quinta-feira, março 12, 2015

Breviário da alimentação, parte I


Comer é um ato político. Alguns optam por comer de forma alienada (não querem saber a origem dos alimentos, não percebem o potencial medicinal de cada opção colocada no prato), outros pensam a refeição como um momento precioso para exercitar inúmeras importâncias: se o prato tem sangue, se aquele alimento gerou sofrimento, se o corpo precisa do que está sendo ingerido ou se é somente para satisfação ligeira do paladar, etc. Às vezes leio textos feministas na internet. Textos de feministas que são churrasqueiras e defendem seu direito de serem obesas que comem bacon. Educadamente vou ao setor dos comentários e peço que reflitam se os animais não merecem ser considerados as maiores vítimas de opressões, se as vacas estupradas para produzir leite não deveriam receber consideração por parte de feministas que se dizem contra o estupro. O que recebo como resposta são sempre desculpas rasteiras. A mesma desculpa que um machista usa para não levar o feminismo em conta é a desculpa que as feministas usam para não levar a abolição animal em conta. “Isso não é para mim”, “Ainda não estou no meu momento” e “São questões diferentes” são algumas das justificativas. Talvez o feminismo também não alcance um homem – ou mesmo uma mulher – que pense “isso não é para mim”. Talvez aquele machista tão criticado por essas mulheres, vigorosas em culpar somente homens pelo machismo (um homem machista merece aniquilação; uma mulher machista merece um abraço, uma compreensão e uma explicação), também não estejam no “momento” deles. E as questões devem parecer diferentes por mera culpa da gula. Até quando o criminoso ato de comer terá que esperar momentos de pessoas que já sabem a procedência daquilo que comem? Quem não se enxerga como parte do problema sempre pede calma; quem é vítima sempre tem pressa. Antes de mais nada, ao cozinhar ou montar seu prato, pense se não está cometendo um crime moral.

Depois de pensar se não está cometendo um crime moral quando se alimenta, pense se não está cometendo um crime contra seu corpo, que é tudo que você tem. Quando paramos para refletir que nosso corpo é tudo o que temos, automaticamente deduzimos que essa morada deve ser bem cuidada. Schopenhauer diz, em Aforismos para a sabedoria de vida, que a saúde deve vir à frente de outras preocupações, pois sem ela não é possível estar completo mesmo intelectualmente, e cita a máxima: “um mendigo com saúde é mais feliz que um rico doente”. Se eu tiver dores pelo meu corpo, não terei um humor agradável, não conseguirei ponderar bem as coisas, talvez serei uma pessoa facilmente irritável. Acontece que muitos problemas corporais que temos são de nossa inteira responsabilidade. Gosto muito da imagem de uma feira de frutas e verduras com a placa “farmácia” em cima. Pensar o que se come, ler rótulos, aprender a cozinhar são atos de amor com você mesmo. Comer é um ato político (ou apolítico para aqueles que don't give a fuck for anything) e um ato de amor (ou de ódio para aqueles que pensam mais em dinheiro que no próprio bem-estar ou simplesmente não enxergam seus corpos como seus mais valiosos bens). O que a sua comida diz sobre você?

O breviário da alimentação que posto abaixo reflete os alimentos que são importantes para mim e também questões alimentares que procuro perpetuar entre aqueles que estimo. Aos poucos tenho aprendido, de forma amadora, os valores daquilo que comemos. Também critico alguns itens que ouso chamar de alimentos por mera convenção social, já que os considero lixo.

AÇÚCAR – É esse vilão todo que dizem que é. Nosso corpo não tem capacidade de processar a absurda quantidade média que ingerimos por dia. Também é um elemento que estraga o paladar. Sabe aquele sujeito que come doces muito doces todos os dias? Ele não percebe o sublime doce de uma fruta como a manga ou a banana porque seu paladar já está viciado, para ele essas frutas não têm tanta “graça”. Açúcar vicia e deve ser evitado. No dia a dia, deve ser substituído por suas versões menos prejudiciais, como o açúcar mascavo e o melado.

AMINOÁCIDOS ESSENCIAIS – Aminoácidos formam proteínas. E proteínas formam nosso corpo. De onde vegetarianos tiram seus aminoácidos essenciais? De felizes combinações como arroz e feijão, milho e feijão, dentre outras. A informação de que aminoácidos essenciais podem ser obtidos numa alimentação vegetariana é encontrada em diversos livros de biologia respeitados, como o do Neil Campbell.

