quinta-feira, abril 30, 2015

Rápidas e soltas 04


Sou contra a pena de morte. A vida que temos é somente essa e um criminoso deve pagar seus crimes na cadeia, e não sendo morto. A morte é uma penalidade demasiadamente severa e se um inocente morresse dentre milhões de outros condenados à morte, já teríamos cometido um equívoco gravíssimo. Só a possibilidade de matar a pessoa errada é, em si, uma demolição na tranquilidade da alma de qualquer um que deseje justiça (preciso dizer que não acredito em almas, mas gosto de usar a palavra como recurso poético?). Por isso tudo, sou contra a pena de morte. Mas também sou contra inconsistências éticas. Fervilha nos jornais a notícia do segundo brasileiro que foi assassinado na Indonésia por tráfico de drogas. E há alguns comentadores ardendo de febre por tamanha crueldade do governo indonésio, “como é que podem matar nosso cidadão por traficar drogas?”, convocando entidades que defendem direitos humanos e arrancando as cortinas na ópera enquanto gemem. Será que por algum instante esses humanitários pensaram no povo indonésio? Digamos que eu seja uma cidadã indonésia. Eu sei que serei condenada à morte se traficar drogas, por isso não me meto nesse labor malandro, por mais que queira. Tive vizinhos que foram mortos porque foram descobertos traficando. Então vem um brasileiro, sabe das leis do meu país, trafica drogas, é condenado à morte e “escapa” porque no país dele não há pena de morte e segundo a lei dele ser morto por um governo é um atentado gritante aos direitos humanos. Como eu fico? Sentindo-me injustiçada, para não dizer o coloquial “otária”. Por que eu tenho que respeitar as leis do meu país por medo da punição e um estrangeiro, não? Que direito maior esse estrangeiro tem de invadir meu país com drogas e sair impune, enquanto eu, se for pega, morrerei metralhada? É absurdo que alguém seja morto por traficar drogas, mas também é absurdo um estrangeiro chegar a um país e receber regalias após praticar um crime pelo qual qualquer cidadão local seria condenado a uma das piores penas. 

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Esses dias fui chamada, na internet, de reprodutora de machismo por criticar as mulheres que rebolam no programa Pânico com trajes mínimos. Deixei claro que também critico severamente homens que aparecem em programas sensacionalistas usando sunguinha e exibindo músculos. Não adiantou: não posso criticar o jeito como as mulheres resolvem dispor do próprio corpo (parece que do corpo masculino posso falar à vontade, todavia). Será que eu posso criticar o jeito como as pessoas resolvem dispor das próprias leituras? E será que eu posso criticar como elas criam seus gostos musicais? Se não se pode mais fazer isso, vamos acabar com a maioria das colunas de jornal, já que grande parte dos colunistas está, nesse momento, criticando as pessoas na modernidade, as escolhas de viagem que as pessoas fazem, os programas televisivos que as pessoas veem, enfim: um perene criticar a vida particular das pessoas. Pobres pessoas que não podemos criticar! Uma coisa é criticar, outra coisa é proibir. Não quero proibir ninguém de sensualizar na TV (okay, talvez eu queira proibir o horário, pensando nas crianças) e sou livre para criticar qualquer mulher sem ter que temer a polícia feminista pulha: aquela que cria duas medidas para analisar o mesmíssimo caso, que terá uma resolução muito diferente se a “vítima” for um homem ou uma mulher. Agora não podemos nem mais ter liberdade para falar mal do que os outros fazem. Aliás, em particular as outras. Não se pode falar mal de mulher em nada: existem as geniais, que estão à frente nos ensinando a viver num mundo em que o machismo nos impede de sair da cama, e existem as reprodutoras de machismo, que são vítimas ingênuas e por isso não devem ser criticadas. Todas as nossas críticas sociais devem se dirigir a machos. Não era isso que eu tinha entendido por sororidade (termo que feministas usam no lugar de fraternidade) e acho interessante que mesmo uma mulher que estimula a rivalidade entre mulheres receba elogios dessas feministas: Valesca Popozuda é “um exemplo de feminismo” por dizer que a vagina é dela e ela faz o que quer – a mesma cantora que exacerbou, com músicas sobre inveja, o já nefasto ódio que as mulheres têm umas das outras. E essas feministas enfermas ousam duvidar da nossa capacidade de verificar as coisas com os próprios olhos e negam misandria como o político que rouba jura que não está roubando: “sei que vocês estão me vendo roubar, mas percebam que digo que não estou roubando”. Criticar mulher é reproduzir machismo? Não, machismo é quando você reprova uma mulher por agir de determinada forma socialmente, mas acha que se fosse um homem fazendo aquilo, tudo bem. Isso é machismo. Machismo não é dizer que não gosta nem de homens nem de mulheres promíscuos. Machismo é dizer que tem nojo de mulher promíscua, mas que homem promíscuo está certo. Machismo é criticar a Rita Cadillac por fazer filmes pornô, mas achar normal que o Alexandre Frota faça pornô. Ponderemos as coisas antes de fazer ativismo barato delas.

