segunda-feira, março 02, 2015

Rápidas e soltas 03


Dentre meus mais importantes princípios de todos os tempos está o de ponderar. E ponderar fora do pacote. A liberdade de pensar fora de um pacote é como respirar após quase morrer de asfixia. O que são os pacotes? Podem ser qualquer coisa que se vista como uma ideia completa, cheia de raízes, que você “precisa” adotar para poder estar situado. Muitas vezes quem adota esse combo ideológico na sua forma mais rústica, sem nenhum remendo ou aparo, costuma escrachar os rejeitadores de pacotes como apolíticos, amorais e outros adjetivos rebaixadores. Os adjetivos, claro, podem ser verdadeiros (talvez eles tenham como alvo alguém que realmente seja apolítico), mas em boa parte dos casos são apenas rabugices de reizinhos com espadas de papelão tentando uma posição ainda mais elevada, a posição daquele que “dá nome aos bois”. Não comprando os combos ideológicos, não sou esquerda nem direita. Mas leio ambas as partes. Mas pondero o que cada uma tem a dizer. Concordo com algumas coisas, discordo de outras. Sou a feliz e estranha pessoa que os direitistas chamam de esquerdista e os esquerdistas chamam de direitista. Quem está com a razão? Todos estão enganados. E não faço isso porque não quero colocar minha mão no fogo por uma causa. Causas genuínas dentro desses grandes pacotes são abraçadas por mim. Apenas não vou aposentar meu anseio de conjecturar só porque alguns pensam que quem não é por nós é contra nós. Eu leio tudo, e, principalmente, não tenho medo de ler opiniões que são opostas às minhas. Faço questão de sabê-las. E rumo a elas tentando entendê-las. Quem lê um livro que trata de assuntos variados e apenas considera aquilo que já pensava (“vou procurar neste livro ideias que eu já tenho na minha cabeça, só que aqui elas estarão mais organizadas, teorizadas”) precisa amadurecer. Quem só lê aquilo que ratifica as próprias ideias também precisa amadurecer, mas precisa antes parar o processo de alienação. Há um universo fora do seu pacote ideológico. Tente entendê-lo para reciclar a morada dos seus pensamentos.

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Sou feminista. Mas feminismo delirante não me representa. O neofeminismo que procura chifres em cabeça de cavalo não escreve em meu nome, não pactua com as minhas ideias de seriedade, ação-em-si e relevância. Há quinhentas questões feministas que merecem estar na ordem do dia. Mas passamos semanas vendo moças tomadas pela insânia reagindo diante de uma propaganda tola da Skol. Uma propaganda que não falava de mulheres, não falava de sexo, não colocou um balãozinho “hoje esqueci o não em casa” na boca de uma curvilínea de biquíni. As duas jovens “revolucionárias” que mostraram símbolos do pênis em frente às propagandas da Skol (o dedo do meio não é um pênis?) saíram na internet gritando “o rei está nu!”, e quem não visse a nudez do rei era estúpido demais para não enxergar tamanha opressão. Lamento pelo feminismo que patrulha tudo, vitimiza tudo e quer moderar mesmo propagandas que não atacaram nenhuma mulher. Lamento pela extrema banalização da palavra “opressão”. Lamento pela ausência de questões relevantes no topo da pauta de reivindicações. Se a Skol merecia algum protesto, era por vender uma cerveja tão lixosa, que, nas palavras de um cervejeiro cuja entrevista li numa revista sobre cerveja, “só serve para ficar bêbado”. Continuo feminista, por óbvio. As adoradoras de pacotes inteiros podem continuar achando que eu é que não sei decifrar mensagens machistas subliminares.

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O feminismo é um movimento com opiniões díspares. Eu acho que salto alto no trabalho é uma séria questão feminista. Há feministas que discordam e acham que saltos são seus merecidos palanques do triunfo. Eu acho que não se pode negar que biologicamente homens são muito mais interessados em sexo. Há feministas que rejeitam essa ideia, acham que homens costumam gostar mais de sexo somente por motivos culturais (feministas do “tudo é cultura, tudo”) e discursam sobre seus intensos desejos sexuais de todos os dias. Quem vai determinar quem é mais feminista ou menos feminista por suas idiossincrasias? Ninguém. Cada uma de nós seguirá conforme a própria consciência, mas nós todas seremos chamadas, igualmente, de feministas. É uma classificação fácil e compreensível. Infelizmente, hoje, quando eu me disser feminista, muitas pessoas mal-informadas vão achar que sou conivente com o ruído feito por causa da propaganda da Skol. Não sou. E isso não me torna menos feminista.

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Quero longe de mim todo aquele que usar essas expressões a sério ou mais de uma vez por mês referindo-se a alguém que pense de forma oposta: coxinha, esquerda caviar, elite branca, comunista, reacionário. O sujeito que abusa dessas palavras simplórias ou é muito tosco ou está numa grande fase tosca de sua vida. Deveríamos procurar entender o sentido de cada posição política em vez de mascarar nossa falta de leitura e conhecimento com xingamentos fáceis.

