sábado, abril 25, 2015

O paradoxo da igualdade de gênero


Uma das piores coisas que podem ocorrer quando se está imerso na causa de um movimento muito amplo é ser confundido com qualquer pessoa dentro daquele movimento. Quem está de fora costuma simplificar as ideias de muitos em um singular estrato e também costuma achar que só as próprias causas têm mais vertentes que as camadas de uma gigante cebola. Decorre disso a banalização de pensamentos políticos: pessoas de direita tendem a pensar que a esquerda é homogênea e por isso conseguem adjetivá-la tão rapidamente (e supõem que sabem tudo sobre ela por meio de algumas matérias da mídia ou porque conheceram pessoalmente algum esquerdista); pessoas de esquerda acham que a direita também é unificada pela estupidez: julgam que todo sujeito de direita é religioso, contrário ao aborto, defensor da ditadura militar. Essa confusão é corolário da falta de conhecimento, está óbvio, mas gera um desgaste desnecessário para quem anseia defender uma ideia maior, mas não quer ser confundido com outros que defendam estritamente essa mesma ideia em comum. 

Com o veganismo não é diferente. Indivíduos que estão fora dele generalizam condutas e pensam que veganos estão gritando em uníssono. Não estão. Não estamos. Todos queremos que os animais sejam respeitados como seres sencientes capazes de possuir interesse em preservar a própria vida, mas a maioria de nós tem propostas tão diversas para que isso aconteça que dentro do movimento vegano há divergências aparentemente irreconciliáveis por causa das distintas estratégias de "veganizar". Eu, por exemplo, não consigo mais conversar com veganos antropocêntricos. Um vegano antropocêntrico é aquele que não come, não explora, nem paga para ninguém explorar animais, mas defende inúmeras causas humanas, e, no momento de decidir qual é a pauta mais importante, optará pela humana em detrimento da animal. E depois dirá a todos que, para ele, todas as causas são iguais. Não considero que sejam iguais, pois os animais são as maiores vítimas de todos os tempos e de todos os espaços. Você pode viajar ao país que mais maltrata negros ou ao país que mais maltrata mulheres. Mesmo lá os animais terão pior tratamento que aqueles negros e essas mulheres. Negros, mulheres, pobres, gays, pessoas com deficiência, gordos, feios, imigrantes são todos vítimas de alguma forma. Mas todas essas vítimas humanas fazem vítimas animais, pois comem carne, compram couro, não se interessam em saber quais são as opções de produtos não testados em animais, vão a zoológicos, obrigam bichos a trabalhar (cavalos em carroças, cães-guia, elefantes, camelos e dromedários para carregar turistas ocos, etc.). Para mim, a maior vítima de todas no meio de tanta opressão é a vítima que não faz vítimas. Animais fazem alguma vítima? Não. (Animais que comem outros animais por necessidade não estão fazendo vítimas. Nós estamos, pois carnes são completamente desnecessárias.) No entanto, são oprimidos mesmo pelos oprimidos humanos. Portanto, a causa animal é mais importante que as causas humanas. Centenas de negros morrem por ano somente por serem negros. Centenas de mulheres morrem por ano somente por serem mulheres. Mas bilhões de animais (aproximadamente 70 bilhões, e esse número se refere apenas a animais terrestres) morrem anualmente por serem "meros animais". Assim, no dia em que somente centenas de animais morrerem por ano só por serem animais, aí voltarei a conversar com veganos antropocentristas que tentam colocar as causas no mesmo nível. Enquanto animais morrerem em número espantosamente maior que qualquer grupo humano (somando todas as vítimas humanas que morrem anualmente, não chegamos nem no chinelo da quantidade de animais vitimados anualmente), eles serão, para mim, prioridade. Posso participar de uma passeata feminista. Mas se houver uma passeata feminista acontecendo no mesmo dia e horário que uma passeata animal, vou à passeata animal. Mulheres podem defender a si mesmas. Animais, não. Mulheres podem se desvencilhar da imensa opressão diária que vivem por culpa dos homens [um grande sic ideológico aqui] para ir a uma passeata reivindicar justiça. Animais não podem pedir licença a seus proprietários na indústria para exigir nada. São vítimas totalmente dependentes de ativistas humanos. (Considero o veganismo o movimento mais bonito porque é o único que de fato luta por causas alheias, e não pelas próprias causas; não há nada de errado em um pobre lutar por si, um negro lutar por si ou uma mulher lutar por si, mas você pode enxergar uma autêntica preocupação num ativista quando ele está gastando tempo, dinheiro e energia para lutar pelos privilégios de outrem: os animais.) 

