domingo, julho 26, 2015

Textos dos outros: Explosões sexistas - João Pereira Coutinho (Folha)


Antes da coluna do escritor português João Pereira Coutinho, de 16 de junho, para a Folha, algumas breves considerações: 

1. Copiar o texto de um sujeito público aqui não me faz concordar em plenitude com tudo que o sujeito defende. Responsabilizo-me por concordar estritamente com o texto que foi colado por mim. No Brasil das posições políticas confusas e dos ânimos acalorados, em que a religião foi substituída por partidos políticos, você aprovar algo que um conhecido esquerdista ou um conhecido direitista diz provoca cochichos no corredor. Já escrevi e repito: não queimarei meu nome defendendo políticos, partidos ou instituições. Às vezes penso como os chamados de direita, às vezes penso como os chamados de esquerda. Isso é fabuloso: quando opino sobre algo, não preciso primeiro consultar meus pastores políticos para ver "será que a galera da esquerda pensa como estou pensando ou devo ler o que eles estão dizendo, acatar e agradecer humildemente pelos esclarecimentos?".

2. Ainda sobre posições políticas: a esquerda e a direita severamente posicionadas e autoritárias são tão obtusas e corporativistas (Reinaldo Azevedo escrevia interessantes textos sobre a Operação Lava Jato: até que seu querido Cunha começou a ser investigado e ele, cego pelo posicionamento político, começou a criticar a metodologia da operação. Como alguém pode oferecer a própria face para defender um evangélico retrógrado como Eduardo Cunha? Não sei. Talvez pirraça no sentido de que "inimigo de inimigo meu é meu amigo". Coisa de criancinhas.) que é um erro ouvir e ler apenas um dos lados. Quando quero saber dos deslizes da dita direita, leio a Carta Capital e a Caros Amigos. Quando quero saber dos deslizes da esquerda, leio a Veja (não leio a IstoÉ simplesmente porque acho os textos mal escritos). Não tenho medo de ler nada que vá contra o que penso, pelo contrário: se um pensamento oposto ao meu tiver fundamentos muito melhores, proponho-me, imediatamente, a mudar de opinião, sem medo de ser expulsa de qualquer tácita corporação política criada na internet. Sem medo de deixar de fazer parte de "nós" ou de "eles".

3. Sobre a coluna do Coutinho: não acho bonito ou louvável cientistas dando a entender que mulheres em laboratórios são fracas, choronas e servem para que romances possam acontecer, assim como não acho agradável homens exaltando padrões estéticos rígidos para a mulher. Mas se eu comando uma instituição de pesquisa e um dos cientistas renomados que trabalham lá resolve aparecer trajando uma camiseta com a imagem da uma pin-up, tudo que vou pensar é "pfff...", somente. Não vou despedir um gênio por uma ninharia tão pequenininha. Não acho que a camiseta tinha que ter gerado uma discussão pública febril; não devia ter gerado nem discussão no setor onde o tal Matt Taylor, fã de mulheres simpáticas e esbeltas, atuava. Por que andamos tão tensamente policialescos? Por que pessoas precisam se desculpar em documentos oficiais por coisas banais? Que mundo politicamente corretíssimo é esse que gasta energia com regulação de quinquilharias cotidianas que não ferem ninguém? "Ah, mas padrões estéticos ferem as mulheres diariamente". E um homem cientista trajando uma camiseta tola é que deve ser tomado como bode expiatório desse problema e linchado diante do planeta? Se você, mulher feminista, está tão preocupada com o gosto estético de um homem lá de um laboratório distante (que para você representa todos os homens, pelo visto), para que serve seu feminismo? Achei que feminismo era sobre como nós nos vemos e como nós nos posicionamos diante da sociedade, e não uma forma de implorar que homens passem a amar mulheres fora do padrão para que as mulheres fora do padrão não se sintam mais um lixo. Sinta-se bonita sem ser uma pin-up, os homens gostando ou não. Não espere que um homem apareça trajando uma camiseta com uma mulher negra, gorda e de cabelo crespo assumido para se sentir bem (pensaram que eu ia dizer "empoderada"? Pois acho essa uma das palavras mais horrendas que já apareceram na nossa língua, apesar de compreender seu sentido). Seu feminismo é estranho para mim se você se sente tão incomodada com a camiseta com pin-up de um homem. Que nosso feminismo seja vitalício, e não apenas manifesto de ódio quando estamos por algum tempo sem namorado e sem que homens se interessem por nós. Uma mulher que está solteira porque é feminista é muito diferente de uma que é feminista porque está solteira. 