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O que é o cúmulo do absurdo? Isso AQUI é o cúmulo do absurdo. Também conhecido como esquizofrenia moral. 

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Às vezes eu me repito, mas é só para deixar as coisas bem explicadinhas. Passei a assinar a versão digital da Folha de São Paulo para ter acesso a todo o conteúdo do jornal. Não-assinantes não têm direito a ler as dezenas de excelentes colunistas que escrevem para a Folha, e eu queria poder ler gente como Ruy Castro sempre que escrevesse, sempre que tivesse uma opinião para dar. Fuçando textos antigos dele para o jornal, encontrei um, de 29 de outubro, sobre o adjetivo “leviana” usado por Aécio Neves contra Dilma Rousseff na última campanha – e que deu aquela celeuma (e sobre a qual Lula deveria se retratar cantando Desculpe o auê, da Rita Lee, já que foi ele que criou tempestade em copo d'água para forçar o povo a acreditar que o PT é o partido dos oprimidos, mesmo dos oprimidos imaginários). Suponho que vocês não sejam assinantes da Folha e não tenham acesso à coluna (ou talvez tenham, mas de forma limitada), então vou colocá-la na íntegra, abaixo: 

RIO DE JANEIRO - No segundo debate pela sucessão presidencial, o do SBT, Aécio Neves chamou Dilma Rousseff de "leviana". Referia-se, naturalmente, à maneira airosa, volátil e inconsistente (vide "Aurélio" e "Houaiss") com que a candidata manipulava os dados da economia. Ao ouvir aquilo, Dilma não ficou estarrecida. Na verdade, nem acusou recebimento. Mas Lula indignou-se. Bradou que não era coisa que se dissesse de uma mulher de mais de 60 anos, mãe e avó.

A princípio, atribuiu-se a reação de Lula à criatividade do ex-presidente, craque em submeter as palavras a tantos contorcionismos semânticos quanto as conveniências exigirem. Não era para tanto, pensou-se. Muito menos para que, a partir dali, se pintasse o adversário como um homem que não respeitava as mulheres. Mas, embora os dicionários não o registrem, alega-se agora que, em algumas regiões do Nordeste, "leviana" significa "mulher da vida". Donde, sem saber, Aécio Neves terá cometido suicídio linguístico.

Foi a vingança de Lula a uma acusação que sempre lhe fizeram: a de ser, quando muito, monolíngue. Opinião de que nunca compartilhei porque Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.

É possível que o uso leviano de "leviana" não tenha tirado muitos votos de Aécio Neves – já estavam perdidos do mesmo jeito. Mas ficou claro que, nas próximas eleições, não será suficiente contratar um marqueteiro. Será preciso convocar também um linguista, para repassar com o candidato os pontos principais de sua argumentação e certificar-se de que nenhuma palavra se constituirá numa involuntária gafe regionalista, passível de exploração política.

Evidente que as mentiras, as ameaças e os golpes baixos, desde que bem urdidos e propositais, continuarão valendo.”

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Ruy Castro tem uma carioquice que às vezes me deixava inquieta. Superei isso ao começar a ler outros textos dele que não tivessem a ver com o Rio. Ruy é erudito, razoável (qualidade rara nestes tempos de horror), lê muita literatura e sabe muito de cinema. Reduzi-lo a um carioca inveterado seria um erro. Seu maior defeito, até agora, ainda é comer carne. 

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Como diz Heloisa Seixas, que organizou três coletâneas com textos do Ruy – um livro sobre música, outro sobre literatura e o terceiro sobre cinema, todos pela Companhia das Letras –, “é gostoso ler Ruy Castro”. Quando comecei a ler O leitor apaixonado: prazeres à luz do abajur, eu sabia, já no prólogo, que estava diante de um primor. Ao encontrar um livro que é realmente amável, tenho vontade de colocá-lo ao lado da minha cama, sobre uma almofada, coberto com uma flanela, para que fique quente e confortável como um animal de estimação. Não é fácil achar esse tipo de livro. Há centenas de bons livros transbordando em bibliotecas, mas um bom livro não é necessariamente um livro apaixonante. Acontece que Ruy consegue nos encantar com suas histórias, suas fofocas literárias {“Para Oswald [de Andrade], Nelson Rodrigues usava 'ferraduras mentais' – mas Nelson não deixou de graça: disse que ia a São Paulo 'dar-lhe uns tapas nas ancas' (Oswald era cadeirudo, tinha quadris quase femininos)”}, a escolha das palavras. Tenho profunda admiração por quem possui vasto léxico, sabe usá-lo, mas não cai na vala pedante da prolixidade: Ruy possui a simplicidade dos genuínos cultos e cativa em cada sentença. Para que tenham ideia de sua imensa sensibilidade (é belo um homem que é sensível sem ser um bundão), relembro o tema da minúscula coluna dele para a Folha, no dia 21 de março deste ano (dia do meu aniversário, agora é que percebo): uma lista telefônica. “O porteiro me entrega um pacote. Presente de um amigo. Abro-o e é uma preciosidade: a 'Lista de Assinantes do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, 1949'”. Então Ruy se põe a desbravar os famigerados que estavam disponíveis em certos endereços e números telefônicos. É assim que ele encontra o número de figuras como Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Juscelino Kubitschek. “Folheio-o ao acaso e o olho pousa num nome: Villa-Lobos, Heitor. Rua Araújo Porto Alegre, 56, tel. 22-2453. A ideia de que um monstro como Villa-Lobos estivesse à disposição para quem quisesse procurá-lo me encantou”. Não se permitam morrer antes de ler muitas páginas dele. 

