segunda-feira, setembro 22, 2014

Os lendários amigos


Nunca vou entender a facilidade com que os indivíduos chamam-se mutuamente de "amigos". A genuína amizade (livre de egoísmo, inveja, competição, intrigas, ofensas gratuitas) me parece uma situação tão ideal que chega a ser lendária a sua existência. O tema da amizade é muito recorrente nas obras de filósofos. Aprecio as abordagens de Nietzsche e Schopenhauer, mas fico com a opinião do último. Nietzsche, por mais pessimista que seja em sua visão de mundo, chega a ser romântico quanto à ideia de amigo, porque coloca essa figura como rara, mas valiosa e possível. Já Schopenhauer, uma espécie de sábio determinista biológico, diz que é sempre bom ter muito cuidado com quem se anda (se é que se deve andar com alguém), e cita uma interessante máxima árabe: "aquilo que teu inimigo não deve saber, não o digas a teu amigo". Não é à toa que ele exaltava tanto a solidão e o amor verdadeiro de seu leal cão. Numa sociedade de valores invertidos que enaltece as aparências, é melhor andar mal acompanhado do que sozinho. Como as pessoas não ficam doentes tendo relações com outras pessoas vazias, fúteis, tagarelas, risonhas por nada e falsas, eu não sei. Sempre que preciso conversar socialmente por obrigação com gente negativa, volto para minha casa como se estivesse mais fraca: meu tempo, meu pensamento, minha língua e minha vida foram desperdiçados de forma inútil. É uma lástima. 

"A amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramente objetiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que, por sua vez, significa nos identificarmos de fato com o amigo. Ora, o egoísmo próprio à natureza humana é tão contrário a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence àquelas coisas que não sabemos se são mera fábula ou se de fato existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes". 
(Schopenhauer - Aforismos para a sabedoria de vida

Tomando por base esse trecho, há muito tempo, deixei de confiar nas pessoas. E quando algum dito amigo comete uma falta decepcionante, apenas penso: "que tolice, deixando-se levar por sua natureza egoísta e querendo o meu mal". Muitas vezes nossos inimigos são muito mais transparentes, pois estão quase sempre nus. Os ditos amigos nos atacam com indiretas, atos falhos, chateação com a nossa felicidade, ausência e aluguel quando precisam de nós para seus fins. A natureza dá um jeito de influenciar a cultura. O animal que rivalizava com os de sua própria espécie hoje está comendo com talheres. E está sorrindo não porque seus garfos sejam muito bonitos e polidos, mas porque eles são mais bonitos do que os de seu vizinho.