segunda-feira, agosto 25, 2014

O veganismo não é contra a evolução


OU "Evolução e veganismo"
OU "Hoje, o veganismo é evolutivamente viável"

Após muito tempo sem postar nada, voltei. Devo uma última postagem sobre Paris, devo alguns outros textos sobre viagens, devo resenhas sobre os bons livros que tenho lido. Mas, antes disso tudo, quero criar uma nova seção sobre VEGANISMO (criei a tag "questões veganas"). Quase diariamente leio e vejo bobagens sendo ditas sobre o veganismo e gostaria de ser mais uma pessoa tentando combater essas mentiras que se alastram em progressão geométrica. Meus argumentos não são perfeitos, mas acredito que são muito melhores do que os feitos por gente que lê dois livros por ano e vive tentando arranjar debates "muito críticos" por aí. Chego a sentir pena -- porque só sinto pena daqueles que acho péssimos, já que eu acho que a pena é uma das piores coisas que você pode oferecer a alguém -- desses coitados que sentam para escrever parágrafos de puro achismo mesclado a uma terrível noção de redação em notícias sobre vegetarianos/veganos. Esses presunçosos tentam derrubar um estilo de vida ético com invencionices e deboche. Seus comentários não têm graça nem inteligência. 

Minhas duas linhas de leitura recentes envolvem libertação animal e evolucionismo. Aproveito o momento adequado para contestar uma fala engraçada (de tão ingênua) sobre veganos serem contra a evolução das espécies. Aproveito também para recomendar aos petulantes de plantão que leiam muito sobre um assunto antes de entrarem em uma discussão e que aprendam de uma vez por todas que uma piada não é um argumento. Uma piada mal colocada é, aliás, a demonstração mais nítida da estupidez daquele que a profere. 


“GRAÇAS AO HÁBITO DE COMER CARNE O CÉREBRO HUMANO CRESCEU E O HOMEM EVOLUIU”.


Não suspeito que isso seja mentira. Não acredito, como muitos veganos conspiratórios, que informações como essa são fruto de pesquisas encomendadas pelas gigantes indústrias da carne. Uma ou outra pesquisa pode ser, mas não todas e não essa. De qualquer modo, dizer que hoje devemos comer carne (ou que comer carne é justificável naturalmente) porque nossos antepassados precisaram dela para evoluir é um regresso tanto dos hábitos quanto do raciocínio. O antepassado que precisou comer carne para garantir uma ingestão calórica adequada para suas novas atividades – e para a intensa atividade que cada vez mais seu cérebro estava tendo, já que a intensa atividade cerebral gasta muita energia – era de outra espécie, de outra época e de outro contexto. Ninguém quer se comparar ao parente primitivo que vivia em cavernas, com hábitos de higiene rudimentares, descalço e grotesco. Mas muitos “carnistas” querem se comparar àquele parente primitivo (interessantemente, trata-se da mesmíssima figura) que precisou de carne para evoluir.

Nossos ancestrais precisaram de muitas coisas para evoluir, coisas que hoje são completamente dispensáveis. Vasta pelagem, por exemplo. Não é porque meu antepassado necessitou de muitos pelos no corpo para estar adaptado ao ambiente de sua época que hoje eu, com uma pelagem tão rala que não me protege de quase nada, sairei à procura de pelos para colar no meu corpo. No galho evolutivo humano, a pelagem já foi muito eficiente e depois deixou de ser. A evolução é um movimento gradual e surpreendente onde o que é interessante num determinado período passa a ser um defeito eliminado pela seleção natural em outro. “Meu ancestral precisou de pelos para evoluir: devo, portanto, buscar ter muitos pelos no corpo” – é com essa mesma lógica estapafúrdia que comedores de carne que leem pouco, mas reproduzem muito, tentam defender sua alimentação. Recorrem à natureza e à evolução, só que de forma imprópria. Se tivermos que resgatar tudo o que nossos antepassados precisaram para evoluir e não fazemos/temos mais, viveremos num grande teatro pré-histórico, onde todos procurarão atuar como se ainda não tivessem se tornado Homo sapiens.

É anacronismo comparar a situação atual do homem com a situação desse antepassado. Vejamos pela ótica da necessidade, por exemplo. Não condeno que indivíduos que moram em regiões com neve o ano todo (um caso seria o daqueles que chamamos popularmente de “esquimós”) matem animais para se alimentar. Não podendo praticar a agricultura e precisando sobreviver, é mais do que explicável que alguém que habite o Ártico recorra à caça para manter a si e sua família. Nesse caso, mesmo o uso de peles – muitos animais são aproveitados como comida e vestimenta simultaneamente – é compreensível. Entre matar um animal e morrer, escolho matar, e isso inclui também matar outro animal homem (exceções costumam ser feitas quando se trata de filhos ou parentes aos quais se é muito apegado). Em situações de extrema necessidade, matar é natural. Até o canibalismo pode ser natural dependendo das circunstâncias. Mas a maioria de nós não vive no Ártico, nem na época em que o ancestral carnista viveu para querer fazer qualquer paralelo desse tipo. Vivemos em climas onde tudo se planta e tudo se colhe. Vivemos em cidades onde há um supermercado em cada bairro e um mercadinho em cada rua. Vivemos em um tempo em que a comida é farta – em certas regiões, mal distribuída, é verdade – e a ciência da agricultura é avançada. Não estamos prestes a morrer para ter que matar. E não precisamos matar para sobreviver.

