sábado, dezembro 27, 2014

Escravidões relativas: negros no Brasil e animais


Não há nada mais belo que uma causa concatenada com outras causas. Deve ser por isso que meu asco reflexo vem à garganta quando vejo um ambientalista que come carne bovina, uma "feminista" que toma leite e chupa os dedos após comer bacon, um comunista que tem dinheiro, mas não contribui com ONG nenhuma. Como já dito neste blog, não acho que todo mundo tenha que estar tinindo na apresentação das lutas pessoais — uma cobrança que pode levar à inércia, pois alguém de poucos pensamentos vai acabar achando que é melhor não fazer nada já que não se pode fazer tudo —, mas a ideia das causas concatenadas serve muito bem para questionar arrogantes de pequenos palanques (estão no trabalho, na universidade, no bar) que muitas vezes apenas advogam em causa própria ou em causas para as quais não é preciso mexer muito mais do que a língua (tagarelice, esse mal de quem mais fala do que reflete) e os dedinhos nas redes sociais. Feministas que não dão a mínima para o estupro diário de vacas leiteiras (é mais fácil a alienação de comer queijo e tomar achocolatado) e ambientalistas que financiam a pecuária (aquela que é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia, polui rios e emite gases poluentes na atmosfera — informações que eu não tirei do Clubinho Vegano de Ciência Vegana, mas de jornais de ampla circulação, artigos no Scielo e revistas de quaisquer posições políticas) — essa gente precisa sacudir um pouco mais a sua "luta" para poder vociferar com toda essa saliva nos beiços como têm feito. Aí você tenta conversar, mostrar vídeos, indicar leituras e comparar sexismo com racismo com especismo, mas esses cheios de personalidade e firmeza como flocos de cereal insistem em te chamar de "radical", "extremista". Não entendo muito bem como posso ser extremista ao meramente querer que meu alimento não verta sangue e minha bebida não gere sofrimento e morte, só que esse não é o ponto agora. O ponto é a questão escravista relativizada. 

Com o advento das políticas de cotas no Brasil, vimos uma série de manifestações na internet sobre "a dívida que os brancos têm com os negros" por causa do tempo em que nosso país dependia de mão-de-obra escrava. Escravos eram, de modo genérico, aqueles negros que não eram livres pois eram propriedade, e por isso tinham que obedecer seus senhores, seus donos. Escravos eram mercadorias que podiam ser vendidas, torturadas, exploradas à exaustão. Baseados nessa definição, veganos chamam os animais de criação de escravos também. Uma porca não é livre: ela é uma propriedade que pode ser usada da maneira como seu dono, seu senhor, considerar melhor para ele. Um escravo não serve por si, ele serve pelo serviço que pode oferecer. Então comparamos porcos com escravos, por exemplo. E aí um cotista que não conhece a história da África (só ouviu falar, leu um rabisco de alguém do movimento negro numa página sensacionalista, recebeu a caixinha do conhecimento instantâneo de um professor "que luta pelos menos favorecidos") se ergue de sua poltrona e com o dedo em riste questiona como é que ousamos colocar um porco ao lado de um escravo negro. É interessante, porque a situação é quase similar (propriedade, exploração, legitimidade da condição), com a diferença de que o porco é um animal que ainda não foi abolido de sua escravidão e o negro é um animal humano que já é dono de si mesmo. Mas, um momento, realmente não podemos comparar... a escravidão dos animais é muito pior (parece que qualquer situação humana comparada à situação animal fará com que os animais estejam sempre como as reais grandes vítimas). 

Primeiro, eu não entendo a enorme celeuma em cima da questão dos negros. Nunca entendi a dívida que os brancos têm com os negros. Não foram os brancos que inventaram a escravidão. Alguns críticos da escravidão à-brasileira-à-portuguesa falam dos brancos como se eles tivessem invadido a África, tirado os negros de suas vidas tranquilas e livres e de repente os tivessem transformado em escravos. Sim, exatamente como se os brancos tivessem inventado a escravidão. Não foi isso que aconteceu. A escravidão, essa "modalidade" que existiu desde a Antiguidade, já ocorria na África quando os europeus passaram a traficar escravos. Negros eram donos de negros, negros vendiam negros e negros tinham como anseio poder ter seus escravos negros. Portugueses negociavam escravos negros com... negros. No breve texto chamado Histórias mal contadas, contido no livro Divisões perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo (Civilização Brasileira, 2007), o historiador José Roberto Pinto de Góes tira o negro do status de eterna vítima, eterno coitado: 

"A escravidão moderna não era coisa apenas de 'branco'. A demanda da América por escravos aliou-se à oferta dessa mão-de-obra por parte de dirigentes e comerciantes africanos, ligados ao próspero mercado de escravos. A captura de 10 milhões de pessoas, embarcadas em tumbeiros e levadas como escravas para o outro lado do Atlântico, ao longo de quase quatro séculos, não seria possível sem que sólidos interesses ligados ao tráfico transatlântico existissem em ambas as margens do oceano". 

