sábado, novembro 01, 2014

Sexismo na linguagem, parte II


Na postagem anterior, fiz um breve comentário sobre o novo hábito que muita gente tem de escrever coisas como "todos e todas" sempre que vai se referir a um grupo onde há homens e mulheres. Indiquei o inteligente texto do Professor Cláudio Moreno, chamado Sexismo na linguagem, que explica com autoridade e didatismo a razão de podermos usar tranquilamente as tais palavras agora classificadas como politicamente incorretas por quem acha as coisas em vez de sabê-las. É deprimente ver que o princípio do pensamento científico não pauta o cotidiano de pessoas que, em sua maioria, frequentaram o ambiente acadêmico. 

O cientista levanta uma hipótese, que pode parecer absurda ou pode fazer alguma lógica num primeiro momento. Ele vai divulgar o que acha, o que suspeita? Não, ele vai pesquisar, testar, experimentar. Um cientista sério não vai a público para declarar: "parece-me que homens altos são melhores em matemática do que homens de baixa estatura". "Parece-me" marca presença no vocabulário do senso comum (que, vez ou outra, pode ter seu conhecimento testado pela ciência e acabar se mostrando certo), e não do juízo científico. Muito bem, pois parece-me que a pesquisa é tida como necessária mais nas ciências exatas e biológicas do que em algumas outras. Sem pudor e sem escrúpulos, "uma galera das Humanas" sai pelo mundo numa verdadeira cruzada contra "o que está estabelecido e oprime a todos e todas" sem, antes, fazer o dever de casa. Você suspeita que usar "aos palestrantes aqui reunidos" é errado porque não considera as mulheres palestrantes ou porque as deixa como coadjuvantes — e já passou pela sua cabeça consultar estudiosos para averiguar se o que você desconfia (sua hipótese) tem fundamento? Uma dessas coisas deve acontecer para que a ignorância petulante — sim, já que, agora, se não escrevemos "aos amigos e às amigas" ou "axs amigxs", somos tachados de machistas — tenha aparecido assim tão segura de si: 1. o sujeito se considera um filósofo-panaceia, que pode mudar, apenas com o resultado de suas divagações de final de semana, todas as regras do universo, inclusive as regras morfológicas da língua portuguesa; ou seja, megalomania: "não preciso pesquisar; desvendei isso aqui, sozinho, com a força dos meus sábios pensamentos"; 2. o sujeito é refém da reprodução, pois viu alguém admirável usando esses termos ou um professor ensinou que o genérico é excludente, e exclui justamente as mulheres; ou seja, não se desconfia de quem diz, já que esse professor "deve saber o que está falando". 

No caso do megalomaníaco, não sei onde está a cura. Se você questionar um arrogante que não fala nada com coisa nenhuma, tende a receber de volta uma porção de desvios de conduta para qualquer honesto debatedor. É melhor não se entranhar nesse tipo de ambiente hostil. Quem deduz conhecimento sem consultar os que realmente conhecem (estamos falando de estrutura da língua, e não de metafísica, afinal de contas) tende a participar de discussões tendo em mente o texto Como vencer um debate sem ter razão, do Schopenhauer (texto que ainda quero acreditar ser apenas sardônico). Em resumo, você receberá, tácita ou descaradamente, um "quem você pensa que é para me questionar?" Entrando nessa fria sem querer, você pode responder que é somente uma pessoa ciente do gigantismo da própria ignorância, e que por isso sempre procura pesquisar informações antes de passá-las adiante. Se a baixaria for maior e envolver títulos, você pode dizer que não precisa utilizar diplomas como bengala e que a fidedignidade da sua correção vem de reais diplomados, merecedores de seus títulos, doutores ou não, que foram à academia para aprender de fato, e não para sentar lá numa cadeira e esperar que o conhecimento aparecesse neles por meio de osmose. Nesse caso, é bom manter a paciência para as possíveis reações. Esses gênios que ainda não foram reconhecidos pelo mundo (devem achar que não são reconhecidos por causa de uma injustiça social) muitas vezes apelam para ironias, voz alta, gesticulação e outras manobras sensacionalistas a fim rebaixar o "oponente". Eu, particularmente, quando corrijo alguém, não faço isso para me opor à pessoa, mas ao erro dela. Corrijo assim como gosto de ser corrigida, porque, apesar de ter um ego como qualquer ser humano, não é por causa dele que busco obter conhecimento. Ser corrigido de modo polido não é vexatório. 