“Num certo momento da escala evolutiva humana, precisamos de carne para sobreviver e evoluir”. Isso é aceitável. Mas também é importante lembrar que antes disso já precisamos consumir muitos vegetais para sobreviver, o que pode explicar a função antiga do apêndice. O ancestral que passou a comer carne de modo adaptativo (não que ele fosse consciente sobre o que acontecia, mas aqueles que passaram a comer carne – os adaptados à realidade da época e do local – tinham mais chances de sobreviver que os não-adaptados que não proveram sua alimentação com carne) só pôde existir porque um antepassado dele comia muitos vegetais. Não quero apagar o ancestral comedor de carne do ramo que leva ao que somos hoje. Pediria aos carnistas que também não tentassem apagar o “vegetariano” que veio antes dele. Cada ciclo evolutivo é muito importante e essencial, não podendo ser omitido. É quase como viajar no tempo: se você volta no tempo e muda o curso de alguma coisa, pode estar matando a si mesmo no futuro, pois você no futuro depende das coisas exatamente como aconteceram no passado. Paradoxal, mas funciona para pensarmos que nossa evolução tinha que ter acontecido minuciosamente da forma como aconteceu para estarmos aqui do jeito que somos.

E hoje? Hoje não precisamos comer carne. Hoje somos onívoros que podem fazer escolhas. Ser onívoro é justamente ter um organismo que digere tudo e uma dentição mista que mastiga tudo: carne e vegetais. Todavia, nosso sistema digestivo sinaliza sua falta de preparo para, por exemplo, comer apenas carnes ou ter a carne como majoritária na alimentação.

Podendo fazer escolhas e precisando, em média, de 2500 calorias diárias (atletas e pessoas que realizam trabalhos pesados precisam de mais, mas esses são minoria no planeta), podemos muito bem optar por comer arroz, feijão, vegetais e frutas, que suprirão facilmente nossa cota de energia. Não somos como a vaca, o coelho ou mesmo aquele “ancestral vegetariano” que precisam passar boa parte do dia mastigando vegetais pouco calóricos para sobreviver. Sujeitos vegetarianos ou veganos não passam o dia comendo, e alguns podem ter até problema de sobrepeso (mesmo veganos e vegetarianos gordos não passam o dia comendo, observe). Ou seja, não temos a desculpa de comer carne “para prover nosso corpo e nosso ativo cérebro com a energia necessária para funcionar e evoluir”. Primeiro, porque arroz, feijão, azeite de oliva, pães e mesmo algumas frutas oferecem muita energia, e energia de sobra, para sustentar a atividade do corpo e a exigência altíssima do cérebro. Segundo, porque comer carne não vai fazer o cérebro de ninguém crescer e evoluir: isso contraria as leis da evolução.

A evolução humana, hoje, já não tem comparativo nenhum com o que passou. Culpa da modernidade. Transformamos o ambiente, somos capazes de nos adaptar a ele e nossa cultura não está diretamente ligada às leis da natureza: apreciamos o sexo, mas evitamos usá-lo para fins reprodutivos, formamos casais homossexuais, adotamos crianças que não são aparentadas nossas, protegemos famílias pobres que desconhecemos. Quem está preocupado com a evolução de modo real e natural deveria ser contra o homossexualismo, contra o controle de natalidade severo para si mesmo, contra a adoção e contra a filantropia – só para começo de conversa. Faça o maior número de filhos que seja possível sustentar com alimentação e moradia até a idade adulta: essa é uma ação muito mais “pró-evolução” do que comer carne.

Apreciadores de carne – alguns cegos por falta de informação, outros porque não querem assimilar a informação e apenas troçam dela – costumam usar argumentos fracos para defender seu estilo de vida alimentar. São poucas as falas dignas de resposta, questionamentos vindos de indivíduos que realmente querem entender alguma coisa. A evolução não é uma justificativa para comer carne, e mesmo os pesquisadores que concluíram que nosso ancestral comedor de carne ajudou a sermos o que somos hoje não dizem que tirá-la do prato é errado. Por mais que esses evolucionistas sejam eles próprios comedores de carne, devem ter coerência suficiente para diferenciar o homem de hoje de seu antepassado. A quem falta essa coerência? Aos néscios que, como já dito, apenas reproduzem o saber do senso comum. Alguém que não é capaz de passar semanas numa biblioteca pesquisando sobre um assunto que o intriga no momento, alguém que odeia sem fundamentos e odeia aqueles que tentam melhorar um pouco o mundo: esse é o criador das falácias que se alastram como epidemia na internet. De repente, fulanos que nunca leram seriamente sobre a evolução desandam a reproduzir tolices como “e estes caninos aqui, vegetarianos?” Felizmente, a evolução não é base para apoiar a comilança de carne. Nem a saúde, nem a ética, nem o ambientalismo são bases para isso.


Conclusão: quem está genuinamente preocupado com a evolução humana deveria fazer filhos em vez de comer carne. É provável que um ancestral do homem teve que comer carne para poder sobreviver diante de uma nova natureza e de uma nova demanda física: comer carne possibilitou a esse ancestral uma maior reposição calórica, necessária para um cérebro inteligente que ia consumindo mais energia do corpo. Mas isso ocorreu há milhares de anos, em uma época em que a comida não era farta e facilmente disponível. Hoje, temos supermercados e restaurantes por todos os lados, além de ser possível, graças ao avanço da agricultura, plantar qualquer espécie de vegetal em qualquer lugar. Não podemos comparar a extrema necessidade de um ancestral à nossa comodidade moderna. Dizer que é correto reviver características que permitiram a nossos ancestrais evoluir faria com que nos desesperássemos atrás não somente de velhos hábitos datados, mas de adereços que tínhamos no corpo e hoje são inúteis. A evolução do corpo humano vai bem. Quem precisa evoluir muito ainda é a mentalidade humana, que usa, alternadamente e quando convém, a cultura e a natureza para justificar seus maus hábitos. 


Cattle Decapitation - "Humanure" (banda americana de grindcore/death 
metal com letras sobre libertação animal)