quinta-feira, abril 30, 2015

Rápidas e soltas 04


Sou contra a pena de morte. A vida que temos é somente essa e um criminoso deve pagar seus crimes na cadeia, e não sendo morto. A morte é uma penalidade demasiadamente severa e se um inocente morresse dentre milhões de outros condenados à morte, já teríamos cometido um equívoco gravíssimo. Só a possibilidade de matar a pessoa errada é, em si, uma demolição na tranquilidade da alma de qualquer um que deseje justiça (preciso dizer que não acredito em almas, mas gosto de usar a palavra como recurso poético?). Por isso tudo, sou contra a pena de morte. Mas também sou contra inconsistências éticas. Fervilha nos jornais a notícia do segundo brasileiro que foi assassinado na Indonésia por tráfico de drogas. E há alguns comentadores ardendo de febre por tamanha crueldade do governo indonésio, “como é que podem matar nosso cidadão por traficar drogas?”, convocando entidades que defendem direitos humanos e arrancando as cortinas na ópera enquanto gemem. Será que por algum instante esses humanitários pensaram no povo indonésio? Digamos que eu seja uma cidadã indonésia. Eu sei que serei condenada à morte se traficar drogas, por isso não me meto nesse labor malandro, por mais que queira. Tive vizinhos que foram mortos porque foram descobertos traficando. Então vem um brasileiro, sabe das leis do meu país, trafica drogas, é condenado à morte e “escapa” porque no país dele não há pena de morte e segundo a lei dele ser morto por um governo é um atentado gritante aos direitos humanos. Como eu fico? Sentindo-me injustiçada, para não dizer o coloquial “otária”. Por que eu tenho que respeitar as leis do meu país por medo da punição e um estrangeiro, não? Que direito maior esse estrangeiro tem de invadir meu país com drogas e sair impune, enquanto eu, se for pega, morrerei metralhada? É absurdo que alguém seja morto por traficar drogas, mas também é absurdo um estrangeiro chegar a um país e receber regalias após praticar um crime pelo qual qualquer cidadão local seria condenado a uma das piores penas. 

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Esses dias fui chamada, na internet, de reprodutora de machismo por criticar as mulheres que rebolam no programa Pânico com trajes mínimos. Deixei claro que também critico severamente homens que aparecem em programas sensacionalistas usando sunguinha e exibindo músculos. Não adiantou: não posso criticar o jeito como as mulheres resolvem dispor do próprio corpo (parece que do corpo masculino posso falar à vontade, todavia). Será que eu posso criticar o jeito como as pessoas resolvem dispor das próprias leituras? E será que eu posso criticar como elas criam seus gostos musicais? Se não se pode mais fazer isso, vamos acabar com a maioria das colunas de jornal, já que grande parte dos colunistas está, nesse momento, criticando as pessoas na modernidade, as escolhas de viagem que as pessoas fazem, os programas televisivos que as pessoas veem, enfim: um perene criticar a vida particular das pessoas. Pobres pessoas que não podemos criticar! Uma coisa é criticar, outra coisa é proibir. Não quero proibir ninguém de sensualizar na TV (okay, talvez eu queira proibir o horário, pensando nas crianças) e sou livre para criticar qualquer mulher sem ter que temer a polícia feminista pulha: aquela que cria duas medidas para analisar o mesmíssimo caso, que terá uma resolução muito diferente se a “vítima” for um homem ou uma mulher. Agora não podemos nem mais ter liberdade para falar mal do que os outros fazem. Aliás, em particular as outras. Não se pode falar mal de mulher em nada: existem as geniais, que estão à frente nos ensinando a viver num mundo em que o machismo nos impede de sair da cama, e existem as reprodutoras de machismo, que são vítimas ingênuas e por isso não devem ser criticadas. Todas as nossas críticas sociais devem se dirigir a machos. Não era isso que eu tinha entendido por sororidade (termo que feministas usam no lugar de fraternidade) e acho interessante que mesmo uma mulher que estimula a rivalidade entre mulheres receba elogios dessas feministas: Valesca Popozuda é “um exemplo de feminismo” por dizer que a vagina é dela e ela faz o que quer – a mesma cantora que exacerbou, com músicas sobre inveja, o já nefasto ódio que as mulheres têm umas das outras. E essas feministas enfermas ousam duvidar da nossa capacidade de verificar as coisas com os próprios olhos e negam misandria como o político que rouba jura que não está roubando: “sei que vocês estão me vendo roubar, mas percebam que digo que não estou roubando”. Criticar mulher é reproduzir machismo? Não, machismo é quando você reprova uma mulher por agir de determinada forma socialmente, mas acha que se fosse um homem fazendo aquilo, tudo bem. Isso é machismo. Machismo não é dizer que não gosta nem de homens nem de mulheres promíscuos. Machismo é dizer que tem nojo de mulher promíscua, mas que homem promíscuo está certo. Machismo é criticar a Rita Cadillac por fazer filmes pornô, mas achar normal que o Alexandre Frota faça pornô. Ponderemos as coisas antes de fazer ativismo barato delas.

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O que é o cúmulo do absurdo? Isso AQUI é o cúmulo do absurdo. Também conhecido como esquizofrenia moral. 

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Às vezes eu me repito, mas é só para deixar as coisas bem explicadinhas. Passei a assinar a versão digital da Folha de São Paulo para ter acesso a todo o conteúdo do jornal. Não-assinantes não têm direito a ler as dezenas de excelentes colunistas que escrevem para a Folha, e eu queria poder ler gente como Ruy Castro sempre que escrevesse, sempre que tivesse uma opinião para dar. Fuçando textos antigos dele para o jornal, encontrei um, de 29 de outubro, sobre o adjetivo “leviana” usado por Aécio Neves contra Dilma Rousseff na última campanha – e que deu aquela celeuma (e sobre a qual Lula deveria se retratar cantando Desculpe o auê, da Rita Lee, já que foi ele que criou tempestade em copo d'água para forçar o povo a acreditar que o PT é o partido dos oprimidos, mesmo dos oprimidos imaginários). Suponho que vocês não sejam assinantes da Folha e não tenham acesso à coluna (ou talvez tenham, mas de forma limitada), então vou colocá-la na íntegra, abaixo: 

RIO DE JANEIRO - No segundo debate pela sucessão presidencial, o do SBT, Aécio Neves chamou Dilma Rousseff de "leviana". Referia-se, naturalmente, à maneira airosa, volátil e inconsistente (vide "Aurélio" e "Houaiss") com que a candidata manipulava os dados da economia. Ao ouvir aquilo, Dilma não ficou estarrecida. Na verdade, nem acusou recebimento. Mas Lula indignou-se. Bradou que não era coisa que se dissesse de uma mulher de mais de 60 anos, mãe e avó.

A princípio, atribuiu-se a reação de Lula à criatividade do ex-presidente, craque em submeter as palavras a tantos contorcionismos semânticos quanto as conveniências exigirem. Não era para tanto, pensou-se. Muito menos para que, a partir dali, se pintasse o adversário como um homem que não respeitava as mulheres. Mas, embora os dicionários não o registrem, alega-se agora que, em algumas regiões do Nordeste, "leviana" significa "mulher da vida". Donde, sem saber, Aécio Neves terá cometido suicídio linguístico.

Foi a vingança de Lula a uma acusação que sempre lhe fizeram: a de ser, quando muito, monolíngue. Opinião de que nunca compartilhei porque Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.

É possível que o uso leviano de "leviana" não tenha tirado muitos votos de Aécio Neves – já estavam perdidos do mesmo jeito. Mas ficou claro que, nas próximas eleições, não será suficiente contratar um marqueteiro. Será preciso convocar também um linguista, para repassar com o candidato os pontos principais de sua argumentação e certificar-se de que nenhuma palavra se constituirá numa involuntária gafe regionalista, passível de exploração política.

