quarta-feira, abril 15, 2015

Veganos na Europa: Madri (Espanha)


Numa das Rápidas e soltas comentei brevemente sobre a minha decepção com Madri. Talvez tenha parecido pessimista demais quanto a tudo (apesar de ter elogiado os excepcionais restaurantes veganos), mas eu gostaria que não deixassem de considerar a visita por causa dessas intempéries. Madri se mostrou para mim como a cidade das trevas porque eu nunca vi tantos casacos de pele a minha vida inteira. Acho mesmo que somando todos os casacos de pele que vi em revistas de moda – e eu leio essas revistas desde que era criança e as comprava usadas no sebo – o resultado será menor do que o número de casacos de pele em que eu pude reparar durante cinco dias em Madri. Foi horrível ver mulheres sorrindo futilmente vestindo bichos mortos. Nas minhas viagens anteriores, visitando outros países, sempre vi casacos de pele à venda. Sempre chorava. Mas eu precisaria de um mar dentro de mim para poder chorar todos os casacos de Madri. Foi tão chocante que nenhuma lágrima me veio. Essa alienação parece condizer com o ar festeiro e consumista da cidade. A rua em que estão todas as lojas de grifes é como um formigueiro: muito lotada, todo mundo indo e vindo com rapidez. As pessoas andam em grupo. No centro da cidade, muito raramente encontrei pessoas andando sozinhas. Essa foi uma observação que fez sentido quando, após visitar Madri, meu namorado e eu fomos a Budapeste (capital da Hungria). A disparidade saltava aos olhos. Em Madri, alegria por toda parte (a alegria parva que ninguém deveria invejar); em Budapeste, uma notória melancolia. Em Madri, todo mundo, exceto idosos em bairros mais afastados, andava em bandos. Em Budapeste, a maioria das pessoas andava sozinha. Em Madri, a rua do consumo era um fervor. Em Budapeste essa rua era obviamente mais requintada que as outras, só que tranquila, com pouca gente, nada de exibicionismo e gargalhadas. Todo mundo gargalha em Madri. Ninguém gargalha em Budapeste; pareci histérica quando soltei uma gargalhada despretensiosa num restaurante, senti como se gargalhasse na ala do câncer de um hospital. Budapeste era real, Madri era uma farsa que se vendia como um pirulito colorido para uma criança ingênua que ainda não sabe dos males do açúcar. Preferi Budapeste, apesar de jamais me imaginar morando ou me hospedando por mais de poucas semanas. Acho que só vi um casaco de pele em Budapeste. E lá era tremendamente mais frio que Madri. 

Gosta de cores? Madri tem cores lindas

Gosta de túneis de árvores? Madri tem vários

Placa indicando o restaurante Saníssimo

Mas eu não sou a viajante nota dez que vai à caça de pontos turísticos e tenta passar em todos para sentir aquele gosto de serviço feito. Não, eu gosto de passear nas ruas sem tantos objetivos definidos e gosto de comer. É por isso que eu acho que Madri vale algo a pena. Se está procurando fantásticas atrações turísticas, outras capitais terão muito mais a oferecer. No entanto, se é como eu e não mede o valor de seu escopo de viagem pelo número de pontos famosos, Madri possui um itinerário agradável. Há uns bairros muito bonitos, a noite é agradável, a cor da cidade faz bem à vista. Perder-se em Madri é interessante. Aliás, tentar se perder em Madri é interessante, porque André e eu tentamos nos perder diversas vezes e menos de duas horas depois estávamos caindo no mesmo lugar. “Não, espere um pouco, vamos pegar essa rua bem estranha e agora vamos nos perder pra valer!” Daqui a pouco estávamos, não sabíamos como, novamente no centro da cidade. 

Agora o melhor da cidade: as possibilidades veganas. Quando fiz essa última viagem, eu ainda estava cogitando melhorar mais severamente a minha alimentação. Mas procurei não mudar durante a viagem porque queria aproveitar ao máximo a despedida de um modo de comer não tão nobre. Isso significa que fui a boa e velha bárbara, herdeira dos hunos, quando ia a restaurantes. Assim pude provar inúmeros pratos de uma vez só. É claro que devia assustar muitos atendentes e cozinheiros, mas sempre tive esse desprendimento do “pensem o que quiserem, vou pagar”, e foi por causa dele que me foi permitida uma variedade de experiências gustativas. Tirei inúmeras fotos de comida que parecem de três refeições, mas que na verdade são de uma refeição só. Que fique claro: não aprovo mais essa loucura, não mais acho louvável comer até quase adoecer. Eu me sinto muito melhor comendo menos e pretendo continuar assim na maior parte do tempo. Sobre as fotos de comida, antes que me chamem de foodie: tiro essas fotos para ajudar a popularizar o veganismo, para mostrar que há belíssimas e saborosas preparações veganas sendo feitas das mais diversas formas em outros países. Entendo perfeitamente que pessoas mais ocupadas sintam desprezo por outras que postam, constantemente, fotos de pratos em redes sociais. Mas eu defendo as fotos de pratos que vêm com um objetivo bem claro: ensinar alimentação saudável, propagandear o crudivorismo, propagandear receitas veganas, etc. No site HappyCow, em que há comentários sobre quase todos os restaurantes veganos disponíveis no planeta, os usuários postam fotos de seus pratos. Essas fotos me ajudam muito na hora de escolher onde quero comer em cada cidade, e é por ver o quanto esse serviço é útil que também me sinto desejosa de contribuir. Cada vez que mostro uma foto de comida, estou agindo de maneira ativista, mostrando a todos que o veganismo é muito mais amplo do que supõem limitadas cabecinhas. Madri não decepciona nessa variedade de pratos éticos e deliciosos.