Ocorre que esse vegano antropocêntrico com o qual não consigo mais conversar está no mesmo barco que eu, e um desinformado de fora me julgará pelas atitudes daquele vegano se tiver a sorte ou o azar (cada um avalia como bem entender) de encontrá-lo primeiro. Quem está de fora acredita que nós somos todos iguais e fazemos o mesmo discurso, e se ouvir primeiro o discurso do antropocêntrico concluirá, rapidamente, que eu também faço parte daquele tipo específico de veganismo. É compreensível: nosso cérebro gosta de catalogar tudo o quanto antes e nem sempre quer gastar calorias pensando por muito tempo todas as arestas, vértices e faces de uma questão. Mas é preciso cuidado antes de propagar essa generalização, pois ela não condiz com a realidade. Não sou aquele vegano antropocêntrico e ele também se sentirá mortificado se for confundido comigo. O veganismo é repleto de correntes contrárias dentro dele mesmo. 

O programa feminista também sofre desse problema. Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, tratando feministas como um grupo coeso que luta exatamente pelas mesmas pautas. E então alguns desses homens e algumas dessas mulheres acabam conhecendo o feminismo por causa de uma bandeira levantada lá por um grupo de amigas que resolveu chacoalhar o ambiente de trabalho após uma delas ter perdido a votação de um cargo promocional para um homem. Pronto, todas as feministas são malucas como aquelas feministas alvoroçadas. Quem ganha mais destaque acaba sendo porta-voz de um movimento que é mais diversificado que uma caixa de lápis de colorir, e, consequentemente, acaba levando para o público uma ideia que não é aceita por todas as feministas. Culpa das destacadas? Não, culpa dos que não se informam antes de fazer juízo de valor das coisas. Só será culpa das destacadas se elas expressarem que estão falando em nome de todas nós, mas eu não me lembro de isso ter ocorrido fora das entrelinhas (nas entrelinhas sempre ocorre, mas subtextos são muito difíceis de tentar coibir e não vou me preocupar tanto com eles agora), então a falha permanece do lado dos apressados em catalogar. Às vezes me declaro feminista e sou confundida com opiniões que execro de outras feministas. Isso me entristece porque me rotula de uma forma que não aprovo. Confundem-me, por exemplo, com as que declararam guerra aos homens. Essas mulheres dizem ser contrárias à misandria, mas o que vale de nós é aquilo que fazemos, e não aquilo que dizemos que fazemos, portanto, julgando pelas palestras amargas e pelos constantes apelidos pejorativos, vemos que, sim, há ódio aos homens. O discurso rancoroso coloca a culpa do machismo na sociedade somente nos homens, como se os homens fossem o único problema. Uma mulher que reproduz machismo sinistro merece calma, compreensão e um abraço (mesmo que seja adulta, vivida, graduada, etc.), mas um homem que age com um naco de machismo, que não destrói ninguém nem leva mulheres a hospitais, merece, para elas, punição rigorosa. Se não for punido pela lei, será punido com humilhação e deboche. Isso é vitimização de péssimo gosto e não concordo com a atitude. O machista que assoviou para uma moça numa festa não merece ser jogado no mesmo balde de lama que o machista que bate na esposa quando volta do bar. Vamos guardar a espuma de nossos beiços para quem merece e com os casos menos graves vamos dialogar. Por que se eriçar quando se propõe o tranquilo diálogo com o sexo oposto? Feministas, parem de agir como se nesses casos estivessem pedindo para vocês dialogarem com o Estado Islâmico. E, não, mulheres não são coitadas que merecem ser abraçadas mesmo quando estão sendo mais machistas que muitos homens. Esse corporativismo feminista é irracional, doentio e jamais será levado a sério por pessoas que ponderam opiniões antes de acatá-las como "a justa voz dos oprimidos, voz que está sempre certa". 