Evidente que as mentiras, as ameaças e os golpes baixos, desde que bem urdidos e propositais, continuarão valendo.”

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Ruy Castro tem uma carioquice que às vezes me deixava inquieta. Superei isso ao começar a ler outros textos dele que não tivessem a ver com o Rio. Ruy é erudito, razoável (qualidade rara nestes tempos de horror), lê muita literatura e sabe muito de cinema. Reduzi-lo a um carioca inveterado seria um erro. Seu maior defeito, até agora, ainda é comer carne. 

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Como diz Heloisa Seixas, que organizou três coletâneas com textos do Ruy – um livro sobre música, outro sobre literatura e o terceiro sobre cinema, todos pela Companhia das Letras –, “é gostoso ler Ruy Castro”. Quando comecei a ler O leitor apaixonado: prazeres à luz do abajur, eu sabia, já no prólogo, que estava diante de um primor. Ao encontrar um livro que é realmente amável, tenho vontade de colocá-lo ao lado da minha cama, sobre uma almofada, coberto com uma flanela, para que fique quente e confortável como um animal de estimação. Não é fácil achar esse tipo de livro. Há centenas de bons livros transbordando em bibliotecas, mas um bom livro não é necessariamente um livro apaixonante. Acontece que Ruy consegue nos encantar com suas histórias, suas fofocas literárias {“Para Oswald [de Andrade], Nelson Rodrigues usava 'ferraduras mentais' – mas Nelson não deixou de graça: disse que ia a São Paulo 'dar-lhe uns tapas nas ancas' (Oswald era cadeirudo, tinha quadris quase femininos)”}, a escolha das palavras. Tenho profunda admiração por quem possui vasto léxico, sabe usá-lo, mas não cai na vala pedante da prolixidade: Ruy possui a simplicidade dos genuínos cultos e cativa em cada sentença. Para que tenham ideia de sua imensa sensibilidade (é belo um homem que é sensível sem ser um bundão), relembro o tema da minúscula coluna dele para a Folha, no dia 21 de março deste ano (dia do meu aniversário, agora é que percebo): uma lista telefônica. “O porteiro me entrega um pacote. Presente de um amigo. Abro-o e é uma preciosidade: a 'Lista de Assinantes do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, 1949'”. Então Ruy se põe a desbravar os famigerados que estavam disponíveis em certos endereços e números telefônicos. É assim que ele encontra o número de figuras como Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Juscelino Kubitschek. “Folheio-o ao acaso e o olho pousa num nome: Villa-Lobos, Heitor. Rua Araújo Porto Alegre, 56, tel. 22-2453. A ideia de que um monstro como Villa-Lobos estivesse à disposição para quem quisesse procurá-lo me encantou”. Não se permitam morrer antes de ler muitas páginas dele. 

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Ainda quero escrever uma postagem cheia de peripécias da esquerda alienada e da direita alienada. Seria muito divertido contar causos que mostram a precariedade de um pensamento extremo que não é reavaliado nem que haja provas de seu erro (lembram quando José Dirceu foi chamado de preso político em vez de ser chamado de político preso?). Um causo da direita seria o que ocorre no setor de comentários de diversos artigos de jornais. Certo assunto que não tem a ver com política vem a público. O que o direitista alienado faz? Vai lá e inventa de falar mal do petismo, da roubalheira, dos “comunistas”. Quando Chico Buarque lançou seu último livro, O irmão alemão, a Folha fez uma matéria comentando a obra e apresentando um trecho dela, lido pelo próprio Chico. Eu me interessei porque parece ser uma mistura de ficção e biografia, e um dos biografados é o pai dele, Sérgio Buarque de Hollanda, historiador ímpar que foi um dos responsáveis pela criação do Partido dos Trabalhadores – que jamais imaginaria que o partido se transformaria no que se transformou... mas quem imaginaria, naquela época de esperança e vontade de renovação? Muito bem, o artigo era somente sobre a obra do Chico. Quais eram os três comentários mais votados? Aqueles que maldiziam a posição política do sambista, petista. O que o cigarro tem a ver com a bicicleta? Nada. Mas não bastava falar mal do Chico em matérias que tratavam do PT – não, era necessário azucrinar numa matéria sobre literatura que fazia propaganda de um livro que não tinha a ver com política. Certas inconveniências denotam a mentalidade nada sadia daqueles que as escrevem. Fiquei com receio de o Chico declamar uma poesia sobre alguma morena em um sarau e alguém gritar, do meio da roda, “petista vagabundo!”, destruindo um instante artístico. Petistas roxos precisam de tratamento, mas quem usa mais horas de seu dia para criticar o PT do que para fazer todas as refeições também precisa: em alas separadas no hospital, é claro. E um causo da esquerda? Tempos atrás, comentei com um conhecido que a Folha tinha publicado uma matéria sobre não-sei-o-quê, mas a matéria ia contra a opinião do conhecido, um esquerdista daqueles que não conseguem ficar em silêncio por míseros minutos (tenho procurado boicotar pessoas que não sabem ficar em silêncio, aliás, mas é difícil fugir quando alguém chega e já vai desfiando o rosário sem pausa para respirar). Então ele solta o nada ponderado: “só podia ser coisa da Folha de São Paulo!” (assim mesmo, com exclamação, então criem a imagem de uma pessoa exclamada em vossas cabeças). Não dei uma resposta na hora porque fiquei inebriada com tamanha sandice, mas agora eu dou: qual é o problema da Folha? Há inúmeras publicações da Folha que vão frontalmente contra o que eu penso, mas para cada uma delas há outra publicação que dá as mãos às minhas opiniões. Tenho que admitir que é um jornal pluralista. O referido conhecido, ao criticar a Folha como se fosse de direita, esquece de fazer uma rápida pesquisa que pouparia essa deselegância intelectual. Os colunistas, por exemplo, que jamais seriam variados num jornal de direita. Reinaldo Azevedo, da Veja, escreve lá? Guilherme Boulos, membro do MTST, também. Aécio Neves escreve lá? André Singer, que foi secretário de imprensa do governo Lula e está sempre defendendo o ex-presidente em suas colunas, também. Luiz Felipe Pondé, o machista que acha que mulheres servem para erotizar o ambiente de trabalho, escreve lá? Gregorio Duvivier, o jovem esquerdista que defendeu que não devemos usar adjetivos voltados à sexualidade para xingar uma mulher, também. Demétrio Magnoli (que chamam apressadamente “de direita”, mas eu chamo de sensato) está lá? Juca Kfouri, esse crítico da “elite branca”, também está. E mais: onde está hospedado o blog de Leonardo Sakamoto, cientista político que é o queridinho da esquerda libertária? No Uol. De quem é o Portal Uol? Da Folha. Parece que absolutamente qualquer coisa “só podia ser coisa da Folha”. 


sábado, abril 25, 2015

O paradoxo da igualdade de gênero


Uma das piores coisas que podem ocorrer quando se está imerso na causa de um movimento muito amplo é ser confundido com qualquer pessoa dentro daquele movimento. Quem está de fora costuma simplificar as ideias de muitos em um singular estrato e também costuma achar que só as próprias causas têm mais vertentes que as camadas de uma gigante cebola. Decorre disso a banalização de pensamentos políticos: pessoas de direita tendem a pensar que a esquerda é homogênea e por isso conseguem adjetivá-la tão rapidamente (e supõem que sabem tudo sobre ela por meio de algumas matérias da mídia ou porque conheceram pessoalmente algum esquerdista); pessoas de esquerda acham que a direita também é unificada pela estupidez: julgam que todo sujeito de direita é religioso, contrário ao aborto, defensor da ditadura militar. Essa confusão é corolário da falta de conhecimento, está óbvio, mas gera um desgaste desnecessário para quem anseia defender uma ideia maior, mas não quer ser confundido com outros que defendam estritamente essa mesma ideia em comum. 

