sábado, fevereiro 21, 2015

A idade do serrote - Murilo Mendes


Há autores que ficam guardados no meu arquivo mental chamado "preciso ler". Caem tantas coisas nas minhas mãos, nos meus ouvidos e debaixo das minhas pálpebras que não consigo administrar tudo numa grande e organizada agenda de leituras. Por isso fico ansiosa e treinando técnicas de respiração: tenho tanto para ler, mas o tempo me escapa. 

Nunca considerei adequada e honesta a desculpa da falta de tempo para ler. Falta de tempo não existe. Há exceções. Mas as exceções servem para corroborar a regra. Nós fazemos o nosso tempo e nós arranjamos espaço para aquilo que é realmente importante. Alguém deixa de tomar banho por falta de tempo? Alguém passa dois dias a pão velho e seco porque não teve tempo de ir ao mercado? Existem tempos e espaços que proporcionam qualidade à leitura, é claro. Não é vã a máxima romana que diz libri aut liberi ("livros ou filhos"): a partir do momento em que você tem filhos – e principalmente se você for mulher –, os livros ficarão distantes na prioridade do seu tempo e da sua energia. Também não é a mesma coisa ler em um ônibus se você pode ler num parque silencioso. Mas é preciso inserir a leitura na rotina da forma que for possível. Na folga do trabalho, no metrô, antes de dormir, nos finais de semana. A qualidade da sua leitura pode não ser a mais refinada, mas algo é melhor do que nada. E talvez seja possível treinar uma espécie de leitura meditada: você lê num local público e barulhento, mas está em uma bolha que inibe tudo que possa atrapalhar sua concentração. Consigo fazer isso com minha leitura e com meu sono. Barulhos não incomodam nenhum dos dois. Se posso optar, todavia, opto pelo silêncio, que é rei, é sagrado e é um valor que eu realmente prezo. 

Assim, quando reclamo da falta de tempo para ler tudo o que eu gostaria, não estou me afundando em contradições. Talvez um pouco, porque semana após semana tenho me laborado para adquirir disciplina e não estou tão perto quanto gostaria desse ideal, mas boa parte do tempo que me falta para ler só existe porque enchi aquele arquivo mental de cobranças. Às vezes eu gostaria de ser mais centrada, como uma pessoa que se interessa apenas por evolução, gramática da língua portuguesa, literatura russa, filmes antigos e vinhos, mas tenho essa megalomania de querer saber um pouco de tudo e no final do dia acabo pesquisando sobre posições de ioga para me manter mais controlada e serena. E acabo usando meu tempo antes destinado a mil assuntos para ler sobre o assunto mil e um – ioga –, o assunto mil e dois – ervas medicinais – e assim por diante. Não acho que seja uma conduta para se copiar. Só um verdadeiro ansioso sabe o quanto é ruim viver desse jeito. Melhorarei, tenho certeza. 

Um autor que vivia em minha cabeça era o Murilo Mendes. Estava ali porque tinha sido indicado por um velho amigo que tinha excelente gosto literário. Foi o mesmo amigo que me indicou Jorge Luís Borges e Raduan Nassar. Há pessoas que passam por nossas vidas e só deixam um rastro de lodo e ouvidos exaustos. E há pessoas que nos proporcionam aprendizados. Hoje, só me interessam essas companhias que podem me ensinar alguma coisa ou que no mínimo se interessem em aprender algo comigo. Porque perder tempo com pessoas que só falam sobre a vida vazia de outras pessoas é deixar de ler todos os livros que estão aguardando em casa. Não poderia alegar falta de tempo para ler se perdesse horas por semana ouvindo tagareladas. Felizmente, uma ou outra conversa com quem se importa com o que é importante pode nos levar a um crescimento. Eu sou mais feliz por poder ter Mendes, Borges e Nassar entre meus autores lidos. 