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Aquele que come carne por causa do sabor e não aceita que eu compare sua atitude com a atitude de um pedófilo (os dois fazem mal, mas não se importam, já que o sabor vem acima da ética e da dor alheia) porque pedofilia é crime e comer carne, não, talvez pense em abolir os próprios preceitos morais quando estiver num país onde uma conduta imoral não seja crime. Se a lei é o que interessa para que ajamos de forma moral, devo supor que essas pessoas se casariam e estuprariam meninas de oito ou nove anos em países onde isso não é crime. Ou, se tivessem que morar temporariamente num país desses, permitiriam que suas filhas de oito ou nove anos fossem arranjadas em matrimônio com homens velhos – e estupradas em casa quando eles quisessem; uma situação legítima. Talvez essas pessoas, se estivessem se hospedando numa certa tribo indígena, achariam bom enterrar gêmeos vivos que acabaram de nascer. Essas pessoas comeriam cachorros em regiões da China. Escolheriam um cachorro engaiolado vivo, veriam o animal ser morto na frente delas e virar churrasco. É interessante como ninguém se coloca a pensar seriamente em suas explicações fajutas para comer carne. Sêneca, em Sobre a ira, faz um alerta àqueles que se pensam boas pessoas porque seguem as leis:

“Quem é este que se proclama inocente perante todas as leis? Ainda que fosse assim, que limitada inocência é ser bom perante a lei! Quão mais extensa é a regra dos deveres do que a de nosso direito! Quanto nos exige a devoção, a benevolência, a generosidade, a justiça, a lealdade, exigências que estão todas fora dos códigos legais!”

Sempre me pergunto o que essas pessoas pensam do passado, quando as leis permitiam que seres humanos fossem escravizados, mulheres fossem violentadas pelos maridos (em casa ou em público) e crianças nascidas com deficiência fossem assassinadas.

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Costumo chamar a atenção de algumas situações específicas envolvendo relações sociais não para que quem me lê se torne misantropo como eu venho me tornando. Evito a sociedade porque ela me cansa, porque a intimidade é a porta para o desrespeito, porque não preciso manter ao meu lado pessoas que querem meu mal e tentam me rebaixar, porque não tenho o que conversar com pessoas que só sabem falar de outras pessoas e posses (as posses que querem ter e as posses invejadas que os outros têm). Quando digo que um bom livro é o melhor amigo que podemos ter, não estou dizendo que seu autor seria um bom amigo. Muitas vezes eu me questionei se Schopenhauer e eu seríamos amigos, se ele seria uma companhia agradável, ou se iríamos nos odiar. Mas os livros dele são excelentes companheiros, pois são o que de melhor ele tinha para oferecer. Quem escreve um livro tenta nos oferecer o que ele acha que tem de melhor. Alguns não têm nada de belo a oferecer, então escrevem coisas horríveis e intragáveis que só são lidas por carcaças do bom gosto, mas outros conseguem criar obras que são como pessoas a quem recorremos para buscar um conselho, um ensinamento, uma beleza, um conforto. Um livro sempre estará lá, seja você rico ou pobre, triste ou feliz. Um livro não vai se sentir diminuído pelo seu sucesso, não vai ter mudanças abruptas de humor, não marcará ausência: é um amigo disponível quando você quiser e precisar, e com boas coisas, não com tagarelices ou competições. Ao adotar uma vida mais reclusa, poupei-me de muitos problemas, mas entendo que muitos colegas vivem esses problemas e não percebem. O problema do psicólogo gratuito, por exemplo. Por muitos anos eu ouvi dizer, de "amigos", que eu era “uma boa psicóloga”. Ingênua, eu tomava isso como um nobre elogio. Até descobrir que não apenas nos faz mal aquele que nos xinga, mas também, em muitos casos, aquele que nos bajula. Eu não era uma boa psicóloga: eu era um bom ouvido de penico para tagarelas que queriam vir a mim para falar de si mesmos, de seus problemas, de tudo. Eu não era perguntada sobre meus anseios, se estava bem, o que pensava sobre certo assunto, se eu precisava de algo. Eu era a plateia de ególatras. Um ególatra adora encontrar um bom ouvinte para dar seu show. O ególatra não gosta de ouvir, o ególatra interrompe as suas breves colocações, o ególatra sempre acha que tudo o que importa é sobre ele. Se eu era uma psicóloga desses espíritos mórbidos, eu devia ter recebido remuneração por isso. Hoje tenho consciência, e, por causa dela, liberdade. Nunca tive ouvidos tão limpos. Não seja psicólogo de estrelinhas. A amizade, se você crê nela, é um caminho de duas vias. Se um apenas dá e o outro apenas recebe, essa relação é uma doença. O mínimo que um tagarela pode fazer para ter razão em se querer no centro das coisas é pagar pelos serviços de um psicólogo profissional. Querer ocupar o tempo livre (tempo de não-trabalho) de outros é muita perversidade.