Com o veganismo não é diferente. Indivíduos que estão fora dele generalizam condutas e pensam que veganos estão gritando em uníssono. Não estão. Não estamos. Todos queremos que os animais sejam respeitados como seres sencientes capazes de possuir interesse em preservar a própria vida, mas a maioria de nós tem propostas tão diversas para que isso aconteça que dentro do movimento vegano há divergências aparentemente irreconciliáveis por causa das distintas estratégias de "veganizar". Eu, por exemplo, não consigo mais conversar com veganos antropocêntricos. Um vegano antropocêntrico é aquele que não come, não explora, nem paga para ninguém explorar animais, mas defende inúmeras causas humanas, e, no momento de decidir qual é a pauta mais importante, optará pela humana em detrimento da animal. E depois dirá a todos que, para ele, todas as causas são iguais. Não considero que sejam iguais, pois os animais são as maiores vítimas de todos os tempos e de todos os espaços. Você pode viajar ao país que mais maltrata negros ou ao país que mais maltrata mulheres. Mesmo lá os animais terão pior tratamento que aqueles negros e essas mulheres. Negros, mulheres, pobres, gays, pessoas com deficiência, gordos, feios, imigrantes são todos vítimas de alguma forma. Mas todas essas vítimas humanas fazem vítimas animais, pois comem carne, compram couro, não se interessam em saber quais são as opções de produtos não testados em animais, vão a zoológicos, obrigam bichos a trabalhar (cavalos em carroças, cães-guia, elefantes, camelos e dromedários para carregar turistas ocos, etc.). Para mim, a maior vítima de todas no meio de tanta opressão é a vítima que não faz vítimas. Animais fazem alguma vítima? Não. (Animais que comem outros animais por necessidade não estão fazendo vítimas. Nós estamos, pois carnes são completamente desnecessárias.) No entanto, são oprimidos mesmo pelos oprimidos humanos. Portanto, a causa animal é mais importante que as causas humanas. Centenas de negros morrem por ano somente por serem negros. Centenas de mulheres morrem por ano somente por serem mulheres. Mas bilhões de animais (aproximadamente 70 bilhões, e esse número se refere apenas a animais terrestres) morrem anualmente por serem "meros animais". Assim, no dia em que somente centenas de animais morrerem por ano só por serem animais, aí voltarei a conversar com veganos antropocentristas que tentam colocar as causas no mesmo nível. Enquanto animais morrerem em número espantosamente maior que qualquer grupo humano (somando todas as vítimas humanas que morrem anualmente, não chegamos nem no chinelo da quantidade de animais vitimados anualmente), eles serão, para mim, prioridade. Posso participar de uma passeata feminista. Mas se houver uma passeata feminista acontecendo no mesmo dia e horário que uma passeata animal, vou à passeata animal. Mulheres podem defender a si mesmas. Animais, não. Mulheres podem se desvencilhar da imensa opressão diária que vivem por culpa dos homens [um grande sic ideológico aqui] para ir a uma passeata reivindicar justiça. Animais não podem pedir licença a seus proprietários na indústria para exigir nada. São vítimas totalmente dependentes de ativistas humanos. (Considero o veganismo o movimento mais bonito porque é o único que de fato luta por causas alheias, e não pelas próprias causas; não há nada de errado em um pobre lutar por si, um negro lutar por si ou uma mulher lutar por si, mas você pode enxergar uma autêntica preocupação num ativista quando ele está gastando tempo, dinheiro e energia para lutar pelos privilégios de outrem: os animais.) 

Ocorre que esse vegano antropocêntrico com o qual não consigo mais conversar está no mesmo barco que eu, e um desinformado de fora me julgará pelas atitudes daquele vegano se tiver a sorte ou o azar (cada um avalia como bem entender) de encontrá-lo primeiro. Quem está de fora acredita que nós somos todos iguais e fazemos o mesmo discurso, e se ouvir primeiro o discurso do antropocêntrico concluirá, rapidamente, que eu também faço parte daquele tipo específico de veganismo. É compreensível: nosso cérebro gosta de catalogar tudo o quanto antes e nem sempre quer gastar calorias pensando por muito tempo todas as arestas, vértices e faces de uma questão. Mas é preciso cuidado antes de propagar essa generalização, pois ela não condiz com a realidade. Não sou aquele vegano antropocêntrico e ele também se sentirá mortificado se for confundido comigo. O veganismo é repleto de correntes contrárias dentro dele mesmo. 

O programa feminista também sofre desse problema. Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, tratando feministas como um grupo coeso que luta exatamente pelas mesmas pautas. E então alguns desses homens e algumas dessas mulheres acabam conhecendo o feminismo por causa de uma bandeira levantada lá por um grupo de amigas que resolveu chacoalhar o ambiente de trabalho após uma delas ter perdido a votação de um cargo promocional para um homem. Pronto, todas as feministas são malucas como aquelas feministas alvoroçadas. Quem ganha mais destaque acaba sendo porta-voz de um movimento que é mais diversificado que uma caixa de lápis de colorir, e, consequentemente, acaba levando para o público uma ideia que não é aceita por todas as feministas. Culpa das destacadas? Não, culpa dos que não se informam antes de fazer juízo de valor das coisas. Só será culpa das destacadas se elas expressarem que estão falando em nome de todas nós, mas eu não me lembro de isso ter ocorrido fora das entrelinhas (nas entrelinhas sempre ocorre, mas subtextos são muito difíceis de tentar coibir e não vou me preocupar tanto com eles agora), então a falha permanece do lado dos apressados em catalogar. Às vezes me declaro feminista e sou confundida com opiniões que execro de outras feministas. Isso me entristece porque me rotula de uma forma que não aprovo. Confundem-me, por exemplo, com as que declararam guerra aos homens. Essas mulheres dizem ser contrárias à misandria, mas o que vale de nós é aquilo que fazemos, e não aquilo que dizemos que fazemos, portanto, julgando pelas palestras amargas e pelos constantes apelidos pejorativos, vemos que, sim, há ódio aos homens. O discurso rancoroso coloca a culpa do machismo na sociedade somente nos homens, como se os homens fossem o único problema. Uma mulher que reproduz machismo sinistro merece calma, compreensão e um abraço (mesmo que seja adulta, vivida, graduada, etc.), mas um homem que age com um naco de machismo, que não destrói ninguém nem leva mulheres a hospitais, merece, para elas, punição rigorosa. Se não for punido pela lei, será punido com humilhação e deboche. Isso é vitimização de péssimo gosto e não concordo com a atitude. O machista que assoviou para uma moça numa festa não merece ser jogado no mesmo balde de lama que o machista que bate na esposa quando volta do bar. Vamos guardar a espuma de nossos beiços para quem merece e com os casos menos graves vamos dialogar. Por que se eriçar quando se propõe o tranquilo diálogo com o sexo oposto? Feministas, parem de agir como se nesses casos estivessem pedindo para vocês dialogarem com o Estado Islâmico. E, não, mulheres não são coitadas que merecem ser abraçadas mesmo quando estão sendo mais machistas que muitos homens. Esse corporativismo feminista é irracional, doentio e jamais será levado a sério por pessoas que ponderam opiniões antes de acatá-las como "a justa voz dos oprimidos, voz que está sempre certa". 