A idade do serrote, de Murilo Mendes, é uma história autobiográfica. Murilo fala de cada pessoa, situação, lugar ou animal (um capítulo é chamado A lagartixa) que tenha representado alguma coisa em sua vida. Até aí, nada de diferente. O que difere o livro de outros que eu já tenha lido é o modo de narrar. É muito bonito. É a prosa poética à qual eu almejava quando escrevia histórias com regularidade. Como não sou uma boa explicadora de livros, farei o simples para convencê-los a ler essa doçura: colocarei alguns trechos aqui. Todos os meus livros são riscados. O motivo, que imagino já ter explanado, é a praticidade do fichamento no próprio livro. Se eu quiser relembrar um livro que li há um ano, mas não puder lê-lo inteiro, poderei reler apenas as marcações que fiz e todas elas me farão viver novamente o que eu precisava. Ou, no caso de uma ideia específica, o fichamento no livro facilita a busca ligeira posterior. Se me recordo de uma explicação de Jacques Le Goff sobre o purgatório em seu A bolsa e a vida e o livro não está fichado, demorarei para achar o que preciso para o instante. Se o livro estiver com rabiscos, em poucos minutos encontrarei o trecho buscado. Isso também ocorre com literatura: frases tão bem construídas que até dá vontade de comê-las, passagens com conflitos marcantes, descrições perfeitas – tudo isso merece ser marcado para que possa ser revivido com facilidade. Um livro não é um enfeite. É para ser consumido; e se foi comprado por você e você o ama, será sempre sua propriedade particular. Não será profano riscá-lo. Só me arrependo dos livros bons que não risquei e dos livros que pareciam bons e comecei riscando... e depois mostraram que não valiam a pena serem lidos nem riscados (livros ruins que eu poderia revender como novos e agora não posso mais). Mas o livro do Murilo não tinha como não receber uma porção de sublinhados. Como ele podia escolher tão bem as palavras, arranjá-las de modo tão melodioso? Como ele podia conhecer boas palavras para colocar nos lugares certos? Mistérios de escritores que escrevem de modo a fazer a gente chorar de tanto maravilhamento. 

A idade do serrote, edição da Cosac & Naify

Trechos de A idade do serrote que somente um gênio das palavras poderia ter escrito: 

"[...] difícil Minas de pedra, que me fazia doer o peito por falta de mar [...]"

"No princípio quero pegar o som. Isidoro passa-me a flauta, é preta com uns enfeites prateados, reviro-a de todo o jeito, Isidoro cadê o som, responde: o som está escondido na minha boca e no oco da flauta mas eu aperto ele com as mãos; Isidoro ri, sadio, parece que tem 64 dentes, branquíssimos". 

"Uma vez vi Dudu apanhar do chão uma formiga, deixá-la caminhar tonta no seu braço esquerdo; vi Dudu rir, prestar atenção a alguma coisa que não fosse o vintém. Finalmente uma companhia além da poeira e das moscas. 
Outra manhã vi uma borboleta pousar-lhe na cabeça. Foi seu milésimo de glória, o toque mágico da coroa, a visitação do inefável". 

[sobre Dona Coló] "Ela vinha lá em casa por ocasião de doença ou parto. (Naquela época não havendo clínicas, os partos se faziam a domicílio). É certo que dava ajuda; mas ao mesmo tempo chateava. Parece que eu era o alvo principal das suas chateações; entre os dois havia sempre teirós. Eu não podia suportar sua voz de taquara rachada. Pegando-me de jeito, transmitia-me coisas que nem de longe podiam me interessar, falando-me por exemplo de um sobrinho seu de Barbacena, muito estudioso, modelo de rapaz, o primeiro da classe; eu logo percebia as indiretas diretíssimas contra mim. Dizia-se que era pessoa virtuosa, o que não ponho em dúvida. Mas ninguém ignora que a virtude pode muitas vezes revestir formas da mais profunda chatice. Tornar a virtude atraente, eis um dos maiores problemas que as religiões agora enfrentam". 

"Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso". 

"Tio Chicó trocava nomes e títulos de pessoas. Uma vez chamou de general a um tenente, outra vez de bispo a um vigário, e de Dona Ervilha a Dona Elvira. Meu pai, meio sarcástico, diante do meu espanto, observou-me que Tio Chicó tinha razão: de fato o tenente era superior – até no físico – ao general, o vigário mais esclarecido que o bispo, e Dona Elvira, pequena, sempre vestida de verde, apertadinha no espaço do seu corpo, poderia ser comparada a uma ervilha. Tio Chicó rosava as dálias, daliava os goivos, canarizava os sabiás, e assim por diante. Referia-se a José de Alencar: 'aquele do DOM CASMURRO, aquele que o Imperador não gostava, é uma pena'". 

"P.S. Os abismos do aliás: Quando Tio Chicó empregava impropriamente o advérbio 'aliás' (por exemplo, 'disse-me Maria que aliás não ia sair'), então é que ele resplandecia, verbo que aliás somente agora reencontro, aliás depois de há muitos anos o ter topado na letra do hino nacional, aliás um abismo de contradições, como aliás todos nós brasileiros, aliás qualquer homem, aliás não sei se os outros bichos também, aliás a antropologia estrutural e a linguística aliadas talvez possam responder, aliás em futuro distante". 

"Corei até o esfíncter. Meu primo não suportava Belmiro, acusando o poeta de falta de vigor e excesso de espiritualismo: 'é um sabiá, ignora totalmente Comte e Darwin'". 

"[...] uma das minhas manias era querer ver o sono, o exato milésimo de segundo em que adormecia, o traspasso da vigília ao sono, absurdo, sei, por isso mesmo fascinante, que seria de nós, ahimè! sem o absurdo, –" 

"Primo Alfredo, espírito cáustico, dizia que depois de encontrar Dona Custódia tinha que lavar os olhos". 

"Descobri por intuição a beleza do cangote e do pescoço feminino, não querendo com isto dizer que subestimava outras regiões do universo". 

"Carmem aos domingos ia à igreja com a família, mas quando a sós comigo zombava da religião. Propunha-me problemas incríveis, por exemplo:
'Deus é redondo ou quadrado? Se Deus criou tudo, criou também o demônio? Os santos no outro mundo comem, tomam banho? Se São Pedro perder as chaves, como se entrará no céu?'
Eu não saberia responder; só pensava que Deus deveria ter dentes fortíssimos para poder mastigar pessoas com tal força de instinto. O céu era igualmente branco ante a fúria ou a paz". 

"Depois desse episódio Abigail renovou-se fisicamente, ganhando faces vermelhas; encorpou, grande rosa aberta; ampliaram-se-lhe os quadris soberbos. Casou-se com um homem de negócios, teve quatro filhos. E só me consolei ao saber que era infeliz com o marido". 

"O professor tornara-se-me quase um ídolo. Grande era sua paciência, bondade, mais a esperança de que eu me tornasse alguém. Depois de um certo tempo convenceu-me que as lições deveriam ser dadas em francês, o que me espicaçou a inteligência e a vaidade. Passei a fazer figura no subúrbio, citava frases em francês às empregadas que se santiguavam; vivia arranjando sarna para me coçar. Entretanto não atingi a perfeição do saudoso Aluísio Branco que ao chegar na roda do café exclamava: 'Bonjour, como dizia Baudelaire'. Segundo meus amigos e parentes eu estava exagerando: o estudo de francês não era sangria desatada. Eu então rasgava seda, cumulando o interlocutor de elogios em francês". 

Um livro lindo para ler no mínimo três vezes. 

domingo, fevereiro 08, 2015

Rápidas e soltas 02


Nine out of ten deve ser a melhor música do Caetano Veloso. Só não digo que é "sem sombra de dúvidas" porque não conheço todo o trabalho dele. Preciso conhecer, assim como preciso conhecer mais música brasileira. "Walk down Portobello road to the sound of reggae/ I'm alive". 

