade de estranhos que vinham me ordenar que parasse de fumar quando eu fumava (“Caro Dunhill Azul, sinto muito a sua falta, mas eu não podia permanecer numa relação que me matava aos poucos, por isso te troquei por vinho”) era espantosa. Não gosto de intrusos, não gosto que me digam o que fazer, não gosto que deem opiniões sobre minha vida particular se eu não pedi. Quem é que não sabe que cigarro faz mal? Todo mundo sabe (exceto o Olavo de Carvalho, claro, mas isso deve se dar porque nem Hegel, nem Heidegger, nem Husserl diziam isso nos livros). Por que raios você tem que se intrometer numa vida que não te deve nada? Você tem todo o direito do mundo de achar que a obesidade é uma coisa ruim, mas que falta de educação é essa que te faz pensar que deve chegar para um obeso e recriminar o peso dele? Sobre esse osso da vida em sociedade, sempre tive um princípio: “ache o que quiser a meu respeito, só não me fale”. Por quê? Porque não me interessa, e a sua liberdade de falar termina quando começa a minha de não querer ouvir. Em tempos muito gordos, cheguei a receber por e-mail uma dieta de uma conhecida – sendo que eu não a pedi. Aí, vejam, essa colega que uma vez mandou uma dieta para outra por e-mail e “aproveitou e já mandou para mim” (so sweet) tinha uma voz fanha. Eu não gostava da voz dela. Como seria se eu enviasse por e-mail uma dica de fonoaudiólogo que trabalha com fanhos? Seria falta de respeito, é claro. E por que não é falta de respeito eu receber por e-mail uma receita de regime que não requisitei? Gordos, fumantes, praticantes de parkour, qualquer sujeito et cetera que esteja vivendo de forma que você considera errada e que só faz mal a ele mesmo: ele não te deve explicações pessoais. Infelizmente pessoas gordas costumam evitar a devolutiva rude mesmo tendo recebido rudeza. Sou favorável à grosseria como reação: se vierem falar algo sobre seu corpo, suas roupas, seu cabelo, sua profissão, sua escolha estudantil que você não pediu, devolva. “Por que você não usa um creme para pentear nesse cabelo crespo?” “E por que você está sempre com mau hálito?” Chega de submissão a arrogantes. Ninguém deveria aturar com polidez quem não recebeu educação em casa.

6. “Gordofobia como problema social é lenda. Estamos apenas preocupados com a saúde dos gordos.” Mentira. Mentira porque muitos dos palestrantes dos ciclos “Gordura mata mais que terrorismo” e “Tenho nojo de gordos porque eles comem mal” são iludidos em relação à própria vida como modelo. Magreza não é sinônimo de saúde. Há magros trocando almoços por brigadeiros, há magros que não têm fôlego para correr por trinta segundos. Muitos dos magros que criticam gordos são sedentários, comem porcarias, abominam verduras. A saúde, portanto, é muitas vezes apenas uma desculpa para odiar um tipo de pessoa que a mídia, principalmente, nos ensinou a odiar. E isso não se aplica somente aos obesos. Isso se aplica à moça gorda que está usando 46. Vou falar porque já estive do lado dos massacrados: eu nunca ouvi falar tanto de dieta e nojo à gordura como quando eu estava muito gorda, porque as pessoas ao nosso redor simplesmente querem que saibamos que elas odeiam nossos corpos e que elas acham que é nossa obrigação “nos adaptarmos”, num pensamento resumido de “quem esses gordos pensam que são para serem felizes tão fora dos padrões? Vou mandar umas indiretas óbvias para ver se se tocam”. Se isso já é uma falta de educação em relação a roupas (você dizer que acha brega alguém usar botas no verão quando você está numa sala com uma pessoa que está usando botas no verão), imagine em relação ao corpo de alguém. Ao dizer “estou virada numa porca gorda, preciso emagrecer” perto de alguém que está mais gorda do que você, que espécie de sujeito você pensa ser? Exatamente, o tipo de sujeito que merece ser isolado socialmente, pois é como o vilão de novela que arquiteta o mal para atingir os outros e depois aparece em fotos com filtro de pôr-do-sol com a estafante frase “all you need is love” numa camiseta. “Ah, mas eu não tenho que achar que pessoas gordas são bonitas!” Não tem, realmente. Mas educação é saber calar quando sua opinião é desnecessária. Eu não saio exaltando meus padrões de beleza para pessoas que não estão dentro deles. Acho que sapatilhas são cafonas e que luzes no cabelo ficam feias em noventa por cento das mulheres que as fazem (e em cem por cento dos homens que as fazem). Nunca banquei a asquerosa perto de gente de sapatilha e luzes, porque meu gosto é problema meu e educação é não confundir sinceridade com escrotice. E se você está tão preocupado com os gordos “apenas pela saúde deles”, vamos ser mais coerentes nessa patrulha: vá e palestre para quem toma refrigerante todos os dias; mande indiretas para pessoas que comem doces todos os dias dizendo “acho tão asqueroso quem é viciado em açúcar” bem quando seu colega está colocando um donut na boca; questione seus amigos sobre se o café da manhã deles teve frutas e aveia; pare cada churrasqueiro para dizer que a carne vermelha é a pior, que o coração não vai longe desse jeito, que churrasco tem alcatrão como o cigarro; faça policiamento no corredor do miojo do supermercado e toda vez que uma família com crianças colocar um pacotinho desses no carrinho comece a apitar – e, principalmente, viva de modo saudável, já que está tão preocupado com “saúde, meramente”.

