terça-feira, agosto 11, 2015

Trabalhando em uma biblioteca


Mudei de cidade, de emprego, de casa. Após vinte e cinco anos morando em Blumenau (que merece uma postagem só para ela), agora estou morando em São Paulo. Trabalho em Campinas. Lido com processos (ainda um tanto indecifráveis, mas sei que esse grego logo vai se tornar português). Por quatro anos e alguns meses, trabalhei em uma biblioteca, cujas atividades envolventes só perdem em encanto para aquelas exercidas por radialistas livres, dubladores e escritores, e isso porque muitas vezes não é possível ler os livros da biblioteca durante o expediente. Se fosse possível ler o que se bem entende, a profissão de balconista de diferentes saberes organizados certamente seria melhor que os outros cargos elencados ali. Não podemos ler muito no meio do trabalho. Somos como um passarinho preso numa gaiola dentro de uma loja de alpiste. 

Paradoxalmente, sou uma antissocial que gosta de trabalhar com atendimento ao público. Aliás, é só nesse modelo de serviço que laborei até hoje. Você auxilia pessoas, tenta tratá-las como gostaria de ser tratado, mas não precisa levar nenhuma delas para tomar café na sua casa nem trocar telefones. Com sorte, o atendimento é veloz e impede qualquer avanço de intimidade. Com azar, algum atendido decidirá que vocês precisam ser amigos e sufocará sua vida com tagarelices sem fim. Aconteceu uma vez. Aquela usuária, que fingia gostar de ler, fingia entender Barthes e no cume do pedantismo usava uma das três frases em francês que conhecia para começar a conversar com balconistas da Renner (para que a atendente pensasse que ela falava francês com fluência ou que vinha da França), decidiu, sem me consultar, que seríamos amigas. Passou a me visitar todos dias no balcão. Falava sobre pessoas que eu não conhecia. Conseguia ficar quinze minutos matraqueando sem cessar e sem perceber que eu não tinha dito nada mais que "hm, ah, é?" naquele ínterim. Achou que eu era uma psicóloga do SUS disfarçada de auxiliar de biblioteca. Amou platonicamente todos os homens e depois fez longos pronunciamentos negativos sobre eles. Queixou-se diariamente de sua chefe. Elegia os carros alheios como magníficos ou "com o salário que ganha, é estranho que tenha apenas um Palio", sendo que eu só sei reconhecer pouco mais que meia dúzia de carros (vejamos: Fusca, Brasília, Uno, C3, Gol modelo velho, Gol modelo intermediário, Monza, Duster... Kombi é um tipo de carro?) e essa era a espécie de assunto que não fazia nenhum sentido para a minha vida. Um dia, ela fez um fiasco mentiroso sobre mim bem ali, no balcão, com todos os livros e duas pessoas de testemunha. Primeiro me senti indignada. Depois senti um alívio estratosférico que deve se igualar ao sentimento do besouro quando consegue se desvirar sozinho após horas com as pernas para cima. Foi minha chance de me livrar da pior usuária que já pude atender. Não desejo um público desses para ninguém. Ela tentou me pedir desculpas. Eu, obviamente renovada pela minha recente alforria, não aceitei. 

O que o atendimento ao público tem a nos ensinar se formos observadores? Que os tipos humanos são muito interessantes. E fracos. Nós que atendemos – cabeleireiros, taxistas, vendedores, atendentes de biblioteca, padaria, hotel – muitas vezes sabemos coisas sobre as pessoas que os amigos íntimos delas não sabem (recomendo a leitura do livro A representação do eu na vida cotidiana, Editora Vozes, do sociólogo canadense Erving Goffman). Esse conhecimento gratuito pode ser usado para fofocar, rir ou compor personagens. Ali em cima regurgitei uma fofoca. Hoje quero listar casos que podem motivar o riso. Espero um dia poder criar personagens que montem um patchwork dessas figuras tão pitorescas que me marcaram de alguma forma. Morrerei de saudades da biblioteca, apesar de até hoje não entender como podem existir tantos livros sobre um assunto como administração de empresas. Minha forma de homenagear este lugar tão nobre é deixando aqui alguns embaraços vividos por mim, mas protagonizados por sujeitos bizarros que merecem ter sua existência pálida e automática lembrada pela jocosidade.

