segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ponderações sobre viagens; e Veganos na Europa: Varsóvia (Polônia)



Como alguns devem saber, todo ano, nas minhas férias, faço uma viagem para a Europa com meu namorado. Já fizemos três viagens juntos e agora vamos para a quarta. Sempre me perguntam o valor das minhas viagens, coisa que não me importo de responder. O que me incomoda é que achem defeitos no meu estilo de vida e me enviem indiretas a respeito. Cada dia mais não entendo o valor dado a relações sociais, que são uma perda de tempo e de viço. Portanto, algumas breves considerações sobre minhas andanças com mochilão:

1. Viajar para o exterior não é tão caro quanto parece. É claro que algumas pessoas acham qualquer coisa cara (e eu realmente não tenho pachorra para avarentos mórbidos), mas, pensando de modo razoável, viajar para fora não é tão caro se você souber guardar dinheiro e pesquisar sobre os locais em que pretende se hospedar. A Europa é variadíssima. Há lugares que podem ser visitados por qualquer um e há lugares igualmente magníficos que podem ser visitados mesmo por quem paga aluguel, costura as próprias roupas e anda de bicicleta. Se tem pouco dinheiro, não vá a Estocolmo (um bilhete de metrô custa o equivalente a uns doze reais), mas vá a Budapeste (com doze reais, você consegue tomar um café e comer um pãozinho).

2. A Europa não é um vilarejo. Às vezes me perguntam "como são as coisas na Europa" ou sugerem que eu deveria visitar a Ásia ou a África “para variar”, como se a Europa fosse uma vila ou uma tribo que eu provavelmente já esgotei em três viagens. A Europa é um continente com países que podem ser absurdamente diferentes entre si, como Itália e Estônia. Mesmo cada país tem suas regiões com modos de ser e viver muito díspares: visitei Roma e depois fui a Nápoles – parecia que eu estava em outro país; o norte da Suécia é mais pobre, mais trabalhador e mais esquecido que o sul, onde estão a capital e outras grandes cidades; há cidades na Polônia em que é possível dançar uma valsa na praça exibindo todos os seus apetrechos eletrônicos – há outras em que você tem que andar de modo alerta, pois não sabe se será atacado por um batedor de carteira ou um neonazista que não aprecia a ideologia da banda da camiseta que você está trajando. Sobre variar: até tenho interesse em conhecer países da América do Sul, da América do Norte, da Oceania e o Japão. Mas mesmo que eu fosse para o mesmo país europeu todo ano (a Alemanha, por exemplo), não vejo nada de cansável nisso. A Europa não me cansa e duvido que me cansará. Muitas vezes quem aparece com essas “sugestões” são sujeitos que vão todo final e começo de ano para as mesmas estressantes praias catarinenses lotadas de gritos, crianças mal-educadas e música brega. Agradeço a preocupação com minhas rotineiras férias na Europa.

3. Você dificilmente precisará do idioma local, mas é necessário saber inglês básico. Nas capitais dos países europeus, quase todas as pessoas adultas e jovens falam inglês (com admirável naturalidade). Nós, brasileiros, passamos mais de dez anos na escola tendo aulas de inglês e não conseguimos, somente com isso, sequer perguntar quais transportes pegar para chegar ao centro turístico. Parece que a escola é um mero passatempo. Se estivesse sozinha na minha inaugural viagem, acho que eu teria chorado de desespero na primeira vez em que precisasse falar inglês. Nunca precisei falar, nem escrever. Eu sabia entender e ler com a ajuda de um dicionário. Isso não se compara a ter que conversar, responder perguntas, pedir informações elaboradas e entender o que o interlocutor fala com rapidez e às vezes com sotaque estranho. Não se aventure achando que seus gestos vão suprir a ausência de palavras.

