domingo, fevereiro 08, 2015

Rápidas e soltas 02


Nine out of ten deve ser a melhor música do Caetano Veloso. Só não digo que é "sem sombra de dúvidas" porque não conheço todo o trabalho dele. Preciso conhecer, assim como preciso conhecer mais música brasileira. "Walk down Portobello road to the sound of reggae/ I'm alive". 

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Acabei de voltar de viagem. Trinta e tantos dias na Europa. Desta vez, fui a Madri (Espanha), Budapeste (Hungria), Praga (República Tcheca), Dresden, Halle, Berlim (Alemanha) e Malmö (Suécia). Dei um pulinho em Copenhague (Dinamarca), que fica perto de Malmö, por causa de um festival de hardcore. Foi meu primeiro inverno no exterior e dei sorte de não ter sido tão rigoroso. O maior frio que pegamos foi em Budapeste, onde nevou um pouco. É muito bonita a neve caindo, mas "ver neve" nunca foi um sonho (na verdade nunca entendi esse sonho de algumas pessoas), então não fiquei chateada por ter visto tão pouca. 
Foi uma viagem para reflexão (estou sempre tentando ser uma pessoa melhor; não no sentido cristão do termo, mas no meu sentido de melhor, algo ligado aos ensinamentos de Schopenhauer) e comilança (algo irrefletido, é verdade). Conhecemos inúmeros restaurantes veganos magníficos. Morri de amores num restaurante vegetariano em Budapeste, que só não era vegano porque usava mel. E no final das contas elegi Berlim como a melhor cidade para um vegano que gosta de comer fora viver. Fomos a um lugar chamado Ohlala que era vegano e sem glúten. Duas grandes "restrições" alimentares que foram facilmente superadas por gente criativa e caprichosa que era capaz de cozinhar maravilhas. Os doces lá não perdiam em nada para qualquer porcaria cruel cheia de leite de vaca e farinha comum. Comi bolo de chocolate, bolachinhas e uma bomba de chocolate. Andei aproveitando para me despedir com exagero de tanto açúcar, já que eu pretendia, ao voltar para o Brasil, reduzir ao máximo meu consumo de açúcar (esse plano está de pé e cimentado). Nunca comi tão bem em toda minha vida quanto nessa viagem. 

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Madri valeu a pena pelos restaurantes. Não visitei os museus, não tenho interesse em conhecer a vida e a obra de Picasso, a cidade é alienada. É uma cidade consumista, e consumista de um jeito tapado, parece que as pessoas moram debaixo de pedras. Nunca vi tantos casacos de pele em questão de minutos. Vejam bem, a Espanha fica no sul da Europa, o frio é dos menos rigorosos, e mesmo assim as mulheres usam pele no inverno como nós usamos malha no verão. Não estou dizendo que é justificável usar pele no norte da Finlândia, mas usar pele em Madri, onde o frio pode ser muito bem driblado com casacos comuns? Fashionismo alienado. Há inúmeros restaurantes que servem filhotes de porco inteiros num prato, as imagens estão nas paredes para que todos venham saborear essa coisa exótica que é tão natural. Choro por dentro quando ouço falar de comida exótica, porque sei que sempre há animais no meio. Só volto lá para comer nos bares veganos (encantadores) e visitar o Museu do Prado. 

