sábado, março 29, 2014

Ler não é uma experiência solitária

A parte ruim de trabalhar numa biblioteca é que você muitas vezes está na posição de conhecer o vazio humano. Essa história de que "a leitura é uma doce experiência solitária" quase não existe. Quando se lê para ter o que comentar com os amigos -- os livros do instante -- ou para finalidades acadêmicas, não há experiência solitária: uma leitura assim superficial é uma experiência coletiva e triste. Esse leitor comum não quer se sentir abraçado pelo autor ou íntimo dos personagens: ele quer a falta de ar que uma multidão de outros leitores comuns podem trazer para suprimir carências triviais. 
Às vezes pedem-me indicações. Ninguém nunca leu por completo os livros que indiquei. Eu sei disso porque não comentam, porque o livro é devolvido três dias depois, porque se o livro é novo eu consigo, pelo aspecto de ausência de coesão entre as páginas, saber até que ponto o livro foi lido. 
-- Você só pode estar indicando livros não tão bons
Não. Estou indicando livros que são feitos para uma pessoa, livros perenes e que não apelam. Exatamente o tipo de livro que não é lido. Já não sei o que é pior: se uma pessoa que não lê nada ou outra que lê livros publicados pela Editora Intrínseca. A primeira costuma ser muito ignorante; a segunda costuma ser muito ignorante, mas se pensa culta porque lê. Porque simplesmente lê. Como se o mero ler significasse alguma coisa extraordinária. Parece-me o mesmo que se considerar melhor porque lava as janelas semanalmente ou vai à praia nas férias. 

[Sobre o título da postagem: estou generalizando. Apenas não soaria agradável o corretíssimo "ler não é uma experiência solitária para a maioria das pessoas". Seria um título chato. Exceto se irônico, claro.]

Perfeita imagem de capa