SANÍSSIMO

Chegamos a Madri no dia 1 de janeiro. Havia um mês eu estava pensando onde comeria no primeiro dia do ano, já que tudo costuma estar fechado nessa data e eu preciso de, pelo menos, uma refeição com sustância no dia para não sentir tonturas. Pesquisando em fóruns de redes sociais, meu namorado descobriu que um restaurante ovolactovegetariano (sem carne alguma, mas com leite e ovos em certos pratos) perto do hotel onde nos hospedaríamos estaria aberto. E nosso hotel ficava próximo à rua principal de Madri, que é a Gran Vía (conheça, mas evite-a: é a tal rua fashion barulhenta e lotada), o que significava que tanto nosso hotel quanto aquele restaurante estavam bem localizados para turistas que tendem a ficar em regiões centrais das cidades que visitam. Salvei o mapa de direções que sempre busco no Google Maps (como as pessoas faziam sem GPS e Google Maps viajando para fora? Devia ser tão difícil e emocionante quanto gravar programas de rádio em fitas k7 nos anos 80 e comparar isso às facilidades do mp3 de agora) e em 8 minutos a pé estávamos lá. Madri estava muito bonita no primeiro dia do ano, com lojas fechadas e pessoas passeando com suas famílias – o que me faz deduzir que o maior problema da cidade são as lojas de roupas e calçados. 

Cerveja sem glúten e cerveja artesanal tipo lager

Saníssimo é um restaurante de comida saudável com diversas opções veganas e algumas cervejas interessantes. Foi lá que experimentei minha primeira cerveja sem glúten, apesar de ter preferido uma outra, artesanal, com aroma de floresta (minhas cervejas prediletas são aquelas com gosto forte de lúpulo e aroma de floresta molhada). E, apesar de ser um estabelecimento ovolactovegetariano, as opções para veganos eram muito saborosas e nutritivas – não é à toa que o local se chama Saníssimo. Mente sã em corpo são é um princípio que todos deveríamos buscar. 

Folhado de espinafre

Hambúrguer de feijão-preto

Lasanha de berinjela, batatas, cuscuz e saladas

Começamos com as cervejas. Depois comemos um tipo de folhado de espinafre que era saborosíssimo, e realmente tinha que ser, já que eu não gosto de espinafre e mesmo assim estou elogiando. Eu pedi um hambúrguer de feijão-preto porque talvez em um mês de viagem pela Europa aquela seria minha única oportunidade de comer feijão-preto camuflado (já comentei aqui: é muito difícil achar feijão-preto para comer lá), o André pediu um prato feito em que vinha uma lasanha de berinjela, cuscuz e saladas. Tudo primoroso. Fomos tomando outras cervejas, eu pedi mais um folhado de espinafre para dividirmos e um strudel (um doce típico alemão feito com maçã, parecendo um pão doce enrolado com pedaços de maçã). E depois um cafezinho. Como dentro do restaurante eles têm uma lojinha, na saída comprei alguns biscoitinhos para o café da manhã do outro dia. Nos dias seguintes fomos ao Oveja Negra e ao B13, onde vendem comida saborosa, mas quase nada saudável, então somente no último dia voltamos ao Saníssimo porque meu organismo estava implorando por comida que alimenta em vez de comida que só agrada ao paladar e enche a barriga. Recomendo muito. Lugar calmo, limpo e familiar. 

OVEJA NEGRA

Quando busco restaurantes para visitar na Europa, sempre dou preferência aos veganos, a não ser que sejam muito criticados por falta de higiene ou comida ruim. Fomos ao Saníssimo logo ao chegar a Madri porque era a única opção aberta no dia 1 de janeiro. E depois voltamos lá porque na área em que estávamos era o único com comida saudável. Os outros tinham comida, mas era junkie food. Só que junkie food vegana numa situação excepcional (eu estava de férias) não merece tantas reclamações, e deixarei para outros momentos essa conversa sobre boa alimentação. Como eu disse, durante a viagem é que resolvi dar mais um grande passo na minha alimentação, procurando torná-la mais correta e com menos, muito menos açúcar, mas decidi que mudar já durante as férias não seria uma boa ideia, até porque eu queria experimentar muitas coisas diferentes. E foi aí que me esbaldei em lugares como Oveja Negra e B13.