O refém da reprodução vive uma situação um pouco distinta, apesar de ainda envolver a falta de pesquisa. Ele acredita no que ensinaram a ele. Se for um professor, então, não há o que se questionar, porque como é que se vai questionar uma autoridade? Vamos ser francos: há autoridades e autoridades. Não dá para confiar em ninguém de olhos fechados. Primeiro, já vi "autoridades" (doutores!) dizendo que a palavra "aluno" significa "sem luz". Cláudio Moreno, uma verdadeira autoridade, explica que essa etimologia de preguiçosos está errada e que bastaria consultar um bom dicionário etimológico (ou um etimologista) para saber que a palavra vem de alumnus, da família do verbo alere (criar, alimentar) e "designa a criança que ainda precisa ser nutrida e cuidada" (veja as duas postagens do Sua Língua sobre isso AQUI e AQUI). Tive um professor doutor "marxista roxo" que disse, não uma vez ou duas, que a mais-valia absoluta era quando o burguês investia em inovações tecnológicas e a mais-valia relativa era quando o operário trabalhava x horas, mas somente x/2 eram para ele, pois metade (ou outra proporção) ia para o capitalista. Trocou os conceitos. Também conheci estudados que diziam que usar a cor preta, na fala ou na escrita, para caracterizar acontecimentos ruins era racismo, que a origem da ideia "a cor preta é negativa" era racista. Esses deuses de carne e osso adivinham a origem das coisas, das expressões e das palavras e perambulam por inúmeros coletivos ensinando desvarios a despreparados que apenas dirão "é mesmo? poxa" e perpetuarão um erro na primeira oportunidade. Como é que a cor preta associada a algo ruim pode ser um entendimento racista e discriminatório se mesmo em populações somente de negros a cor preta é associada a algo ruim? Estão dizendo que a cor da própria pele é negativa? Estão praticando racismo contra si há séculos? Ou estão apenas exercendo sua cultura e sua lógica de que a cor preta é a cor da escuridão, da noite? Uma coruja, adaptada à vida noturna, pensaria diferente. Uma coruja falante, ao reclamar sobre uma semana difícil na caça, diria: "a coisa está branca nos últimos dias". O politicamente correto é, muitas vezes, mórbido e parvo. 

Sobre as autoridades, mais uma importante consideração. A autoridade levada em tão alta estima é autoridade em quê? Nós sabemos que mesmo as autoridades especialistas — por exemplo, em ciências sociais, que era o caso do meu professor marxista — podem cometer erros grotescos. Cada área específica é muito ampla e nem sempre é possível saber quase tudo (é salutar, entretanto, ser honesto e admitir que não se sabe algumas coisas em vez de inventar respostas). Mas às vezes a gente crê em uma autoridade qualquer que opina sobre algo que não é da área dela. Quando você me diz "aluno significa sem luz, foi um professor da minha universidade que disse", eu tenho certeza que esse professor não é uma autoridade em etimologia. Ele pode ser autoridade em pedagogia, mas isso não o transforma em fonte de confiança para outras áreas que ele não domina. Não estou dizendo que é preciso "ser da área" para manifestar uma informação. Acredito no autodidatismo, por mais complicado que ele seja — e por mais que tantos autodidatas sejam tão mancos —, mas esse seria um caso excepcional. Eu, por exemplo, só posso dizer que sei o significado da palavra religião porque aprendi no blog do Gabriel Perissé. Posso passar esse conhecimento para meus pares, mesmo que eu não seja uma estudiosa de etimologia? Acredito que sim, se puder afirmar que minha referência é segura. Só que um doutor em Antropologia ou Direito Penal não pode sair por aí deduzindo o sentido primitivo das palavras se ele não procura estudar isso! Não estou brincando: há muito palestrante de corredor que abusa de sua autoridade num referido tema para dar pitaco em outros. E como ele pode dar pitaco em algo que desconhece? Ora, porque meramente supõe as coisas. Ele supõe que a escravidão acabou por algum motivo conspiratório, ele supõe que os Estados Unidos estão por trás da indústria farmacêutica quando uma doença nova atinge milhares de cidadãos, ele supõe que Hitler era vegetariano porque tinha compaixão pelos animais e ele supõe que ao se dirigir a uma plateia de homens e mulheres é um dever dizer "aos senhores e às senhoras aqui presentes, gostaria de dizer que os monitores e as monitoras já estão providenciando os devidos crachás de identificação para os convidados e as convidadas que comporão a mesa de jurados e juradas". Você pode manifestar suas ideias sobre um assunto que não está na grade curricular que acompanha o seu diploma. Mas estude para ter o direito de fazer isso. Não suponha, não se pense como um übermensch em relação aos reles demais que "não conseguem" deduzir "o óbvio" das coisas. 

As perguntas (nada imparciais, eu sei) que tenho para fazer àqueles que entendem mais da estrutura da nossa língua que qualquer gramático — e por isso acham que é possível alterá-la como se pode trocar um "y" por um "i" — a respeito do lunático sexismo na linguagem são: 

1. Devemos mudar o que está escrito em nossos livros? Um livro que foi publicado com o título Os historiadores deve se chamar, na próxima edição, Os historiadores e as historiadoras? Ou, então, Xs historiadorxs? Isso valeria para revistas? Numa reedição, teríamos Caros Amigos e Caras Amigas, ou Carxs Amigxs?