7. Não me reconheço nas fotos do tempo em que engordei demais. E a partir daí enxerguei qual era meu problema na época (além da ansiedade nas alturas e da insatisfação com os rumos da minha vida, que me faziam descontar tudo na comida), e que eu acho que é o problema de muitas pessoas muito gordas. Por mais que saibamos que estamos gordos, não achamos que estamos tão gordos quanto realmente estamos. Comer muito mais do que o necessário é um distúrbio alimentar, assim como comer muito menos do que o necessário também o é. A anoréxica olha para si no espelho e não enxerga o quanto está magra: pensa que ainda está gorda. Eu era a anoréxica ao contrário: olhava para o espelho e não enxergava o quanto estava gorda, achava que estava apenas “gordinha”. Por isso hoje eu vejo aquelas fotos e penso: “nossa, não era assim que eu me via na época”. Não duvido nada que muitas pessoas com problemas de obesidade passem pelo mesmo. Infelizmente essa distorção da autoimagem só é citada para se falar das mulheres com problemas de anorexia e bulimia, e ninguém fala sobre a distorção que os obesos podem ver no espelho. Se falássemos sobre isso, talvez pudéssemos ajudar as pessoas a perceber o cerne da questão, que muitas vezes é de ordem emocional. Mas, não. Continuamos naquela: de um lado, os execradores que veem cada pessoa gorda como uma relaxada que precisa ser humilhada, que “merece” ser humilhada; de outro, a ala extrema que vem crescendo: a das pessoas obesas que ostentam orgulho da própria gordura, baseadas em muitas mentiras (que é confortável, que são extremamente felizes assim, que são e sempre serão muito saudáveis, que qualquer crítica à obesidade é gordofobia). Não gosto de nenhum desses pontos de vista. Se hoje eu disser para a “ativista plus size” que eu acho que a maioria dos obesos padece do mesmo problema de distorção de imagem que os anoréxicos e que comer demais é um distúrbio alimentar, serei chamada de fascista, no mínimo. Não estou falando de quem veste 42, 44, 46. O IMC já deixou há muito tempo de ser uma marca confiável para determinar o peso ideal de alguém e eu não estou disposta a abdicar das minhas cervejas para me encaixar num padrão que eu sei que não é para mim, e acho que ninguém deve enxergar a hora de comer como sofrimento porque se é acometido por um medo absurdo de engordar três quilos nas férias (esse rigor é mórbido). Gosto de comer, sou saudável, estou com um peso que não me faz nem passar fome e nem perder a saúde. Estou falando de obesidade. Respeito os obesos no direito de eles terem o corpo que bem entendem, mas posso criticar, aqui, esse estilo de vida. E eu já vivi essa vida. A resposta para a pergunta “por que eu estou comendo demais e cada vez mais?” não é “porque eu gosto”. Não é correto, sob nenhum ponto de vista, que um corpo humano pese duzentos quilos. Você não está se preparando para uma temporada de fome no Ártico para armazenar tanta energia em forma de gordura no próprio corpo. Uma coisa é “gostar de comer” e por isso ter alguns quilos a mais do que os outros. Outra coisa é quando o vício em comida te faz carregar por aí quarenta quilos de pura gordura extra: a comida deixa de ser parte da vida para ser o centro dela. De qualquer forma, se mulheres anoréxicas não são humilhadas por não se enxergarem como são e por sofrerem um distúrbio alimentar, pessoas gordas também não deveriam ser tratadas com desprezo, risadas ou ofensas gritadas nas ruas. Lembre-se: além de não ser médico, você não é psicólogo para se meter na comilança de razão emocional dos outros. E mesmo que seja médico ou psicólogo: você está dentro do seu consultório para sair diagnosticando pessoas?