AZEITE DE OLIVA – Já não sei temperar saladas sem ele. Esquentado, perde seus nutrientes, mas às vezes eu o uso em pratos quentes por causa do sabor (gosto de refogar cebola e alho nele). Felizmente, na forma natural e de maneira moderada só faz bem, e deveria ser consumido por mais pessoas. Parece uma informação básica, mas darei porque já vi doutores que não sabiam: azeite deve ser comprado de marcas renomadas e as embalagens devem ser de vidro escuro (a luz prejudica o azeite). Costumo comprar Andorinha ou Filippo Berio.

BOLACHA RECHEADA – Pior do que ver uma criança comendo bolacha recheada (negligência dos pais práticos que têm preguiça de preparar um lanche decente para seu herdeiro e usam a desculpa da falta de tempo... quando parecem ter bastante tempo para invejar a vida alheia e forjar felicidade nas redes sociais) é ver um adulto comendo bolacha recheada (o que diabos há com o seu paladar?). Açúcar branco e gordura hidrogenada são dois ingredientes grandes que aparecem na receita dessas bolachas, vindo depois apenas da farinha. Bolacha recheada acrescida de vitaminas não passa a ser saudável. O que as empresas mais estão fazendo nestes tempos confusos é amenizar lixo com vitaminas para que você não se sinta tão culpado de comer lixo ou oferecer lixo para seus filhos.

CARNE – É tão necessária para nós quanto um celular era necessário para o homem das cavernas. Conselhos Federais de Nutrição, Órgãos Internacionais de Nutrição e o Ministério da Saúde dizem que uma alimentação vegetariana bem planejada é satisfatória e saudável. Por que eles dizem “bem planejada” para a alimentação sem carne? Porque é a alimentação diferente, “novata”. Uma alimentação com carne também precisaria ser bem planejada para ser considerada saudável. O mais engraçado a respeito da importância do valor nutricional das carnes é que quando você se torna vegetariano todo mundo parece, abruptamente, se tornar preocupado com nutrientes. Aquele seu colega que come comida congelada quase todos os dias, macarrão instantâneo, pratos gordurosos e toma refrigerante passa a ser um ativista dos aminoácidos essenciais e da proteína. Carne no prato nos dias atuais, com tantas facilidades, opções e informação, é um atestado de indiferença, arrogância e estupidez.

CERVEJA – It's so good, it's so good.../ I'm in love, I'm in love...* Há pessoas que admiro e vivem sem, como os straight edge. Há pessoas que não admiro, vivem sem e querem palestrar sobre (cometo alguma imoralidade tomando álcool?). Após deixar de achar, há alguns anos, que é bom ficar bêbado (hoje, acho desastroso e incômodo; acho que esses sujeitos que dizem “ficar legais quando bêbados” são lendas), passei a aprender a saborear cervejas. Meu passado sobre elas é muito condenável e pago minha pena toda vez que me questiono “como pude fazer isso comigo?” ao passar por propagandas da Antarctica. Das baratas, a Heineken é a menos pior, mas só a tomo em casos extremos, porque minha querida do momento é a Eisenbahn, que respeita a lei da pureza alemã (segundo a qual a verdadeira cerveja leva somente água, malte de cevada e lúpulo) e é da minha cidade. Budweiser é uma falsa boa opção, porque parece açucarada e contém cereais não maltados na composição (ou seja, milho, arroz... quem é que aprecia uma verdadeira cerveja e vai gostar de cerveja de milho?).

CRUDIVORISMO – Tipo de alimentação que só aceita alimentos crus ou esquentados até no máximo 42º C. Por quê? Porque crudívoros acreditam que as enzimas benéficas dos alimentos morrem em altas temperaturas, as mesmas enzimas que fariam o corpo funcionar de forma mais harmoniosa. Eu tinha uma visão deturpada desse tipo de alimentação: via crudívoros como pessoas que só comiam frutas, principalmente bananas. Hoje eu sei que é possível fazer lindos banquetes crudívoros. Minha alimentação, hoje, pode ser chamada de semicrudívora, pois eu como aproximadamente 70% de alimentos crus e só 30% de alimentos cozidos em quase todos os dias (nos finais de semana acho que tenho sido 50/50). Esses dias fiz meu primeiro “cheesecake crudívoro”, com base de castanha de caju, cuja receita peguei em uma página americana (as melhores receitas de bolos crudívoros estão em sites estrangeiros). Minha família saboreou e ficou com a alma tocada. Nunca recebi tantos elogios da minha mãe em toda a minha vida. O bolo ficou simplesmente maravilhoso; se eu oferecesse para estranhos, eles não acreditariam nos ingredientes daquela dádiva. O doce do bolo vem das frutas e do agave (adoçante extraído de plantas parecido com o mel). Um novo universo de sabores magníficos e sadios. Mas fazendo pesquisas sobre o assunto pude ver que esse tipo de alimentação é bem controverso. Há muitos médicos e nutricionistas que recomendam que comamos alimentos crus, mas rejeitam a ideia de que devamos comer somente alimentos crus. Parece fazer sentido, de acordo com algumas fontes respeitadas que busquei. Portanto, do jeito que estou fazendo acredito que está mais do que bom, até porque tenho me sentido muito bem.