Interessantemente, as feministas que defendem que os homens são os únicos culpados pelo machismo (a mulher que reproduz machismo não pode ser chamada de machista, para elas, mas de "vítima" do machismo; talvez pensem que Hitler foi o único nazista e que seus agentes eram meros "reprodutores de nazismo", ou seja, vítimas de um hipnotizador de mentes) costumam ser as mesmas que dizem que um homem nunca pode ousar discutir sobre feminismo com uma mulher (na mesma linha está o "um branco jamais pode querer ensinar sobre racismo a um negro, pois só o negro sabe o que é racismo"). Logo, tudo o que uma mulher quiser, à volonté, denominar machismo, será machismo, não importa o que um homem diga. Em que se baseiam essas denominações tão engessadas? Em sentimentos. Se uma mulher sentir que um homem foi machista com ela, isso basta: não há defesa para este homem, porque a mulher sentiu e só uma mulher é que pode dizer quando foi ofendida em sua condição feminina. E um homem não pode chegar e dizer a uma exagerada "espere, mas isso não foi machismo, esse é o tratamento que qualquer pessoa receberia, sendo homem ou mulher", pois o sentimento dela está acima da razão e da análise. Confesso que eu descobri esse delírio só recentemente. Mas fiquei espantada porque ele apareceu com muita força em discursos de mulheres que tinham sangue nos olhos e vitalícios lábios irônicos ao se referir a homens. Uma ideia que eu desconhecia parece ter seduzido muita gente irrefletida e está se reproduzindo como se fosse natural. Essa alucinação está mais para ser um caso psiquiátrico que um caso feminista. Mas o que eu posso fazer? Elas se dizem feministas assim e eu me digo feminista como sou. Meu único movimento é o de me afastar quando a esquizofrenia não diz respeito às minhas pautas. 

O que mais as Valerie Solanas têm a nos ensinar? Ora, que nosso idioma é machista e deve ser prostituído sem reservas. Além de terem introduzido o débil x nas palavras que marcam gênero (assunto sobre o qual já me prolonguei aqui), agora inventaram um novo sistema, que é substituir o x pelo e. Ao se dirigir a um grupo de homens e mulheres veganas, por exemplo, escreverão ou dirão "cares veganes" em vez do opressor conservador "caros veganos". Acho que qualquer pessoa que ame a língua portuguesa, belíssima, ficaria agoniada. Vivemos recentemente o desprazer da reforma ortográfica mal pensada e agora estamos vivendo "a revolução do gênero" que vem das ruas, um movimento ilegítimo que aparece para ditar regras sem avaliar a razão de ser da norma que veio antes. Essas pessoas (muitos homens aderiram tanto ao x quanto ao e porque não queriam ser vistos como ofensores de mulheres) não têm o espírito científico curioso de perguntar "por que isso é assim?" antes de berrar a plenos pulmões "isso não deve ser assim!", e mesmo surtando conseguem adeptos. 

E, por último, a finalidade dessa postagem: a igualdade de gênero. Muitas feministas reivindicam que tudo o que fazemos de acordo com nosso gênero é constituído pela cultura. Se uma mulher sente vontade de ter filhos e prefere profissões que lidem com pessoas, isso é culpa ou mérito da cultura. A biologia, para elas, não possui valor nesses casos. É claro que essa ideia não é defendida somente por mulheres feministas, mas ela parece, mesmo na mão de cientistas, estar pela metade. É aí que entra o vídeo de 38 minutos abaixo. 

O comediante norueguês Harald Eia resolveu fazer uma investigação sobre os papéis de gênero tão criticados atualmente. Seu trabalho se transformou num documentário de sete partes, e, apesar de ele ser um comediante que certamente não possui cabedal científico para teorizar qualquer coisa a esse respeito, o documentário é sério porque consulta cientistas. O fato de ter sido feito por uma pessoa "comum" (poderia ter sido feito por um jornalista, que, aliás, também é uma pessoa comum, mas sabe como reunir informações científicas de uma maneira esclarecedora que fará sentido para o público leigo) apenas facilita a nossa compreensão dos dados divergentes. No primeiro vídeo da série, que é o que posto abaixo (ainda não assisti a todos), Eia começa questionando por que a Noruega, eleito o país mais igualitário do mundo (alguém lembra de ouvir falar de um norueguês que fosse pobre?), parece seguir padrões empregatícios para homens e mulheres: a maioria dos homens trabalha em funções culturalmente chamadas masculinas e a maioria das mulheres trabalha em funções chamadas femininas. Uma pesquisa conclui que quanto mais moderno e igualitário é o país, menos as moças se interessam em Exatas, por exemplo. Mesmo que o governo desses lugares invista em "nivelamento de gênero" em alguns cargos, logo o padrão volta ao que era antes: muitos homens engenheiros civis, muitas mulheres enfermeiras. Eia quer descobrir se somos socialmente programados ou se há a mão da biologia nessas condutas. A melhor conclusão sobre tudo é incrível e vem ao encontro do que eu já pensava sobre os culturalistas que defendem que tudo é cultura e nada é biologia em nosso comportamento: aqueles que defendem o papel da cultura (geralmente pessoas ligadas às Humanas) simplesmente apagam a motivação biológica para nossos atos, mas aqueles que defendem o papel da biologia são muitíssimo mais moderados e racionais e admitem que nosso comportamento se cria pela mistura de constituição biológica e programação cultural. Os teóricos que aparecem no começo do documentário (é legendado, tem somente 38 minutos e vale muito a pena) são culturalistas e dizem que qualquer diferença entre homens e mulheres no que diz respeito a gostos, interesses, manifestações emotivas tem explicação na cultura. Depois aparecem os cientistas experimentais, defendendo com testes que existe predisposição biológica para agirmos de determinadas formas. Num terceiro momento, Eia mostra aos cientistas culturalistas os testes dos, digamos, "cientistas biológicos" (lembremos que eles não descartaram, em nenhum momento, o também crucial papel da cultura) e pergunta o que eles têm a dizer sobre aqueles experimentos. Os culturalistas não têm muito o que responder, mas dizem que se manterão firmes em suas ideias, que mais se assemelham a crenças. Eia questiona uma lição que deveria permear a vida de qualquer pensador: o cientista não deveria estar pronto a considerar opiniões contrárias se houvesse provas de que as suas opiniões estavam erradas? Não pareceu o modus operandi dos "cientistas" culturalistas. 

Sim, há cientistas culturalistas que submetem suas hipóteses a experimentos e chegam a resultados satisfatórios do ponto de vista metodológico. Mas será que devemos ouvi-los se eles não considerarem o papel da biologia como fundamental para se entender por que cada gênero age de dada forma? Eu gostaria que as feministas, que geralmente não são cientistas e geralmente não submetem suas hipóteses a testes, tentassem entender que a ciência não está aqui para negar a luta da mulher ao mostrar que muitas das práticas adotadas há milênios por mulheres têm procedência nos hormônios, ou, mais elucidante, no cérebro. O fato de uma mulher ter tendência a se interessar por empregos em que é preciso lidar com pessoas e isso ter explicação biológica não quer dizer que a ciência está tentando reter as mulheres em funções costumeiramente femininas. É claro que uma mulher pode decidir programar computadores ou dirigir a construção de um prédio. Mas um grande grupo de mulheres livres que resolvem trabalhar como professoras de crianças, recepcionistas ou psicólogas não merece o carimbo de "reprodutoras de machismo cultural". Somos mais que nossos genes, mas isso não nos dá o direito de negar nossos genes. E quando disserem que o serviço de empregada doméstica é majoritariamente feminino porque é considerado um trabalho subalterno, não nos apressemos em análises ideológicas estúpidas. O trabalho de faxineira para a mulher é o que o trabalho de pedreiro é para o homem: se existe algum ponto a se levantar aqui, é o da desvalorização desses trabalhos porque são mal remunerados, e não porque está acontecendo uma tácita violência de gênero e "por isso as mulheres é que ficam com trabalhos considerados inferiores". O trabalhador conhecido como pedreiro é tão menosprezado quanto a faxineira. 