2. Se não forem "tão radicais" e acharem que passado é passado e devemos mudar somente os livros publicados daqui para a frente, qualquer literatura vai ter que se adaptar ao modismo infundamentado do gênero sempre bem definido? Quando um historiador escrever um livro sobre os persas, deverá intitulá-lo Os persas e as persas e usar essa cansativa dupla no decorrer de todos os capítulos? 

3. Para o exemplo anterior, digamos que o historiador, para não ser tedioso nem perder o estilo de seu texto (os politicamente corretos gostam de texto com estilo ou isso não importa muito?), resolva usar a expressão "o povo persa" para não causar controvérsia. Os que veem sexismo em tudo vão se erguer e dizer que "o povo" é um termo sexista e reivindicar o direito de a mulher, vítima sempre oculta na linguagem, mostrar sua grande presença aí? Nosso historiador deveria dizer, então, "o povo persa, composto por homens e mulheres", afinal, não deixar bem claro que havia mulheres nesse povo seria retrógrado e machista? 

4. Por que a escrita é muito mais cobrada do que a fala nesse sentido? Nós vemos os politicamente corretos se esforçando para escrever textos em que a mulher sempre apareça sem ser generalizada, mas as falas não seguem o raciocínio. Por quê? Seria interessante ouvir alguém falando, numa discussão comum, a frase utilizada como exemplo pelo Professor Moreno: "Para o bem de seus filhos e de suas filhas, os brasileiros e as brasileiras deveriam escolher melhor os candidatos e as candidatas em que votam". Sejam coerentes. Falem de modo a fazer a mulher aparecer no discurso oral também. Não digam "os políticos brasileiros são corruptos" para seus colegas de trabalho. Digam "os políticos brasileiros são corruptos e as políticas brasileiras são corruptas". Só utilizem as regras de concordância nominal que são justas com o sexo feminino. Nada de "os políticos brasileiros e as políticas brasileiras são corruptos". Isso é excludente, ofensivo e machista. 

5. Devemos mudar os dicionários? Nos dicionários os adjetivos e substantivos sempre aparecem no masculino. Devemos apresentar também o feminino? Ou devemos usar o hediondo x? Adjetivo amorosx. Substantivo alunx. 

6. Aos politicamente corretos feministas que creem em um único Deus: como vocês chamam essa entidade? Nós sabemos que Deus não tem sexo para os religiosos, mas também sabemos que Deus é uma palavra masculina, até porque vem acompanhada de frases como "e Ele viu que era bom". Ele. Portanto, em nome da justiça, como vocês se referem a Deus? "Deus ou Deusa"? Devemos, então, modificar a Bíblia? Ou, quem sabe, usar "Deusx". Mas como pronunciaríamos isso? 

7. É possível encontrar vertentes ainda mais aberrantes dentro de toda essa história. Por exemplo, na causa animal: vi esses dias alguém escrevendo sobre "o direito dxs animais". Por exemplo, num blog feminista: "carxs feministxs". Não sei exatamente o que perguntar a essas pessoas. Talvez: o que vocês estavam fazendo nos mais de dez anos que ficaram na escola tendo aulas de português? 

8. Vocês são contrários a outros idiomas que também não dão destaque à mulher? Devemos modificar os outros idiomas se quisermos aprendê-los e usá-los?

9. Quando alguém quer comentar anonimamente em um site e clica na opção "anônimo", vocês acham que também precisaríamos da opção "anônima" para o caso de se tratar de uma mulher ou é muito preciosismo? 

Espero que minhas perguntas não tenham reduzido ao absurdo o que já é suficientemente absurdo. 

Tantas coisas a se fazer pela genuína libertação feminina e estão ali, numa questão inócua, fazendo isso: destruindo a língua, o estilo de escrita, a clareza dos textos. Espero sinceramente que essa moda caia em desuso e um dia, daqui a muitos anos, apareça em alguma matéria bizarra da Mundo Estranho.

LEITURAS BREVES SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO
Professor de Língua Portuguesa da USP esclarece a origem de algumas palavras (dentre elas, "denegrir", que tem a ver com a cor negra, e não com a etnia negra) e argumenta por que um mundo politicamente correto teria que abolir também palavras como "cretino" e "estranho".

Uma interessante análise que encontrei na página da revista eletrônica Linguasagem, da UFSCAR. Destaco os parágrafos sétimo e oitavo.

Outro interessante texto que encontrei na internet, "Quando a intenção é só doutrinar", de Alan Oliveira Machado, professor (suponho que de língua portuguesa). Título muito bem escolhido.