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Acabei de voltar de viagem. Trinta e tantos dias na Europa. Desta vez, fui a Madri (Espanha), Budapeste (Hungria), Praga (República Tcheca), Dresden, Halle, Berlim (Alemanha) e Malmö (Suécia). Dei um pulinho em Copenhague (Dinamarca), que fica perto de Malmö, por causa de um festival de hardcore. Foi meu primeiro inverno no exterior e dei sorte de não ter sido tão rigoroso. O maior frio que pegamos foi em Budapeste, onde nevou um pouco. É muito bonita a neve caindo, mas "ver neve" nunca foi um sonho (na verdade nunca entendi esse sonho de algumas pessoas), então não fiquei chateada por ter visto tão pouca. 
Foi uma viagem para reflexão (estou sempre tentando ser uma pessoa melhor; não no sentido cristão do termo, mas no meu sentido de melhor, algo ligado aos ensinamentos de Schopenhauer) e comilança (algo irrefletido, é verdade). Conhecemos inúmeros restaurantes veganos magníficos. Morri de amores num restaurante vegetariano em Budapeste, que só não era vegano porque usava mel. E no final das contas elegi Berlim como a melhor cidade para um vegano que gosta de comer fora viver. Fomos a um lugar chamado Ohlala que era vegano e sem glúten. Duas grandes "restrições" alimentares que foram facilmente superadas por gente criativa e caprichosa que era capaz de cozinhar maravilhas. Os doces lá não perdiam em nada para qualquer porcaria cruel cheia de leite de vaca e farinha comum. Comi bolo de chocolate, bolachinhas e uma bomba de chocolate. Andei aproveitando para me despedir com exagero de tanto açúcar, já que eu pretendia, ao voltar para o Brasil, reduzir ao máximo meu consumo de açúcar (esse plano está de pé e cimentado). Nunca comi tão bem em toda minha vida quanto nessa viagem. 

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Madri valeu a pena pelos restaurantes. Não visitei os museus, não tenho interesse em conhecer a vida e a obra de Picasso, a cidade é alienada. É uma cidade consumista, e consumista de um jeito tapado, parece que as pessoas moram debaixo de pedras. Nunca vi tantos casacos de pele em questão de minutos. Vejam bem, a Espanha fica no sul da Europa, o frio é dos menos rigorosos, e mesmo assim as mulheres usam pele no inverno como nós usamos malha no verão. Não estou dizendo que é justificável usar pele no norte da Finlândia, mas usar pele em Madri, onde o frio pode ser muito bem driblado com casacos comuns? Fashionismo alienado. Há inúmeros restaurantes que servem filhotes de porco inteiros num prato, as imagens estão nas paredes para que todos venham saborear essa coisa exótica que é tão natural. Choro por dentro quando ouço falar de comida exótica, porque sei que sempre há animais no meio. Só volto lá para comer nos bares veganos (encantadores) e visitar o Museu do Prado. 