Para encerrar antes do vídeo (se ele estiver pequeno, abram em outra janela), eis a fala de uma psicóloga evolucionista que aparece no final do documentário: 

"O que eu questionaria é: qual é a origem dessas diferenças físicas? De onde as diferenças entre os sistemas reprodutivos de homens e mulheres vêm? Evolução, certamente seria a resposta que a maioria dos cientistas daria. E o que coordena essas diferenças físicas? O que é responsável pela produção dos hormônios que mantêm esse funcionamento? O cérebro humano, principalmente, através de sistemas de retroalimentação. Parece-me extraordinário alguém imaginar a evolução agindo sobre os sistemas reprodutivos e que ela não tenha tido efeito nenhum no nosso cérebro, o órgão mais complexo que nós temos no corpo". 

É verdade. Por que admitimos que os hormônios têm papel na moldagem de nossos seios, mas não queremos admitir que eles têm parcela de culpa em nosso comportamento? Acho que eu sei, e isso não vale como resposta só para as feministas: porque ainda estamos na doente ilusão de um livre arbítrio puro. Quando Freud disse que éramos regidos por instâncias que fugiam da consciência, ficamos atônitos e queríamos enforcá-lo. Como alguém ousa dizer que não somos os senhores de nossas vontades e cientes por completo de nosso comportamento? Quando a biologia diz que também agimos de acordo com o que a evolução fez de nós (nosso corpo, nosso cérebro particular, nossos hormônios), queremos sacrificar a biologia por insinuar que não somos senhores de nós mesmos. Odiamos perder o controle. Odiamos não nos ver como sujeitos absolutamente livres. Mas é isso que somos, biológicos e culturais, gostemos ou não. 


quarta-feira, abril 15, 2015

Veganos na Europa: Madri (Espanha)


Numa das Rápidas e soltas comentei brevemente sobre a minha decepção com Madri. Talvez tenha parecido pessimista demais quanto a tudo (apesar de ter elogiado os excepcionais restaurantes veganos), mas eu gostaria que não deixassem de considerar a visita por causa dessas intempéries. Madri se mostrou para mim como a cidade das trevas porque eu nunca vi tantos casacos de pele a minha vida inteira. Acho mesmo que somando todos os casacos de pele que vi em revistas de moda – e eu leio essas revistas desde que era criança e as comprava usadas no sebo – o resultado será menor do que o número de casacos de pele em que eu pude reparar durante cinco dias em Madri. Foi horrível ver mulheres sorrindo futilmente vestindo bichos mortos. Nas minhas viagens anteriores, visitando outros países, sempre vi casacos de pele à venda. Sempre chorava. Mas eu precisaria de um mar dentro de mim para poder chorar todos os casacos de Madri. Foi tão chocante que nenhuma lágrima me veio. Essa alienação parece condizer com o ar festeiro e consumista da cidade. A rua em que estão todas as lojas de grifes é como um formigueiro: muito lotada, todo mundo indo e vindo com rapidez. As pessoas andam em grupo. No centro da cidade, muito raramente encontrei pessoas andando sozinhas. Essa foi uma observação que fez sentido quando, após visitar Madri, meu namorado e eu fomos a Budapeste (capital da Hungria). A disparidade saltava aos olhos. Em Madri, alegria por toda parte (a alegria parva que ninguém deveria invejar); em Budapeste, uma notória melancolia. Em Madri, todo mundo, exceto idosos em bairros mais afastados, andava em bandos. Em Budapeste, a maioria das pessoas andava sozinha. Em Madri, a rua do consumo era um fervor. Em Budapeste essa rua era obviamente mais requintada que as outras, só que tranquila, com pouca gente, nada de exibicionismo e gargalhadas. Todo mundo gargalha em Madri. Ninguém gargalha em Budapeste; pareci histérica quando soltei uma gargalhada despretensiosa num restaurante, senti como se gargalhasse na ala do câncer de um hospital. Budapeste era real, Madri era uma farsa que se vendia como um pirulito colorido para uma criança ingênua que ainda não sabe dos males do açúcar. Preferi Budapeste, apesar de jamais me imaginar morando ou me hospedando por mais de poucas semanas. Acho que só vi um casaco de pele em Budapeste. E lá era tremendamente mais frio que Madri. 

Gosta de cores? Madri tem cores lindas

Gosta de túneis de árvores? Madri tem vários

Placa indicando o restaurante Saníssimo

Mas eu não sou a viajante nota dez que vai à caça de pontos turísticos e tenta passar em todos para sentir aquele gosto de serviço feito. Não, eu gosto de passear nas ruas sem tantos objetivos definidos e gosto de comer. É por isso que eu acho que Madri vale algo a pena. Se está procurando fantásticas atrações turísticas, outras capitais terão muito mais a oferecer. No entanto, se é como eu e não mede o valor de seu escopo de viagem pelo número de pontos famosos, Madri possui um itinerário agradável. Há uns bairros muito bonitos, a noite é agradável, a cor da cidade faz bem à vista. Perder-se em Madri é interessante. Aliás, tentar se perder em Madri é interessante, porque André e eu tentamos nos perder diversas vezes e menos de duas horas depois estávamos caindo no mesmo lugar. “Não, espere um pouco, vamos pegar essa rua bem estranha e agora vamos nos perder pra valer!” Daqui a pouco estávamos, não sabíamos como, novamente no centro da cidade. 

Agora o melhor da cidade: as possibilidades veganas. Quando fiz essa última viagem, eu ainda estava cogitando melhorar mais severamente a minha alimentação. Mas procurei não mudar durante a viagem porque queria aproveitar ao máximo a despedida de um modo de comer não tão nobre. Isso significa que fui a boa e velha bárbara, herdeira dos hunos, quando ia a restaurantes. Assim pude provar inúmeros pratos de uma vez só. É claro que devia assustar muitos atendentes e cozinheiros, mas sempre tive esse desprendimento do “pensem o que quiserem, vou pagar”, e foi por causa dele que me foi permitida uma variedade de experiências gustativas. Tirei inúmeras fotos de comida que parecem de três refeições, mas que na verdade são de uma refeição só. Que fique claro: não aprovo mais essa loucura, não mais acho louvável comer até quase adoecer. Eu me sinto muito melhor comendo menos e pretendo continuar assim na maior parte do tempo. Sobre as fotos de comida, antes que me chamem de foodie: tiro essas fotos para ajudar a popularizar o veganismo, para mostrar que há belíssimas e saborosas preparações veganas sendo feitas das mais diversas formas em outros países. Entendo perfeitamente que pessoas mais ocupadas sintam desprezo por outras que postam, constantemente, fotos de pratos em redes sociais. Mas eu defendo as fotos de pratos que vêm com um objetivo bem claro: ensinar alimentação saudável, propagandear o crudivorismo, propagandear receitas veganas, etc. No site HappyCow, em que há comentários sobre quase todos os restaurantes veganos disponíveis no planeta, os usuários postam fotos de seus pratos. Essas fotos me ajudam muito na hora de escolher onde quero comer em cada cidade, e é por ver o quanto esse serviço é útil que também me sinto desejosa de contribuir. Cada vez que mostro uma foto de comida, estou agindo de maneira ativista, mostrando a todos que o veganismo é muito mais amplo do que supõem limitadas cabecinhas. Madri não decepciona nessa variedade de pratos éticos e deliciosos.