9. “Li até aqui e, apesar da contemporização, só vi incentivo à gordofobia. Não tenho problema emocional, não sofro distúrbio alimentar e sou gorda, saudável e maravilhosamente linda.” A autoestima é uma coisa sublime. Eu evito ter em minha companhia pessoas de baixa autoestima ou pessoas que fingem ter muito amor-próprio, mas que se denunciam em pequenas atitudes (por exemplo: alguém que queira me rebaixar, por motivo fútil, para contrapor a própria vida como sensacional, usando arrogância para disfarçar complexo de inferioridade). Um sujeito de baixa autoestima vai sentir raiva se você se amar de verdade, porque a felicidade alheia incomoda. Mas é sempre necessário ver se não estamos enganando a nós mesmos quanto a nosso amor-próprio. A obesa que diz que “gordura é algo lindo”, que não tem problema nenhum com o peso, mas só tira fotos em que parece estar mais magra, de “ângulos magros” (o lado menos gordo do rosto, fotos de cima – em que a papada não aparece –, um milhão de fotos postadas de rosto e umazinha de corpo), parece enganar a si mesma. Se sua gordura é tão linda, por que mostra a todo mundo apenas fotos em que seu rosto parece ser o de uma pessoa de 70 quilos quando na verdade pertence a uma pessoa de 110? Outra coisa: a autoafirmação constante não é a estratégia bobinha dos inseguros? Por que isso de “sou gorda e linda, lidem com isso” se você realmente está segura da própria beleza? Para mim, tal discurso repetitivo se assemelha ao do professor que sempre se apresenta com seus títulos e faz questão de citá-los constantemente, como se fossem as bengalas da qual depende para se afirmar em relação aos outros, para se sentir aceito, num maneirismo adolescente risível quando não realizado por um adolescente. Nunca vemos pessoas aceitas pelo padrão de beleza vigente necessitando falar para os outros “eu me acho linda, sabia?” ou “sou maravilhosa como sou, aceitem ou não” justamente porque elas são seguras quanto à própria beldade – logo, não precisam reafirmá-la goela abaixo de seus contatos. “Ah, mas fazemos isso para mudar esse tal padrão de beleza muito rígido que exclui outras estéticas e torna todo mundo infeliz.” Acho que a melhor forma de fazer isso não é com autoafirmações forçadas, mas com a naturalidade de quem se ama e não dá muita importância se não está dentro do que a sociedade considera belo. Vá, coloque suas fotos por aí, ande como quiser, e tente ajudar a tornar natural para todos a beleza diferente, sem tanta agressividade. Não adianta berrar que é linda e que não se importa com leis estéticas quando um mero olhar ou “portar-se” seu em público denuncia insegurança (por exemplo, quando uma mulher “mais bonita” do que você entra no recinto e você não consegue parar de olhá-la de soslaio de cima até embaixo o tempo inteiro). Seja a revolução de beleza que você quer ver no mundo.