1. Pessoas conseguem se formar em cursos técnicos sem nunca terem tomado emprestado um livro da biblioteca. Todo curso tem bibliografias básica e complementar, mas, mesmo assim, é possível adquirir "formação" sem ler nada além do extremamente básico: matérias na internet, apresentação de slides do professor e uma ou outra fotocópia que circula pela turma. É o que eu chamo de "tradição oralista das instituições". Você pensa que o conhecimento transmitido pela oralidade é algo que rememora Homero, mas deveria perceber que ele ainda é a norma e está mais perto do que se pensa. Muitos alunos, de escolas básicas, técnicas e universidades, conseguem finalizar os estudos formais sem nunca terem lido um livro inteiro sequer.
2. Não é tão incomum que usuários apareçam em bibliotecas com acervo de alguns milhares de livros pedindo por "um livro de capa azul, do qual não me lembro o título, o autor e o assunto".
3. Não é tão incomum que usuários apareçam pedindo livros dos quais eles não recordam autor e assunto, e então passem a narrar a história do livro.
3.1. Não é incomum que usuários, ao narrar histórias de livros para atendentes de bibliotecas esperando que eles, os atendentes, saibam que livro está sendo referido, pensem que os funcionários da biblioteca têm o hábito de ler todos os livros que compõem o acervo.
4. Muitos usuários pensam que todo mundo que trabalha em biblioteca gosta de ler. É como pensar que todo mundo que trabalha com limpeza gosta de limpar e esquecer que na maioria dos casos as pessoas procuram empregos pela oportunidade e conveniência, e não pelo gosto.
5. Aquele sujeito que trabalha num serviço subalterno, tem pouco esclarecimento, ganha o básico para sobreviver e conta moedas aparece para ser atendido na biblioteca: se "precisar", ele não vai pensar duas vezes antes de te ofender e gritar com você, menosprezando seu labor de atendente.
6. Aquele sujeito de paletó que deve ser um desembargador ou um empresário de um milhão de dólares e tem a vida empregatícia a seu completo favor: ele aparece na biblioteca e estranhamente te trata muito bem, como se você fosse uma peça elementar no tecido social.
7. Comumente usuários pensam que o balcão da biblioteca é o divã do psicanalista. Só falta que se deitem perto de nós para narrar todos os problemas pelos quais são acometidos.
8. Alunos esquecem que professores são nossos colegas de trabalho, e, possivelmente, são pessoas das quais gostamos. Não lembrando disso, passam a derramar toda a bile fétida sobre o balcão, criando adjetivos novos para caracterizar os professores que detestam.
9. Alunos resolvem cantar na biblioteca. Você chama a atenção. Eles acham que você é uma víbora por exigir que alguém não cante num local público dedicado aos estudos e ao silêncio.
10. Usuários adolescentes acham que estão indo "contra o sistema opressor" quando desrespeitam regras da biblioteca. Ao gargalhar alto e colocar música nos computadores coletivos, eles pensam que são uma espécie de Renato Russo da nova geração.
11. Usuários que se pensam estrelas arrogantes sempre surgem para desestruturar a vida dos outros reles mortais que estão na biblioteca. Provavelmente acabaram de ver Kids, Christiane F. ou o filme do Cazuza. Há um pátio enorme fora da biblioteca, mas é muito mais revolucionário ser sensacional e adorável dentro da biblioteca.
12. Você é pago para atender e seguir as regras criadas por terceiros. Mas o usuário vai quase sempre culpar você pelo sistema de multas "injusto". É como culpar o atendente da padaria pelo preço do pão.
13. É muito comum que usuários pensem que você não deve cobrar multa pelos livros que eles atrasaram porque eles simplesmente "esqueceram de devolver". Se não cobrarmos pelo esquecimento, pelo que deveríamos cobrar? Será que deveríamos cobrar multa somente das pessoas que lembraram de devolver na data, mas não quiseram, de propósito?
14. Alguns usuários acham que você é mal amada se cobra multa por um dia de atraso.
15. Com exceção dos livros da moda e dos livros para disciplinas específicas, a maioria dos outros que são emprestados voltam lidos somente até a página 20 ou 30.
16. Alunos adolescentes saem da aula de Sociologia ou Filosofia muito animados com a descrição que o professor fez de 1984, do Orwell, ou O contrato social, do Rousseau. Pedem o livro no balcão, levam para casa. Devolvem poucos dias depois com o marcador de páginas na página 20. Esperavam, provavelmente, que a narrativa fosse no estilo John Green ou Meg Cabot.