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Nunca senti fascínio pelo crudivorismo. Quando meu namorado falava de comer mais coisas cruas e de ter lido sobre crudívoros saudáveis, sempre fui relutante em prosseguir o assunto. Comida cozida era minha paixão e eu via o crudivorismo como um regime cansativo e repetitivo, cujos adeptos estavam sempre comendo as mesmas coisas. Essa viagem serviu para mudar minha visão sobre alimentos crus. Comi bolos crus que abriram as portas da minha percepção (feitos de castanhas e frutas), a cada mordida eu dava uma risada e dizia "não é possível que não haja açúcar aqui, isso é mágico!", comi um espaguete de abobrinha com molho de tomate (tudo cru) que achei muito inovador. Durante a viagem comecei a ler muito sobre crudivorismo na internet (sempre levo meu tablet e os hotéis em que nos hospedamos sempre têm wi-fi) e fui me interessando cada vez mais. Não pretendendo eliminar tudo o que seja cozido da minha vida (não me imagino sem feijão, batatas e cerveja, ou sopa no inverno), decidi seguir uma linha que certos crudívoros (semi-crudívoros) seguem: comer, no dia, 70% de coisas cruas e 30% de coisas cozidas. Não é difícil. Se eu fizer três refeições e um café, uma delas pode ser com alimentos cozidos, algumas saladas, e ainda poderei tomar meu café descafeinado. O que comer no restante do tempo? Por enquanto, frutas puras e smoothies. Ainda estou conhecendo essa alimentação e não me aventurei na cozinha para fazer aqueles bolos mágicos, mas logo vou comprar os ingredientes e um processador de alimentos e colocar a mão na massa crua. Hoje é meu quarto dia assim e estou me sentindo ótima. Se tudo der certo, podem acreditar que além de veganismo falarei de crudivorismo por aqui. 

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Durante a viagem, li sobre os ataques ao Charlie Hebdo, em Paris. Achei que meu maior choque seria com o próprio fato, que me impressionou muito, mas fui descobrir, lendo opiniões na internet, que eu poderia me chocar mais. "Não se brinca com a religião dos outros" e "sabiam com quem estavam mexendo" eram alguns dos comentários de pessoas que acharam que os cartunistas mereceram o que tiveram. Primeiro, houve, sim, um absurdo atentado à liberdade de expressão, e essas mortes tiveram um significado supremo que devia ter sido noticiado tanto quanto foi, por mais que a facção ignorante da esquerda tenha se reunido para soltar o meme "e os mortos na Síria?" ou "e os que morrem de fome?" nas reportagens online. Espero que não sejam cristãos. Quando falarem do sofrimento de Jesus, perguntarei sobre os mortos na Palestina. Segundo, que responsabilidade os outros devem ter sobre a religião alheia? Quem deve seguir e respeitar os preceitos de uma religião são aqueles que adotaram aquela religião, e não as pessoas de outra religião ou de religião nenhuma. Se eu de repente criar uma religião em que um carneiro de ouro não deve ser objeto de desrespeito e alguém resolver fazer escárnio dele, isso é motivo para que eu mate o autor do escárnio? Tenho todo o direito de não gostar, é claro, mas matar? Terceiro, é claro que nem todos os islâmicos são terroristas e extremistas, mas eu entendo que algumas pessoas na Europa passem a temer muçulmanos como se fossem uma classe de quem se deve desconfiar, principalmente quando recentemente o porta-voz do Estado Islâmico declarou que se orgulha dos ataques em Paris, pediu que "muçulmanos da Europa e do Ocidente infiel [...] ataquem em todos os lugares" e disse que o mundo ainda não viu nada. Há lunáticos sem conhecimento de causa vociferando que europeus racistas estão querendo colocar muçulmanos no mesmo saco, mas esses senhores não sabem que só há tantos muçulmanos na Europa porque uma porção de países, como a Inglaterra (acho que é o caso mais sério), relaxou seus critérios de aceitação de imigrantes e permitiu que pessoas de fora se tornassem cidadãs locais. Isso, em parte, pelo pânico que essas nações tinham de serem chamadas xenófobas. O atentado em Paris não é o primeiro nem o segundo ato terrorista islâmico que ocorre na Europa. Se radicais islâmicos estão prometendo mais ataques, é normal que a população sinta medo. Se um povo de fora começasse a morar em minha cidade e algum tempo depois poucos radicais-por-qualquer-motivo provocassem um atentado terrorista, eu sentiria medo e desconfiança. Que mundo de fadas é esse em que alguém não pode sentir receio de seus novos vizinhos muçulmanos porque senão será tachado de racista, elite branca e outras simplificações mais? Quarto, se o humor tiver que passar por censura, todo povo, toda religião, toda classe vai querer ser poupada de riso. Logo não haverá humor. Já não se pode fazer piada com religião, com etnia, com negro, com gordo, com loira. Gosto de piadas de loira? Nunca gostei. Minha arma contra elas é não rir delas e não aceitar que as façam comigo. Se for grave, posso processar. Mas não vou querer que impeçam que façam. O que determina a graça ou não de uma piada é a sociedade, a época, a ocasião. Quem se sentir ofendido, que entre na justiça. Não mate ou tente criar uma "lei impedindo piadas com religião". Censura em lei barrando o humor é dar data para que o humor desapareça. Eu, que adoro humor desde sempre, adoeceria. Adeus Monty Python, The Simpsons, American Dad, The Family Guy, The Kids in the Hall, South Park, Chico Anysio, Porta dos Fundos, Pasquim, Millôr Fernandes, Laerte. Todos culpados por terem feito humor com alguém que se sentiu desonrado. 