Em síntese, a obesidade não é saudável. Mas isso não dá direito a ninguém de ofender pessoas obesas, porque nós simplesmente não temos o direito de ofender alguém que não vive como nós e faz mal apenas a si mesmo. Pessoas gordas não precisam abdicar da vida em sociedade – dançar, cantar, atuar, apresentar um telejornal – por causa de um padrão tão rigidamente imposto. Nós não apenas não vemos pessoas obesas apresentando jornais ou atuando em novelas em papéis decentes: uma mulher que use tamanho 44 dificilmente será protagonista em qualquer coisa midiática. Modelos de tamanho 36 são preteridas por estilistas que têm ódio ao corpo feminino (será que por que gostariam de ter esse corpo?), numa normatização corporal forte que vem desde a época em que os costureiros que mandavam no tamanho dos corpos femininos eram todos homens. Isso é doentio. “Mas isso não é ser politicamente correto?” Não da minha parte. Eu acho que o humor tem hora e público. Num lugar uma piada sobre um povo pode ser muito engraçada, em outro, pode ser extremamente inadequada e agressiva. Características corporais podem aparecer em piadas? Na minha opinião, podem, desde que se avalie o contexto. Nunca foi novidade que meu jeito inofensivo de me vingar das pessoas que me chateiam é fazendo caricaturas delas: claro, ressaltando o que têm de mais bizarro. O politicamente correto quer que vivamos tensos como se estivéssemos dentro de uma loja de cristais calçando patins. Sou contra isso. Mas também sou contra falta de educação premeditada – estar perto de pessoas gordas e dizer em alto e bom som que acha qualquer gordurinha um horror nojento –, piadas em momentos impróprios e "estereotipamento" vitalício, que é quando, por exemplo, você tacitamente proíbe alguém fora do padrão de exercer um papel comum, como o protagonista de um filme ou o apresentador de um programa. É exaustivo que uma atriz que tenha engordado dois números passe a ter seu corpo mais comentado do que a atuação dela na peça em que acabou de atuar. É deprimente que o assunto mais comum em grupos de mulheres, gordas ou magras, seja dieta, e deve ser esse um dos motivos que por muitos anos me levou a considerar que era melhor ter amigos homens. Meu bem: ou você aceita que gosta de comer e que sempre será assim mais macia, ou faz logo uma consulta ao nutricionista para emagrecer e se tornar o que realmente acha que vai te fazer mais feliz – mas pare de viver falando sobre dieta todos os dias, porque, Jesus, que assuntozinho de cabeças vazias! Vamos falar sobre política, literatura, sociedade, música, cinema, e não sobre dietas. Vamos parar de odiar nossos corpos e odiar pessoas somente por causa de seus corpos. “Mas você disse que obesidade não é saudável, que pode ser coisa de quem tem problema emocional.” E desde quando devemos odiar as pessoas porque não são saudáveis ou porque têm problemas emocionais? Já pessoas chatas – como as que vivem falando sobre dietas ou aquelas que fazem questão de enviar indiretas para gordos – são muito difíceis de amar: eu mesma as coloco no saco “pessoas a evitar”, onde também estão fanáticos por Star Wars e defensores de Mao Tsé-Tung.

De minha parte, um conselho breve e equilibrado seria: não deixe que seu corpo pese tanto a ponto de você sentir que carrega duas pessoas dentro de si, mas não leve seu peso tão a sério na hora de decidir se deve pedir mais uma rodada de cerveja quando estiver se divertindo com pessoas queridas.

terça-feira, novembro 17, 2015

Esquerda festiva diabólica


No filme Festim diabólico (1948), do Hitchcock – uma das poucas vezes em que um título de cinema traduzido para nosso idioma fica melhor, já que Rope não é tão galante –, dois personagens matam um terceiro logo no começo do filme e tentam justificar moralmente sua ação. Um crime só é um crime dependendo de quem o faz: sujeitos moralmente superiores teriam razões para enforcar outro menos importante. É uma ideia que tem se aplicado bem à esquerda festiva, cheia de voz graças à internet que permite que qualquer patife faça pronunciamentos persuasivos e liberte seus demônios. Será que a paixão pela destruição da sanidade alheia também é uma paixão criativa?

Eu estava no Chile quando ocorreu o último atentado terrorista em Paris. Fui descansar no hotel na sexta-feira, 13, à tarde, e acordei duas horas depois com meu namorado contando a notícia que ele acabara de ler, e naquele momento os terroristas ainda mantinham reféns dentro da casa de shows Bataclan. Na hora já senti um mal-estar físico. Terrorismo e tortura são coisas que sempre me impressionaram. Saímos, fomos a um show, voltamos para o hotel tarde da madrugada e ansiosos para saber o que tinha acontecido ou o que ainda estava acontecendo em Paris (nossos celulares são daqueles antigos que só fazem chamadas e enviam mensagens, não tínhamos como acessar notícias durante o show). Mais um capítulo do horror fanático tinha terminado. Mas eu estava prestes a começar a receber notícias de outro horror: o revanchismo, a insensibilidade, a estupidez e a conspiração da esquerda do ódio brasileira. Tenho um perfil falso numa rede social, comecei a ver o que as pessoas estavam postando. Fiquei nervosa ao ver a esquerda do ódio despida.