SANÍSSIMO

Chegamos a Madri no dia 1 de janeiro. Havia um mês eu estava pensando onde comeria no primeiro dia do ano, já que tudo costuma estar fechado nessa data e eu preciso de, pelo menos, uma refeição com sustância no dia para não sentir tonturas. Pesquisando em fóruns de redes sociais, meu namorado descobriu que um restaurante ovolactovegetariano (sem carne alguma, mas com leite e ovos em certos pratos) perto do hotel onde nos hospedaríamos estaria aberto. E nosso hotel ficava próximo à rua principal de Madri, que é a Gran Vía (conheça, mas evite-a: é a tal rua fashion barulhenta e lotada), o que significava que tanto nosso hotel quanto aquele restaurante estavam bem localizados para turistas que tendem a ficar em regiões centrais das cidades que visitam. Salvei o mapa de direções que sempre busco no Google Maps (como as pessoas faziam sem GPS e Google Maps viajando para fora? Devia ser tão difícil e emocionante quanto gravar programas de rádio em fitas k7 nos anos 80 e comparar isso às facilidades do mp3 de agora) e em 8 minutos a pé estávamos lá. Madri estava muito bonita no primeiro dia do ano, com lojas fechadas e pessoas passeando com suas famílias – o que me faz deduzir que o maior problema da cidade são as lojas de roupas e calçados. 

Cerveja sem glúten e cerveja artesanal tipo lager

Saníssimo é um restaurante de comida saudável com diversas opções veganas e algumas cervejas interessantes. Foi lá que experimentei minha primeira cerveja sem glúten, apesar de ter preferido uma outra, artesanal, com aroma de floresta (minhas cervejas prediletas são aquelas com gosto forte de lúpulo e aroma de floresta molhada). E, apesar de ser um estabelecimento ovolactovegetariano, as opções para veganos eram muito saborosas e nutritivas – não é à toa que o local se chama Saníssimo. Mente sã em corpo são é um princípio que todos deveríamos buscar. 

Folhado de espinafre

Hambúrguer de feijão-preto

Lasanha de berinjela, batatas, cuscuz e saladas

Começamos com as cervejas. Depois comemos um tipo de folhado de espinafre que era saborosíssimo, e realmente tinha que ser, já que eu não gosto de espinafre e mesmo assim estou elogiando. Eu pedi um hambúrguer de feijão-preto porque talvez em um mês de viagem pela Europa aquela seria minha única oportunidade de comer feijão-preto camuflado (já comentei aqui: é muito difícil achar feijão-preto para comer lá), o André pediu um prato feito em que vinha uma lasanha de berinjela, cuscuz e saladas. Tudo primoroso. Fomos tomando outras cervejas, eu pedi mais um folhado de espinafre para dividirmos e um strudel (um doce típico alemão feito com maçã, parecendo um pão doce enrolado com pedaços de maçã). E depois um cafezinho. Como dentro do restaurante eles têm uma lojinha, na saída comprei alguns biscoitinhos para o café da manhã do outro dia. Nos dias seguintes fomos ao Oveja Negra e ao B13, onde vendem comida saborosa, mas quase nada saudável, então somente no último dia voltamos ao Saníssimo porque meu organismo estava implorando por comida que alimenta em vez de comida que só agrada ao paladar e enche a barriga. Recomendo muito. Lugar calmo, limpo e familiar. 

OVEJA NEGRA

Quando busco restaurantes para visitar na Europa, sempre dou preferência aos veganos, a não ser que sejam muito criticados por falta de higiene ou comida ruim. Fomos ao Saníssimo logo ao chegar a Madri porque era a única opção aberta no dia 1 de janeiro. E depois voltamos lá porque na área em que estávamos era o único com comida saudável. Os outros tinham comida, mas era junkie food. Só que junkie food vegana numa situação excepcional (eu estava de férias) não merece tantas reclamações, e deixarei para outros momentos essa conversa sobre boa alimentação. Como eu disse, durante a viagem é que resolvi dar mais um grande passo na minha alimentação, procurando torná-la mais correta e com menos, muito menos açúcar, mas decidi que mudar já durante as férias não seria uma boa ideia, até porque eu queria experimentar muitas coisas diferentes. E foi aí que me esbaldei em lugares como Oveja Negra e B13.

Mural sobre o que é autodefesa

Cardápio do Oveja Negra

Cervejas sempre dão uma alegrada

O Oveja Negra é mais um bar que um restaurante. Aliás, acharia estranho se qualquer pessoa se referisse a ele como restaurante. É, na verdade, um bar com algumas opções de comida para acompanhar sua bebida. E também é o lugar com atmosfera ideal se você é anarquista, feminista até a espinha, ativista roxo e apaixonado, porque as paredes estão cheias de escritos sobre libertação (principalmente da mulher), as moças que atendem demonstram se lixar para papéis de gênero e as duas cabines de banheiro têm na porta desenhos de travestis, ou seja, “tanto faz o banheiro que você vai usar, camarada, não vamos dividir isso aqui entre feminino e masculino”. Não concordo muito com esse último ponto, mas como o lugar era pequeno, os banheiros não eram mistos dentro de uma rodoviária e eu pago para não discutir com estranhos, principalmente na Europa, isso não fez diferença nenhuma na minha noite. Bebi algumas cervejas, comi croquetes de cogumelos (lindos, pena que caros; 6 euros para cinco croquetes tamanho coquetel) e tirei algumas fotos. A música era boa, a rua em que se localiza era estreita e graciosa. Oveja Negra foi um excelente lugar para beber. 

Croquetes de cogumelo, batatas e cerveja

Parece que em Madri é comum esse petisco de milho frito
com sal. Inovador demais para meu paladar

B13

Esse foi O Lugar. Também perto do nosso hotel, logo, também perto da Gran Vía, o B13 é a razão de eu querer voltar a Madri. Tudo maravilhoso, exceto o tamanho do lugar, mas se você tem sorte de conseguir uma mesa essa opinião rapidamente muda, pois parece que o aperto lá dentro (até porque era inverno) tornava o local aconchegante. Ah, claro, havia um outro problema, dessa vez na saída, pois qualquer pessoa que passe mais do que uma hora no restaurante/bar sairá de lá com cheiro de fritura, quase como se a própria pessoa tivesse escorregado para dentro da frigideira cheia de óleo. Comemos tanto no B13 e, por consequência, ficamos com tanto cheiro de óleo em nossos casacos, que precisamos de muitos dias de vento na rua para conseguir disfarçar o fato de que parecíamos caminhar entre a multidão com quatro coxinhas em cada bolso. Se for lá, prepare-se para obrigatoriamente lavar seus cabelos ao voltar ao hotel.

Fachada do B13

Sempre cheio, sempre saboroso

Bocadillo de seitan (talvez o melhor seitan que já comi) e
batatas. Lá atrás, a ruim cerveja Estrella Galicia,
que experimentamos no primeiro dia

Bolo com chantilly e chocolate, cerveja artesanal
Veer e café com leite vegetal

Mas acho que você jamais se arrependerá de comer no B13, a não ser que seja um desses almofadinhas que acham que precisam ser massageados por atendentes quando chegam aos lugares. As poucas reclamações que ouvi sobre a lanchonete (é estranho chamar algum lugar na Europa de lanchonete, uma palavra que soa brasileiríssima, mas é isso o que o B13 é) era a respeito dos atendentes sisudos. Ocorre que o lugar vive cheio e os cinco atendentes são os cinco donos do lugar, que fazem tudo: anotam pedidos, abrem bebidas, cozinham, limpam mesas. Por que são obrigados a sorrir o tempo todo? Para me considerar bem atendida, não preciso de sorrisos. Pensemos que as pessoas ficam horas trabalhando e reflitamos o quanto deve ser cansativo ter que sorrir para todo mundo que aparece no percurso de todas essas horas. Fora isso, o B13 só recebe elogios. Bebi uma cerveja artesanal que parecia produzida por gnomos num jardim, bebi café, bebi vinho, comi bocadillos de seitan (um pão enorme recheado com seitan, que é a “carne de glúten” que quando bem feita se torna muito suculenta), batata frita, croquetes de cogumelo (acho que do mesmo fornecedor do Oveja Negra, já que o sabor era o mesmo), cachorro-quente, chouriço vegetal, homus, tortas… Foram dias intensos de bon vivant vegana. É maravilhoso chegar a um lugar cheio de coisas saborosas para comer e não ter que perguntar o que é vegano e o que não é: tudo é. Se for a Madri, não deixe de passar lá. André e eu já combinamos que se um dia ele ganhar na loteria (porque eu não jogo), investiremos no B13 para que se torne maior. Nem mesmo algum patético churrasqueiro que acha que o gosto das carnes vêm antes da ética vai sentir falta de carne lá. É um lugar para converter. 