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Nunca senti fascínio pelo crudivorismo. Quando meu namorado falava de comer mais coisas cruas e de ter lido sobre crudívoros saudáveis, sempre fui relutante em prosseguir o assunto. Comida cozida era minha paixão e eu via o crudivorismo como um regime cansativo e repetitivo, cujos adeptos estavam sempre comendo as mesmas coisas. Essa viagem serviu para mudar minha visão sobre alimentos crus. Comi bolos crus que abriram as portas da minha percepção (feitos de castanhas e frutas), a cada mordida eu dava uma risada e dizia "não é possível que não haja açúcar aqui, isso é mágico!", comi um espaguete de abobrinha com molho de tomate (tudo cru) que achei muito inovador. Durante a viagem comecei a ler muito sobre crudivorismo na internet (sempre levo meu tablet e os hotéis em que nos hospedamos sempre têm wi-fi) e fui me interessando cada vez mais. Não pretendendo eliminar tudo o que seja cozido da minha vida (não me imagino sem feijão, batatas e cerveja, ou sopa no inverno), decidi seguir uma linha que certos crudívoros (semi-crudívoros) seguem: comer, no dia, 70% de coisas cruas e 30% de coisas cozidas. Não é difícil. Se eu fizer três refeições e um café, uma delas pode ser com alimentos cozidos, algumas saladas, e ainda poderei tomar meu café descafeinado. O que comer no restante do tempo? Por enquanto, frutas puras e smoothies. Ainda estou conhecendo essa alimentação e não me aventurei na cozinha para fazer aqueles bolos mágicos, mas logo vou comprar os ingredientes e um processador de alimentos e colocar a mão na massa crua. Hoje é meu quarto dia assim e estou me sentindo ótima. Se tudo der certo, podem acreditar que além de veganismo falarei de crudivorismo por aqui. 

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Durante a viagem, li sobre os ataques ao Charlie Hebdo, em Paris. Achei que meu maior choque seria com o próprio fato, que me impressionou muito, mas fui descobrir, lendo opiniões na internet, que eu poderia me chocar mais. "Não se brinca com a religião dos outros" e "sabiam com quem estavam mexendo" eram alguns dos comentários de pessoas que acharam que os cartunistas mereceram o que tiveram. Primeiro, houve, sim, um absurdo atentado à liberdade de expressão, e essas mortes tiveram um significado supremo que devia ter sido noticiado tanto quanto foi, por mais que a facção ignorante da esquerda tenha se reunido para soltar o meme "e os mortos na Síria?" ou "e os que morrem de fome?" nas reportagens online. Espero que não sejam cristãos. Quando falarem do sofrimento de Jesus, perguntarei sobre os mortos na Palestina. Segundo, que responsabilidade os outros devem ter sobre a religião alheia? Quem deve seguir e respeitar os preceitos de uma religião são aqueles que adotaram aquela religião, e não as pessoas de outra religião ou de religião nenhuma. Se eu de repente criar uma religião em que um carneiro de ouro não deve ser objeto de desrespeito e alguém resolver fazer escárnio dele, isso é motivo para que eu mate o autor do escárnio? Tenho todo o direito de não gostar, é claro, mas matar? Terceiro, é claro que nem todos os islâmicos são terroristas e extremistas, mas eu entendo que algumas pessoas na Europa passem a temer muçulmanos como se fossem uma classe de quem se deve desconfiar, principalmente quando recentemente o porta-voz do Estado Islâmico declarou que se orgulha dos ataques em Paris, pediu que "muçulmanos da Europa e do Ocidente infiel [...] ataquem em todos os lugares" e disse que o mundo ainda não viu nada. Há lunáticos sem conhecimento de causa vociferando que europeus racistas estão querendo colocar muçulmanos no mesmo saco, mas esses senhores não sabem que só há tantos muçulmanos na Europa porque uma porção de países, como a Inglaterra (acho que é o caso mais sério), relaxou seus critérios de aceitação de imigrantes e permitiu que pessoas de fora se tornassem cidadãs locais. Isso, em parte, pelo pânico que essas nações tinham de serem chamadas xenófobas. O atentado em Paris não é o primeiro nem o segundo ato terrorista islâmico que ocorre na Europa. Se radicais islâmicos estão prometendo mais ataques, é normal que a população sinta medo. Se um povo de fora começasse a morar em minha cidade e algum tempo depois poucos radicais-por-qualquer-motivo provocassem um atentado terrorista, eu sentiria medo e desconfiança. Que mundo de fadas é esse em que alguém não pode sentir receio de seus novos vizinhos muçulmanos porque senão será tachado de racista, elite branca e outras simplificações mais? Quarto, se o humor tiver que passar por censura, todo povo, toda religião, toda classe vai querer ser poupada de riso. Logo não haverá humor. Já não se pode fazer piada com religião, com etnia, com negro, com gordo, com loira. Gosto de piadas de loira? Nunca gostei. Minha arma contra elas é não rir delas e não aceitar que as façam comigo. Se for grave, posso processar. Mas não vou querer que impeçam que façam. O que determina a graça ou não de uma piada é a sociedade, a época, a ocasião. Quem se sentir ofendido, que entre na justiça. Não mate ou tente criar uma "lei impedindo piadas com religião". Censura em lei barrando o humor é dar data para que o humor desapareça. Eu, que adoro humor desde sempre, adoeceria. Adeus Monty Python, The Simpsons, American Dad, The Family Guy, The Kids in the Hall, South Park, Chico Anysio, Porta dos Fundos, Pasquim, Millôr Fernandes, Laerte. Todos culpados por terem feito humor com alguém que se sentiu desonrado. 