Primeiro, reclamavam que “das vítimas da tragédia em Mariana ninguém fala, agora porque são franceses brancos estão dando ibope”. Debaixo de que pedra esse alienado vive? Todos os dias a mídia está falando do rompimento das barragens em Minas Gerais, muita gente na internet viralizou o assunto, você abre qualquer pasquim e lá está a manchete sobre a lama, o Rio Doce, o povo desabrigado. Talvez em Marte ninguém fale sobre a tragédia em Mariana, pois até a França mandou condolências ao Brasil pelo ocorrido. Depois, misturaram problemas sociais e de corrupção com terrorismo, como se fossem farinha do mesmo saco: “e os mortos pela polícia? E os LGBT que são assassinados por religiosos?” Porque a polícia brasileira mata mais do que deveria estamos proibidos de nos sensibilizarmos com a França dominada por radicais islâmicos, estamos proibidos de colocar a bandeira da França em nossas fotos como forma de compaixão. Ainda na maré da competição de tragédias, o bordão clássico veio ao baile: “e a fome na África?” Ninguém faz nada pela África, os Médicos Sem Fronteiras têm que implorar para que avarentos doem vinte reais mensais para ajudar a combater os problemas de saúde da África (que são também problemas sociais), mas basta que alguém se coce para fazer alguma manifestação sobre algo que não seja a África para todo mundo começar a fingir se importar com a África. Não é novo. Sendo vegana, já tive que ler e ouvir algumas vezes a cobrança sobre adotar gatos em vez de adotar crianças que passam fome e carência em orfanatos (isso de pessoas que já adotaram crianças? Não, nunca. Todo mundo quer ter seus próprios filhos de seu próprio sangue, mas cobrar do vizinho ambientalista que deixe de se preocupar com bovinos para adotar crianças, de preferência negras), ou sobre dar dinheiro para causas animais em vez de financiar causas humanas (isso de pessoas que gastam 10% de seus salários para melhorar o mundo contribuindo com causas nas quais colocam fé? Não, isso de pessoas que nunca doam porra nenhuma para nada, e quando doam cinco míseros reais para uma instituição acham que são os cidadãos do bem do mês). Nada melhor para a África que um atentado na França para que os esquerdistas, antes alheios por opção às grandes questões africanas, passassem a se preocupar com ela. Dê uma olhada nas postagens de quem resmunga "da África ninguém fala e agora esses franceses roubam protagonismo de sofrimento!" Antes dos atentados à França, nenhuma postagem sobre a África. De repente, a África volta a existir. É preocupação social de fato ou birra, vontade de azucrinar, mostrar que se é "muito crítico", muito "vejam como não me deixo manipular pela mídia golpista"? E então, o completo desvario: “isso é o que a França paga por sua história imperialista e por se achar superior a outros povos, é o eterno retorno, a vingança dos colonizados”. Interessante. Os mesmos que fazem essa palestra de ódio motivacional são os que repudiam quando justiceiros populares resolvem se unir para dar uma surra num ladrão que anda furtando coisas dos moradores da região. Ou seja, não é que eles tenham como princípio que “não devemos fazer justiça com as próprias mãos”, e sim que a vingança só pode acontecer contra aqueles que são eleitos como a representação do que há de ruim no mundo: o branco, o heterossexual, o ocidental, o europeu, o rico, o homem. Por essa “lógica de justiça do oprimido" perversa, que mesmo ídolos como Jesus estariam longe de aprovar, se um pobre me assalta eu não tenho o direito de ir atrás dele posteriormente para dar uma surra para me vingar, mas se o Estado Islâmico mete fuzil em franceses eles precisam se calar porque no passado a França andou colonizando países indevidamente. A esquerda festiva diabólica não quer acabar com a desigualdade e com o ódio. Ela quer trocar um ódio por outro, e quer que os papéis sejam invertidos não para que ricos e pobres possam jantar e estudar nos mesmos lugares, mas para que o pobre de hoje possa cuspir no rico amanhã. É por isso que há femistas pregando a destruição dos homens e alguns delirantes dentro do movimento negro estão pregando a destruição dos brancos (a novidade é que homens negros estão proibidos de se relacionar com mulheres brancas pois com isso eles estão “contribuindo para a solidão da mulher negra”): puro ódio, desejo de vingança. Que bem isso faz ao mundo? É esse o mundo que queremos?

“É, Barbara, mas você tem que ver que milhares de pessoas morrem nas guerras africanas toda semana, enquanto na França morreram apenas 130 pessoas. Não é injusto fazer tanto alarde sobre isso?” Não, não é. Humanidade é você se importar com os africanos que morrem de fome, com os africanos que morrem nas mãos de facções criminosas selvagens e se importar com as vítimas do terrorismo islâmico na França. Se apenas números importassem, eu jamais moveria um cílio para me comover com causas humanas, porque anualmente morrem 70 bilhões de animais terrestres (vejam bem: terrestres – os aquáticos não estão nesse número) para alimentar as bocas de uma superpopulação que se acha dona de todas as espécies que por aqui vivem. O que é a África perto da morte de todos esses animais? Não morrem 70 bilhões de africanos, mulheres, pobres, homossexuais todos os anos. Não é que não possamos colocar números lado a lado para comparar as coisas em determinados contextos. Eu sempre faço isso em relação a animais, aliás. Mas não passei a dizer que a causa feminista é vã porque “morrem muito mais animais” ou que os negros devem calar a boca sobre a escravidão porque “morrem muito mais animais”. Se nos apegarmos somente a números, a simbologia de muitas tragédias perderá seu valor – valor que deve permanecer. Não vamos parar de nos chocar com os torturados pela ditadura militar “porque a fome na África mata muito mais todo mês do que o regime militar matou em duas décadas”. Não vamos parar de sentir calafrios a respeito dos campos de concentração nazistas “porque o machismo já matou muito mais mulheres na história do que o nazismo em poucos anos”. E, principalmente, não devemos deixar que nossos corações se tornem pedra estatística em nome de outras causas justamente no momento de uma grande tragédia. Ver gente parva mandando a França às favas ou fazendo mapinha do grau de importância das tragédias que ocorrem no mundo de acordo com a região dias após o impacto dessa notícia é perceber o quanto estamos nos tornando insensíveis e infelizes – por motivos políticos infundados.

