terça-feira, maio 05, 2015

Textos dos outros: Governo autista - Vladimir Safatle (Folha)


Inauguro uma nova tag neste blog: TEXTOS DOS OUTROS. Por meio dela, publicarei textos interessantes (geralmente curtos) que encontro em jornais e sites favoritados. Talvez teça algum breve comentário sobre eles, mas a intenção é partilhá-los pelo seu valor em si. Como agora assino a Folha de São Paulo digital, por exemplo, tenho acesso a milhares de colunas maravilhosas a que vocês, talvez, não tenham (o limite para não-assinantes é de somente dez colunas mensais). E às vezes me chateio em saber que um texto tão bom só poderá ser lido por assinantes, e por isso pretendo, vez ou outra, colá-los aqui. É claro que avaliarei esses textos não só pela qualidade, mas pela pertinência: se fosse só pela qualidade (e se eu quisesse levar uma chamada de atenção da Folha), colaria nas postagens todas as colunas do Professor Pasquale. 

O primeiro texto é a coluna de 28/05 do professor da USP Vladimir Safatle. Chama-se Governo autista. Safatle é esquerdista, mas, antes que algum petista sorria e esfregue as mãos, digo que ele não é um esquerdista petista (partido ao qual muitos reduziram a esquerda no Brasil). Safatle é filiado ao PSOL e faz críticas ao governo do PT (chamando-o, tal como é hoje, de esquerda sazonal e esquerda zumbi). Na coluna abaixo, ele critica o governo do PSDB sobre o descaso com a educação estadual, mas é sempre bom ponderarmos: a educação passou a ser a arma que cada extremista usa para criticar seu opositor. Alguém que critique apenas o governo Alckmin a respeito da educação não está preocupado com educação, assim como alguém que só critique o governo Dilma pela diminuição drástica da verba destinada à área também não está. Se encontrar alguém criticando somente um dos lados, não hesite: trata-se de um canalha que se serve da educação para fazer politicagem. Canalhas veem seus partidos cometendo barbaridades e não dizem nada. Quando veem o partido "alheio" vacilando, são os primeiros a urrar. Como Safatle parece não suavizar para nenhum dos lados, acho que merece referência. Eis a coluna (o grifo é meu): 

"Não há nada mais patético no Brasil do que ouvir políticos falarem sobre educação.

Todos concordarão que a educação é a prioridade nacional, assim como descreverão programas maravilhosos aplicados em seus Estados que teriam redundado em inquestionável impacto na qualidade do ensino. Então, números fabulosos aparecem corroborando mais uma história de sucesso, até que um mal intencionado programa internacional de avaliação joga todos os números nacionais no chão.

O princípio vale para o problema central do ensino brasileiro, a saber, a destruição da carreira de professor. A Coreia do Sul é sempre lembrada como exemplo de salto educacional. Seus professores do ensino público ganham em média US$ 4.000, ou seja, ao menos quatro vezes mais do que seus similares brasileiros.

Com isso, não admira que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores, criando uma profissão completamente sucateada e precarizada. Sem bons professores, não haverá tablet, matemática em 3D ou consultor de Harvard que conseguirá transformar nossa educação pública em algo minimamente aceitável.

Então você lê, em algum pé de página de jornal, que 'professores do Estado de São Paulo estão em greve há 44 dias' ou 'professores do Estado do Paraná entram em greve por tempo indeterminado'. Começam a aparecer relatos das condições precárias de trabalho, salas de aulas fechadas para a concentração de alunos em outras unidades, professores com mestrado e doutorado há dois anos sem reclassificação salarial e defasagens inexplicáveis de salários entre professores e outros funcionários públicos com o mesmo nível de formação.

Em outras épocas, depois de 44 dias de greve, você esperaria que o poder público se mobilizasse para dar alguma resposta ou que a sociedade civil se indignasse com a passividade daqueles que gerem o dinheiro de seus impostos. Mas, ao menos em São Paulo, temos outra forma de resolver problemas. Aqui, o governo desenvolveu um método incrivelmente eficaz que pode ser chamado "eliminação nominalista". Por exemplo, perguntado sobre a greve de seus professores, o governador de São Paulo afirmou nesta segunda-feira (27): 'Não existe greve de professores em São Paulo'.

Ele é particularmente bom nisso. Há alguns meses, confrontado com racionamentos de água que afetavam a população de seu Estado, não temeu em afirmar: 'Não existe racionamento de água em São Paulo'.

Você também pode tentar isso em casa. Faça cara de sério, pense em algum problema grave e diga de maneira firme e pausada: 'Este problema não existe'. Ao menos em São Paulo, a técnica funciona".