DIETAS – É preciso cautela com dietas. Nem me refiro às dietas parvas que muitas famosas adotam para parecerem saídas de campos de concentração. Estou falando de dietas de pessoas que buscam saúde. Nós sabemos que de tempos em tempos alguém elege um novo vilão alimentar e o coloca como a razão do boom da obesidade e a grande causa das doenças. Mas não dá para acreditar que apenas farinha ou apenas açúcar farão estragos abomináveis em organismos tão complexos quanto nossos corpos. Quem come muita farinha, muita gordura ou muito açúcar está propenso à obesidade, mas se esse indivíduo comer pouca farinha, pouca gordura e pouco açúcar dificilmente se tornará obeso. Sobrepeso aparece nas pessoas quando elas comem mais do que precisam para se manter ativas e mais do que gastam diariamente. Mesmo alguém que não come farinha, açúcar e gordura animal consegue se tornar obeso: basta comer quilos de abacate, por exemplo. Acho que não devemos comer gordura animal, precisamos evitar ao máximo o açúcar e reduzir a ingestão de alimentos que levem farinha. Só não acho que radicalizar o mal desses alimentos no que se refere à nutrição (gordura animal, para mim, está atrelada à ética, mas eu não posso chegar para alguém e dizer que comer peixe não criado em cativeiro será prejudicial à saúde) seja razoável do ponto de vista científico. Estudozinho aqui e estudozinho ali qualquer lunático pode encontrar para embasar suas filosofices alimentares. Sugar blues e Barriga de trigo são livros interessantes e valiosos. Até o ponto em que os autores começam a se referir aos ingredientes estudados como a nova peste negra.

FARINHA DE MANDIOCA – Honey, you are my shining star/ Don't you go away...* Farinha de mandioca para acompanhar feijão e arroz é o que há. Somente com feijão (sem arroz ou outro imenso carboidrato) é ainda melhor do ponto de vista nutricional. Além de ela ser boa pura, também fica cintilante em farofas. Costumo fazer uma farofa rapidíssima que é muito boa: refogo uma cebola picada em cubinhos em cinco colheres de azeite de oliva. Quando a cebola começa a ficar transparente nas bordas, coloco a farinha de mandioca (de preferência a tipo “biju”, flocada) e mexo bem. Depois acrescento sal e uma cenoura pequena ralada. Deixo tostar um pouco e a farofa está pronta.

FEIJÃO – Meu preferido disparado é o pretinho, mas todos os tipos são altas fontes de proteínas. Onívoros culturais costumam questionar vegetarianos sobre suas fontes de proteína, e o feijão (preto, carioca, grão-de-bico, lentilha, ervilha, azuki, etc.) é uma boa resposta. Mas talvez você tenha o mesmo problema digestivo que eu tinha com o feijão. Um modo de amenizar isso é cozinhando da forma que eu cozinho. O feijão possui uma substância que inibe a absorção de certos nutrientes pelo organismo. Para se livrar dessa substância, é preciso deixar o feijão de molho. Isso fará que com que a substância vá embora, com que a digestão do feijão seja mais leve e com que você sofra menos de gases. Em casa, escolho o feijão e depois o lavo umas cinco vezes para que fique bem limpinho. Depois eu o deixo de molho por no mínimo oito horas, geralmente à noite. Escorro a água e lavo o feijão novamente. E só então o coloco para cozinhar. Como não uso panela de pressão, o feijão leva horas para cozinhar na panela comum, mas é preciso que ele cozinhe bem, pois feijão mal cozido também atravanca a digestão.