A maior causa que existe para mim é a animal, porque os animais são as maiores vítimas de todos os tempos, e são vitimados por todas as classes. Mas isso não quer dizer que outras causas deixem de ser importantes. E isso não quer dizer que eu acho bom que as vítimas em Paris tenham morrido, "já que provavelmente todas elas comiam animais". Senti por elas, fiquei mal por elas. E este texto também não está aqui para passar minha imagem como missionária da paz. Eu sinto ódio, eu compreendo a vingança. Se os donos de grandes frigoríficos forem torturados e mortos, duvido que sentirei qualquer misericórdia. Mas porque eles fazem mal hoje, conscientemente, a milhões de seres sencientes. Já as vítimas do terrorismo islâmico: o que elas fizeram para que esquerdistas alienados queiram culpá-las pelo imperialismo francês do passado, para que queiram culpá-las porque houve a tragédia em Mariana, o que elas fizeram para que baldes de ódio do movimento negro digam que “não farão falta, pois são apenas pessoas brancas” (como tenho lido nesse mural da sinceridade que é a web)? O que, concretamente (e não num mundo conspiratório e doente), essas cento e tantas pessoas fizeram para receber desprezo da esquerda diabólica? Há ódios razoáveis – tenho o direito de odiar quem mata, quem estupra, quem tortura, quem faz mal aos outros objetivamente –, e há esses ódios de quem guarda um fascista dentro de si, mesmo que se diga falando em nome das minorias. Esse ódio eu odeio. Esse ódio merece ser massacrado porque ele apenas estimula mais ódio infinitamente, e ódio sobre pessoas que não têm culpa dos traumas, algumas vezes esquizofrênicos, dos que estão sentindo ódio. Eu não queria estar dentro desses corpos podres onde corre um sangue estressado, venenoso, que causa mal-estar físico e mental.

Por último: não é de uma injustiça máxima quando uma mulher estuprada passa a ser alvo de críticas, numa inversão de papéis entre vítima e agressor? É esse tratamento desumano que a esquerda festiva diabólica está dando ao terrorismo. Em vez de falarem sobre o Estado Islâmico, sobre o ISIS, estão colocando a culpa do terrorismo nas vítimas dele. Por que defender, resguardar, suavizar esses fanáticos religiosos? Que esquerdopatia é essa que trata de defender grupos mórbidos que são contra os valores que a própria esquerda diz que levou (e está levando) tanto tempo para conquistar? Não faz nenhum sentido “ver o lado” desses assassinos que são favoráveis à ditadura, à submissão feminina, contrários ao homossexualismo, contrários à liberdade de expressão, que chamam ouvintes de rock de “pervertidos idólatras” e acham que isso é motivo o bastante para fuzilá-los numa festa. Por que colocar a França no centro da questão, com todos os holofotes, enquanto esses assassinos em nome de deus fogem pelos bastidores, incólumes? Por que estamos criticando as vítimas em vez de criticar os agressores? Por que essa esquerda fanática trabalha com dois pesos e duas medidas?