Agora, a excelente coluna: 

"Será legítimo ordenar mulheres para o sacerdócio? Um amigo meu, católico praticante, é contra. Diz ele que, na missa, gosta de estar concentrado na liturgia. Uma mulher no púlpito pode abalar a fé de qualquer crente com pensamentos impuros. 

Entendo o problema. Rio com ele. "Mea culpa". Daqui para a frente, prometo controlar-me. E deixar um conselho a esse amigo: cala a boca, rapaz. O comentário é "sexista" e pode até custar um emprego. 

Se ele relinchar com minhas chicotadas, contarei a história de Tim Hunt, cientista britânico e vencedor de uma coisa chamada Prêmio Nobel de Medicina, em 2001. 

Os fatos circularam pela mídia – e, naturalmente, pelas catacumbas das redes sociais. Em conferência na Coreia do Sul, Tim Hunt partilhou uma piada com a audiência. Disse ele que as mulheres nos laboratórios podem perturbar o trabalho científico. "Você se apaixona por elas; elas se apaixonam por você, ou então choram quando as criticamos", afirmou o cientista. 

Foi o que bastou para que o University College, de Londres, fiel aos seus pergaminhos igualitários, tenha terminado a sua colaboração com o professor Hunt. Mesmo depois de o próprio, atônito e envergonhado, ter pedido desculpas pelo "erro" imperdoável. 

Não chega. O mínimo que se esperava de Tim Hunt era a devolução imediata do Nobel e, quem sabe, uma mudança de sexo por solidariedade feminista. 

Com o nome de Tina Hunt, o antigo Tim Hunt poderia finalmente mostrar ao mundo que as mulheres não se apaixonam nos laboratórios; que os homens não se apaixonam por elas; e que, em caso de crítica pelos pares masculinos, a nossa Tina permaneceria firme e hirta, sem verter uma única lágrima que fosse. 


E se um asteroide colidir com a Terra nos próximos anos? Não quero assustar o leitor sensível, mas pode acontecer. 

Leio na revista "Time" que a Agência Espacial Europeia reuniu vários sábios cosmológicos para discutir o apocalipse. No longo prazo, estaremos todos mortos, dizia Keynes. Mas o pior é que, no longo prazo, a humanidade inteira pode conhecer igual destino. 

Um exemplo: antes de 2040, um rochedo de nome Apophis, com capacidade destrutiva comparável a 58 mil bombas nucleares de Hiroshima, passará pela vizinhança e será observável pelos terráqueos. Mas outros rochedos vêm a caminho e podem acertar no alvo, acabando com a festa. Perante isso, o que fazer? 

Os especialistas informam que há duas soluções em cima da mesa. A primeira, digna de filme, é usar armamento nuclear para pulverizar o rochedo na sua cavalgada assassina. 

A segunda, mais delicada, implicará sempre o envio de um brinquedo humano para a superfície do rochedo, capaz de interferir com a sua rota. E, perante essa segunda solução, antecipo sérios problemas. 

O leitor sabe do que falo. Há menos de um ano, o mundo assistiu a um espantoso feito científico: uma sonda de nome Rosetta conseguiu pousar em um cometa, abrindo possibilidades de conhecimento (e proteção) para a raça humana. 

Houve aplausos. Houve festejos. Houve alegria. Mas um cientista envolvido no projeto, de nome Matt Taylor, apareceu perante as câmeras com uma infeliz camiseta colorida, onde era possível observar imagens de mulheres pin-up, em poses sensuais, ou seja, "degradantes" e "ofensivas". 

Para não variar, as catacumbas das redes sociais não perdoaram esse crime "sexista". E o feito científico da sonda Rosetta, que em teoria poderá salvar um dia a civilização, foi imediatamente jogado no lixo ante o machismo repulsivo do doutor Matt Taylor. 

Verdade que o cientista, em aparições posteriores, pediu mil perdões a todos os selvagens que ele tinha melindrado com a sua indumentária. Mas eu, pelo sim, pelo não, freava desde já qualquer investimento nessa área. Só para evitar qualquer possibilidade de novas agressões "sexistas". 

Se isso implicar a destruição da humanidade por um rochedo imparável, paciência: restará a consolação de sabermos que o fim será cumprido no estrito respeito pela cartilha politicamente correta das patrulhas que nos dominam."