domingo, junho 21, 2015

Textos dos outros: Ameaça de encalhe - Ruy Castro (Folha)


Minha indignação com este governo permanece. Mas tentarei fazer com que esta postagem seja a última, por alguns meses, sobre o destruído Partido dos Trabalhadores. O que Ruy Castro escreveu sobre o PT em sua coluna do dia 17 é exatamente o que eu penso: foi um partido que precisou aparecer, e apareceu com uma promessa de esperança nas mãos de muita gente compromissada. Hoje, satisfazendo teóricos que se deliciam enquanto provam que a vontade de poder humana é mais forte que qualquer princípio e que a honestidade é apenas uma questão de falta de oportunidade, já não sabemos quem é quem no PT "aburguesado", tão estranho a seu estatuto como cristãos costumam ser estranhos a Cristo. Como escrever somente sobre livros e viagens quando meu país se torna uma piada de péssimo gosto? E como acreditar que petistas fanáticos ainda defendam essa farra? Um petista que vê o que está acontecendo e tenta arranjar justificativas é apenas uma coisa: um canalha. 

Mas vamos ao Ruy, que é mais refinado do que eu para fazer crítica política. 

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"RIO DE JANEIRO - No Congresso do PT, em Salvador, na semana passada, o ex-presidente Lula deu uma monumental bronca nos correligionários e disse que o partido era mais eficiente no tempo em que os militantes tinham de vender camiseta, adesivo e estrelinha. Lula gostaria que eles voltassem a essa prática.

Não que o PT precise dos caraminguás gerados por essas vendas. Se há uma coisa de que seus tesoureiros nunca se queixaram foi de falta de dinheiro. É pelo espírito da coisa –para que as bases parem de dar ouvidos às mentiras da imprensa burguesa sobre a corrupção e os desastres na economia, e voltem a acreditar no partido. Afinal, 2018 está logo ali na esquina.

Mas aí é que mora o problema. No tempo em que o PT vendia adesivos, estrelinhas e camisetas, seus líderes vinham da passeata, da fábrica ou do sindicato, e eram aclamados pela massa nos pés-sujos. Hoje vêm das estatais, dos bancos e das empreiteiras, e, mesmo assim, são hostilizados nos restaurantes do Itaim. A Caracu com ovo, tomada com a barriga no balcão, foi substituída pelo Romanée-Conti em caves climatizadas.

No passado, os mentores históricos do PT tinham tempo para ensinar os companheiros a conduzir uma greve, melar uma votação ou queimar um adversário. Depois, ficaram muito ocupados vendendo consultoria sobre como cortar caminhos dentro da Petrobras, infiltrar alguém numa diretoria ou a quem oferecer propina para ganhar uma concorrência. Ou dando palestras de hora e meia por R$ 300 mil.

O PT dos adesivos, camisetas e estrelinhas era o de Antonio Candido, Sérgio Buarque e Mario Pedrosa. Depois tornou-se o de Dirceu, Genoino, Delúbio. E, hoje, é o de João Vaccari, Henrique Pizzolato, João Paulo Cunha, Rosemary Noronha, André Vargas, Paulo Okamotto. Que nível. Os adesivos, camisetas e estrelinhas ameaçam encalhar".