Mural sobre o que é autodefesa

Cardápio do Oveja Negra

Cervejas sempre dão uma alegrada

O Oveja Negra é mais um bar que um restaurante. Aliás, acharia estranho se qualquer pessoa se referisse a ele como restaurante. É, na verdade, um bar com algumas opções de comida para acompanhar sua bebida. E também é o lugar com atmosfera ideal se você é anarquista, feminista até a espinha, ativista roxo e apaixonado, porque as paredes estão cheias de escritos sobre libertação (principalmente da mulher), as moças que atendem demonstram se lixar para papéis de gênero e as duas cabines de banheiro têm na porta desenhos de travestis, ou seja, “tanto faz o banheiro que você vai usar, camarada, não vamos dividir isso aqui entre feminino e masculino”. Não concordo muito com esse último ponto, mas como o lugar era pequeno, os banheiros não eram mistos dentro de uma rodoviária e eu pago para não discutir com estranhos, principalmente na Europa, isso não fez diferença nenhuma na minha noite. Bebi algumas cervejas, comi croquetes de cogumelos (lindos, pena que caros; 6 euros para cinco croquetes tamanho coquetel) e tirei algumas fotos. A música era boa, a rua em que se localiza era estreita e graciosa. Oveja Negra foi um excelente lugar para beber. 

Croquetes de cogumelo, batatas e cerveja

Parece que em Madri é comum esse petisco de milho frito
com sal. Inovador demais para meu paladar

B13

Esse foi O Lugar. Também perto do nosso hotel, logo, também perto da Gran Vía, o B13 é a razão de eu querer voltar a Madri. Tudo maravilhoso, exceto o tamanho do lugar, mas se você tem sorte de conseguir uma mesa essa opinião rapidamente muda, pois parece que o aperto lá dentro (até porque era inverno) tornava o local aconchegante. Ah, claro, havia um outro problema, dessa vez na saída, pois qualquer pessoa que passe mais do que uma hora no restaurante/bar sairá de lá com cheiro de fritura, quase como se a própria pessoa tivesse escorregado para dentro da frigideira cheia de óleo. Comemos tanto no B13 e, por consequência, ficamos com tanto cheiro de óleo em nossos casacos, que precisamos de muitos dias de vento na rua para conseguir disfarçar o fato de que parecíamos caminhar entre a multidão com quatro coxinhas em cada bolso. Se for lá, prepare-se para obrigatoriamente lavar seus cabelos ao voltar ao hotel.

Fachada do B13

Sempre cheio, sempre saboroso

Bocadillo de seitan (talvez o melhor seitan que já comi) e
batatas. Lá atrás, a ruim cerveja Estrella Galicia,
que experimentamos no primeiro dia

Bolo com chantilly e chocolate, cerveja artesanal
Veer e café com leite vegetal

Mas acho que você jamais se arrependerá de comer no B13, a não ser que seja um desses almofadinhas que acham que precisam ser massageados por atendentes quando chegam aos lugares. As poucas reclamações que ouvi sobre a lanchonete (é estranho chamar algum lugar na Europa de lanchonete, uma palavra que soa brasileiríssima, mas é isso o que o B13 é) era a respeito dos atendentes sisudos. Ocorre que o lugar vive cheio e os cinco atendentes são os cinco donos do lugar, que fazem tudo: anotam pedidos, abrem bebidas, cozinham, limpam mesas. Por que são obrigados a sorrir o tempo todo? Para me considerar bem atendida, não preciso de sorrisos. Pensemos que as pessoas ficam horas trabalhando e reflitamos o quanto deve ser cansativo ter que sorrir para todo mundo que aparece no percurso de todas essas horas. Fora isso, o B13 só recebe elogios. Bebi uma cerveja artesanal que parecia produzida por gnomos num jardim, bebi café, bebi vinho, comi bocadillos de seitan (um pão enorme recheado com seitan, que é a “carne de glúten” que quando bem feita se torna muito suculenta), batata frita, croquetes de cogumelo (acho que do mesmo fornecedor do Oveja Negra, já que o sabor era o mesmo), cachorro-quente, chouriço vegetal, homus, tortas… Foram dias intensos de bon vivant vegana. É maravilhoso chegar a um lugar cheio de coisas saborosas para comer e não ter que perguntar o que é vegano e o que não é: tudo é. Se for a Madri, não deixe de passar lá. André e eu já combinamos que se um dia ele ganhar na loteria (porque eu não jogo), investiremos no B13 para que se torne maior. Nem mesmo algum patético churrasqueiro que acha que o gosto das carnes vêm antes da ética vai sentir falta de carne lá. É um lugar para converter. 

É vegano, vai viajar para a Europa e precisa de alguma ajuda? Escreva-me. Demoro a responder, mas respondo: barbaramaidel@hotmail.com