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Li o livro Crianças francesas não fazem manha, da jornalista americana Pamela Druckerman, no final do ano passado. Não li porque queira ter filhos ou porque seja meu estilo de leitura (não é), mas porque me pareceu que ia corroborar minha ideia de que crianças são mal educadas porque permitem que sejam, e não por causa "desses tempos modernos". Pessoas que não sabem educar seus filhos costumam culpar a modernidade e a tecnologia e algumas vezes recorrem à palmada como método disciplinar. Nunca concordei com a desculpa dos tempos e nunca concordei com violência contra crianças, então resolvi ler esse relato que explicava o que há de diferente com as crianças francesas para que não fizessem manha. São crianças que estão vivendo no mesmo tempo tecnológico que tantas outras crianças de outros países e são crianças que não apanham. E mesmo assim são educadas. Como? Uai, educação, disciplina, autoridade. Na base de suor e berros dos pais? Nunca. Druckerman, como americana criando filhos em Paris, sentiu-se completamente bizarra num mundo francês de pais calmos andando por aí com suas crianças calmas e educadas. Crianças que cumprimentam adultos, crianças que não dormem na hora que querem, crianças que desde muito cedo comem vegetais. Não é genética, não é ilusionismo: crianças francesas têm pais que as educam, que acham natural que a disciplina esteja presente no cotidiano e que não fazem o mundo girar aos redor de seus rebentos. O filho comer vegetais aos dois anos não é algo para se gabar por horas com amigos: é normal. No decorrer do livro, que é bem levinho de se ler (exceto quando a autora fala com naturalidade sobre queijo e foie gras), Druckerman vai criticando o modelo americano (isso vale para o Brasil) de criar filhos: os pais sacrificam suas vidas pessoais, os pais nunca mais têm momentos a sós porque sentem culpa de deixar os filhos por um final de semana com os avós, a existência de todos circula ao redor da vida das crianças, as crianças não cumprimentam adultos e fazem caras feias sem pestanejar, as crianças interrompem adultos falando, as crianças não comem vegetais e isso é natural como se estivesse no sangue delas, os pais vivem se sentindo culpados em relação a seus filhos e não sabem dizer nãos categóricos, os pais negociam com crianças que não têm nem cinco anos, as crianças discutem com os pais e às vezes batem neles, os pais se encontram com amigos e ficam falando somente dos filhos, a hora de dormir costuma ser uma guerra, etc. Se você não sabe educar crianças, não tenha filhos. Ou leia esse livro antes de voltar a pensar no assunto. Hoje eu compreendo com um abraço qualquer indivíduo que me diga odiar crianças. Não é fácil, mesmo, gostar de gente mal-educada. Criança é gente. E gente mal-educada não é bonitinho nem engraçado. 

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Que o veganismo e o bastar-se a si mesmo acompanhem os caminhos daqueles que me leem. Logo voltarei a escrever sobre os assuntos que sempre escrevo. Um abraço a todos.