quarta-feira, abril 08, 2015

O aborto, a defesa dos mortos e outros quiproquós


Dia lindo nas redes sociais será quando começarem uma corrente chamada “eu fiz um aborto e minha vida mudou – para melhor”. Não defendo o aborto somente porque imprevistos acontecem (pílulas não são 100% eficazes, camisinhas estouram), mas porque não respeito a incoerência de considerar que um feto de poucas semanas é um ser vivo. Incoerência porque o meio científico classifica como morta uma pessoa que tem morte cerebral – esse é o critério, muitas vezes, para que se possa retirar os órgãos dela e doar a outro indivíduo –, mas muitos religiosos, conservadores e homens que não têm tanta noção da responsabilidade de ter um filho (a mãe ainda é a suprema devotada à função) consideram que um feto que não teve, ainda, vida cerebral é um ser vivo magnífico que precisa ser preservado. Para esses ilógicos, você está morto se seu cérebro morre, mas um feto está vivo mesmo que ainda não esteja com o cérebro funcionando. É bom que ainda possamos conversar sobre esse assunto, já que existe um projeto de lei de 2007 querendo criminalizar a apologia do aborto e a defesa de quem o fez.

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Felizmente nunca precisei fazer um aborto. E, apesar de hoje não desejar ter filhos, não tenho certeza se faria um ao engravidar: eu só saberia se engravidasse. Mas defendo que as mulheres façam se não quiserem ter filhos, defendo a cessação da sacralização de um feto de poucas semanas e defendo que o governo precisa se manifestar quanto a esse assunto, principalmente um governo que se intitula de esquerda (believe it or not). Não condeno quem votou em Dilma para presidente. Mas condeno quem votou nela balançando bandeiras porque ela era mulher, porque era “coração valente”, porque era a voz possível da esquerda. Talvez você tenha votado nela porque era a opção que achou mais adequada. Ótimo, ninguém é obrigado a votar nulo só porque acha que todos os candidatos são muito ruins. Mas votar nela com paixão e sangue nos olhos é coisa de quem possui ideias curtas. No que concerne ao aborto, o que Dilma fez pelas mulheres, e, mais ainda, pelas mulheres pobres? (Somente quatro anos após ter sido eleita a presidente resolveu falar publicamente sobre o aborto, e disse o quê? Que é a favor dele se for dentro dos casos previstos em lei.) Mulheres com dinheiro fazem aborto em clínicas caríssimas, recebendo o atendimento que precisam em todo o processo. Mulheres pobres abortam em casa, sem cuidados, utilizando remédios comprados de forma clandestina. Mulheres pobres morrem abortando, e esse Código Penal que criminaliza o aborto não fez com que elas deixassem de abortar. É um crime praticado em silêncio, é um crime que não deveria ser crime. Mentira descarada não é privilégio de nenhum candidato político, apesar de os alienados tanto da esquerda quanto da direita quererem defender que o outro lado mente e rouba muito mais (“nós roubamos, mas eles também deram uma roubada”), e a Dilma que mentiu absurdamente na última campanha (não haveria tarifaço, a luz não ia aumentar, a gasolina não ia aumentar, a crise estava sob controle) é a mesma que mentiu sobre o aborto há alguns anos. Antes da primeira campanha, era favorável. Ao se candidatar a presidente, era contrária de modo decisivo. “Ah, mas ninguém vai ganhar campanha defendendo o aborto, assim como ninguém vai ganhar se declarando ateu”. É uma dura verdade, mas o que ela fez pelo aborto depois de eleita? Alguma campanha de conscientização? O governo desafiou a opinião pública ao se opôr radicalmente ao projeto de redução da maioridade penal, tentou dialogar e esclarecer os motivos de a redução não ser eficaz no combate ao crime – por que não tenta fazer o mesmo com o aborto? Esclareça, promova a discussão. Ainda estou esperando o grande diferencial da nossa candidata mulher, um diferencial que saia da mera representatividade (uma feminista votar na Dilma porque ela é mulher é quase um corporativismo) e vá para o campo prático: descriminalização do aborto, punição da violência doméstica (conheço algumas mulheres que foram violentadas por parceiros e denunciaram; não conheço nenhum homem que foi penalizado – com prisão ou multa – por ter agredido uma mulher), campanha de planejamento familiar (eufemismo para o salutar controle populacional). No final da última campanha eleitoral é que Dilma resolveu ser “muito mulher”: desesperada por votos, foi ensinada por seu marqueteiro a ver nas levantadas de dedo de Aécio Neves e no adjetivo “leviana” uma afronta a todas as mulheres do Brasil representadas pela pobre e desrespeitada Dilma (~lágrimas~). Como se Aécio não teria levantado o dedo e chamado de leviano um hipotético candidato homem. Aquele me pareceu o momento mais “estou aqui pelas mulheres!” de Dilma – só que usado de forma errada, dramática e com finalidade eleitoreira, puramente. (Já disse, e repito: nem Dilma nem Aécio ganharam ou ganharão meu voto.)