4. Eu podia estar ajudando os animais com esse dinheiro, mas estou viajando. Queridos leitores: ninguém precisa sacrificar sua vida de lazer em nome da culpa. Eu não sinto culpa por viajar, não sinto culpa por às vezes estar numa situação melhor do que os outros (cuidado com pessoas parasitárias que querem fazer você se sentir culpado por ter uma vida melhor, um emprego melhor, etc.), não penso que meu dinheiro de viagem poderia ser doado a uma ONG. Quando posso ajudar, ajudo. Quando eu tiver um salário melhor, ajudarei muito mais. Eu posso ajudar e viajar. Não estou viajando na primeira classe de Singapore Airlines rumo à Suíça para comprar relógios de ouro. Minhas viagens são econômicas, pesquiso sobre restaurantes veganos gostosos e baratos antes de partir, minhas compras triviais acontecem, basicamente, em brechós, papelarias e lojas de tecidos. Não deixei de ajudar um cachorro doente para comprar um Rolex. Viajar não é uma futilidade, assim como ter um bom notebook não é uma futilidade. Se entrarmos nesse espiral de “eu poderia estar ajudando”, logo venderemos todos os nossos bens e em vez de ativistas nos tornaremos pacientes psiquiátricos. É absurdo cobrar que uma família de ambientalistas não deveria ter nenhum carro na garagem, assim como é absurdo cobrar que um vegano não gaste dinheiro em viagens. E quem é que faz essas cobranças lunáticas? Exatamente, aquele fariseu que não faz nada.

5. É preciso honrar a causa que se defende. Costumam achar sacrificante demais ficar sem carne. Costumam achar quase impossível ficar sem leite e ovos. Devem achar realmente uma utopia viajar sendo vegano. E não é. Antes das viagens, eu vou ao site do Happy Cow e procuro endereços de restaurantes veganos ou restaurantes vegetarianos com opções veganas. Nas capitais, há vários. É possível escolher pelo preço, pela localização, lendo reviews. Os restaurantes que me interessam são selecionados, copio o endereço, jogo no directions do Google Maps e uso como ponto de partida o hotel onde nos hospedamos ou algum grande ponto turístico da cidade. Pronto, eis o mapa indicando como chegar lá. Dou um print screen, colo no Paint e salvo como JPEG. Antes eu imprimia todos esses mapas, hoje eu os coloco no meu tablet. Como fazemos em cidades pequenas sem restaurantes veganos? Vamos ao supermercado local, compramos pão, verduras práticas, frutas, bebidas e levamos para o hotel. “Mas como vou substituir x, y e z?” Substitua por qualquer outra comida. Eu sei que nós somos todos muito cheios de firulas e gostamos de umas frescuras bem específicas. Mas elas não são necessárias como o ar que respiramos. Podemos ficar sem elas. Podemos tentar nos habituar, aos poucos, a esse desapego. Eu como quase todos os dias feijão preto com arroz. Quando estou viajando, não encontro essa combinação em lugar nenhum. Uma comida que é vital para mim não existe na Suécia. Ninguém come feijão preto. Nem o carioca, que seria uma segunda opção, é comido lá. Nessas horas, sinto saudades do Brasil. Preciso me habituar, arranjo outra combinação. Não encontrou uma margarina vegana para passar no pão? Não coma margarina, passe outra coisa (aproveite para se habituar a ficar sem esse lixo, aliás; leia os ingredientes das embalagens e veja quanto veneno químico está comendo). É mais difícil ser vegano viajando? Com certeza. Mas você precisa honrar a causa que defende. Se estivesse visitando uma cidade da Coreia do Sul que coloca cachorro em quase todos os pratos, você comeria cachorro? Não, você iria em busca de um cacho de bananas, uma batata assada, um supermercado. Já cometi o erro de comer queijo na primeira viagem por comodismo. Comodismo, que eu critico tanto como um dos grandes males da humanidade. Que nossa conduta ganhe cada vez mais disciplina e coerência.