Não gostaria de me alongar, mas não posso deixar de citar a urgente continuação: 

"No Brasil, a escravidão também estava longe de ser coisa de 'branco'. Reparem nos números que comparam Estados Unidos e Brasil. Lá chegaram 400 mil africanos ao todo e, quando a escravidão acabou, existiam 4 milhões de escravos. Aqui chegaram cerca de 3 milhões e 600 mil e, em 1872, havia 1 milhão e 200 mil escravos. Por isso, quando a escravidão acabou lá, havia apenas 5% de pessoas 'de cor', como diziam os censos de então, entre a população livre. No Brasil, em 1872, metade da população livre recenseada era 'de cor'. 
O que explica essa diferença é o fato de a alforria ter sido costume no Brasil, fosse comprada pelo escravo ou concedida pelo proprietário. Isso não era habitual nos Estados Unidos. Aqui era. Estudos demográficos recentes têm revelado que essa população 'de cor' (composta de pardos e pretos, como se dizia à época) vivia, trabalhava, casava, se amancebava, envelhecia e morria do mesmo jeito que os sem cor, digamos assim. E até participava do mercado de escravos, o que era facilitado por uma incessante oferta da mercadoria humana, o que a tornava relativamente barata. Por volta de 1830, na localidade de Sabará, em Minas Gerais, quase a metade dessa população livre de cor possuía escravos. Na região de Campos, em fins do século XVIII, um terço da classe senhorial era composto de descendentes de escravos. Essa farra escravista só foi interrompida em 1850, quando a marinha inglesa, contrariando interesses de muitos brasileiros e africanos, obrigou o Império a pôr fim ao tráfico transatlântico". 

Parece uma história diferente da que grupos vitimistas estão ensinando sobre os escravos negros no Brasil, não é? A isso José Roberto Pinto de Góes chama de "uma caricatura malfeita do passado", que é a visão simplista (negros sempre coitados, brancos sempre malvados, negros sempre escravos, brancos sempre senhores, brancos roubando negros de suas terras e inventando a escravidão) que até mesmo as escolas estão ensinando. É uma lástima que a história — tão complexa, tão cheia de meandros e, quando não maculada, nada maniqueísta — tenha se transformado na bandeira frouxa de uns "guerreiros" mal instruídos. 

Levando em conta que mesmo alguns historiadores estão reduzindo sujeitos históricos às categorias de moços e bandidos, é preciso tomar cuidado com a informação que se toma como fato. Há gente que faz história e há gente que faz polêmica. Se a história fosse assim tão simplória, qualquer taxista poderia trabalhar com ela. Qualquer taxista dá uma olhada num povo, numa determinada época, e classifica as pessoas como boas e más. Parece que nem sempre lemos a história do negro no Brasil, mas, isto sim, o conto de fadas do negro no Brasil

Ronaldo Vainfas, historiador que admiro, concedeu, em 2007, uma pequena entrevista para a Folha de São Paulo sobre as cotas raciais. Não vou colar toda a entrevista aqui, apenas um trechinho que só corrobora o que já foi dito. (O único "erro" dela foi Vainfas achar, na época, que a política de cotas poderia estar em xeque, sendo que hoje nós temos cotas até para concursos públicos.) 

[sobre as cotas e os pedidos de "desculpas" que governantes estavam dando pela participação das nações na escravidão no passado] "Eu não tenho muita simpatia, acho que transferem a responsabilidade no tempo e para quem não tem responsabilidade histórica no processo. Essa história de vitimizar a África, ocultando que a África se envolveu no tráfico, é descabida, mistificadora e historicamente frágil. Havia uma cumplicidade enorme dos reis africanos. Os europeus não conquistaram a África e capturaram eles mesmos os africanos para levar para as Américas". 

*

Para falar da escravidão animal, tive que explicar um pouco, com a ajuda de nobres historiadores, o que foi a escravidão brasileira. Não podia fazer comparação entre essas escravidões se as pessoas costumam achar que os negros viviam em completa desgraça. Agora, com os pingos nos ii, podemos comparar animais escravos e negros escravos. E, comparando, é claro que concluímos que a condição escrava dos animais é absurdamente pior. 


Escravos negros não eram criados para se tornar comida. Escravos negros não eram poupados de quase todas as suas necessidades, em regra. Escravos negros podiam perder seus filhos, mas os senhores não estavam constantemente estuprando escravas para que elas parissem e logo eles pudessem vender os bebês delas para poder inseminá-las na sequência. Escravos negros podiam comprar sua liberdade. Escravos negros podiam ter seus próprios escravos negros. Escravas negras podiam ajudar a dar de mamar aos bebês da casa, mas não eram máquinas de leite que no dia em que não tivessem mais leite para dar seriam mortas para virar capricho do paladar da família branca. Filhos de escravos negros não eram assassinados em massa logo que nasciam nem enjaulados num local escuro. Escravos negros muitas vezes ansiavam se tornar senhores de escravos: animais escravos anseiam apenas a própria liberdade. 