MARCAS – Por que comprar tantas coisas que vêm em pacotinho e por que comprar tantas coisas de grandes marcas? Criticamos o monopólio empresarial, mas vamos ao mercado e não percebemos que engordamos a conta de grandes empresas – que buscam monopólio, enganam o consumidor, estão vinculadas a casos de trabalho escravo, queima de florestas e morte de orangotangos, como é o caso da Nestlé. Boicote essas grandes marcas que vendem lixo em forma de comida e não se importam com questões básicas sobre o bem-estar de pessoas, do meio ambiente e dos animais. Há marcas renomadas que são muito melhores, mas menores, e são facilmente encontradas em grandes redes de supermercados, como a Jasmine e a Mãe Terra. Não adianta resmungar sobre trabalho escravo na internet e achar ruim quando uma empresa enorme compra uma empresa pequena que parecia tão boa. O boicote é a melhor arma do consumidor consciente.

NOZES – As minhas preferidas são do tipo “pecã”, que têm o sabor característico de noz bem acentuado. Em receitas doces, são as que combinam mais, a não ser que a receita especifique outro tipo de noz. Suas propriedades se estendem em uma longa lista.

ORGÂNICOS – São injustamente chamados de caros. Cara, para mim, é uma coisa que tem baixíssimo custo de material, baixíssimo custo de mão de obra e depois vai parar na prateleira com um preço exorbitante. Tênis de grandes marcas feitos no Vietnã, Índia e China são bons exemplos de coisas caras. Alimentos orgânicos são produzidos em menor escala e são muito mais difíceis de manter. Experimente você plantar algumas variedades de legumes em casa sem utilizar produtos químicos. Ao final da experiência – se ela tiver dado certo; se você teve a paciência necessária para tal empreitada – vamos ver se a sentença “orgânicos são caros” será repensada.

REFRIGERANTE – Além de eu o achar nojento porque não é nutricional e contém excesso de açúcar, fico embasbacada como as pessoas podem realmente apreciar o sabor disso. É absurdamente doce, dá sede e o fundo tem gosto de remédio. Como já dito, o paladar viciado é lamentável, porque não percebe mais o sabor das coisas naturais e precisa apelar, para se sentir satisfeito, a essas bombas como refrigerantes, bolachas recheadas, etc. Crianças não deveriam tomar. O paladar infantil está em processo de formação e é influenciável. Talvez eu só tenha esse asco supremo por refrigerantes porque na minha infância eles eram raríssimos.

SUCOS – Devemos dar preferência a sucos que usam a fruta praticamente inteira. Um copo de suco de laranja precisa de cinco ou seis laranjas para ser feito. A fibra, contudo, vai embora. Boas ideias de sucos: maracujá, manga, mamão, maçã. Em casa eu geralmente misturo as frutas. Meu suco das 10h30 (o horário em que costumo acordar) costuma levar banana, mamão, couve e chia, mas há centenas de receitas de sucos poderosos que fazem combinações adequadas e são saborosos. Acho muito estranho quando colocam açúcar em sucos (exceto o de limão), e ao frequentar uma casa de sucos da minha cidade percebo que isso é mais frequente do que eu podia supor. Para quem tem preguiça (a mãe dos pecados!) de fazer sucos em casa e gostaria de uma opção realmente saudável disponível no mercado, recomendo os sucos integrais de uva. Procure por garrafas de vidro e marcas que não acrescentem conservantes.

VINHO – Nada melhor do que chegar a casa depois do trabalho, tomar um banho, abrir uma garrafa de vinho e bebericar um cálice ouvindo um disco na vitrola. Estou começando a aprender a tomar vinho por causa da minha última viagem para a Europa. Antes, eu tomava vinho tinto seco da Campo Largo e achava que isso era o que bastava. Até que um dia, num restaurante vegano, pedi um cálice de vinho que tinha descrição e ano (algo importante para um entendedor de vinhos, ou seja, algo alienígena para mim). Bebi, amei, repeti a dose, voltei ao restaurante dois dias depois, pedi o mesmo vinho classudo. Dias depois, em outra cidade, em outro restaurante vegano, havia no cardápio um vinho que se chamava apenas “copo de vinho”. Para um entendedor de vinhos, isso seria motivo para se levantar, dizer umas boas e ir embora. Para mim era apenas o retorno ao meu velho estilo de não me importar com vinhos. Pedi e achei quase pavoroso. Meu paladar gravou tão bem o gosto do vinho com descrição e ano que aquele mísero “copo de vinho” parecia um vinho de maloqueiros que bebem álcool na calçada. Foi o click que me despertou e hoje reservo uma partezinha do meu salário para me dar ao luxo de conhecer bons e autênticos vinhos. Ainda não posso fazer indicações. Talvez num futuro próximo.

Postagem com possível continuação.