Que nosso ódio e nossos compartilhamentos em redes sociais não sejam fruto da insensibilidade e da miséria intelectual. E que não achemos que povos ou grupos historicamente marginalizados são superiores e por isso têm direito de se vingar, num festim diabólico grotesco, de quem não tem nada a ver com o que eles passaram no passado. Amém.

sexta-feira, novembro 06, 2015

Rápidas e soltas 05


Eu tinha o hábito de colecionar palavras para um futuro livro de ficção. Provavelmente de contos, para começar – porque acho que um romance gera muito envolvimento e criar um personagem que se estende por mais de uma centena de páginas é como um casamento para a vida inteira –, e cheio de vocábulos bem pensados. É preciso ter muita ponderação antes de colocar a palavra “solavanco” num papel, porque um parágrafo com “solavanco” lá no meio dificilmente parecerá romântico, suave, morno. Se eu quisesse parecer sutil em estilo, teria que ser uma acrobata para manter essa conduta mesmo escrevendo “solavanco”. Ou “turbina”. Ou “calhamaço”. Ou “iconoclasta”. Agora não tenho mais tempo para isso, infelizmente. Mas se meus planos derem certo, em dezembro voltarei a ter horas diárias para alimentar meu léxico. Não comento sobre os planos porque sou supersticiosa e acho que se comentamos demais nossos bons projetos a negatividade alheia (oculta num forçado “vai dar tudo certo!” ou num “ai, que bom” de papelão de baixíssima gramatura) tentará soterrá-los. Minha superstição é criada na mesma região cerebral onde está meu TOC, suponho, e por isso me permito ser isso e ser ateia. Tarde descobri que mesmo pessoas céticas têm superstições tolas. Talvez por isso agora tenho coragem de assumir essa fraqueza. E os planos que os olhos invejosos não veem os corações invejosos não sentem. (Não falo de “inveja” no sentido popular e musical; falo no sentido quase evolutivo, de que o ser humano é, de certa forma, invejoso por natureza por causa da luta pela sobrevivência. Ninguém está imune a isso. Mas alguns tendem a ser mais budistas que outros, e é ao lado de budistas que eu quero estar tomando café descafeinado e comendo bolinho.)

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Estamos reformando nosso apartamento. Só de dizer isso já me sinto muito feliz, porque, como já defendi inúmeras vezes, nossa casa é nosso refúgio, e só toscos moram em qualquer ninho de rato sem livros, sem estantes, sem plantas, sem cor, sem vida. Meu lar deve ser maravilhoso porque ele é meu ponto de partida e meu ponto de chegada, e na verdade só saio desse ponto pela obrigação trabalhista de conseguir dinheiro. No lar somos livres. Faz todo o sentido do mundo querer qualificar o lugar que nos permite sermos nós mesmos. Jamais compreenderei pessoas que não dão atenção a suas casas, que colocam na mesa cinco pratos de modelos diferentes, todos lascados, para jantar; que sentam num sofá nada ergonômico e preferem essa “economia” a tirar dinheiro debaixo do colchão para se proporcionar um merecido conforto; que tomam café em copo; que deixam as plantas do jardim morrerem por falta de cuidados; que cozinham em panelas de alumínio; que acham que “tanto faz” a cor das paredes do quarto, desde que não seja amarelo; que vão a uma loja de móveis e compram o que tiver de mais barato lá. Uns dirão que é falta de dinheiro. Eu digo que é falta de capricho, de amor, de bom gosto. Você olha nas revistas de arquitetura muitos ricos apresentando suas casas completamente desgraçadas de tão irrefletidas (deixam que arquitetos decidam o gosto deles por eles) e desinteressantes, e às vezes conhece a Maria da esquina que mantém sua casinha de três cômodos de maneira tão aconchegante que não se quer sair de lá tão cedo. Lojas de móveis usados vendem móveis baratos e de personalidade que qualquer pobre ou unha de fome pode comprar. Mudas de plantas custam uns míseros reais. Belos jogos de louças podem ser parcelados em doze vezes. As pessoas não abandonam suas casas à tragédia porque são pobres de dinheiro, mas porque são pobres de espírito. Casas medonhas refletem pessoas medonhas. Uma mudança aqui ou ali já dá outro ar a um cômodo. O diabo está nos detalhes.

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Por ter muitos livros – e porque virei a ter muitos mais –, eu precisava de estantes até o teto. Também queria uma cozinha diferente (leia-se: não-branca e não de MDF ou MDP). Visitei, então, lojas de móveis sob medida. E descobri que o mundo dos ricos é, muitas vezes, alienado em relação ao valor merecido das coisas. Fui a uma certa loja e o vendedor me disse que um certo cantor sertanejo havia feito os móveis dele lá. Eu não fazia ideia de preços, mas nesse momento descobri que estava na loja errada, porque se um cantor famoso faz móveis numa loja isso apenas significa que eu não terei condições de fazer móveis nesse mesmo lugar. Quando o vendedor me informou sobre o valor que sairia fazer uma cozinha simples com eles, tive vontade de rir e perguntar em que mundo o dono daquela loja vivia para cobrar milhares de reais numa coisa feita de material não tão bom. Sou capaz de entender coisas caras para as quais olhamos e percebemos o motivo de serem caras (vejo batatas orgânicas algumas vezes mais caras que as comuns na feira e penso: “seu valor tem razão de ser”). Mas aquela cozinha por aquele preço só fazia sentido para um ricaço que não analisa muito bem onde está despendendo seu dinheiro. Tenho que trabalhar – o castigo de Deus para Adão e Eva após pecarem foi obrigá-los a trabalhar, então pensemos profundamente o significado dessa parte do mito – para arranjar dinheiro, não posso gastar em qualquer porcaria classuda que vale, em merecimento, um quinto do valor cobrado. Jogar dinheiro fora é como trabalhar de graça. Se eu tiver que aconselhar alguém a comprar algo bonito, de qualidade, sustentável e que vale o valor gasto, direi apenas “madeira de demolição”. Há empresas fazendo móveis de MDF e compensado e cobrando como madeira de demolição. Mais desrespeitoso que isso, só uma cusparada na cara.