Algumas pessoas gostam de argumentar sobre coisas sérias usando piadas que viram na TV. É possível reconhecer em pouco tempo o sujeito que só veio à vida para comer, excretar, fazer filhos, trabalhar e morrer. Esses dirão que os animais fariam conosco o mesmo que fazemos com eles se estivessem em nosso lugar. É o tipo de princípio que nos levaria à Terceira Guerra Mundial. Se não vamos ser moralistas (não somos tão humanos porque temos moral, porque talhamos éticas?) e optamos por deixar de respeitar aqueles que no-nosso-lugar-fariam-o-mesmo, pararemos de nos importar com os pobres (que na imensa maioria dos casos declaram, com um sorriso, que seu sonho é se tornarem ricos — sim, os ricos que os rebaixam), deixaremos de ajudar os deficientes físicos, jamais faremos o que chamamos de "uma boa ação". A campanha do agasalho será um fiasco. Bill Gates não investirá na busca da cura para a AIDS. Tomaremos todos os nossos pares (animais também são nossos pares, todos evoluímos de um ancestral comum) como inimigos-que-poderiam-ter-sido: sacripantas em potencial. Por que abolimos a escravidão se inclusive o desejo de muitos escravos era ter um escravo? Que o mundo se autodestrua pelo ódio e pela cobiça! 

Esses dias terminei de ler um livro da psicóloga americana Melanie Joy — Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo (Cultrix, 2014) — e tomei um susto com um dado. Somente nos Estados Unidos, 10 bilhões de animais são mortos por ano para consumo. Nesse número não estão incluídos "frutos do mar". Ou seja, por ano 10 bilhões de escravos morrem nos Estados Unidos para que você, senhor deste metafórico engenho, possa mastigar, digerir e evacuar corpos, evacuar escravos (o número no Brasil deve ser também apavorante, já que somos "grandes exportadores de carne"; pense no mundo todo e vá multiplicando as dezenas de bilhões). É uma necessidade? É claro que não, não somos carnívoros para que comer animais seja uma necessidade. Mas tentamos criar a necessidade, justificamos nossa imoralidade fingindo que comer carne, tomar leite, comer ovos é imprescindível. Ora, para os julgados senhores de escravos do passado, muito insatisfeitos com a exigência britânica sobre o findar da escravidão, a mão-de-obra escrava também era extremamente necessária. A riqueza e os trabalhos da época dependiam dessa prestação de serviço. Podemos julgá-los se ficaram estarrecidos diante da obrigatoriedade da abolição? Acho que não. Cada um cria as necessidades que lhe convém e cada opressor sabe muito bem como justificar sua opressão. Não pensemos em opressores como vilões de novela que tramam os horrores mais engenhosos enquanto esfregam as mãos. Aquele que castiga, tortura e mata inescrupulosamente muitas vezes acha que "tinha" que fazer o que fez e que tudo era necessário e justificável. É o mesmo que fazemos em relação à escravidão animal. Mas nossa alegada necessidade cega já não é um válido pedido de perdão. Ninguém perdoa Stálin por ter matado milhões de indivíduos sob seu regime, por mais que ele não se pensasse má pessoa, por mais que ele achasse necessário eliminar opositores. Os bastidores de nossa crueldade estão expostos. Se continuamos esse show de horrores, somos responsáveis por nossa vileza. Alegar ingenuidade é o supremo cinismo. 

Quem diria, a história nos mostrando que mesmo o senhor de engenho tratava melhor seus escravos do que tratamos "nossos" animais. Infelizmente essa abolição não está tão próxima de chegar. Muitos oprimem muitos. O homem do sul oprime o homem nordestino. O homem nordestino oprime a mulher magra. A mulher magra oprime a mulher gorda. A mulher gorda oprime o homem aleijado. O homem aleijado oprime o rapaz homossexual. O rapaz homossexual oprime o vizinho negro. O vizinho negro oprime a criança indefesa. A criança indefesa oprime a mulher feia. A mulher feia oprime o homem judeu. O homem judeu oprime o subordinado católico. O subordinado católico oprime o cunhado indiano. O cunhado indiano oprime o parente com problemas psíquicos. E todos eles oprimem os animais. Vítimas fazem vítimas, é o que sempre digo. Nós fazemos vítimas sem necessidade. Se há alguma classe que precisa mesmo da nossa pena, da nossa misericórdia, essa é a classe dos animais, que vivem numa escravidão que nós, homens, mulheres, negros, brancos, inventamos para eles.