É vegano, vai viajar para a Europa e precisa de alguma ajuda? Escreva-me. Demoro a responder, mas respondo: barbaramaidel@hotmail.com

quarta-feira, abril 08, 2015

O aborto, a defesa dos mortos e outros quiproquós


Dia lindo nas redes sociais será quando começarem uma corrente chamada “eu fiz um aborto e minha vida mudou – para melhor”. Não defendo o aborto somente porque imprevistos acontecem (pílulas não são 100% eficazes, camisinhas estouram), mas porque não respeito a incoerência de considerar que um feto de poucas semanas é um ser vivo. Incoerência porque o meio científico classifica como morta uma pessoa que tem morte cerebral – esse é o critério, muitas vezes, para que se possa retirar os órgãos dela e doar a outro indivíduo –, mas muitos religiosos, conservadores e homens que não têm tanta noção da responsabilidade de ter um filho (a mãe ainda é a suprema devotada à função) consideram que um feto que não teve, ainda, vida cerebral é um ser vivo magnífico que precisa ser preservado. Para esses ilógicos, você está morto se seu cérebro morre, mas um feto está vivo mesmo que ainda não esteja com o cérebro funcionando. É bom que ainda possamos conversar sobre esse assunto, já que existe um projeto de lei de 2007 querendo criminalizar a apologia do aborto e a defesa de quem o fez.

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Felizmente nunca precisei fazer um aborto. E, apesar de hoje não desejar ter filhos, não tenho certeza se faria um ao engravidar: eu só saberia se engravidasse. Mas defendo que as mulheres façam se não quiserem ter filhos, defendo a cessação da sacralização de um feto de poucas semanas e defendo que o governo precisa se manifestar quanto a esse assunto, principalmente um governo que se intitula de esquerda (believe it or not). Não condeno quem votou em Dilma para presidente. Mas condeno quem votou nela balançando bandeiras porque ela era mulher, porque era “coração valente”, porque era a voz possível da esquerda. Talvez você tenha votado nela porque era a opção que achou mais adequada. Ótimo, ninguém é obrigado a votar nulo só porque acha que todos os candidatos são muito ruins. Mas votar nela com paixão e sangue nos olhos é coisa de quem possui ideias curtas. No que concerne ao aborto, o que Dilma fez pelas mulheres, e, mais ainda, pelas mulheres pobres? (Somente quatro anos após ter sido eleita a presidente resolveu falar publicamente sobre o aborto, e disse o quê? Que é a favor dele se for dentro dos casos previstos em lei.) Mulheres com dinheiro fazem aborto em clínicas caríssimas, recebendo o atendimento que precisam em todo o processo. Mulheres pobres abortam em casa, sem cuidados, utilizando remédios comprados de forma clandestina. Mulheres pobres morrem abortando, e esse Código Penal que criminaliza o aborto não fez com que elas deixassem de abortar. É um crime praticado em silêncio, é um crime que não deveria ser crime. Mentira descarada não é privilégio de nenhum candidato político, apesar de os alienados tanto da esquerda quanto da direita quererem defender que o outro lado mente e rouba muito mais (“nós roubamos, mas eles também deram uma roubada”), e a Dilma que mentiu absurdamente na última campanha (não haveria tarifaço, a luz não ia aumentar, a gasolina não ia aumentar, a crise estava sob controle) é a mesma que mentiu sobre o aborto há alguns anos. Antes da primeira campanha, era favorável. Ao se candidatar a presidente, era contrária de modo decisivo. “Ah, mas ninguém vai ganhar campanha defendendo o aborto, assim como ninguém vai ganhar se declarando ateu”. É uma dura verdade, mas o que ela fez pelo aborto depois de eleita? Alguma campanha de conscientização? O governo desafiou a opinião pública ao se opôr radicalmente ao projeto de redução da maioridade penal, tentou dialogar e esclarecer os motivos de a redução não ser eficaz no combate ao crime – por que não tenta fazer o mesmo com o aborto? Esclareça, promova a discussão. Ainda estou esperando o grande diferencial da nossa candidata mulher, um diferencial que saia da mera representatividade (uma feminista votar na Dilma porque ela é mulher é quase um corporativismo) e vá para o campo prático: descriminalização do aborto, punição da violência doméstica (conheço algumas mulheres que foram violentadas por parceiros e denunciaram; não conheço nenhum homem que foi penalizado – com prisão ou multa – por ter agredido uma mulher), campanha de planejamento familiar (eufemismo para o salutar controle populacional). No final da última campanha eleitoral é que Dilma resolveu ser “muito mulher”: desesperada por votos, foi ensinada por seu marqueteiro a ver nas levantadas de dedo de Aécio Neves e no adjetivo “leviana” uma afronta a todas as mulheres do Brasil representadas pela pobre e desrespeitada Dilma (~lágrimas~). Como se Aécio não teria levantado o dedo e chamado de leviano um hipotético candidato homem. Aquele me pareceu o momento mais “estou aqui pelas mulheres!” de Dilma – só que usado de forma errada, dramática e com finalidade eleitoreira, puramente. (Já disse, e repito: nem Dilma nem Aécio ganharam ou ganharão meu voto.)

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Um candidato político que falasse seriamente sobre planejamento familiar com certeza seduziria meu voto. Não votaria nele só por isso, mas abrir essa questão imprescindível seria um ato tão corajoso que um encanto momentâneo aconteceria. É esse um dos motivos pelos quais defendo o aborto. O planeta não tem mais condições de suprir as necessidades de sua população. E projeções apontam que em 2050 seremos mais de 9 bilhões. Uma barbárie, é claro, e mesmo assim as pessoas colocam filhos no mundo de forma despreocupada e egoísta. Egoísta porque muitos pais têm filhos para satisfazer um estúpido mimo pessoal ou para ceder à pressão ainda forte de que um casal precisa de filhos (primeiro, você é pressionado a se unir a alguém porque “é impossível ser feliz sozinho” – há músicas que devemos apreciar só pela melodia, e não pela mensagem –, depois é preciso morar junto rapidamente, depois é preciso ter filhos, e durante toda essa jornada de reprodução de valores sem reflexão é preciso querer ter muito dinheiro acima de todas as coisas, é preciso lutar pelo melhor lugar ao sol mesmo que o seu atual lugar já baste para sintetizar vitamina D, etc.), despreocupada porque esses casais não param para refletir o mundo superpopuloso em que vivemos e a qualificação de poucos filhos como um bem: com um filho por casal, talvez seja possível dedicar tempo, dinheiro e carinho de forma a criar um ser independente, ético e cidadão; com dois filhos, a qualidade já se dilui; com três, adeus boa educação e tempo diário para as necessidades de cada um se o casal trabalha fora. Minha mãe só pôde me matricular em colégios particulares nas séries iniciais do ensino fundamental e no ensino médio (de quinta a oitava séries estudei em escola pública) porque eu era filha única. Meu melhor amigo no ensino médio também só pôde estudar em colégio particular porque era filho único. Um filho com qualidade é melhor do que dois ou três mais ou menos. E um filho, se você realmente quer ter filhos, já é alguma redução na superpopulação: são duas pessoas gerando apenas mais uma. Gerar dois filhos é deixar tudo como está. E três? Irresponsabilidade, a menos que você tenha muito tempo, muito dinheiro e muita ética para ensinar. Fora esses coelhos reprodutores, há as pessoas que não desejam ter filhos – e têm. É o caso de muitas mulheres e adolescentes que acabam dando prosseguimento a uma gestação indesejada por causa da pecha de imoralidade que o aborto leva consigo. Elas não queriam filhos, pelo menos não agora. E são obrigadas a tê-los. Assim segue o planeta, sendo dominado por uma espécie egoísta, azarada (você foi “premiada” e a camisinha estourou) e relapsa (você é uma adolescente que esqueceu de se proteger). E as azaradas e relapsas muitas vezes não podem viver como querem porque patriarcais que não calçam os sapatos alheios – o julgamento é mais fácil quando a gente não se coloca no lugar do outro – e religiosos que tentam reviver a Idade Média não permitem que elas abortem de forma tranquila e segura: elas precisam ser punidas com um filho indesejado por causa do sexo que fizeram. E ainda ensinam mulheres ingênuas, aparentemente modernas, a divulgar uma corrente romântica na internet mostrando suas fotos grávidas e contando como é sublime ter filhos só para convencer outras de que o aborto é um erro. Acontece que uma coisa que é esplêndida para uma pessoa pode ser uma tragédia para a outra. Simone de Beauvoir fez um aborto. Não queria filhos, desejava viver livremente e estudar. E certamente só foi a intelectual que foi porque não se sentiu obrigada a ter aquele filho indesejado. Resolveu ir contra a corrente de que um filho é sempre uma benção. Não: para ela, um filho seria a privação de sua liberdade, a ruína de seus estudos, enfim, uma anulação. Filhos só são bons para quem deseja ter filhos. Para quem não deseja, um filho inesperado é uma desgraça. Não é muita perversidade obrigar uma mulher que não quer ter filhos a dar prosseguimento a uma gestação indesejada?