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Há um problema com os ovolactovegetarianos. Na verdade, há vários, mas quero me referir a um deles em particular: o completo descaso em relação à quantidade de leite, derivados e ovos que comem. Eu sei que numa cultura como a nossa é difícil parar de comer carne, “imagine leite e ovos” (na cultura do estupro de certos países árabes também deve ser difícil deixar de estuprar uma moça que se deseja com todas as forças – vamos compreender esses homens que são antiéticos em nome da tradição?), mas o ovolactovegetariano costuma ser tão preguiçoso que ele mesmo justifica o “radicalismo” dos veganos. Um ovolactovegetariano não permanece nesse caminho do meio para ter direito de no sábado comer uma pizza com queijo e no domingo fazer uma omelete, excepcionalmente. O ovolactovegetariano permanece no caminho do meio para comer queijo num pão de manteiga e café com leite ao acordar, lanchar pão-de-queijo às 10h, almoçar ovos, à tarde tomar mais um café com leite saboreando um bolo entupido de leite condensado e à noite comer uma lasanha quatro queijos ou uma macarronada cheia de parmesão por cima. Isso em um dia. O ovolactovegetariano chega à lanchonete e pergunta quais as opções de pastel sem carne. Há de queijo e há de palmito. O ovolactovegetariano, que “já está comendo leite e ovos, mesmo” e por isso optou por uma cegueira seletiva, escolhe o de queijo. Ele vai às compras com a mamãe, sente calor e precisa de algo para se refrescar: em vez de tomar um suco de frutas, compra um milkshake, pois “leite eu ainda tomo”. Achar um ovolactovegetariano que tente minimizar ao máximo seu consumo de leite e ovos – restringindo-os a momentos de extrema fraqueza e desconsideração à dor animal – é tão raro quanto encontrar um best-seller relevante. O vegano “radical” faz sentido. O ovolacto é um preguiçoso que se esbalda em pus de vaca e ovos de galinhas que vivem apertadas numa gaiola com a área de um papel A4 – e não se esforça muito para mudar isso. Há exceções – há pessoas que estão numa jornada em que toda semana novas reduções de exploração são feitas –, mas a maioria vive nesse vício.

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A preguiça é a mãe de todos os vícios. Um sujeito brada com veias saltadas contra o capitalismo, o monopólio das grandes empresas, a exploração do trabalhador, incomoda qualquer transeunte para se afirmar: "olha, eu sou de esquerda, viu?". Vai ao mercado e compra produtos da Nestlé, da Unilever, da P&G, sendo que há, ali mesmo, outras inúmeras marcas menores, modestas, tentando conquistar clientes. Preguiça de ler rótulos? Preguiça de testar uma nova marca menos conhecida? Preguiça de pensar se a tagarelice não está se sobrepondo à ação? O sujeito divulga seu humanitarismo ao compartilhar imagens de trabalhadores chineses explorados fazendo bonequinhas. Vai à feira de artesanato local e reclama que bonecas de pano feitas por vovós são “muito caras” e na hora de comprar panelas vai comprar aquelas feitas na China, “porque as outras custam um absurdo”. Ética tem preço, meus queridos. Para ser ético, não basta apenas falar, é preciso fazer, é preciso se esforçar, vai ser preciso dirigir até um estabelecimento mais longe ou comprar produtos de marcas pequenas em lojas online; é preciso abrir mão de produtos “com sabor de infância” que têm sabor amargo para funcionários, animais e florestas; é preciso largar o cheiro daquele sabão em pó que você usa há anos – e com o qual “já está acostumado” – para dar lugar a um que não seja de uma marca que quer dominar o mundo. Isso é ética. O resto é conversa para boi dormir.