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Li o livro Crianças francesas não fazem manha, da jornalista americana Pamela Druckerman, no final do ano passado. Não li porque queira ter filhos ou porque seja meu estilo de leitura (não é), mas porque me pareceu que ia corroborar minha ideia de que crianças são mal educadas porque permitem que sejam, e não por causa "desses tempos modernos". Pessoas que não sabem educar seus filhos costumam culpar a modernidade e a tecnologia e algumas vezes recorrem à palmada como método disciplinar. Nunca concordei com a desculpa dos tempos e nunca concordei com violência contra crianças, então resolvi ler esse relato que explicava o que há de diferente com as crianças francesas para que não fizessem manha. São crianças que estão vivendo no mesmo tempo tecnológico que tantas outras crianças de outros países e são crianças que não apanham. E mesmo assim são educadas. Como? Uai, educação, disciplina, autoridade. Na base de suor e berros dos pais? Nunca. Druckerman, como americana criando filhos em Paris, sentiu-se completamente bizarra num mundo francês de pais calmos andando por aí com suas crianças calmas e educadas. Crianças que cumprimentam adultos, crianças que não dormem na hora que querem, crianças que desde muito cedo comem vegetais. Não é genética, não é ilusionismo: crianças francesas têm pais que as educam, que acham natural que a disciplina esteja presente no cotidiano e que não fazem o mundo girar aos redor de seus rebentos. O filho comer vegetais aos dois anos não é algo para se gabar por horas com amigos: é normal. No decorrer do livro, que é bem levinho de se ler (exceto quando a autora fala com naturalidade sobre queijo e foie gras), Druckerman vai criticando o modelo americano (isso vale para o Brasil) de criar filhos: os pais sacrificam suas vidas pessoais, os pais nunca mais têm momentos a sós porque sentem culpa de deixar os filhos por um final de semana com os avós, a existência de todos circula ao redor da vida das crianças, as crianças não cumprimentam adultos e fazem caras feias sem pestanejar, as crianças interrompem adultos falando, as crianças não comem vegetais e isso é natural como se estivesse no sangue delas, os pais vivem se sentindo culpados em relação a seus filhos e não sabem dizer nãos categóricos, os pais negociam com crianças que não têm nem cinco anos, as crianças discutem com os pais e às vezes batem neles, os pais se encontram com amigos e ficam falando somente dos filhos, a hora de dormir costuma ser uma guerra, etc. Se você não sabe educar crianças, não tenha filhos. Ou leia esse livro antes de voltar a pensar no assunto. Hoje eu compreendo com um abraço qualquer indivíduo que me diga odiar crianças. Não é fácil, mesmo, gostar de gente mal-educada. Criança é gente. E gente mal-educada não é bonitinho nem engraçado. 

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Que o veganismo e o bastar-se a si mesmo acompanhem os caminhos daqueles que me leem. Logo voltarei a escrever sobre os assuntos que sempre escrevo. Um abraço a todos.