17. O usuário que lê um livro clássico até a página 30 (um livro do Marx, da Simone de Beauvoir, do Camus, do Aristóteles, do Schopenhauer) vai passar a vida mentindo que leu o livro todo. Quando perguntado, dirá "eu já li esse livro" em vez de "já li esse livro até a página 30 e na verdade eu o abandonei porque só gosto de ler coisas muito fáceis, muito fracas, muito dadas de graça pelo autor". Nada como parecer intelectual. Nada como parecer que gosta de ler.
18. Um usuário que faz questão de se vender para você, do balcão, como um apaixonado por livros, é aquele que lê autores como Sidney Sheldon, Martha Medeiros e Jô Soares.
19. Em meus quatro anos e alguns meses de biblioteca, Nietzsche foi emprestado inúmeras vezes. Nunca foi lido por completo. Nem os livrinhos menores. É muito martelo para gente que é um prego feito de jujuba.
20. As pessoas leem citações de Nietzsche no Facebook e pensam "que vigor, que navalhada na cara dos hipócritas!". Pegam os livros dele emprestados na biblioteca. Devolvem pouco tempo depois sem terem alcançado o aforismo número 10.
21. Muitos usuários que escrevem mal tomam emprestado o livro A arte de escrever, do Schopenhauer, pensando que ele vai ensiná-los a fazer uma melhor redação de vestibular ou redigir um ofício.
22. Alunos metidos a bruxos se empolgam quando pegam O anticristo, de Nietzsche, para ler. Voltam decepcionados após a leitura de poucos parágrafos.
23. Aparentemente, o café derramado está para os livros como o ímã está para a geladeira. É aterrorizante a quantidade de livros que retornam manchados de café.
24. Alguns livros são emprestados novinhos. Voltam como se tivessem ficado por três dias no asfalto da Régis Bittencourt.
25. É preciso engolir a seco quando um aluno que veio de bicicleta para a biblioteca, num dia de calor infernal, abraçando os livros junto ao corpo, entrega os livros suados para você.
26. Como atendente de biblioteca que gosta de ler, talvez você repense o hábito de pegar livros emprestados da biblioteca e passe a comprar os que quer ler. Após ver usuários espirrando em cima de livros, suando nos livros, pegando livros após não lavar as mãos no banheiro e virando páginas usando o antiquado método de lamber as pontas dos dedos, torna-se um pouco difícil olhar para um livro que já foi emprestado algumas vezes e imaginar que seria confortável levá-lo para sua cama com sua fronha de ovelhas e seu edredom com aroma de amaciante.
27. Uma atendente de biblioteca que está sozinha com um homem duvidoso sempre vai deixar um telefone por perto caso precise gritar por socorro.
28. Para o usuário baderneiro, o atendente "legal" é aquele que estaria fazendo crochê durante o incêndio da Biblioteca de Alexandria.
28.1. Para o usuário que gosta de ler e estudar, o atendente que estaria fazendo crochê durante o incêndio da Biblioteca de Alexandria é um incompetente, um "mongo", um inútil.
29. A palavra caos deve ter sido criada para descrever a situação de adolescentes invadindo uma biblioteca.
30. Há pessoas que veem a biblioteca como uma praça onde você senta com seu amigo, conversa e gargalha. Biblioteca: um mero lugar para sentar.
31. Há pessoas que vêm para a biblioteca por causa do ar-condicionado. Não, não aproveitam o tempo lá para ler e refletir enquanto se refrescam.
32. Funcionários que trabalham em bibliotecas somente por razão de oportunidade e conveniência reclamam que "não há nada para fazer" nos períodos com poucos usuários e poucos materiais para inserir no sistema. Há vasto conhecimento na cara deles, conhecimento que mudaria suas vidas desinteressantes. Mas eles acham que não há nada para fazer quando não têm que atender pessoas ou realizar tarefas mecânicas. (Acho que é o tipo de pessoa que, quando tem filhos, tem filhos para sanar o tédio.)
33. Adolescentes se amontoam em cantinhos da biblioteca para bisbilhotar livros sobre drogas ou sexo.
34. Sempre tive nojo ao pegar de volta a série de livros dos tons de cinza. Sempre lavei as mãos depois. Nunca pude constatar se a gordura presente na capa vinha dos dedos ou de outros lugares. 
35. Machado de Assis só sai da biblioteca para leituras obrigatórias. Infelizmente, quase ninguém lê Machado de Assis por prazer. 