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Um candidato político que falasse seriamente sobre planejamento familiar com certeza seduziria meu voto. Não votaria nele só por isso, mas abrir essa questão imprescindível seria um ato tão corajoso que um encanto momentâneo aconteceria. É esse um dos motivos pelos quais defendo o aborto. O planeta não tem mais condições de suprir as necessidades de sua população. E projeções apontam que em 2050 seremos mais de 9 bilhões. Uma barbárie, é claro, e mesmo assim as pessoas colocam filhos no mundo de forma despreocupada e egoísta. Egoísta porque muitos pais têm filhos para satisfazer um estúpido mimo pessoal ou para ceder à pressão ainda forte de que um casal precisa de filhos (primeiro, você é pressionado a se unir a alguém porque “é impossível ser feliz sozinho” – há músicas que devemos apreciar só pela melodia, e não pela mensagem –, depois é preciso morar junto rapidamente, depois é preciso ter filhos, e durante toda essa jornada de reprodução de valores sem reflexão é preciso querer ter muito dinheiro acima de todas as coisas, é preciso lutar pelo melhor lugar ao sol mesmo que o seu atual lugar já baste para sintetizar vitamina D, etc.), despreocupada porque esses casais não param para refletir o mundo superpopuloso em que vivemos e a qualificação de poucos filhos como um bem: com um filho por casal, talvez seja possível dedicar tempo, dinheiro e carinho de forma a criar um ser independente, ético e cidadão; com dois filhos, a qualidade já se dilui; com três, adeus boa educação e tempo diário para as necessidades de cada um se o casal trabalha fora. Minha mãe só pôde me matricular em colégios particulares nas séries iniciais do ensino fundamental e no ensino médio (de quinta a oitava séries estudei em escola pública) porque eu era filha única. Meu melhor amigo no ensino médio também só pôde estudar em colégio particular porque era filho único. Um filho com qualidade é melhor do que dois ou três mais ou menos. E um filho, se você realmente quer ter filhos, já é alguma redução na superpopulação: são duas pessoas gerando apenas mais uma. Gerar dois filhos é deixar tudo como está. E três? Irresponsabilidade, a menos que você tenha muito tempo, muito dinheiro e muita ética para ensinar. Fora esses coelhos reprodutores, há as pessoas que não desejam ter filhos – e têm. É o caso de muitas mulheres e adolescentes que acabam dando prosseguimento a uma gestação indesejada por causa da pecha de imoralidade que o aborto leva consigo. Elas não queriam filhos, pelo menos não agora. E são obrigadas a tê-los. Assim segue o planeta, sendo dominado por uma espécie egoísta, azarada (você foi “premiada” e a camisinha estourou) e relapsa (você é uma adolescente que esqueceu de se proteger). E as azaradas e relapsas muitas vezes não podem viver como querem porque patriarcais que não calçam os sapatos alheios – o julgamento é mais fácil quando a gente não se coloca no lugar do outro – e religiosos que tentam reviver a Idade Média não permitem que elas abortem de forma tranquila e segura: elas precisam ser punidas com um filho indesejado por causa do sexo que fizeram. E ainda ensinam mulheres ingênuas, aparentemente modernas, a divulgar uma corrente romântica na internet mostrando suas fotos grávidas e contando como é sublime ter filhos só para convencer outras de que o aborto é um erro. Acontece que uma coisa que é esplêndida para uma pessoa pode ser uma tragédia para a outra. Simone de Beauvoir fez um aborto. Não queria filhos, desejava viver livremente e estudar. E certamente só foi a intelectual que foi porque não se sentiu obrigada a ter aquele filho indesejado. Resolveu ir contra a corrente de que um filho é sempre uma benção. Não: para ela, um filho seria a privação de sua liberdade, a ruína de seus estudos, enfim, uma anulação. Filhos só são bons para quem deseja ter filhos. Para quem não deseja, um filho inesperado é uma desgraça. Não é muita perversidade obrigar uma mulher que não quer ter filhos a dar prosseguimento a uma gestação indesejada?