6. E, por último, nem tudo é melhor na Europa. Eu amo viajar para lá, só de pensar na próxima viagem já sinto um delicioso friozinho no estômago. Mas não me imagino morando em nenhum país europeu. (Se tivesse que morar em algum, acho que seria a Alemanha, que tem *uma coisa no ar* que me deixa muito bem.) Gosto de morar no Brasil tendo a oportunidade de viajar para fora nas férias. Há algumas coisas lá que não me agradam: a) Gosto muito do jeito de certas pessoas enquanto turista, mas me deixa muito ansiosa a possibilidade de esse jeito ser aturado por muito tempo (seja com os fechados finlandeses ou com as bocarras sempre abertas dos italianos); critico muitas coisas na minha cultura brasileira, sulista, catarinense, mas me sinto mais à vontade nessa atmosfera conhecida. b) Em diversos lugares (veganos ou não), a mesma pessoa que lida com o dinheiro é a que lida com a comida (ela pega o dinheiro e depois vai cortar um pão na sua frente sem lavar as mãos). O que no Brasil seria um caso para acionar a sirene da vigilância sanitária, lá, em certos países, parece natural. Isso aconteceu algumas vezes e olhei ao redor para procurar alguém com a mesma cara de espanto que eu estampava: só achei a cara do meu namorado. c) Quer um suco natural? Vá a uma casa de sucos, ou jamais terá um. Você chega a um restaurante todo ajeitadinho, um garçom de banho tomado e bigode escovado te entrega o cardápio e lá está um orange juice. Você pede. Em segundos recebe um suco artificial num copo, provavelmente tirado de uma caixinha. Acho arrepiante o gosto de suco artificial e sei que ninguém é obrigado a achar o mesmo, mas um suco falso colocado num cardápio? No Brasil qualquer lanchonete com aspecto anos 80 oferece suco de laranja natural feito na hora. Cometi o erro de pedir esses sucos umas três vezes, até descobrir que teria sempre que perguntar se o suco era fresco. Nunca é. Aí, é claro, só me restava tomar uma cerveja (que é um encanto, exceto quando você vai caminhar depois e a última coisa de que precisa é se tornar a insustentável leveza do ser). d) No Brasil, há um restaurante com buffet (livre ou por peso) em cada esquina. Nas cidades europeias, isso é raríssimo. Quando você encontra um restaurante que seja desse tipo, ou é chinês (não é lei, mas suspeite da qualidade e da higiene) ou é requintado demais (ou seja, muito caro). e) A intimidade é a porta para o abuso. É por isso que devemos pensar muito antes de permitir que alguém se torne íntimo de nós. Entendo isso, tento praticar, mas nunca tinha me flagrado de que minha cultura brasileira permite pequenos abusos de intimidade que são estranhos para reservados de alguns países europeus. Temos esse hábito de cumprimentar pessoas, conhecidas ou não, com um aperto de mão e um beijinho ou um abraço e um beijinho (beijinho que era para ser na bochecha, mas geralmente é no ar, fazendo com que colemos bochecha com bochecha e soltemos um sutil smack). Não sei por que razão pensei que isso era universal. Fui cumprimentar, desse jeito, a esposa de um amigo do meu namorado e ela estava toda dura enquanto eu me aproximava para lhe dar um beijinho perto da bochecha. Quando terminei meu abuso de intimidade, ela estava com uma expressão perplexa. Não entendi, mas também não fiz perguntas. No ano seguinte, estávamos na casa deles e uma terceira mulher estava lá. Fui apresentada a ela e, naturalmente, me aproximei para lhe dar um beijinho enquanto apertava sua mão. Ela simplesmente quase esmagou minha mão quando firmou o braço para que eu não me aproximasse, como quem pergunta “o que diabos você está tentando fazer?” e eu me vi numa situação constrangedora com aquele braço rígido me mantendo no lugar onde eu deveria ter ficado o tempo todo. Aí a tal esposa, que já fora abusada por mim no ano anterior, explicou a ela que nós costumávamos fazer aquilo. Foi um bom ensinamento para que eu, quando em situação pública, primeiro observe o que as pessoas fazem antes de esbanjar meu brasileirismo. 

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Há muito tempo estou para postar comentários/fotos sobre restaurantes veganos/vegetarianos que conheci na Europa. Começarei por Varsóvia, Polônia. Por quê? Porque esses dias descobri que meu restaurante preferido de todos os tempos fechou. Já chorei e já rangi os dentes, então só me resta matar a saudade olhando as fotos e falando sobre o quanto ele era bom.

VARSÓVIA – POLÔNIA

Varsóvia (ou Warsaw) é a capital da Polônia. Pude conhecê-la na última viagem, em 2014. Da Polônia eu já conhecia Cracóvia (onde nasceu o Papa João Paulo II) e outras pequenas cidades, como Oświęcim, que todos conhecemos pelo nome alemão Auschwitz, onde está o principal campo de concentração nazista, agora como museu. 

Varsóvia é uma cidade grande e bonita, possui um misto de arquitetura moderna com arquitetura comunista, e, como tantas cidades europeias, abriga uma conservada cidade velha (old town). Nossa primeira experiência vegana lá foi no restaurante indiano Govinda. Gostamos tanto que no dia seguinte voltamos para mais um espetáculo de sabores. 