Interessantemente, as feministas que defendem que os homens são os únicos culpados pelo machismo (a mulher que reproduz machismo não pode ser chamada de machista, para elas, mas de "vítima" do machismo; talvez pensem que Hitler foi o único nazista e que seus agentes eram meros "reprodutores de nazismo", ou seja, vítimas de um hipnotizador de mentes) costumam ser as mesmas que dizem que um homem nunca pode ousar discutir sobre feminismo com uma mulher (na mesma linha está o "um branco jamais pode querer ensinar sobre racismo a um negro, pois só o negro sabe o que é racismo"). Logo, tudo o que uma mulher quiser, à volonté, denominar machismo, será machismo, não importa o que um homem diga. Em que se baseiam essas denominações tão engessadas? Em sentimentos. Se uma mulher sentir que um homem foi machista com ela, isso basta: não há defesa para este homem, porque a mulher sentiu e só uma mulher é que pode dizer quando foi ofendida em sua condição feminina. E um homem não pode chegar e dizer a uma exagerada "espere, mas isso não foi machismo, esse é o tratamento que qualquer pessoa receberia, sendo homem ou mulher", pois o sentimento dela está acima da razão e da análise. Confesso que eu descobri esse delírio só recentemente. Mas fiquei espantada porque ele apareceu com muita força em discursos de mulheres que tinham sangue nos olhos e vitalícios lábios irônicos ao se referir a homens. Uma ideia que eu desconhecia parece ter seduzido muita gente irrefletida e está se reproduzindo como se fosse natural. Essa alucinação está mais para ser um caso psiquiátrico que um caso feminista. Mas o que eu posso fazer? Elas se dizem feministas assim e eu me digo feminista como sou. Meu único movimento é o de me afastar quando a esquizofrenia não diz respeito às minhas pautas. 

O que mais as Valerie Solanas têm a nos ensinar? Ora, que nosso idioma é machista e deve ser prostituído sem reservas. Além de terem introduzido o débil x nas palavras que marcam gênero (assunto sobre o qual já me prolonguei aqui), agora inventaram um novo sistema, que é substituir o x pelo e. Ao se dirigir a um grupo de homens e mulheres veganas, por exemplo, escreverão ou dirão "cares veganes" em vez do opressor conservador "caros veganos". Acho que qualquer pessoa que ame a língua portuguesa, belíssima, ficaria agoniada. Vivemos recentemente o desprazer da reforma ortográfica mal pensada e agora estamos vivendo "a revolução do gênero" que vem das ruas, um movimento ilegítimo que aparece para ditar regras sem avaliar a razão de ser da norma que veio antes. Essas pessoas (muitos homens aderiram tanto ao x quanto ao e porque não queriam ser vistos como ofensores de mulheres) não têm o espírito científico curioso de perguntar "por que isso é assim?" antes de berrar a plenos pulmões "isso não deve ser assim!", e mesmo surtando conseguem adeptos. 

E, por último, a finalidade dessa postagem: a igualdade de gênero. Muitas feministas reivindicam que tudo o que fazemos de acordo com nosso gênero é constituído pela cultura. Se uma mulher sente vontade de ter filhos e prefere profissões que lidem com pessoas, isso é culpa ou mérito da cultura. A biologia, para elas, não possui valor nesses casos. É claro que essa ideia não é defendida somente por mulheres feministas, mas ela parece, mesmo na mão de cientistas, estar pela metade. É aí que entra o vídeo de 38 minutos abaixo. 

O comediante norueguês Harald Eia resolveu fazer uma investigação sobre os papéis de gênero tão criticados atualmente. Seu trabalho se transformou num documentário de sete partes, e, apesar de ele ser um comediante que certamente não possui cabedal científico para teorizar qualquer coisa a esse respeito, o documentário é sério porque consulta cientistas. O fato de ter sido feito por uma pessoa "comum" (poderia ter sido feito por um jornalista, que, aliás, também é uma pessoa comum, mas sabe como reunir informações científicas de uma maneira esclarecedora que fará sentido para o público leigo) apenas facilita a nossa compreensão dos dados divergentes. No primeiro vídeo da série, que é o que posto abaixo (ainda não assisti a todos), Eia começa questionando por que a Noruega, eleito o país mais igualitário do mundo (alguém lembra de ouvir falar de um norueguês que fosse pobre?), parece seguir padrões empregatícios para homens e mulheres: a maioria dos homens trabalha em funções culturalmente chamadas masculinas e a maioria das mulheres trabalha em funções chamadas femininas. Uma pesquisa conclui que quanto mais moderno e igualitário é o país, menos as moças se interessam em Exatas, por exemplo. Mesmo que o governo desses lugares invista em "nivelamento de gênero" em alguns cargos, logo o padrão volta ao que era antes: muitos homens engenheiros civis, muitas mulheres enfermeiras. Eia quer descobrir se somos socialmente programados ou se há a mão da biologia nessas condutas. A melhor conclusão sobre tudo é incrível e vem ao encontro do que eu já pensava sobre os culturalistas que defendem que tudo é cultura e nada é biologia em nosso comportamento: aqueles que defendem o papel da cultura (geralmente pessoas ligadas às Humanas) simplesmente apagam a motivação biológica para nossos atos, mas aqueles que defendem o papel da biologia são muitíssimo mais moderados e racionais e admitem que nosso comportamento se cria pela mistura de constituição biológica e programação cultural. Os teóricos que aparecem no começo do documentário (é legendado, tem somente 38 minutos e vale muito a pena) são culturalistas e dizem que qualquer diferença entre homens e mulheres no que diz respeito a gostos, interesses, manifestações emotivas tem explicação na cultura. Depois aparecem os cientistas experimentais, defendendo com testes que existe predisposição biológica para agirmos de determinadas formas. Num terceiro momento, Eia mostra aos cientistas culturalistas os testes dos, digamos, "cientistas biológicos" (lembremos que eles não descartaram, em nenhum momento, o também crucial papel da cultura) e pergunta o que eles têm a dizer sobre aqueles experimentos. Os culturalistas não têm muito o que responder, mas dizem que se manterão firmes em suas ideias, que mais se assemelham a crenças. Eia questiona uma lição que deveria permear a vida de qualquer pensador: o cientista não deveria estar pronto a considerar opiniões contrárias se houvesse provas de que as suas opiniões estavam erradas? Não pareceu o modus operandi dos "cientistas" culturalistas. 

