segunda-feira, dezembro 08, 2014

Rápidas e soltas 01


Minha mãe comentou a respeito de um "desafio sem maquiagem" que colegas estavam fazendo. Não tenho Facebook, então tive que pesquisar fora dele o que exatamente era isso. Parece uma campanha sobre a real beleza da mulher e a vontade de libertação dos padrões impostos pela mídia e pelas marcas de maquiagem. Achei, particularmente, uma imensa bobagem. Eu uso maquiagem todos os dias e às vezes tenho vontade (fico só na vontade, meus pais foram rígidos na minha educação) de comentar com colegas que elas poderiam experimentar uma cor nas maçãs do rosto, um pó no nariz oleoso e um rímel nos cílios. Isso é antifeminista? Não vejo problema algum em uma mulher querer estar mais bonita, desde que não sofra. Levo cinco minutos para fazer minha maquiagem diária. Passo a tarde e parte da noite com ela. Não dói, não sofro, não chego à minha casa desesperada para tirá-la. O mesmo não ocorre com quem usa saltos altos no trabalho. O mesmo não ocorre com quem acha que a depilação deve estar acima de todas as coisas na vida de uma mulher. Além do mais, esse desafio gerou uma disputa para ver "quem é bonita de verdade", ou seja, ninguém saiu do lugar, pois a questão ainda é valorizar a mulher principalmente pela sua beleza. Tínhamos chatas desinteressantes maquiadas. Agora temos chatas desinteressantes com cara de que acabaram de sair do hospital. 

*

As pessoas confundem muito o que seja a liberdade de expressão. Uma coisa é você dizer o que você quer, outra coisa é o outro querer ouvir. Há tanta gente inoportuna que aparece brotando para dar conselhos não requisitados que poderíamos mudar o mundo se para cada opinador ONGs recebessem doações simbólicas em dinheiro. Fecho meu universo para trocas sociais como se fosse uma casa velha toda trancada. Às vezes, recebo pelas frestas umas notinhas: "por que não dirige?", "por que não compra um carro?", "mas vai de novo para a Suécia?" [a Suécia, que é um país, é tratada como se fosse um bairro], "por que você não se mistura?", "você deveria continuar seus estudos", "por que não viaja para a Índia?", "por que não muda seu cabelo?" e assim por diante. Alguns não fazem por mal. Outros fingem que não fazem por mal. Por que manter contato com essa estirpe se você pode usar seu tempo para coisas mais preciosas como ler Montaigne, colecionar toda a obra do Laerte, costurar, cozinhar, assistir a filmes, aprender fotografia? 

*

Aqueles que dizem a veganos que resgatam animais "vocês deveriam adotar crianças, e não cachorros" não adotam nem crianças, nem cachorros. Quando você estiver com as mangas erguidas, o rosto suado, procurando uma pausa na sua luta real (porque hoje tudo é luta; compartilhar figurinhas nas redes sociais é luta) para comer uma banana (e não um bicho morto qualquer que só é qualquer para alienados que acham "cultural" comer bicho morto), sempre haverá alguém, do conforto de um sofá, comendo uma pizza recebida em casa, para dizer que você está fazendo tudo errado. O mesmo alguém que não faz nada "porque não se pode fazer tudo". 

*

Falei sobre isso no blog QUESTÕES VEGANAS e repito: a melhor forma de saber se um carnista considera, de fato, que não é hipócrita em sua comilança é colocá-lo, enquanto come sua carne, diante de cenas (com direito a áudio, claro) que indicam a procedência daquilo que ele come. Ele fica bem com isso? É um especista coração de pedra, mas pelo menos é coerente. Ele não quer ver, acha a ideia abominável, não vai conseguir comer o bacon se vir um porco sendo torturado e morto? Não sei como esse atestado de estupidez — "sou estúpido; execro o tratamento dado aos animais na indústria da carne, mas continuo comendo carne de olhos fechados, porque é melhor não ver" — não faz com que tais carnistas se sintam desgostosos dentro de sua própria roupa de pele, não sei como eles convivem com uma consciência tão pútrida. O pior cego é aquele que não quer ver. Eu posso assistir tranquilamente, enquanto me alimento, a vídeos mostrando a procedência e a colheita daquilo que estou comendo. É lindo ver uma cenoura sendo puxada da terra, é fabuloso ver a produção de uma cerveja. Não há dor, não há medo, não há sangue. Aos que estão tentando deixar de comer carne, um mantra: "que o capricho do meu paladar não seja motivo de desgraça para a vida alheia". 

*

— Barbara, vamos a um churrasco? Podemos providenciar alguma opção para você. 
— Não, obrigada, bem nesse dia tenho uma convenção nazista para ir. 
— Sarcasmo de extremo mau gosto. Não devemos comparar a situação daqueles judeus com o hábito de comer carne. 
— É verdade, não tem como comparar. Sob o nazismo de Hitler, milhões de judeus foram mortos em seis anos. Sob o nazismo de todo ser humano comedor de carne, bilhões de animais morrem a cada ano por muitos anos. Perdoe meu cinismo. 

*

Há professores que dizem inspirar senso crítico nos alunos. Então você dá uma espiada na aula deles e descobre que inspirar senso crítico é a mesma coisa que "fazer meus alunos pensarem o mesmo que eu". Se o inferno existisse, estaria cheio de professores. 

*

Cada idioma tem suas dificuldades, especialmente quando não há regras para alguma coisa. Não ouso dizer que o inglês é fácil depois de penar tanto tempo com a pronúncia de certas palavras. A pronúncia do alemão pode ser aprendida em quinze minutos, por exemplo. Podemos não saber o significado de nenhuma mísera palavra em um texto escrito em alemão, mas após quinze minutos de objetivas explicações sobre pronúncia poderemos ler o texto de um jeito razoável. É possível conhecer a pronúncia antes de conhecer as palavras. Já no inglês, é preciso conhecer as palavras para só depois saber sua pronúncia. Nem sempre há uma regra e você pode escorregar se achar que pode encontrar uma lógica na sonoridade das palavras que vai conhecendo. Dinner, dinosaur, dirty: três palavras que começam com "di" e têm pronúncias muito diferentes. Se me entregarem um texto técnico (com vocabulário muito específico) em alemão, tenho quase certeza de que me sairei melhor na leitura do que se estivesse com o mesmo texto na versão em inglês — apesar de não saber nem contar até dez em alemão. 

*

Um forte abraço aos que leem. Prometo publicar ainda este ano os textos que devo.