O Govinda se tornou meu restaurante vegano predileto por diversos motivos. Dou muito valor a cozinheiros que conseguem fazer uma comida saborosa e saudável, cheia de princípios alimentares. Eles não utilizavam nenhum tipo de aditivo químico nos alimentos, não utilizavam açúcar (nem branco nem mascavo) e havia mais algum valor de nutrição do qual não me recordo. A comida era sublime, tão sublime que não conseguíamos parar de pedir um prato atrás do outro. Acho que o casal, dono do restaurante, já estava assustado com nossa fome. Nas cidades que visitei da Polônia, dificilmente era possível ver pessoas com sobrepeso na rua. Obesos eu nunca vi. De repente chegamos como bárbaros veganos que éramos e não parávamos de comer. O rapaz, que nunca tinha atendido brasileiros antes, deve ter ficado com uma imagem interessante do Brasil por nossa causa, tanto pela comilança quanto pela gratidão, já que nas duas vezes deixamos boas gorjetas. Não gosto dessa quase obrigatoriedade que alguns países têm sobre o hábito da gorjeta, mas lá eu fiz questão de deixar um valor maior que o tacitamente estipulado porque a comida foi muito boa, farta e barata. Meu grande prato de risoto com tomate, azeitonas e manjericão saiu por 14 zlotys, o equivalente a míseros 11 reais. (Em Roma, paguei 10 euros – o equivalente, na época, a 32 reais – para comer uma batata média, fatias finíssimas de tofu e alface. Não, não era uma entrada, era “uma refeição”. Eu esperava mais fartura dos italianos. Saí daquele restaurante com vontade de deixar um broche do Brasil como gorjeta.)



Cardápio de sopas

Omelete vegana

Risoto de tomate, azeitonas e manjericão

Sopa indiana de tomate

Opções de prato principal com arroz

Pasta cremosa com cogumelos

Infelizmente o Govinda aparece, hoje, como fechado no Happy Cow. Não sei por que fecharam, mas fiquei muito chateada. Se não reabrirem, tentarei entrar em contato para saber o que houve e para pedir a receita da omelete vegana mais mágica que eu já comi. Se eu conseguir o segredo e se me permitirem propagandear, publicarei aqui.

O Museu Marie Curie, em Varsóvia, é muito interessante. Mas mais interessante que ele é a popularidade do Krowarzywa, uma espécie de lanchonete vegana que é especializada em burgers. O lugar estava lotado e não havia somente veganos na fila: os burgers são tão estupendos que mesmo pessoas não-veganas optam por comer lá em vez de ir a um fast food que vende animais mortos. Enfrentamos a fila, suspeitamos que não encontraríamos lugar para sentar (são poucos os lugares e os clientes parecem não se importar com o fato de comer em pé, lá fora, na calçada), mas logo achamos um cantinho num balcão. Pedimos limonadas (que vieram em copos gigantes), um smoothie e burgers. Um era de feijão e o outro era de seitan. Magníficos. Só não posso dizer que foi o melhor burger que comi porque em Dresden, Alemanha, eu já tinha comido um burger de seitan que me emocionou. O do Krowarzywa ficou empatado com o de Dresden. No outro dia tentamos comprar mais para levarmos para a viagem, mas a fila estava tão grande que correríamos o risco de perder o ônibus até o aeroporto.

Krowarzywa

Opções no quadro e as garotas que trabalham lá

Fantástico burger

Experiência vegana em Varsóvia, Polônia: maravilhosa. Só fomos a dois lugares (há muito mais opções) e já ficamos surpreendidos. Varsóvia se mostrou uma cidade muito receptiva aos veganos mais exigentes e atraente mesmo para quem quer gastar pouco. É vegano, quer viajar, não quer gastar muito? Vá a Varsóvia. Inúmeras opções veganas e vegetarianas, hotéis a preços justos, cidade interessantíssima. 

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Ausentar-me-ei por um tempo por causa da viagem. Voltarei ano que vem com postagens sobre livros, veganismo, viagens, filmes, música. Que em 2015 muito mais pessoas possam descobrir o veganismo e se juntar ao movimento abolicionista da escravidão animal. E que mais pessoas leiam bons livros. E que mais pessoas tagarelem menos. Um forte abraço aos que leem e votos de felicidade, desde que ela não dependa de crueldade.