Sim, há cientistas culturalistas que submetem suas hipóteses a experimentos e chegam a resultados satisfatórios do ponto de vista metodológico. Mas será que devemos ouvi-los se eles não considerarem o papel da biologia como fundamental para se entender por que cada gênero age de dada forma? Eu gostaria que as feministas, que geralmente não são cientistas e geralmente não submetem suas hipóteses a testes, tentassem entender que a ciência não está aqui para negar a luta da mulher ao mostrar que muitas das práticas adotadas há milênios por mulheres têm procedência nos hormônios, ou, mais elucidante, no cérebro. O fato de uma mulher ter tendência a se interessar por empregos em que é preciso lidar com pessoas e isso ter explicação biológica não quer dizer que a ciência está tentando reter as mulheres em funções costumeiramente femininas. É claro que uma mulher pode decidir programar computadores ou dirigir a construção de um prédio. Mas um grande grupo de mulheres livres que resolvem trabalhar como professoras de crianças, recepcionistas ou psicólogas não merece o carimbo de "reprodutoras de machismo cultural". Somos mais que nossos genes, mas isso não nos dá o direito de negar nossos genes. E quando disserem que o serviço de empregada doméstica é majoritariamente feminino porque é considerado um trabalho subalterno, não nos apressemos em análises ideológicas estúpidas. O trabalho de faxineira para a mulher é o que o trabalho de pedreiro é para o homem: se existe algum ponto a se levantar aqui, é o da desvalorização desses trabalhos porque são mal remunerados, e não porque está acontecendo uma tácita violência de gênero e "por isso as mulheres é que ficam com trabalhos considerados inferiores". O trabalhador conhecido como pedreiro é tão menosprezado quanto a faxineira. 

Para encerrar antes do vídeo (se ele estiver pequeno, abram em outra janela), eis a fala de uma psicóloga evolucionista que aparece no final do documentário: 

"O que eu questionaria é: qual é a origem dessas diferenças físicas? De onde as diferenças entre os sistemas reprodutivos de homens e mulheres vêm? Evolução, certamente seria a resposta que a maioria dos cientistas daria. E o que coordena essas diferenças físicas? O que é responsável pela produção dos hormônios que mantêm esse funcionamento? O cérebro humano, principalmente, através de sistemas de retroalimentação. Parece-me extraordinário alguém imaginar a evolução agindo sobre os sistemas reprodutivos e que ela não tenha tido efeito nenhum no nosso cérebro, o órgão mais complexo que nós temos no corpo". 

É verdade. Por que admitimos que os hormônios têm papel na moldagem de nossos seios, mas não queremos admitir que eles têm parcela de culpa em nosso comportamento? Acho que eu sei, e isso não vale como resposta só para as feministas: porque ainda estamos na doente ilusão de um livre arbítrio puro. Quando Freud disse que éramos regidos por instâncias que fugiam da consciência, ficamos atônitos e queríamos enforcá-lo. Como alguém ousa dizer que não somos os senhores de nossas vontades e cientes por completo de nosso comportamento? Quando a biologia diz que também agimos de acordo com o que a evolução fez de nós (nosso corpo, nosso cérebro particular, nossos hormônios), queremos sacrificar a biologia por insinuar que não somos senhores de nós mesmos. Odiamos perder o controle. Odiamos não nos ver como sujeitos absolutamente livres. Mas é isso que somos, biológicos e culturais, gostemos ou não.