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A volta dos que não foram. Esse é o nome do filme para certo blablarismo sobre hipóteses que refutam o aborto. Ele diz algo como: “É engraçado que essas feministas defendam o aborto, sendo que elas não estariam aqui se a mãe delas tivesse abortado”. Ocorre que há inúmeras coisas ruins passadas responsáveis pela nossa atual existência – e nem por isso somos a favor delas. Meu pai teve um primeiro casamento desastroso antes de conhecer minha mãe. Ele sofreu por causa daquele casamento e do distanciamento dos filhos (a ex-mulher fez a caveira do meu pai para eles). Até hoje sofre, porque raramente recebe visitas deles. Mas foi somente graças a esse casamento falido que meu pai pôde conhecer minha mãe e eu posso estar aqui hoje, escrevendo este blog. Meu pai, nascido em 1936, viveu no Paraná resquícios de uma Segunda Guerra que acontecia em outro continente. Sua infância mudou por causa da Segunda Guerra. E na vida uma coisinha mudada no passado altera quase tudo no futuro, até o seu nome pode mudar sua vida (se eu me chamasse Úrsula, estaria no fim da chamada na escola, teria que às vezes fazer trabalhos com outras pessoas com nomes próximos ao meu na ordem alfabética, poderia ter sido motivo de chacota por ter um nome diferente, etc., e isso tudo poderia ter dado outro rumo para a minha vida escolar e pessoal). Ou seja, talvez eu só esteja aqui hoje porque a Segunda Guerra deu um curso diverso à vida do meu pai. Serei favorável à destruição do casamento anterior do meu pai e à Segunda Guerra só porque essas coisas me permitiram estar aqui? É claro que não. Algo semelhante acontece com a questão do aborto – e digo “semelhante” porque eu fui planejada pelos meus pais, não fui acidental, não fui a cria indesejada que minha mãe cogitou abortar. Por que eu deveria pensar num mundo pior hoje só porque coisas ruins permitiram que eu nascesse? Minha mãe é negra e tenho antepassados escravos da parte de meu avô materno. Esses antepassados vieram da África para o Brasil por causa da escravidão (não teriam vindo por conta própria e coincidentemente na mesma época). A escravidão propiciou que esses meus antepassados viessem para o Brasil e mais tarde se miscigenassem. Posso dizer com toda certeza que só estou aqui hoje porque o Brasil era escravista. Devo defender a escravidão por isso? Sou crítica quanto ao modo vitimista que estão forçando os alunos a perceber a escravidão hoje (já escrevi sobre o assunto), mas não sou favorável a ela (entender um fato histórico não quer dizer, necessariamente, concordar com ele), e muito menos porque somente graças a ela eu nasci. A humanidade não gira ao meu redor e não vou deixar de pensar em melhorias para essa humanidade por causa de coisas que poderiam ter sido. Aborto é questão urgente. Você não tem que ficar pensando como seria se sua mãe tivesse te abortado, pois você está aqui e se não estivesse nem teria como pensar no assunto. Quer brincar de imaginar como seria a vida de um grupo de pessoas se uma delas não tivesse estado lá? Contente-se em assistir ao filme A felicidade não se compra (1946) (It's a wonderful life), de Frank Capra, com James Stewart, em que um anjo mostra para o protagonista, desesperado e desejoso de se matar, como teria sido a vida de outras pessoas se ele não tivesse nascido. Não se dê tanta importância diante da história universal. Muita gente que fez muito mais para o aprimoramento do mundo do que você é favorável ao aborto e não fica dançando tango com esse impertinente “e se?

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Fui uma pré-adolescente católica (meu ateísmo só chegou aos 16, e o ponto marcante da transição foi a leitura do livro Ensaios céticos, do Bertrand Russell, que havia na biblioteca do colégio no meio da uma coleção de obras escritas por premiados com o Nobel). Minha mãe sempre assistia a programas com explicações sobre o catecismo e outros temas gerais, tratados sob o ponto de vista do catolicismo. Havia um que eu até gostava de ver na época porque o chamado “professor” parecia ser inteligente, e em alguns episódios do programa havia críticas ao aborto. Num desses episódios, ele disse algo como: “Quantos Einstein, Bohr e outros gênios a humanidade já não perdeu por causa do aborto?” Para ele, ao abortar você está provavelmente matando um gênio. Agora me digam: se gênios são excepcionais, raríssimos mesmo entre os nascidos, por que eles seriam comuns entre fetos abortados de mães que não desejavam ter filhos? A tendência é que uma mulher não seja capaz de ser plenamente feliz com um filho indesejado, e a maior parte das mulheres que mantêm filhos indesejados porque tentaram abortar e não conseguiram são as pobres (as ricas têm histórias de sucesso porque são muito bem atendidas), e as mulheres pobres dificilmente têm informação e condições de proporcionar uma educação de qualidade aos filhos. Logo, se elas abortam um ser que elas não queriam, é muito mais provável que estejam livrando o mundo de um criminoso – que caiu na vida marginal porque já vinha de um lar problemático que não pôde suprir suas necessidades físicas, psicológicas e educacionais – do que de um gênio. Um gênio é raríssimo. E é muito mais raro se vem de um lar pobre e problemático que não o queria. Hipóteses estapafúrdias sempre surgem para emperrar a evolução das coisas. Obtusos procuram nelas a justificativa para suas acomodações (“não sou vegano porque, veja bem, se eu estivesse numa ilha deserta com somente uma galinha para comer, eu comeria a galinha; é por isso que não sou vegano: porque essa hipótese da ilha e da galinha me oprime o espírito”; “sou contra o aborto porque como seria a ciência se Newton tivesse sido abortado?”; “acredito em Deus porque se Ele existir, estarei salvo; parece provável que Ele não exista, mas vai que existe? É uma hipótese a se considerar e não quero ranger dentes no inferno”). O sono da razão produz monstros. 

LINKS INTERESSANTES
Em 2014, Dilma fala pela primeira vez sobre aborto, e para defender o básico. Matéria de O Globo
Coluna de Gregorio Duvivier, para a Folha de São Paulo, sobre aborto.