36. Muitos professores de português gostam de livros ruins. Eles leram Memórias póstumas de Brás Cubas somente porque foram obrigados na graduação ou porque precisam planejar aulas. Quando têm que escolher, livremente, o que ler, descambam para o mais do mesmo que aparece em listas de mais vendidos. 
37. Alguns leitores em formação passam pela fase Harry Potter. Alguns leitores inertes vivem na fase Harry Potter. 
38. Há usuários que pensam que a biblioteca é a Itália. Você pede que falem mais baixo e eles se sentem culturalmente ofendidos. 
39. Editoras que publicam livros de idiomas estão enriquecendo às custas de fogo de palha. Poderiam passar lições até a página 50 e depois se desdobrar em textos com bula de remédio. Nunca vi ninguém terminar o livro com curso de idiomas que pegou emprestado. É raro que as pessoas tenham vontade suficiente para estudar sozinhas. 
40. Há pessoas que só leem autoajuda. Provam duas coisas: que precisam de muita ajuda e que esses livros não cumprem o que prometem – se cumprissem, seus leitores não precisariam buscar novos livros indefinidamente.
41. Livros de autoajuda em bibliotecas públicas são muito reveladores. Você sabe quando a pessoa está de dieta, quando ela quer ficar rica, quando está com problemas com a educação dos filhos, quando tem autoestima baixa. Uma mulher deslumbrante que percorre os corredores como um cometa feito de glitter toma emprestado um livro sobre como melhorar o amor próprio. Você filosofa, então, que a vida é uma fachada.
42. Em praticamente todas as prateleiras há o aviso: "não recoloque o livro na estante; deixe-o na mesa". Mas todo mundo pensa que entende a Classificação Decimal de Dewey ou tem certeza de onde estava o livro.
43. Bibliotecas teriam muito menos movimento se não tivessem computadores ou acesso a wi-fi. 
44. Pessoas que são o disco "é preciso melhorar a educação deste país!" no lado A e no lado B com remix muitas vezes não têm o hábito de ler. Talvez melhorar a educação do país deva passar primordialmente pelos programas de rádio. Ou com compartilhamentos educacionais nas redes sociais. Jamais entenderemos um discurso que é um simulacro.
45. Alunos que desejam que você leia o que eles escreveram numa redação geralmente fazem esse pedido porque acham que o que escreveram está muito bom e esperam um elogio. Nunca está bom. Há erros ortográficos grosseiros e a coerência está fazendo aniversário de falecimento. 
46. Alguns usuários pensam que você corrige textos por trabalhar em uma biblioteca. Você até tenta melhorar o texto deles, mas é impossível. Há textos que precisam nascer de novo para que façam qualquer sentido. 
47. Usuários homens que pegam livros sobre sexo ficam tímidos e desconcertados no balcão. Usuárias mulheres que pegam livros sobre sexo aparecem no balcão com uma expressão safada e desafiadora. Quase mandei para o setor de Licitações o pedido de um carimbo "você é d+!". 
48. Os melhores leitores de uma biblioteca são discretos: pegam Hesse em silêncio e vão para casa. Os leitores pedantes querem que você saiba que eles estão terminando uma série de dez volumes de milhares e milhares de páginas. 
49. Usuários com má dicção ou que têm preguiça de falar as coisas de modo declarado vão agir como se você fosse uma pessoa surda e débil caso peça para que repitam o que acabaram de dizer. "trs dos oto mea" "O quê?" "TRÊES DOOIS OI-TO MEEIA, entendeu?, M-E-I-A". 
50. Primeiro contato com usuários adolescentes: seja militar. Depois, com o tempo e a manutenção do respeito, suavize. Se começar suave e depois notar que toda situação é incontrolável, não adianta abruptamente tentar se militarizar: será queimado vivo. 

"A biblioteca de um homem é a sua mais fiel biografia" (Walter Benjamin). E a rotina vivida em uma biblioteca pública é a fiel biografia de um povo. Mesmo assim, tendo trabalhado em uma biblioteca que revelava a biografia capenga de um povo que não lê, sentirei muita nostalgia do meu antigo emprego. Um abraço forte, biblioteca. Fiz o possível para deixar suas estantes mais ricas com minhas planilhas de pedido de livros. Que as figuras que te visitam sem se flagrar da sua preciosidade possam acordar e ver que você é o coração de uma instituição de ensino.