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A volta dos que não foram. Esse é o nome do filme para certo blablarismo sobre hipóteses que refutam o aborto. Ele diz algo como: “É engraçado que essas feministas defendam o aborto, sendo que elas não estariam aqui se a mãe delas tivesse abortado”. Ocorre que há inúmeras coisas ruins passadas responsáveis pela nossa atual existência – e nem por isso somos a favor delas. Meu pai teve um primeiro casamento desastroso antes de conhecer minha mãe. Ele sofreu por causa daquele casamento e do distanciamento dos filhos (a ex-mulher fez a caveira do meu pai para eles). Até hoje sofre, porque raramente recebe visitas deles. Mas foi somente graças a esse casamento falido que meu pai pôde conhecer minha mãe e eu posso estar aqui hoje, escrevendo este blog. Meu pai, nascido em 1936, viveu no Paraná resquícios de uma Segunda Guerra que acontecia em outro continente. Sua infância mudou por causa da Segunda Guerra. E na vida uma coisinha mudada no passado altera quase tudo no futuro, até o seu nome pode mudar sua vida (se eu me chamasse Úrsula, estaria no fim da chamada na escola, teria que às vezes fazer trabalhos com outras pessoas com nomes próximos ao meu na ordem alfabética, poderia ter sido motivo de chacota por ter um nome diferente, etc., e isso tudo poderia ter dado outro rumo para a minha vida escolar e pessoal). Ou seja, talvez eu só esteja aqui hoje porque a Segunda Guerra deu um curso diverso à vida do meu pai. Serei favorável à destruição do casamento anterior do meu pai e à Segunda Guerra só porque essas coisas me permitiram estar aqui? É claro que não. Algo semelhante acontece com a questão do aborto – e digo “semelhante” porque eu fui planejada pelos meus pais, não fui acidental, não fui a cria indesejada que minha mãe cogitou abortar. Por que eu deveria pensar num mundo pior hoje só porque coisas ruins permitiram que eu nascesse? Minha mãe é negra e tenho antepassados escravos da parte de meu avô materno. Esses antepassados vieram da África para o Brasil por causa da escravidão (não teriam vindo por conta própria e coincidentemente na mesma época). A escravidão propiciou que esses meus antepassados viessem para o Brasil e mais tarde se miscigenassem. Posso dizer com toda certeza que só estou aqui hoje porque o Brasil era escravista. Devo defender a escravidão por isso? Sou crítica quanto ao modo vitimista que estão forçando os alunos a perceber a escravidão hoje (já escrevi sobre o assunto), mas não sou favorável a ela (entender um fato histórico não quer dizer, necessariamente, concordar com ele), e muito menos porque somente graças a ela eu nasci. A humanidade não gira ao meu redor e não vou deixar de pensar em melhorias para essa humanidade por causa de coisas que poderiam ter sido. Aborto é questão urgente. Você não tem que ficar pensando como seria se sua mãe tivesse te abortado, pois você está aqui e se não estivesse nem teria como pensar no assunto. Quer brincar de imaginar como seria a vida de um grupo de pessoas se uma delas não tivesse estado lá? Contente-se em assistir ao filme A felicidade não se compra (1946) (It's a wonderful life), de Frank Capra, com James Stewart, em que um anjo mostra para o protagonista, desesperado e desejoso de se matar, como teria sido a vida de outras pessoas se ele não tivesse nascido. Não se dê tanta importância diante da história universal. Muita gente que fez muito mais para o aprimoramento do mundo do que você é favorável ao aborto e não fica dançando tango com esse impertinente “e se?

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Fui uma pré-adolescente católica (meu ateísmo só chegou aos 16, e o ponto marcante da transição foi a leitura do livro Ensaios céticos, do Bertrand Russell, que havia na biblioteca do colégio no meio da uma coleção de obras escritas por premiados com o Nobel). Minha mãe sempre assistia a programas com explicações sobre o catecismo e outros temas gerais, tratados sob o ponto de vista do catolicismo. Havia um que eu até gostava de ver na época porque o chamado “professor” parecia ser inteligente, e em alguns episódios do programa havia críticas ao aborto. Num desses episódios, ele disse algo como: “Quantos Einstein, Bohr e outros gênios a humanidade já não perdeu por causa do aborto?” Para ele, ao abortar você está provavelmente matando um gênio. Agora me digam: se gênios são excepcionais, raríssimos mesmo entre os nascidos, por que eles seriam comuns entre fetos abortados de mães que não desejavam ter filhos? A tendência é que uma mulher não seja capaz de ser plenamente feliz com um filho indesejado, e a maior parte das mulheres que mantêm filhos indesejados porque tentaram abortar e não conseguiram são as pobres (as ricas têm histórias de sucesso porque são muito bem atendidas), e as mulheres pobres dificilmente têm informação e condições de proporcionar uma educação de qualidade aos filhos. Logo, se elas abortam um ser que elas não queriam, é muito mais provável que estejam livrando o mundo de um criminoso – que caiu na vida marginal porque já vinha de um lar problemático que não pôde suprir suas necessidades físicas, psicológicas e educacionais – do que de um gênio. Um gênio é raríssimo. E é muito mais raro se vem de um lar pobre e problemático que não o queria. Hipóteses estapafúrdias sempre surgem para emperrar a evolução das coisas. Obtusos procuram nelas a justificativa para suas acomodações (“não sou vegano porque, veja bem, se eu estivesse numa ilha deserta com somente uma galinha para comer, eu comeria a galinha; é por isso que não sou vegano: porque essa hipótese da ilha e da galinha me oprime o espírito”; “sou contra o aborto porque como seria a ciência se Newton tivesse sido abortado?”; “acredito em Deus porque se Ele existir, estarei salvo; parece provável que Ele não exista, mas vai que existe? É uma hipótese a se considerar e não quero ranger dentes no inferno”). O sono da razão produz monstros. 

LINKS INTERESSANTES
Em 2014, Dilma fala pela primeira vez sobre aborto, e para defender o básico. Matéria de O Globo
Coluna de Gregorio Duvivier, para a Folha de São Paulo, sobre aborto.