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Ainda quero escrever uma postagem cheia de peripécias da esquerda alienada e da direita alienada. Seria muito divertido contar causos que mostram a precariedade de um pensamento extremo que não é reavaliado nem que haja provas de seu erro (lembram quando José Dirceu foi chamado de preso político em vez de ser chamado de político preso?). Um causo da direita seria o que ocorre no setor de comentários de diversos artigos de jornais. Certo assunto que não tem a ver com política vem a público. O que o direitista alienado faz? Vai lá e inventa de falar mal do petismo, da roubalheira, dos “comunistas”. Quando Chico Buarque lançou seu último livro, O irmão alemão, a Folha fez uma matéria comentando a obra e apresentando um trecho dela, lido pelo próprio Chico. Eu me interessei porque parece ser uma mistura de ficção e biografia, e um dos biografados é o pai dele, Sérgio Buarque de Hollanda, historiador ímpar que foi um dos responsáveis pela criação do Partido dos Trabalhadores – que jamais imaginaria que o partido se transformaria no que se transformou... mas quem imaginaria, naquela época de esperança e vontade de renovação? Muito bem, o artigo era somente sobre a obra do Chico. Quais eram os três comentários mais votados? Aqueles que maldiziam a posição política do sambista, petista. O que o cigarro tem a ver com a bicicleta? Nada. Mas não bastava falar mal do Chico em matérias que tratavam do PT – não, era necessário azucrinar numa matéria sobre literatura que fazia propaganda de um livro que não tinha a ver com política. Certas inconveniências denotam a mentalidade nada sadia daqueles que as escrevem. Fiquei com receio de o Chico declamar uma poesia sobre alguma morena em um sarau e alguém gritar, do meio da roda, “petista vagabundo!”, destruindo um instante artístico. Petistas roxos precisam de tratamento, mas quem usa mais horas de seu dia para criticar o PT do que para fazer todas as refeições também precisa: em alas separadas no hospital, é claro. E um causo da esquerda? Tempos atrás, comentei com um conhecido que a Folha tinha publicado uma matéria sobre não-sei-o-quê, mas a matéria ia contra a opinião do conhecido, um esquerdista daqueles que não conseguem ficar em silêncio por míseros minutos (tenho procurado boicotar pessoas que não sabem ficar em silêncio, aliás, mas é difícil fugir quando alguém chega e já vai desfiando o rosário sem pausa para respirar). Então ele solta o nada ponderado: “só podia ser coisa da Folha de São Paulo!” (assim mesmo, com exclamação, então criem a imagem de uma pessoa exclamada em vossas cabeças). Não dei uma resposta na hora porque fiquei inebriada com tamanha sandice, mas agora eu dou: qual é o problema da Folha? Há inúmeras publicações da Folha que vão frontalmente contra o que eu penso, mas para cada uma delas há outra publicação que dá as mãos às minhas opiniões. Tenho que admitir que é um jornal pluralista. O referido conhecido, ao criticar a Folha como se fosse de direita, esquece de fazer uma rápida pesquisa que pouparia essa deselegância intelectual. Os colunistas, por exemplo, que jamais seriam variados num jornal de direita. Reinaldo Azevedo, da Veja, escreve lá? Guilherme Boulos, membro do MTST, também. Aécio Neves escreve lá? André Singer, que foi secretário de imprensa do governo Lula e está sempre defendendo o ex-presidente em suas colunas, também. Luiz Felipe Pondé, o machista que acha que mulheres servem para erotizar o ambiente de trabalho, escreve lá? Gregorio Duvivier, o jovem esquerdista que defendeu que não devemos usar adjetivos voltados à sexualidade para xingar uma mulher, também. Demétrio Magnoli (que chamam apressadamente “de direita”, mas eu chamo de sensato) está lá? Juca Kfouri, esse crítico da “elite branca”, também está. E mais: onde está hospedado o blog de Leonardo Sakamoto, cientista político que é o queridinho da esquerda libertária? No Uol. De quem é o Portal Uol? Da Folha. Parece que absolutamente qualquer coisa “só podia ser coisa da Folha”.